b. Din ve Siyaset
TOPLUMSAL UZLAŞMA İÇİN POLİTİKA ÖNERİLERİ
A história do Brasil é marcada pela exclusão social de grande parte da população, de maneira que o exercício da cidadania foi majoritariamente prerrogativa de uma pequena elite. Em 1822, à época da Independência, a sociedade brasileira se caracterizava por ser escravocrata, latifundiária, dependente de uma monocultora e com a maioria de sua população analfabeta. Com a Independência, muito pouco mudou desse cenário; a política e a economia do País continuaram nas mãos da mesma elite, com a mesma estrutura e os mesmos processos sociais, políticos e econômicos (CARVALHO, 1995).
Não apenas africanos e índios formavam o contingente de excluídos. A população branca pobre era também extremamente explorada pela elite dominante, contribuindo, assim, para a manutenção da estrutura escravista e o sistema de exploração organizado. Durante todo o período imperial, a participação política da população foi pequena, pois havia exigência de
comprovação de renda para votar e ser votado e eram excluídos os analfabetos, os escravos e as mulheres. Assim, somente uma mínima parcela tinha cidadania política, pois, mesmo entre os senhores, muitos não eram considerados cidadãos de fato. “Os direitos civis beneficiavam poucos, os direitos políticos a pouquíssimos, dos direitos sociais ainda não se falava, pois a assistência social estava a cargo da igreja e de particulares” (CARVALHO, 1994, p. 29).
O ponto de partida para a instauração da cidadania no Brasil, segundo Saes (2001), é o que ele denominou de revolução política burguesa, que, entre a abolição da escravatura e a proclamação da Constituição republicana, procurou subverter o sistema jurídico, instaurando o reconhecimento estatal de todos os agentes de produção como sujeitos individuais de direito, independentemente de sua posição na estrutura econômica.
Seria inviável a concretização da cidadania em uma sociedade escravista imperial, dada sua total incompatibilidade com a forma universalista e igualitária moderna dos direitos individuais. No entanto, a Abolição, se por um lado libertou os escravos da opressão, por outro, da maneira como foi realizada, os manteve na mais completa exclusão social, política e econômica.
Na Primeira República, o coronelismo continuou a impedir a ampliação dos direitos políticos e civis:
Na passagem de um Estado escravista, no qual os agentes político- institucionais eram apenas os proprietários de escravos e os seus aliados, a um Estado burguês moderno, em que todo indivíduo nascido no território nacional era declarado cidadão, seria previsível que se implantassem mecanismos de limitação de participação política efetiva (SAES, 2001, p. 392).
Se por um lado o primeiro elemento da cidadania, o de pertencimento a um Estado- Nação, era garantido a toda população, os demais ainda eram considerados privilégios de poucos. A maior parte da população permanecia iletrada e analfabeta politicamente, e os direitos sociais não tinham espaço no debate político. Ademais, instaurou-se um rígido controle do exercício do direito de voto por parte das classes dominantes, seja pelos coronéis, que manipulavam os votos, seja pelos chefes políticos locais a serviço das alianças entre propriedade fundiária e burguesia comercial.
Segundo Carvalho (1995, p. 90), “o ano de 1930 foi um divisor de águas na história do país”. A partir desse ano, com a criação de uma legislação trabalhista e previdenciária, transformaram-se as relações de trabalho, o que diminuiu, consideravelmente, a exploração dos trabalhadores urbanos e assalariados. Foi a primeira tentativa de introduzir na cidadania o elemento “consciência de ser portador de direitos”. É o momento em que uma nova forma de cidadania, de aquisição dos direitos civis, começou a nascer.
Em relação à questão política da sociedade, surge a Justiça Eleitoral, o voto passa a ser secreto, e juízes profissionais tratam da legislação eleitoral, fiscalizando, alistando, apurando votos e reconhecendo os eleitos. Os movimentos políticos e sociais demonstram maior organização com o aparecimento de sindicatos e partidos políticos.
Entretanto, o populismo do período Vargas, apesar de procurar atender a parte das necessidades do povo, não incentiva sua participação política e explora a herança cultural de submissão da população rural. Dessa maneira, o período getulista, em relação à cidadania, inibiu a liberdade de expressão, de associação, de consciência e crença, além de não respeitar a integridade física e moral da população.
Desse modo, a primeira experiência democrática na História do Brasil foi de 1946 a 1964, período em que voltaram as eleições e foi elaborada uma nova constituição, que manteve as conquistas sociais do período anterior, garantindo os direitos civis e políticos e a liberdade de imprensa. Contudo, em 1964, essa democracia sofre um duro golpe, pois os militares tomam o aparelho de Estado e instalam, com o apoio de alguns setores da sociedade civil, governos ditatoriais e autoritários por longos 21 anos.
Os direitos políticos e civis sofreram um retrocesso no processo de expansão e efetivação na forma de atuar da população. No entanto, para compensar, foram criados os seguintes direitos sociais:
§ em 1966, o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), que ainda hoje funciona como um seguro-desemprego;
§ em 1974, o Banco Nacional de Habitação (BNH); § o Ministério da Previdência e Assistência Social; § o Instituto Nacional de Previdência Social (INPS); e
A implantação de um modelo de desenvolvimento econômico concentrador e excludente, entretanto, provocou crescimento econômico, o chamado "milagre brasileiro", mas sem uma política de distribuição de renda. Assim, a camada da população que mais necessitava das políticas públicas e dos mecanismos de distribuição de renda foi a mais prejudicada.
Em relação à cidadania, esse período foi muito precário, pois os direitos políticos foram cerceados, sendo proibidos, dentre outros, a organização dos trabalhadores, a eleição dos ocupantes de cargos executivos e quaisquer movimentos sociais ou partidos políticos que lutassem por melhores condições de vida. Além disso, havia a censura à imprensa e à liberdade de expressão (CARVALHO, 1994).
A suspensão de grande parte dos direitos civis, políticos e sociais durante o regime militar fez surgir movimentos sociais na luta pela cidadania. Questões do cotidiano, como moradia, educação, saúde, trabalho, lazer, direitos da criança e do adolescente, dentre outros temas, passaram a ser compreendidas como expressões de resistência, autonomia e criatividade, transformando-se em objetos de luta política.
No meio dos então movimentos sociais que emergiram nesse período, destacou-se o Movimento pela Reforma Sanitária8, que nasceu no contexto da luta contra a ditadura, com o lema Saúde e Democracia, e estruturou-se nas universidades, no movimento sindical, nos movimentos populares e em experiências regionais de organização de serviços. Segundo Yasui (2006), no interior desse processo mais amplo – que foi o Movimento Sanitário –, localizamos o movimento da saúde mental, que trilhava o mesmo caminho. Esse processo se articulou com outros movimentos sociais e com a luta pela democracia do país, tal como o Movimento Sanitário, levando seus atores a desempenhar uma militância que transcendia a questão da saúde mental.
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A relação estrutural entre saúde, democracia e cidadania no Brasil foi estabelecida no contexto de luta política pela redemocratização inserida no âmbito do Movimento pela Reforma Sanitária (MRS) e pela Reforma Psiquiátrica (RP). Pode-se afirmar, assim, que há um entrelaçamento intrínseco na luta pela cidadania no Brasil e na luta pela melhoria dos serviços de saúde e assistência prestados pelo Estado. O mote de tais conquistas no país foram o MRS na saúde em geral, e a RP e o Movimento da Luta Antimanicomial na saúde mental, que serão retomados no terceiro capítulo.
Em 1978, eclodem grandes greves em São Bernardo do Campo, que se estendem por 1979 e 1980, como consequência da reorganização do sindicalismo, culminando com a fundação, em 28 de agosto de 1983, da Central Única dos Trabalhadores (CUT).
No inicio da década de 1980, a insatisfação social com o regime militar e com a crise econômica gerou a Campanha das Diretas Já, que mobilizou a população e acirrou a disputa política e social em prol de uma nova Constituição democrática. O fim da ditadura, em 1985, trouxe a democracia, mas a cidadania não acompanhou as mudanças políticas e civis.
Com o início das mobilizações em torno da convocação de uma Constituinte, surgiu uma polêmica que perduraria até a promulgação da nova carta magna. O movimento nacional pela Constituinte tinha como objetivo primordial resgatar o exercício da cidadania e construir a democracia. Assim, estimulava a criação de novos movimentos municipais com o propósito de incentivar a população a elaborar sua própria proposta de Constituição, que deveria ser encaminhada para fóruns estaduais e para um fórum nacional.
As Plenárias e os Movimentos Pró-Participação Popular na Constituinte, apesar de sua diversidade, tinham um objetivo comum, o de garantir a participação popular no processo constituinte. A discussão sobre o Regimento Interno da Constituinte possibilitou aos movimentos uma grande conquista, qual seja, o mecanismo das emendas populares que contribuiu significativamente para aumentar a mobilização popular por novos direitos.
Podemos afirmar que a luta pelos elementos dois e três da cidadania, participação
política/coletiva e portador de direitos e deveres, instaurada no desenrolar dos trabalhos
constituintes, tanto levou as demandas da sociedade civil para o centro do poder, como também, de forma inversa, conduziu a própria disputa para dentro da sociedade civil.
A sociedade civil interferiu diretamente nos trabalhos da Assembleia Constituinte, pois a pressão social e o controle da participação popular foram exercidos quase que cotidianamente sobre os deputados constituintes, o que possibilitou intensificar os vínculos que interligam a sociedade política à civil.
Dessa maneira, a Constituição Federal, denominada de “Constituição Cidadã” e outorgada em 5 de outubro de 1988, consolidou as conquistas democráticas no Brasil,
expressando os anseios de uma sociedade por democracia e mudanças que restabelecessem um Estado de Direito no país. Com isso, os princípios e os fundamentos que embasaram tal Carta foram: I – a soberania; II – a cidadania; III – a dignidade da pessoa humana; IV – os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; V – o pluralismo político.
Houve, assim, especial preocupação com os dispositivos dos Direitos e Garantias Fundamentais do cidadão brasileiro, apresentados como:
1. Direitos individuais e coletivos: (art. 5º) “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade (...)”.
2. Direitos sociais: (art. 6º) “São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição, e os direitos dos trabalhadores urbanos e rurais” (art. 7º ao 11).
3. Direitos à nacionalidade: vínculo jurídico-político entre a pessoa e o Estado (art. 12 e 13).
4. Direitos políticos; direito de participação na vida política do Estado; direito de votar e de ser votado, ao cargo eletivo e suas condições (art. 14 ao 17) (BRASIL, 1988).
Uma característica importante dessa Constituição, que expressa a manifestação da população, é o fato de ela incluir a assistência social como direito do cidadão e dever do Estado. Assim, torna-se obrigação do Estado o amparo a quaisquer cidadãos que necessitem de assistência.
É possível inferir que a história da cidadania no Brasil passou por vários momentos de ampliação e recuo, principalmente no que diz respeito aos elementos participação
política/coletiva e pela consciência de ser portador de direitos e deveres, dependendo do
momento histórico presente. Ao analisar o desenvolvimento da cidadania no Brasil, José Murilo de Carvalho (1995) afirma existir uma anomalia nesse processo. Ela consiste na variação entre a ampliação e o recuo dos direitos políticos e dos direitos sociais.
Ao longo da história política brasileira, em momentos de ampliação dos direitos sociais, houve, é evidente, o recuo dos direitos políticos e vice-versa. A ampliação das liberdades políticas teria ocorrido no Império, paradoxalmente em uma sociedade escravocrata que negava os direitos civis aos escravos e à população pobre. Em contrapartida, os direitos sociais foram ampliados em plenos regimes ditatoriais, como no Estado Novo e durante Regime Militar, quando os direitos políticos foram altamente cerceados.
Além disso, é importante frisar, existe uma defasagem entre os direitos legalmente declarados e os direitos efetivamente exercidos, vale dizer, a distinção entre o país legal e o país real. Há ainda uma camada da população brasileira que permanece excluída da primeira e, principalmente, da segunda dimensão, os direitos e os deveres. São indivíduos que se encontram em grande vulnerabilidade social e para os quais o país ainda carrega uma dívida por sua não inserção no que se considera cidadania moderna. Estes são os denominados cidadãos isolados.
Carvalho (2014), enfim, afirma existir três tipos de cidadãos brasileiros: o cidadão pleno, detentor dos três direitos (civis, políticos e sociais); o cidadão incompleto, detentor de ao menos um dos direitos; e o não cidadão, que não se beneficia de nenhum dos direitos. Para o autor, há um vínculo entre alguns direitos, como o civil e o político. Se não há a garantia do direito civil, como a liberdade, não se pode garantir o direito político. Entretanto, o direito político, como a possibilidade de escolher um governante, não é garantia de direitos sociais.