A. TÜM ENGELLİ VATANDAŞLAR BAKIMINDAN
2. Yükümler Bakımından Kapsam
Assim como expomos no Capítulo I, sobre a função dos(as) agentes penitenciários no Brasil, pudemos observar na fala das entrevistadas que não há um consenso unificado sobre suas atribuições na prisão. Segundo o Manual do Agente Penitenciário são atribuições básicas dos(as) agentes:
1. Participar das propostas para definir a individualização da pena e tratamento objetivando a adaptação do preso e a reinserção social;
2. Atuar como agente garantidor dos direitos individuais do preso em suas ações;
3. Receber e orientar presos quanto às normas disciplinares, divulgando os direitos, deveres e obrigações conforme normativas legais;
4. Revistar presos e instalações;
5. Prestar assistência aos presos e internados encaminhando-os para o atendimento nos diversos setores sempre que se fizer necessário;
6. Verificar as condições de segurança comportamental e estrutural, comunicando as alterações à chefia imediata;
7. Acompanhar e fiscalizar a movimentação de presos ou internados no interior da Unidade;
8. Acompanhar presos em deslocamentos diversos em acordo com as determinações legais;
9. Efetuar a conferência periódica dos presos ou internados de acordo com as normas de cada Unidade;
10. Observar o comportamento dos presos ou internados em suas atividades individuais e coletivas;
11. Não permitir o contato de presos ou internos com pessoas não autorizadas;
12. Revistar toda pessoa previamente autorizada que pretenda adentrar ao estabelecimento penal;
13. Verificar e conferir os materiais e as instalações do posto, zelando pelos mesmos;
14. Controlar a entrada e saída de pessoas, veículos e volumes, conforme normas específicas da Unidade;
15. Conferir documentos, quando da entrada e saídas de presos da unidade;
16. Operar o sistema de alarme, monitoramento audiovisual e demais sistemas de comunicação interno e externo;
17. Executar outras atividades correlatas.
Contudo, diante dos relatos das agentes, suas tarefas diárias consistem basicamente em:
Escoltar as internas para audiências e hospitais (60%); Abrir e fechar as celas (40%);
Custodiar, em casos de internação das internas em hospitais (40%); Guarda (30%);
Vigilância (30%); Manter a ordem (30%); Garantir a disciplina (20%);
Garantir a segurança das apenadas (20%); Revista (20%);
Rotina do presídio (20%);
Mediar os conflitos existentes (20%); e
Garantir o acesso das internas aos seus direitos (saúde, educação e alimentação etc.) (20%).
Assim, podemos observar que esses atributos destacados pelas entrevistadas estão, em suma, em consonância com o preconizado no edital do concurso e com o disposto no Manual dos Agentes Penitenciários (s/n).
No entanto, cabe destacar a fala da agente 02, a qual diz:
A gente é um pouco tudo. [...] é orientador, disciplinador quando tem que ser, mas no bom sentido da palavra [...]. A gente é enfermeiro, psicólogo, muitas vezes amigo, no sentido de uma palavra de incentivo, uma palavra de calma. A gente é um pouco de tudo, de agente penitenciário também quando vai levar pra escolta, de algemar, de ser uma coisa mais rígida, de não ter essa relação de amizade, porque aqui a gente trata bem, mas não é amigo, [...] elas respeitam a gente e a gente as respeita. (Agente 02, grifos nossos).
Na fala dessa agente é visível o “desvio de função” sobre seu trabalho na prisão, já que afirma ser um pouco de tudo: orientadora, disciplinadora, enfermeira,
psicóloga, amiga e só se vê como agente penitenciária quando tem que levar as
internas para escolta, ter que algemar e em outras situações em que tem que ser mais “rígida” (sic). Contudo, a descrição sobre sua função de agente penitenciário na prisão se distancia daquela disposta no Manual do Agente Penitenciário e de todos os conceitos que abordamos neste trabalho. As agentes 04 e 10 também enfatizaram que, às vezes, quando é necessário, elas acabam exercendo a função de “enfermeira”, porém reconhecem que essa não é sua atribuição. Mas, isso acaba acontecendo porque a profissional de saúde trabalha apenas no turno diurno naquela unidade e as agentes acabam ficando responsáveis pela entrega de medicação controlada, como pudemos ver, no período da pesquisa, uma lista no alojamento das agentes com o nome das internas, tipo de medicação e os horários que deveriam ser entregues e, em alguns casos, aplicados.
Sobre esse conflito evidente entre os fins ideais e as tarefas concretas desempenhadas pelas agentes no CRFMJM, vimos no Capítulo I que Thompson (1980) afirmava que isso ocorre devido à própria natureza do sistema penitenciário. Não queremos com isso naturalizar e concordar com os desvios de função apresentados pelas agentes, compreendemos que cada profissional deve ter clareza de suas funções/atribuições nos espaços em que trabalham, mas no caso específico do Sistema Penitenciário, diante da falta e limitação de profissionais de diversas áreas, as(os) agentes que mantém contato direto com as pessoas encarceradas 24 horas por dia e são responsáveis por escutar os anseios que estas apresentam para poder encaminhar para os demais setores, acabam se sobrecarregando com demandas de outros profissionais como assistente social, enfermeira(o), advogada(o), psicóloga(o) e outros que trabalham na parte administrativa e, geralmente, em uma jornada de trabalho que varia de 6 a 8 horas diárias, de segunda a sexta.
Cabe-nos, além do mais, fazer um adendo que, conforme Coyle (2002), as servidoras penitenciárias podem ser designadas para desempenhar as mesmas atribuições funcionais que os profissionais do sexo masculino. No entanto, como explicitamos no Capítulo II, há uma especificidade nos estabelecimentos prisionais no tocante às revistas corporais das pessoas (tanto das(os) encarceradas(os) quanto dos(as) visitantes) que deve ser realizada por um profissional do mesmo
sexo. Para o contato diário nos pavilhões também deve ser considerado o mesmo sexo dos profissionais e apenados. No CRFMJM, por exemplo, como destacou a agente 02, os agentes masculinos ficam apenas na parte do apoio (escolta) e na parte administrativa (controlando a entrada e saída das pessoas na prisão, alimentação etc.), a parte prática, ou melhor, o convívio direto com as presas fica ao encargo apenas das agentes femininas, assim como preconiza o Art. 77 da Lei de Execução Penal.
Mencionamos também na fundamentação teórica, conforme Lopes (2002), que a essência da prática dos(as) Agentes Penitenciários é basicamente a vigilância e a disciplina das pessoas encarceradas, no entanto, como expomos, ao longo das últimas décadas temos notado uma “mudança” na filosofia do Sistema Prisional, buscando inserir nesse contexto a questão da “humanização”, e aí cria-se a expectativa de que os profissionais de segurança penitenciária, que lidam diretamente com as pessoas encarceradas, possam em suas práticas agir como “educadores”, de modo a contribuir na “ressocialização” dessas pessoas. Destarte, pudemos observar nas falas das entrevistadas, com exceção da agente 05, que esse discurso de “ressocialização” de “educadores” não faz parte de sua função na prisão. Além do mais, se avaliarmos todas as questões deste trabalho veremos, a partir dos relatos das entrevistadas, já que não tivemos acesso aos conteúdos do curso, que isso, ao que parece, não foi foco da formação.
Retomando o discurso da agente 05 notamos que ela enfatiza que uma de suas funções é cuidar da “ressocialização” das apenadas, contudo, destaca que essa ação não contempla todas as internas. Enfatizou alguns projetos da instituição como: ateliê de bonecas, fábrica de confecção de roupas, a escola e outros projetos. Por fim, reitera que as próprias apenadas não querem se “ressocializar”. Diante disso, questionamos se elas não querem ou não têm oportunidades, como a própria agente disse anteriormente. Contudo, Wacquant (2001, p. 119) explicita que como o funcionamento do Sistema Penitenciário segue cada vez mais a lógica da austeridade e segurança, o objetivo da reinserção, nesse contexto, reduz a um mero
slogan de “marketing burocrático”. Ademais, Chauvenet, Orlic e Benguigui (1994 apud WACQUANT, 2001, p. 120) aduz:
enquanto a prisão mantiver sua missão primordial de segurança pública, fundada em um modelo coercitivo, dissuasivo e repressivo, essa missão caberá aos guardas carcerários. As expectativas mais modestas que dizem
respeito atualmente à prisão implicam penas mais longas, mais controles e mais vigilância. Elas parecem compatíveis com uma filosofia terapêutica de reinserção baseada em relações contratuais.
Como vimos, o edital do concurso estabelece que as atribuições dos(as) ASP consistem basicamente em “guarda, vigilância, disciplina, ordem e controle” das pessoas encarceradas e o objetivo da formação era formar o servidor para o desempenho das atividades inerentes ao cargo relativas às normas de “vigilância, manutenção de segurança e disciplina”. Assim, não teríamos como exigir das agentes discursos e práticas de ressocialização, afinal, como expomos no Capítulo I, a função histórica do Sistema Penitenciário tem sido a de “vigiar e punir” (FOUCAULT, 2004) as pessoas privadas de liberdade. Ademais, verificamos em outros estudos (MORAES, 2005; LOURENÇO, 2010; TAETS, 2012 et al.), a ambiguidade entre a função de vigilância e ressocialização na prática dos Agentes de Segurança Penitenciária. Portanto, conforme a Matriz Curricular (2006a, p. 4):
O servidor penitenciário que entra no sistema se depara com uma realidade complexa, marcada por uma série de discursos e práticas não articulados entre si e até contraditórios. Por questões relacionadas à sua falta de formação e/ou à carência de estímulos materiais, sociais e intelectuais, o imaginário de sua função acaba, com frequência, limitando-se a um propósito disciplinar ou corretivo.
Contudo, observamos que a maioria das agentes, 80%, possui ensino superior, nos mais variados cursos, sobretudo em Direito, o que, a nosso ver, poderia enriquecer o trabalho delas na prisão. Porém, percebe-se que elas não aproveitam, ou não são estimuladas a aproveitarem os conhecimentos dos cursos superiores na prática profissional no Sistema Prisional, já que a função apontada pela maioria consiste em questões relacionadas à segurança das internas e da instituição.
Para que melhor pudéssemos compreender as falas das entrevistadas sobre suas funções na prisão, questionamos se o curso de formação contemplou seus entendimentos acerca das suas atribuições no Sistema Prisional. Logo, as agentes 06 e 09 destacaram que aprenderam mesmo no cotidiano profissional com as colegas mais experientes. Anteriormente vimos que as entrevistadas 02 e 10 também destacaram que só tiveram dimensão de sua função na prisão com a prática profissional. Não obstante, as outras agentes afirmaram que foi pouca a contribuição da formação para que pudessem orientá-las no dia a dia na prisão, fato que nos faz
compreender que o aprendizado se deu, em suma, na prática com as outras agentes.
Além dessas, as agentes 06 e 08 já tinham experiência na área, o que, segundo elas, facilitou suas condutas no CRFMJM. A entrevistada 09, por sua vez, destacou que no curso de formação não foi passado o que elas iriam fazer na prisão. Contudo, observamos na fala das outras entrevistadas, 60%, em relação ao conhecimento sobre sua função no curso de formação, os termos “noção e
insuficientemente”. A agente 03, por exemplo, afirmou que no curso teve uma “leve
noção” sobre os procedimentos na prisão, mas só aprendeu na prática como deveria se comportar. Já a agente 05 enfatizou que o curso preparou pela metade, frisando assim a necessidade de um maior tempo de formação. Não obstante, a agente 07 destacou que soube mais sobre sua função no sistema a partir de informações de amigos que já exerciam a profissão, uma vez que o curso deu apenas uma “noção” e o edital era muito “abstrato” quanto à questão. Por fim, a agente 04 enfatizou a distância entre a teoria da formação e a prática profissional.
Portanto, podemos concluir, a partir dos relatos apresentados, que o curso de formação não contemplou suficientemente o entendimento das profissionais acerca de suas funções no sistema prisional. Nessa questão podemos observar também o distanciamento entre os aprendizados relatados pelas agentes principalmente em termos teóricos como: LEP, mediação de conflitos, Direitos Humanos e psicologia com a prática delas. Afinal, a maioria expõe que suas funções se resumem na manutenção da ordem, abrir e fechar cadeados, segurança e disciplina das pessoas encarceradas, funções essas que, segundo elas, são apreendidas no cotidiano profissional. Desse modo, questionamos, assim como Taets (2012, p. 142): “se a função do guarda (sic) só pode ser aprendida e apreendida dentro do cárcere, para quê serviria, então, os cursos preparatórios?”.