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Podemos observar nesta categoria sobre a relevância das disciplinas para a formação das agentes, que 50% das entrevistadas destacaram também a importância e interesse pelas disciplinas mais práticas (tiro e defesa pessoal). Além dessas mencionaram as de: primeiros socorros (20%); embarque e desembarque, manuseio, imobilização e “algemação” (10%) e rádiocomunicação (10%).

Não obstante, as agentes também frisam a importância das disciplinas mais teóricas como:

 Lei de Execução Penal (40%);  Mediação de conflitos (30%);  Direitos Humanos (30%)

 Psicologia (20%);  Direito Penal (20%);  Defesa Pessoal (10%); e,  Estatuto do servidor (10%).

Sobre as disciplinas com caráter mais prático, a agente 01 enfatiza a importância da aula de tiro para sua formação, ao mesmo tempo reitera que não tem serventia no presídio feminino, já que elas não usam nenhum tipo de armamento no cotidiano profissional. Isso pudemos constatar desde quando estagiávamos no CRFMJM até esta pesquisa: as agentes não usam quaisquer armamento, fora o uniforme preto que as identifica como agente penitenciária, o único instrumento de trabalho que observamos elas usando é o rádio. Quanto a isso, concordamos com Azevedo (1999, p. 30), quando afirma que a ausência de instrumentos de coerção na vida cotidiana dessas(es) profissionais se justifica pela “imposição rígida de obediência às normas regulamentares, bem como a punição e a intimidação” que elas(es) impõem na relação com as pessoas presas.

No entanto, a agente 03 verbalizou: “aqui a gente tenta manter um convívio

tranquilo, mas não deixa de ser um presídio, não deixa de precisar de ter que usar uma arma, né?”. O que nos leva a compreender que em situações de “conflito” as

agentes usam armamentos, até pelo anseio da maioria querer saber melhor manuseá-los. Sobre o uso de armas, as Regras Mínimas da ONU sobre prevenção de delito e tratamento de reclusos (1955) dispõe que o pessoal cujas funções requerem contato direto com as pessoas encarceradas não devem portar armas, salvo em circunstâncias especiais (as quais não especificadas); além do mais, para usarem armas, sugere-se que os profissionais “sejam instruídos no manejo delas e inteirados da disposição que regulem o uso respectivo”, assim, as Regras orientam que jamais se deverá entregar armas aos funcionários que não tenham sido treinados para o seu manejo. Destarte, no dia 17 de junho de 2014, no Brasil, foi instituída a Lei 12.993, a qual concede aos integrantes do quadro efetivo de agentes e guardas prisionais o porte de arma de fogo. Conforme a lei, as armas poderão ser de propriedade particular dos(as) profissionais ou ser fornecida pela respectiva corporação ou instituição em que trabalham, estas poderão ser utilizadas tanto nos espaços de serviço quanto fora. Para tal, a lei determina que os(as) profissionais sejam submetidos a um regime de trabalho com dedicação exclusiva; sujeitos à

formação funcional, nos termos do regulamento; e, subordinados a mecanismos de fiscalização e de controle interno.

Ainda sobre a relevância das disciplinas, 50% das entrevistadas enfatizaram que todas as disciplinas são importantes e, por isso, poderiam ter sido abordadas melhor, com um tempo maior. Nesse quesito a carga horária aparece mais uma vez como algo não favorável na formação das profissionais.

Sobre as disciplinas consideradas menos relevantes, apenas as agentes 01 e 04 afirmaram que dispensariam as aulas de redação oficial e outras mais teóricas não especificadas.

Complementando essa questão, questionamos às entrevistadas em que, especificadamente, o curso as preparou. Logo, 70% delas afirmaram que o curso possibilitou-as conhecer, mesmo que enfatizando sempre o termo “pouco”, a realidade do Sistema Penitenciário. Conforme destacaram as agentes 02 e 05 os professores mostraram a “realidade” através de imagens de rebeliões, contudo, enfatizam que essa realidade não condiz com suas experiências profissionais.

Além do mais, as entrevistadas 02 e 10 mencionaram que apesar do curso ter dado uma noção de como seriam suas experiências profissionais, elas só apreenderam e tiveram dimensão de suas funções no dia a dia dentro das prisões. No tópico que trataremos sobre as funções destas no presídio abordaremos melhor essa questão.

Não obstante, as entrevistadas 07 e 08 destacaram que a formação aumentou os seus conhecimentos acerca do Sistema. A agente 07, a qual não tinha nenhuma experiência no Sistema Prisional, afirmou que vivenciou no curso a “parte do companheirismo”, com relação aos(às) colegas de profissão (o que se deu através da relação entre os mesmos e não com as disciplinas). Logo, a agente 08, que já era agente penitenciária em outro estado, disse que o curso lhe possibilitou novos conhecimentos como de primeiros socorros e escolta, aos quais não teve acesso anteriormente. A seguir apresentamos os relatos destas:

Subcategoria Fala das entrevistadas Evocadoras

Pouco conhecimento sobre o Sistema

Penitenciário

Em muito pouca coisa. Só para conhecer aonde eu estava mesmo me inserindo, tendo em vista que meu conhecimento era praticamente zero, não era nem limitado, era zero. (Agente 01)

O curso me preparou para ver um pouquinho da realidade, lógico que ele não dá a noção total, porque a

Pouco conhecimento sobre o Sistema

Penitenciário

noção total você vai ter vivendo no dia a dia mesmo, mas os professores foram bem realistas pra gente, mostravam tipo, mostravam uma rebelião, ai mostravam que cabeças eram decapitadas e o que acontecia, o que acontece, pega um pra refém e matam... E foi bom porque quando eu cheguei aqui que não tem violência, como uma masculina, então pra mim aqui foi bem tranquilo. (Agente 02)

A gente teve noção do básico. Noção de tiro, a gente deu 5 tiros. 5 tiros eu acho que não prepara ninguém não né. Direitos Humanos ela chegava de manhã, umas 4 horas com uma apostila. A carga horária atrapalhou muito, porque a gente via as coisas muito por cima. (Agente 04) Eu acho que eu sai preparada com relação às imagens que eu vi. Foram expostas algumas imagens do sistema nacionalmente falando e acabou um pouco numa visão ilusória. Por exemplo, a gente acaba vendo imagens muito fortes de rebeliões [...]Ai eu digo que só sai preparada em relação a isso assim de, foi passado a realidade do sistema, mas em outras áreas não. (Agente 05)

Eu não consigo ver um curso de formação como, principalmente nessa área, como um curso que vai preparar você, que vai capacitar você pra exercer assim, perfeitamente a função. Assim foi importante para esclarecer, para tirar algumas dúvidas do que é o sistema penitenciário, mas você tem que ter um pouco de identificação, entendeu, porque não é uma atividade que você diz “ah eu quero fazer e você vai faz”. É diferente de qualquer outra profissão que você vai estudar... Porque você também tem que ter certas habilidades aqui. (Agente 06)

Eu acho assim, na verdade, preparar, preparar mesmo em nada, ele deu uma noção do que você iria encontrar, mas assim, pra você dizer, porque na verdade é uma profissão complicada, né, você aprende no dia a dia, né. [...] Na verdade, eu acho que eles nem deveriam chamar de formação, 15 dias não é um curso para uma profissão tão complicada como a nossa. (Agente 10)

07 Aumentou o conhecimento que já tinham sobre o Sistema Penitenciário

Eu já tive a sorte de não entrar rezada, [...] o que se falava na sala, algumas coisas eu já tinha tido uma breve noção e realmente eu já tinha essa vivência, pouca, né, mas querendo ou não conta pra uma pessoa que nunca teve contato nenhum, que entra de olhos vendados. Mas, assim, teve a parte de companheirismo que você já vai vivendo isso no curso, né... (Agente 07) [Já era Agente Penitenciária] O curso trouxe os primeiros socorros que eu não tinha, foi muito bem ministrado, o curso de primeiros socorros, é, e as aulas práticas eram assim, muito boas, elas foram muito proveitosas. Tipo, escolta, eu não tinha tido uma aula de escolta como eu tive aqui, aqui a aula de escolta foi bem melhor. (Agente 08)

02

Quadro 11 – Conhecimentos do curso de formação. Fonte: Primária

Essa questão nos leva a compreender a real importância da formação para a prática das agentes penitenciárias. As entrevistadas apontaram que foi muito pouco a contribuição da formação para a realidade que elas vivem dentro da prisão. Ademais, entendemos que uma das funções da formação seria a de mudar a realidade prisional preparando as(os) agentes para uma nova função no sistema penitenciário. Contudo, observamos que as agentes entrevistadas entendem a sua função enquanto agentes de segurança e, desse modo, não reconhecem, ou mesmo não querem reconhecer, a sua função educativa. Por isso, a insistência no lado mais prático e a rejeição da parte mais teórica na formação, o que reflete certa preguiça em pensar sobre a função do(a) agente no sentido mais amplo e pleno.

Outros estudos (MORAES, 2005; LOURENÇO, 2010; TAETS, 2012 et al.) apontam que os cursos de formação inicial para os(as) agentes penitenciários oferecem pouco suporte para conhecimentos do que vão encontrar na realidade profissional. Desse modo, a prática prisional aparece como lugar privilegiado de aprendizagem dos(as) agentes. Além do mais, há que considerarmos que as agentes esperavam uma formação mais prática, ou seja, uma formação que contemplasse mais o entendimento acerca de certas funções nas prisões.

Sobre isso, Moraes (2005) nos explica melhor:

[...] a ambiguidade que encontramos entre os agentes penitenciários em relação à valorização de cunho mais escolástico é plenamente justificada se observamos a importância e a distinção que esse tipo de saber tem ocupado em nossa sociedade em contraste aos conhecimentos práticos, “quer dizer, econômicos, fáceis de manejar e voltados para fins práticos para a realização de anseios, desejos, frequentemente vitais para o indivíduo e, sobretudo, para o grupo”. (BOURDIEU, 2001, p. 68 apud MORAES, 2005, p. 242-243).