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No intuito de analisar a relação da formação com a prática profissional das agentes penitenciárias, questionamos às entrevistadas se o curso de formação foi relevante para suas práticas profissionais. Desse modo, a maioria das agentes, 60%, afirmaram que a formação foi importante, apesar da insuficiência do tempo. A agente 01, por exemplo, afirmou: “se não fosse a formação eu não ia conseguir nem entrar aqui. [...] ajudou pra saber como é que funciona o sistema”. Assim, notamos o

quanto a formação é importante para as(os) profissionais que ingressam no sistema pela primeira vez com pouco ou nenhum conhecimento sobre o Sistema Penitenciário, pois além da exigência de instrução mínima para o cargo (Ensino Médio), elas prestaram concurso com pouca ou nenhuma afinidade com a área.

Convém ressaltar também um trecho da fala da entrevistada 10 que diz: “O

curso foi bom, melhor do que nada. Melhor do que as primeiras turmas fizeram”, esta

faz referência ao local no qual foram ministradas as aulas e ao corpo docente que contou com agentes penitenciários que já estavam trabalhando no sistema e puderam passar para elas um pouco do conhecimento vivido diariamente nas prisões.

Contudo, a agente 04 destacou que a formação foi “muito pouca”. Isso nos leva a compreender que necessariamente a formação não foi tão relevante para sua prática profissional, por não ter contemplado seu entendimento acerca da sua função na prisão.

Subcategoria Fala das entrevistadas Evocadoras

Formação importante para a prática profissional

[...] foi importante porque eu não tinha conhecimento nenhum. Então, abriu o conhecimento antes de eu entrar aqui no presídio pra trabalhar. Se não fosse a formação eu não ia conseguir nem entrar aqui. [...] ajudou pra você saber como é que funciona o sistema. (Agente 01)

Foi relevante, afinal eu não sabia de nada, né, entrei desconhecendo, totalmente, o que é sistema prisional, sem

Formação importante para a prática profissional

saber nenhum tipo de procedimento, sem saber da realidade do que é presídio. E as aulas foram poucas, insuficientes, foram, mas trouxeram um pouco do que era sistema prisional [...]. (Agente 03)

É muito importante, [...] você está o tempo todo lidando com pessoas, né, com casos específicos, quer dizer você está sempre tendo acesso a cursos que lhe possa te ajudar, vou dizer, é muito importante. O curso foi bom, melhor do que nada, né, melhor do que as primeiras turmas fizeram, mas poderia ter sido melhor. (Agente 10)

06

Formação

insuficiente Foi muito pouco, muito pouco mesmo. (Agente 04) 01 Quadro 13 – Relevância da formação para a prática profissional.

Fonte: Primária

Não obstante, para complementar essa questão, buscamos compreender se as agentes conseguem associar os conhecimentos teóricos e práticos passados na formação com a natureza da sua função como agente no Sistema Prisional. Assim, seis entrevistadas, 60%, afirmaram que de algum modo a formação tem correlação com seu dia a dia na prisão. A agente 02, por exemplo, destacou que foi treinada, nas aulas práticas, para atuar em um presídio masculino, realidade que difere da unidade feminina na qual trabalha. No entanto, as agentes 03 e 08 afirmaram que conseguem associar algumas aulas práticas da formação, como rotina de presídio e código Q56, com a sua prática penitenciária.

As agentes 02 e 03 frisaram que conseguem relacionar a teoria à prática no tocante às leis. Leis essas que a agente 02 afirmou não ter conhecimento antes da formação, como, por exemplo, o art. 3357 do Código Penal que a possibilitou “estar

mais por dentro do mundo (das internas)”. Contudo, a agente 03 disse que tem

conhecimento de lei a partir daquilo que estudou para o concurso, desse modo, compreendemos que o curso de formação não contemplou seu entendimento sobre essa questão.

Já a agente 08 destacou que a formação possibilitou conhecimento, mas superficial, sobre criminologia e gerenciamento de crises, assuntos muito presentes

56 O Código Q, conforme o Manual do Agente Penitenciário (s/n), é um meio de telecomunicação,

único reconhecido pelo Ministério das Comunicações, que pode ser usado em diversos serviços: terrestres, aeronáutico e marítimo.

57 Conforme dados do Sistema Integrado de Informações Penitenciárias

– INFOPEN (2012), o Artigo 33 do Código Penal tipificado em tráfico de entorpecente é o tipo de crime que mais leva mulheres para a prisão no Brasil. Estatisticamente 44% das mulheres encontravam-se encarceradas naquele ano por causa do tráfico de drogas.

em sua vivência profissional. Além do mais, a agente 05 disse que consegue associar a maioria das coisas aprendidas na formação à sua prática, contudo foi informada que deveria ter o “mínimo possível” de contato com as internas, o que, segundo ela, não acontece na unidade que trabalha. Isso pode ser verificado, inclusive, nas orientações do Manual do Agente Penitenciário, o qual explicita que esses(as) profissionais devem ter cuidado para não se “envolver”, “negociar”, “prestar favores” às pessoas encarceradas, ou seja, não se familiarizarem com os mesmos e assim se “contaminarem” com os efeitos da prisonização (THOMPSON, 1980).

A agente 09, por sua vez, enfatizou que aprendeu no curso e aplica à sua prática na prisão apenas questões sobre postura, de estar sempre com boa aparência e o modo que os presos as identificam. No mais, assegura que aprendeu com os colegas dentro da prisão. Sobre a questão de manter o mínimo contato com as internas, da postura e aparência destacadas pelas agentes, Taets (2012, p. 142) dispõe que o “principal aprendizado do curso preparatório volta-se para uma ideia de que o guarda não pode se institucionalizar, ou seja, não pode se tornar parecido com os presos”.

É importante também destacar a fala da agente 06, a qual ressalta que a teoria passada na formação teve embasamento nas leis, contudo, segundo ela, há um distanciamento entre teoria e prática, o que não sabe se é pela resistência, falta de compromisso ou desinteresse por parte das próprias agentes para mudar a realidade prisional e assim fazer cumprir as leis. Para tanto, destaca a necessidade de leitura, aperfeiçoamento e qualificação por parte das profissionais, e não esperar que apenas o Estado assegure a formação permanente. Além do mais, verbalizou:

a gente tem que ser uma peça que vai transformar [...] a dinâmica do presídio é uma, mas será que eu vou deixar que a dinâmica seja sempre essa porque sempre foi assim ou eu vou de acordo com as necessidades, de acordo com o perfil, de acordo com as situações eu posso ir modificando? [...] Se você não for modificando, ajustando nunca vai ser ideal. (Agente 06, grifo nosso).

Desse modo, compreendemos, assim como a agente 06, que o(a) Agente Penitenciário é um profissional responsável pela “transformação” dos espaços das prisões e essa ideia deveria ser melhor trabalhada no curso de formação, afinal, é a partir desse que os profissionais começam a construir sua identidade profissional. E, assim, a práxis (relação da teoria com a prática) possibilitaria a essas profissionais

refletirem suas ações sobre o “mundo” para transformá-lo (FREIRE, 1987) e não para apenas reproduzir as inúmeras “verdades” que são ditas tanto na formação quanto na prática com outras agentes.

Contudo, podemos observar que a maioria das agentes afirmam relacionar mais as aulas teóricas ao dia a dia profissional do que propriamente as aulas práticas, até porque, conforme destacaram, e como vimos na organização curricular, o curso foi mais teórico do que prático. No entanto, é pouco o conhecimento que elas demonstram ter acerca da relação da formação com a prática profissional. A agente 01, por exemplo, afirma nem lembrar muito o que foi passado na formação. Portanto, Taets (2012) também expõe que as agentes, por ela entrevistadas, criticam o curso de formação por não prepará-las para a realidade que vão encontrar dentro da prisão. Adiante entenderemos melhor a função das agentes no CRFMJM e se seus entendimentos acerca das atribuições na prisão foram contemplados no curso de formação.