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A mudança linguística trata de um fenômeno marcado na língua por expressões que só podem ser compreendidas quando relacionadas às evoluções de uma língua ao longo do tempo. Essa seção tem como objetivo mostrar as abordagens teóricas da mudança e como a literatura linguística tem discutido esse tema, fenômeno fundamental na linguagem.

Como já mencionado na seção 2.1.1 e retomado aqui, os fenômenos de mudança linguística que ocorrem dentro do processo de gramaticalização são identificados por Martelotta, Votre e Cezario (1996), como:

a) trajetória de elemento linguístico do léxico à gramática; b) trajetória de vocábulo a morfema;

c) trajetória de elemento linguístico da condição de menos gramatical (ou menos regular) para mais gramatical, ou mais regular;

d) trajetória de elemento linguístico de mais referencial a menos referencial; e) trajetória que leva uma construção sintática a se especializar em expressar função gramatical;

f) trajetória dos processos de repetição do discurso, no âmbito da criação e da intenção, em direção à gramática, através de sua regularização e sistematização;

g) trajetória que leva construções negativas relativamente livres a se tornarem mais fixas em função de estratégias discursivas determinadas.

Desses fenômenos, o que está relacionado com o processo de gramaticalização do verbo tomar é o ponto a: trajetória de elemento linguísticos do léxico à gramática, que compreende, por exemplo, a passagem de verbo pleno a verbo-suporte.

Uma revisão histórica sobre as abordagens teóricas relativas à mudança pode ser observada em Martelotta (2011), que faz uma síntese da natureza da mudança linguística sob o viés funcional. A sua obra distribuída em três capítulos (“A natureza dinâmica das línguas”, “Linguística centrada no uso e mudança” e “Gramaticalização e lexicalização”) faz algumas reflexões acerca da natureza da mudança que as línguas naturais sofrem com o passar do tempo, dos mecanismos pelos quais ela se processa, bem como suas possíveis motivações.

O autor apresenta os pressupostos funcionais para o estudo da mudança e adota os pressupostos da Linguística Centrada no Uso (LCU)15. Martelotta (2011) define esse termo como uma abordagem que apresenta uma “relação estreita entre a estrutura das línguas e o uso que os falantes fazem dela nos contextos reais de comunicação.” A LCU aborda não apenas os aspectos formais ou da difusão das formas pela estrutura social, como também leva em conta dados semânticos, pragmáticos, discursivos e cognitivos (experiência, compreensão e armazenamento na memória).

Para compreender melhor essa abordagem teórica, Martelotta (2011) apresenta algumas características básicas da LCU, a saber:

1. A relação biologia e cultura (p. 57- 64) – para a Linguística Gerativa o essencial na linguagem está nos princípios inatos, ou seja, em uma base biológica, enquanto a Linguística centrada no uso considera que os aspectos culturais são mais importantes. A LCU aceita que os humanos possuem estruturas e habilidades inatas, porém elas não se limitam à linguagem, pois estão relacionadas a outras formas de pensamento ou a outras habilidades cognitivas. Não defendem uma gramática autônoma de base biológica, pois considera que a sintaxe está relacionada a fenômenos de natureza semântica ou discursivo-pragmática.

15 Lêmos em inglês usage-based model. Esse termo foi utilizado inicialmente por Langacker (1987) para

designar modelos teóricos que privilegiam o uso da língua. Alguns autores como, Givón, Hopper, Traugott, e Bybee, entre outros, têm usado esse termo para se referir às análises das línguas que refletem uma junção das tradições desenvolvidas pelas pesquisas da Linguística Funcional.

2. O papel da interação (p.64 – 67) – a gramática é um fenômeno sociocultural, o que sugere que sua estrutura e sua regularidade vêm do discurso, sendo moldadas em um processo contínuo.

3. O papel da cognição (p. 67- 73) – ao processar o discurso, o usuário da língua processa mecanismos cognitivos, como simbolização, transferência entre domínios, armazenamento de informação na memória, processamento e interpretação da informação, entre outras.

A mudança não ocorre aleatoriamente, ao contrário, existe uma regularidade em relação aos mecanismos através dos quais ela ocorre, “a mudança tem uma fortíssima propensão para a unidirecionalidade, no sentido de que os elementos tendem a desenvolver, com o tempo, valores mais subjetivos e abstratos, além de se tornarem internamente menos composicionais” (MARTELOTTA, 2011, p.73). Tal regularidade se manifesta em tipos prototípicos de mudança que se repetem através dos tempos e em diferentes línguas; não como processos absolutos, mas como tendências possíveis. Segundo Martelotta (2011), nossas habilidades cognitivas não atuam de modo absoluto, assim não podemos fazer previsões absolutas de mudanças futuras. Essas habilidades só se concretizam em situações reais de uso, o que a caracteriza como “um caráter localizado e criativo, típico de situações de improviso”.

Um exemplo de mudança por gramaticalização pode ser observada nas expressões Against my will (contra a minha vontade) > I will go (Eu irei), em que o termo will que apresenta valor lexical (substantivo), passa a ser utilizado com valor gramatical (verbo auxiliar marcador de futuro).

Além da questão relacionada à possibilidade ou à impossibilidade de uma determinada mudança ocorrer, o autor ressalta uma questão importante que diz respeito ao nível de extensão da mudança. Há mudanças que não chegam a se estender para outros contextos muito distantes daqueles em que os usos originais são vistos. (MARTELOTTA, 2011, p.76)

Para exemplificar utilizaremos o verbo querer, que desenvolveu um valor aspectual proximativo (Exemplo: Ele está querendo ficar gripado ou O tempo está querendo mudar). Esse exemplo mostra um caso de mudança, visto que o verbo querer perde o sentido de vontade ou desejo e passa a funcionar como auxiliar indicador de aspecto. Nota-se que, o uso do verbo querer, em português, parece se restringir a casos de sujeito não humanos (Exemplo: O tempo está querendo mudar, A casa está querendo cair etc.) ou a possibilidade

associada a doenças (Exemplo: Ele está querendo ficar gripado). Nesses casos o verbo querer não pode ser interpretado como portador de sentido volitivo. Os exemplos “O soldado está querendo morrer” ou “Maria está querendo ir embora” não podem ser interpretados com valor proximativo. Isso mostra que a perífrase querer + gerúndio não se gramaticalizou definitivamente.

Outra questão que se refere à regularidade da mudança é a unidirecionalidade. Para Neves (1997, p.121), “a unidirecionalidade da gramaticalização é tida como uma característica básica do processo, partindo-se do princípio de que uma mudança que se dá numa direção especifica não pode ser revertida”

Uma vez que consideramos que a unidirecionalidade é uma característica básica do processo de gramaticalização, como situar a concepção da unidirecionalidade nesse processo?

Um dos exemplos propostos por Hopper & Traugott (1993, p.7) especifica uma escala para a unidirecionalidade da gramaticalização, a saber: item de significado pleno > palavra gramatical > clítico > afixo flexional.

A unidirecionalidade tem sido aceita como princípio pela maioria dos trabalhos sobre gramaticalização. É o que observamos em Lehmann (1982), Hopper (1991), Heine, Claudi e Hunnemeyer (1991).

Traugott e Heine (1991), Heine et al. (1991) e Heine (1991), entre outros, também consideram a gramaticalização como um processo de mudança unidirecional. Heine et al. (1991) chegam a propor uma escala para explicitar o rumo desse processo que se movimenta em direção a uma abstração crescente:

PESSOA > OBJETO > ATIVIDADE > ESPAÇO > TEMPO > QUALIDADE

A unidirecionalidade prevê que as mudanças linguísticas no escopo da gramaticalização ocorrem num continuum, do “menos gramatical” para o “mais gramatical” e não vice-versa. Os contra-exemplos (KAHR, 1976; JEFFERS; ZWICKY, 1980; CAMPBELL, 1991) são incipientes se comparados à enorme gama de exemplos que atestam a unidirecionalidade.

Alguns autores têm dado atenção a como a gramaticalização pode ser diferenciada em relação a outro processo chamado de lexicalização. Martelotta (2011) trata os dois fenômenos específicos de mudança.

“um processo de mudança linguística unidirecional, segundo o qual itens lexicais e construções sintáticas, em determinados contextos, passam a assumir funções gramaticais e, uma vez gramaticalizados, continuam a desenvolver novas funções gramaticais.” (MARTELOTTA, 2011, p. 92)

São alguns exemplos clássicos de gramaticalização: passagem de vocábulo livre para afixo, passagem de verbo pleno para auxiliar, passagem de advérbio para conjunção, passagem de advérbios de modo para modalizador ou marcador discursivo.

Quando à lexicalização, o autor a define como “processo criador de novos elementos lexicais, modificando ou combinando elementos já existentes”.

No livro Lexicalization and Language Change, Brinton e Traugott (2005) apresentam diferentes concepções de gramaticalização e de lexicalização disponíveis na literatura, explicando suas semelhanças e diferenças.

Brinton e Traugott (2005) propõem as seguintes definições:

Lexicalização é a mudança pela qual, em certos contextos linguísticos, os falantes usam uma construção sintática ou uma forma de palavras como uma nova forma de conteúdo, com propriedades formais e semânticas, que não são complementares deriváveis ou previsíveis, de constituintes de construção ou formação de palavras padrões. No decorrer do tempo, pode haver uma nova perda da constituição interna e o item pode tornar-se mais lexical. (BRINTON e TRAUGOTT, 2005, p.96)16

e

Gramaticalização é a mudança pela qual, em certos contextos linguísticos, os falantes usam partes de uma construção com uma função gramatical. No decorrer do tempo o item gramatical resultante pode tornar-se mais gramatical por adquirir mais funções gramaticais e estender sua classe. (BRINTON e TRAUGOTT, 2005, p.99)17

Os autores concluem que lexicalização e gramaticalização são processos contínuos e apresentam semelhanças quanto aos processos de gradualidade (mudança por pequenos passos estruturais, havendo período de convivência entre formas antigas e inovadoras), unidirecionalidade (mudança em direção a significados mais abstratos, na gramaticalização e mais concretos na lexicalização), fusão (perda de fronteira vocabular), coalescência (perda de elementos fonológicos), desmotivação (perda da composicionalidade semântica), metaforização∕metonimização (mudança fortemente vinculada ao contexto,

16Lexicalization is the change whereby in certain linguistic contexts speakers use a syntactic construction or word formation as a new contentful form with formal and semantic properties that are not completely derivable or predictable from the constituents of the construction or the word formation pattern. Over time there may be further loss of internal constituency and the item may become more lexical. (BRINTON e TRAUGOTT, 2005, p.96) 17Grammaticalization is the change whereby in certain linguistic contexts speakers use parts of a construction with a grammatical function. Over time the resulting grammatical item may become more grammatical by acquiring more grammatical functions and expanding its host-classes. (BRINTON e TRAUGOTT, 2005, p.99)

derivada de implicaturas, na situação comunicativa entre falante e ouvinte). As diferenças podem ser observadas em relação aos traços de decategorização (mudança de uma categoria plena para secundária), dessemantização (enfraquecimento de significado) subjectificação (ancoragem do significado na percepção da situação do falante), produtividade (ocorrência de um número progressivamente amplo de categoria), frequência (aumento de frequência) e tipologia (recrutamento a partir de fontes similares em diversas línguas), característicos do processo de gramaticalização.