Por um lado, podemos observar que o processo de construção da tradição do choro acompanha um processo de supervalorização da música como seu aspecto fundamental. Isso se explica tanto pela evolução do ideário nacional-populista em favor da criação de uma identidade nacional, e, portanto, altamente abstrata em relação à vida concreta dos indivíduos, quanto pelo processo simultâneo de desintegração das formas de sociabilidade oitocentistas, que cria uma ruptura nos padrões de vida e torna a música um dos poucos elos possíveis entre mundos tão díspares. (REZENDE, 2009)228.
A invenção de uma tradição no Choro em favor da criação de uma identidade nacional tem se apresentado como uma realidade abstrata em relação à realidade de vida dos indivíduos. Diante da inexistência das formas de vida oitocentistas, o processo de construção da tradição do Choro tem acompanhado um processo de supervalorização da música como um dos poucos elos possível entre realidades diversas (REZENDE, 2009). O legado cultural tem sido defendido por movimentos “tradicionalistas” na defesa e restauração das tradições, fato que poderá indicar uma ruptura, segundo a análise do artigo do professor Gabriel Rezende (2009) “O Choro: caminhos e sentidos da tradição”.
Como esclarece Hobsbawn, “[...] o próprio aparecimento de movimentos que defendem a restauração das tradições, sejam eles ‘tradicionalistas’ ou não, já indica essa ruptura.” (HOBSBAWN e RANGER, 1984: 16). Em termos gerais, esse sentido de continuidade com o passado, artificial em muitos aspectos, é alcançado através de um processo de formalização e ritualização da experiência musical.
Dentre os elementos que foram preservados para comporem a tradição, Rezende(2009) destacou para o caso específico do Choro: “um núcleo instrumental, uma função própria para cada instrumento, padrões melódicos e harmônicos, uma sonoridade específica, um repertório
228 REZENDE, Gabriel Sampaio Souza Lima. O choro: caminhos e sentidos da tradição. Artigo apresentado no ANPUH – XXV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA. Fortaleza, 2009.
característico, uma situação típica para o evento, dentre outros aspectos”. Tais elementos foram submetidos a um processo de ritualização e formalização pertencente a um passado idealizado. A uma necessidade de recuperação e conservação desse passado motivou o desenvolvimento da continuidade dessa tradição por meio de uma processo de lutas simbólicas, interações e na criação de um habitus que permitisse o cultivo de capitais culturais compartilhados no campo. As relações entre “mestre x aluno”, os contextos das práticas musicais do Choro com seus rituais, regras e vocabulário idiomático musical, dentre outros, foram submetidos às adequações do tempo sob a herança de legado cultural de seus agentes.
No caso específico do choro, podemos destacar uma série de elementos que são cristalizados para comporem a tradição: um núcleo instrumental, uma função própria para cada instrumento, padrões melódicos e harmônicos, uma sonoridade específica, um repertório característico, uma situação típica para o evento, etc. Esse processo de formalização e ritualização incide sobre uma situação musical pertencente a um passado idealizado e, portanto, desenvolve-se paralelamente uma necessidade de recuperação e conservação desse passado. (REZENDE, 2009)
O repertório do Choro teve no disco um veículo relevante no processo de difusão e assimilação cultural. No caso de Jacob do Bandolim, seus discos tem sido referência para o aprendizado e a continuidade de sua forma de tocar, sua personalidade e assimilação de sua narrativa à própria história e tradição no Choro. Além do conteúdo sonoro, as capas e contracapas dos discos eram detalhados por fichas referenciando de forma minuciosa vários itens como nome dos instrumentistas, arranjadores, autores, gêneros musicais de cada composição gravada, assim como textos que narravam o caráter do disco como um produto cultural. Os discos idealizados, produzidos e gravados por Jacob do Bandolim foram caracterizados por Rezende(2012) na conclusão de seu artigo229 “Os LP’s como meios de comunicação de projetos estéticos-ideológicos” nos quais indicou a existência de “disputas simbólicas, as transformações nas técnicas de produção musical e as próprias mudanças nas relações de trabalho no campo da música popular”:
A origem mítica da polca sentimentalizada pela “alma brasileira”, as imagens da Belle Époque conjugadas com a nostalgia das últimas décadas do Brasil império e a primeira do Brasil república, a roda de choro e o ideal das práticas musicais “primordiais” em torno desse gênero etc., são elementos presentes nos primeiros LPs de Jacob do Bandolim que dão contornos a um projeto estético-ideológico. Inscritos nele, em sulcos incisivos ou em sutis arranhões, também estão as disputas simbólicas, as transformações nas técnicas de produção musical e as próprias
229 REZENDE, Gabriel Sampaio Souza Lima. OS LPS COMO MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE PROJETOS ESTÉTICO-IDEOLÓGICOS: os casos do Trio Surdina, Jacob do Bandolim e Martinho da Vila. Artigo apresentado no IV ENCONTRO DE PESQUISADORES EM COMUNICAÇÃO E MÚSICA POPULAR Linguagens e identidades da música contemporânea, Universidade de São Paullo – ECA/USP. São Paulo, 2012.
mudanças nas relações de trabalho no campo da música popular. (REZENDE, 2012).
Diante da necessidade de recuperação do legado cultural da tradição a supervalorização da música ocorreu de forma intensa. Para tal empreendimento, Rezende(2009) referiu-se a um “processo de racionalização” em busca do “belo, do
verdadeiro e do autêntico”230, termos presentes nas falas dos agentes do Choro em entrevistas e publicações pertinentes à difusão da cultura do Choro. No depoimento para posteridade prestado por Jacob do Bandolim ao MIS (1967), conforme supracitado, ele assim estabeleceu categorias para o músico de Choro: “há o chorão autêntico, o verdadeiro, aquele que pode
decorar a música pelo papel e depois dar-lhe o colorido que bem entender, este que me parece o verdadeiro, autêntico, honesto chorão de maneira que não há questão de maneira de chorar (JACOB DO BANDOLIM, 1967)”. Jacob e outros músicos de sua época
desenvolveram trabalhos essenciais para que o Choro pudesse ser legitimado e estabelecido como raiz de base cultural:
Vemos, então, que essa supervalorização da música se realiza através de um intenso processo de racionalização. Em busca do belo, do verdadeiro e do autêntico, a racionalização do choro empreendida por Jacob e por outros músicos de sua época foram essenciais para que, décadas mais tarde, se efetivasse o completo desenraizamento desse gênero musical de uma realidade concreta. (REZENDE, 2009)
Os fundamentos do processo de racionalização do Choro como cultura relacionam-se a questões referentes às formas de sua transmissão, difusão, ensino e aprendizado. Dentre os aspectos do processo de construção das tradições nacionais-populares destaca-se a ampliação dos limites das formas de aprendizado do Choro. Segundo Diniz (2003: 57 e 69): “O Choro neste início de milênio ganhou novas cores. Não é mais domínio exclusivo de funcionários públicos e de músicos intuitivos. Hoje se aprende Choro nas oficinas, nos conservatórios e até nas universidades.” Gradativamente, é possível observar o crescente interesse no Choro, suas potencialidades técnicas, musicais e culturais por sua atividade desenvolvida por músicos de vários países. Sobre tal fenômeno, André Diniz (2003) destacou a necessidade de uma “oficialização do Choro como patrimônio nacional” da seguinte maneira:
“O choro neste início de milênio ganhou novas cores. Não é mais domínio exclusivo de funcionários públicos e de músicos intuitivos. Hoje se aprende choro nas oficinas,
nos conservatórios e até nas universidades.” Mais ainda, “Ultimamente o gênero alçou vôos para outras paragens. Músicos americanos, alemães, venezuelanos e japoneses têm se especializado no repertório. Grupos de choro e solistas brasileiros são convidados com muita frequência para turnês internacionais [...] É chegada a hora desse ritmo [...] ser oficializado como patrimônio nacional.” (DINIZ, 2003: 57 e 69). Por fim, revela-se um dos múltiplos aspectos do processo de construção das tradições nacionais-populares: para tornar-se nacional é necessário pertencer a todos os lugares e, ao mesmo tempo, pertencer a lugar nenhum. (DINIZ, 2003 apus REZENDE, 2009)
No sentido de “tornar-se nacional” sendo necessário “pertencer a todos os lugares e, ao mesmo tempo, pertencer a lugar nenhum”, o Choro tem sido reinventado para sua continuidade e adequação a seu tempo. Dentre os músicos entrevistados, destacamos o trabalho realizado pelo bandolinista Hamilton de Holanda(1976). Pertencente a uma geração de bandolinistas e compositores com intensa produção e dedicação exclusiva à atividade profissional musical, o Choro fez parte de sua base educativa e tem sido referência em seu habitus de músico com intensa atividade no Brasil e no exterior. Em seu depoimento à presente pesquisa, Hamilton aconselhou os jovens músicos a terem “uma cabeça tranquila e aberta para conhecer os gêneros musicais todos, saber tudo o que já foi feito, para não querer inventar a roda”231. Sua intensa produção direciona-se à prática da composição diária, estudo do instrumento, contatos e interação com músicos e parcerias diversas das quais destacou a de seu produtor Marcos Portinari. O conselho de Hamilton para o músico que desejas aprender o Choro, e/ou estudá-lo: “estudar a obra do Pixinguinha, assim você será “faixa preta”, e para o bandolinista, tocar “Retratos” de Radamés Gnattali”.
Ao estudar bandolim diariamente, Hamilton foca a técnica, o “treino” de músicas para o estudo técnico, a execução dos “Caprichos” para bandolim de 10 cordas de sua autoria como estudo técnico, composição e gravação no celular, dentre outras atividades citadas pelo artista. Sua interação com a música o conduz a uma relação na qual busca observar aspectos diários como subir escadas, marcar um ritmo qualquer e compor uma música, assim como “aproveitar o dia a dia com as crianças e tocar”, segundo nos relatou.
Sobre sua afirmação “moderno é tradição”, inserida em seu site oficial e em seus trabalhos artísticos, Hamilton assim se posicionou:
[...] “a tradição é preciso ser preservada. Valorizar o tradicional olhando para frente. Entender a relação do tempo. Não tem mais como se descaracterizar o choro no patamar que este gênero se encontra. O apoio já está ancorado, porém quem nasce recebe informações do seu tempo em quantidade. Essas pessoas irão contribuir com
231 Entrevista concedida ao autor em 21/09/2015 no Ponta Mar Hotel, no bairro de Meireles, em Fortaleza-CE, às 17:00 horas
novas leituras e não poderão ser tolhidas de se manifestaram sua contribuição. O tempo irá dizer se essas contribuições serão boas ou não. Ninguém inventa uma tradição, é uma construção coletiva. Alguém vai ouvir e o público tem o poder de escolha. (VASCONCELOS NETO, 2015).
Assim como citou o violonista Maurício Carrilho em sua entrevista, Hamilton de Holanda ressaltou que a tradição é uma “construção coletiva” para a qual o público tem um poder de escolha, sendo assim parte integrante de todo o processo. Destacou também que acredita que as bases estilísticas e estruturais do Choro defendidas na tradição por movimentos “tradicionalistas” não serão afetadas por um possível processo de descaracterização decorrentes de movimentos da modernidade. Assim, se posicionou favorável à criação, experimentação de novas propostas musicais e que novas leituras possam surgir de forma livre.