KONSOLİDE OLMAYAN FİNANSAL TABLOLARA İLİŞKİN AÇIKLAMA VE DİPNOTLAR (Tutarlar aksi belirtilmedikçe Bin Türk Lirası (TL) olarak ifade edilmiştir.)
KONSOLİDE OLMAYAN FİNANSAL TABLOLARA İLİŞKİN AÇIKLAMA VE DİPNOTLAR (Tutarlar aksi belirtilmedikçe Bin Türk Lirası (TL) olarak ifade edilmiştir.)
[Pesquisadora] Tu costuma ir ao médico particular, mas alguma vez já precisou usar o serviço público de saúde?
[Pisinoe] Sim. Teve uma época que meu guarda roupa caiu em cima do meu pé, por exemplo. Aí o espelho do meu guarda roupa caiu em cima do meu pé aí eu tive que ir lá no Hospital G.
[Pesquisadora] E como foi o atendimento?
[Pisinoe] O atendimento é frio, quase congelando, um monte de gente na fila. O médico nem olha para você, nem pega no seu pé. O médico olhou e disse que tinha que tomar injeção e mais nada. Tomei a injeção e pronto.
[Pesquisadora] E como era o procedimento de atendimento? Tinha que mostrar identidade, preencher formulário?
[Pisinoe] Tinha. Mas nessa época eu queria resolver o meu problema, não estava preocupada com isso não. Disse lá que era Pisinoe, mas lá eles te tratam por número. Chamaram meu número e eu fui. Por que lá era emergência. (Entrevista Pisinoe 10/05/2013)
Perguntei a todas as trans com quem conversei se elas costumavam utilizar o serviço publico de saúde. Mesmo com respostas negativas, insisti um pouco nessa pergunta e o que surgia eram casos de visitas à emergência, como Pisinoe relata, ou ainda idas aos serviços especializados no atendimento de DST/aids, como Ligeia descreve:
[Ligeia] Eu vou às vezes ao posto J., porque lá eles são especializados em DST/aids. Ai quando eu preciso eu faço o teste lá, ou quando aparece algum probleminha. Eu sempre gosto de falar com a assistente social de lá, porque eu já conheço. Só que você precisa ter algum problema da área.
[Pesquisadora] E se tu tiver dor de barriga, ou dor de cabeça?
[Ligeia] Aí lá já não tem. Aí você tem que pedir a Deus para que não dê nenhum problema. Se não, tem que ir para a emergência. Ou então o que eu puder fazer no particular eu faço. (Entrevista Ligeia 25/05/2013).
As sereias explicam que apenas quando as trans estão “nas últimas” é que buscam algum atendimento no serviço público de saúde, pois nesses momentos não importa o nome social ou a qualidade do serviço, apenas querem ser consultadas e voltar para casa. Se na emergência utilizarem senha e número para chamar os pacientes, é melhor, pois assim não são constrangidas, nem precisam brigar para utilizarem o nome social. A primeira vez que conversei com Pisinoe foi na faculdade onde ela estuda e, ao explicar que estava interessada em pesquisar sobre a saúde das trans, ela logo interpelou “é DST/aids ou processo transexualizador?”. Ao saber que não era nenhuma dessas temáticas especificamente, Pisinoe disse que ia ser um trabalho muito difícil, “não existe quase nada fora isso, os lugares que atendem as trans são aqueles que possuem algum trabalho específico para DST/aids, como o posto J.”. Ela explica que, uma vez que as trans acabam sendo mal atendidas quando chegam ao serviço, elas desistem de voltar.
O serviço público só se torna opção para as sereias quando elas estão com alguma doença muito grave e, mesmo com a automedicação, não obtiveram qualquer melhora, sendo a emergência a solução para esses casos. Nenhuma das trans com quem conversei precisou ser internada em hospitais públicos, mas relatam que algumas amigas mais velhas e com menor poder aquisitivo já passaram por essa situação, sendo internadas e atendidas de qualquer forma e tendo de ficar na ala masculina do hospital.
As consultas particulares são uma das alternativas apontadas pelas trans com quem conversei e que têm receio de serem mal atendidas no serviço público de saúde. Elas fazem empréstimo, utilizam o plano de saúde da empresa onde trabalham ou buscam médicos que fazem consultas através de financiamento consignado37 para conseguirem atendimento no serviço de saúde. Elas utilizam o serviço particular para realizar uma diversidade de procedimentos, desde ir ao dentista para fazer obturação a procedimentos estéticos, como implante de silicone e depilação a laser. Mesmo no serviço particular, onde elas dizem ser mais bem atendidas, as trans não se arriscam a ir em qualquer um; existe uma rede de profissionais da saúde que são indicados pelas amigas mais experientes como referência. Dessa forma, elas constroem uma teia de relações para se protegerem dos constrangimentos nos serviços de saúde. As sereias, ao compartilharem suas experiências, apontam quais espaços devem ser visitados e quais devem ser evitados.
Porém, mesmo utilizando diversas ferramentas para evitar problemas ao serem atendidas, frequentando apenas os profissionais indicados por amigas, nunca indo pela primeira vez a um serviço de saúde, como Ligeia pontuou várias vezes na entrevista, isso não impede que ocorram situações de mal atendimento. Pisinoe relata que fez um escândalo no hospital particular onde foi internada para fazer o implante de silicone nos seios, pois não queriam colocar o seu nome social no prontuário, nem lhe instalar em um quarto individual, nem lhe entregar a bata utilizada por mulheres na cirurgia; os profissionais insistiam em oferecer o short usado por homens: “Entrei fazendo escândalo e saí fazendo escândalo”.
Pisinoe, Ligeia e Aglaope contam que sempre pedem para ficar internadas em um quarto individual quando realizam alguma cirurgia, no caso delas, o implante de silicone nos seios, isso para evitar serem instaladas na ala masculina do hospital. Ligeia relata que mesmo tendo ficado em um quarto particular após a cirurgia da mama, a sua presença provocava curiosidade entre os funcionários do hospital:
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[Pesquisadora] E o peito tu também colocou?
[Ligeia] Peito eu coloquei só faz um ano e foi com médico. Eu conheci ele por uma amiga minha, uma que já tinha tido problema no peito e foi esse médico que consertou. Como todo mundo tá no mesmo paralelo, uma vai indicando para outra. Como a gente não tem muito apoio, já por medo, a gente só vai a um conhecido, onde a gente já sabe que vai ser bem atendida, tem todo esse cuidado. Eu saí do hospital no mesmo dia e fiquei em um quarto individual.
[Pesquisadora] Tu teve algum problema no hospital?
[Ligeia] Assim tinha gente que... Por isso que eu te falei que a gente não gosta muito de ir em lugar novo, a gente sempre vai quando alguém diz que no hospital tal tem um médico que gosta de ajudar as trans, pois desse jeito você sabe que naquele hospital todo dia tem trans, então já tá todo mundo meio que acostumado. Quando eu estava no hospital, todo mundo ficou meio curioso sabe? Vai lá olhar para ver quem é a paciente, eu me acordei querendo fazer xixi e todo mundo foi no quarto para ver. A enfermeira do médico que viu e tirou todo mundo da sala para eu poder fazer xixi, porque todo mundo queria-me ver fazendo xixi. (Entrevista Ligeia 27/05/2013).
Mesmo indo apenas a hospitais e médicos que costumam atender trans, Ligeia não conseguiu evitar constrangimentos. Travestis e transexuais ainda são vistas como “atração”, provocam estranhamento e curiosidade. Iara conta que no período em que trabalhava tinha plano de saúde, mas sempre tinha problemas nos atendimentos, principalmente com médicos mais idosos, que segundo ela são mais preconceituosos. Ela diz que antes de começar a tomar hormônios por conta própria, tinha tentado em vão ir a alguns endocrinologistas do seu plano de saúde. Uma das médicas teria informado que não tinha conhecimento para realizar esse tipo de terapêutica.
O uso dos hormônios sem qualquer acompanhamento provocou uma série de alterações hormonais em Iara, como a produção em excesso de prolactina38, que a fez secretar leite pelos seios. Por esse problema de saúde, ela busca novamente um atendimento com um endocrinologista. Um a atendeu bem até o momento em que acreditava que ela era mulher. Ao se deparar com seu nome de registro, Iara relata: “o pobre do ancião pirou. Disse que eu tomava hormônios, que ele não fazia isso, que ia me denunciar à policia, que isso era errado, que eu ia morrer e que eu procurasse um hospital público”. Quando o médico constatou que Iara não era mulher, mas que tomava hormônio feminino, recusou-se a olhar os seus exames. “Meu sangue subiu a cabeça e eu mandei ele logo para aquele lugar. Fiz um escândalo, saí gritando dizendo que ele era louco, que não tinha condições de atender ninguém”. Iara, ao final do relato, constata que “Não existem péssimos profissionais só na rede pública, em todo canto tem gente nojenta”.
Parténope conta que, para não ficar aborrecida, nas vezes que vai ao serviço de saúde usa do riso e deboche. Relata que uma vez foi tirar sangue e a enfermeira que lhe
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A prolactina é o hormônio responsável pela produção de leite pelas glândulas mamárias, presente em homens e mulheres.
atendeu começou a fazer um sermão religioso e a cantar músicas religiosas enquanto realizava o procedimento. Para não brigar, ela ria, dizia que conhecia a música e cantava junto com a profissional. Todas essas histórias são contadas acompanhadas de muito riso - o uso do humor funciona como um modo resistência, reduzindo a figura de poder dos profissionais da saúde à condição de simples mortal. O deboche e a ironia são constantes nas conversas com as travestis e transexuais; os tormentos do cotidiano são transformados, a ilusão das hierarquias instituídas é derrubada. Através do riso, as trans ridicularizam aqueles que são considerados os detentores do poder, destinando-os ao lugar da vergonha e exercendo também um lugar de poder. O humor tem potência para promover rupturas, oferecendo às sereias um lugar de poder e subversão.