1. BÖLÜM
1.4. Yeni Medya Araçları
1.4.4. Wiki’ler
sociais”. Uma época de relativo bem-estar encontrava-se ancorada na ideia de progresso linear e homogêneo: “A humanidade parecia ter achado um caminho definitivo. Conservadores e revolucionários aceitavam praticamente as consequências da tese evolucionista. Uns e outros coincidiam na mesma adesão à ideia de progresso e na mesma aversão à violência” (Idem, p. 14).
“O capitalismo deixou de coincidir com o progresso” (MARIÁTEGUI, 2011, p. 41). Não por acaso, num trecho da brochura Sete Ensaios Sobre a Interpretação da Realidade Peruana, JCM afirma que a exploração do guano e do salitre no Peru revelar- se-ia economicamente trágica, pela decadência das aplicações do imperialismo estrangeiro, “como resultado das contínuas mutações produzidas no campo industrial pelas invenções da ciência”, ou seja, “da instabilidade econômica e industrial e engendrada pelo progresso científico” (MARIÁTEGUI, 2010, p. 42). Em outra passagem, ainda, o autor insiste em alertar que a nova geração deveria estar ciente de “que o progresso do Peru será fictício, ou pelo menos não será peruano, enquanto não
seja a obra e não signifique o bem-estar da massa peruana” (MARIÁTEGUI, 2010, p.
64). O aspecto politicamente decisivo da ruptura com o evolucionismo encontra-se, desse modo, precisamente na ideia de que o progresso não poderia apontar soluções aos problemas do subdesenvolvimento latino-americano.
1.1.3. O irmão (mais novo) de Mariátegui: Florestan Fernandes
Como vimos anteriormente, JCM escapou das duas tendências influentes em seu continente, articulando conceitos marxistas clássicos e, ao mesmo tempo, reconhecendo o caráter específico das economias e sociedades latino-americanas. Sua mensagem pôde ser prolongada e enriquecida por outros pensadores brasileiros que se debruçaram sobre caráter especial da periferia. Afinal, o acerto de contas com as premissas teóricas assentadas nas teses modernizantes não é algo relativamente novo. A respeito de uma suposta falência da tradição crítica brasileira e latino-americana nos tempos contemporâneos, o historiador Osvaldo Coggiola afirma que:
O que acabou, no Brasil, não é a crítica, em geral, mas a variante crítica baseada na ideia de que o atraso e a subordinação do país eram passíveis de uma “superação, desde que a burguesia nacional compartilhasse com as classes subordinadas o projeto emancipatório”. Ideia, diga-se de passagem, que o marxismo latino-americano já submetera à crítica há cerca de alguns anos (COGGIOLA, 2005, p. 110).
35 De qualquer modo, um marxista brasileiro fora da sintonia teórica e política do marxismo praticado pelos partidos comunistas, contribuiu decisivamente com a crítica aos apologistas do progresso e da modernização capitalista, sob um arcabouço teórico- metodológico semelhante àquele que JCM levou a cabo. Florestan Fernandes, um dos mais prestigiosos sociólogos brasileiros, é um exemplo evidente dessa afinidade teórica e política em relação à Mariátegui. Ele chegou inclusive “batizá-lo” de nosso “irmão mais velho” (FERNANDES, 1975a, p. XVI). O reconhecimento carinhoso por alinhar- se assumidamente à cadeia de pensamento crítico de Mariátegui pode ser logo evidenciado32. Não é por acaso que Florestan Fernandes foi o primeiro grande impulsionador da obra mariateguiana no Brasil33. Além disso, em um artigo dedicado especialmente ao autor de Sete Ensaios, redigido em 1994, o sociólogo brasileiro argumentaria que uma das maiores qualidades teóricas do jornalista peruano era de ter sido suficientemente claro em suas explicações de que nos sistemas subcapitalistas periféricos “os progressos do capitalismo redundam em aumento geométrico da barbárie”, ou, noutras palavras, “êxitos e progressos trazem consigo contradições crescentes – no extremo fatal implosivas”. Dentro do contexto de pobreza da América Latina, ainda de acordo com o sociólogo brasileiro, os limites instransponíveis do progresso capitalista não lograram em concretizar as exigências elementares da “civilização sem barbárie” no continente.
A despeito das inúmeras diferenças entre os dois marxistas – cenários históricos e políticos e os interlocutores relativamente distintos –, ambos desenvolveram uma metodologia dialético-internacionalista sobre a problemática do desenvolvimento dependente na América Latina. A hipótese de “modernização dependente”, desenvolvida por Florestan Fernandes, parece uma interpretação profícua em relação à formação singular do continente34.
32 No acervo particular de Florestan Fernandes, disponível na Biblioteca Comunitária da Universidade
Federal de São Carlos (UFSCar), pode-se verificar exemplares da assim chamada coleção Obras Completas Populares, da Empresa editora Amauta (Lima) da obra de maturidade de JCM (Sete ensaios,
Defesa do marxismo, Ideologia y política, Peruanicemos al Perú, Historia de la crisis mundial), sendo que grande parte está grifado e com diversas anotações pelo marxista brasileiro.
33 Conforme sublinha Luiz Bernardo Pericás (2010, p. 345), o sociólogo brasileiro foi o responsável pela
edição e pela elaboração do prefácio do livro Sete Ensaios no Brasil depois de quarenta e sete anos de espera, o que foi claramente lamentado por Florestan, que aponta o marxista peruano como o mais influente, original e inovador estudo sobre o processo histórico de uma “nação incompleta”, realizado por um intelectual na América do Sul. Ver Fernandes (1975a).
34 Para uma análise sobre o desenvolvimento dependente na América Latina em Florestan Fernandes, ver
36 Em seu livro Capitalismo Dependente e Classes Sociais na América Latina (1975), Florestan Fernandes tratou de destacar que o componente histórico regular das nações latino-americanas acentuaria uma “tradição colonial de subserviência”, razão pela qual manteria um forte componente histórico-político-cultural de “cegueira nacional”, estimulada e controlada “a partir de fora”. Os países latino-americanos, a partir disso, tornar-se-iam subordinados – através de suas grandiosas reservas de matéria-prima – do capital internacional, sofrendo os efeitos conjuntos de dominação política e do intercâmbio desigual e combinado.
Durante os séculos existiriam padrões e formas de dominação externa que se diferenciavam entre si, o que poderia ser sistematizado, segundo o autor, em quatro fases: 1) deriva do sistema básico de colonização, o “antigo sistema colonial”, experimentado por pelo menos três séculos em que “os fundamentos legais e políticos dessa dominação colonial exigiam uma ordem social em que os interesses das Coroas e dos colonizadores pudessem ser institucionalmente preservados, incrementados e
reforçados, sem outras considerações” (FERNANDES, 1975, p. 13); 2) a desagregação
do antigo sistema colonial é que acende um segundo tipo de dominação externa em que as nações europeias a partir daí assumem o controle de exportações e importações na América Latina, ou seja, um controle não em sua produção local, como era anteriormente, mas no mercado e no comércio. Assim, embora as nações recém-saídas do “antigo sistema colonial” não tivessem recursos necessários para produzir os bens importados, por outro lado, os setores sociais dominantes estimularam a continuidade da exportação em “um papel econômico secundário e dependente”. Ocorre, nesse ponto, uma expansão e difusão em escala limitada de novas instituições e de novas modalidades modernas de associação para interação entre interesses locais e nacionais, embora apenas para “perpetuação das estruturas econômicas constituídas sob o antigo sistema colonial” (FERNANDES, 1975, p. 16). 3) com a revolução industrial na Europa, inicia-se uma reorganização da economia mundial, fazendo com que um terceiro tipo de dominação externa eclodisse nas nações periféricas.
As influências externas surgem em todos os domínios da economia, da sociedade e da cultura, “não apenas através de mecanismos indiretos do mercado mundial”, o que caracterizava o segundo tipo de dominação externa, “mas também através de incorporação maciça e direta de algumas fases dos processos básicos de crescimento econômico e de desenvolvimento sociocultural” (Idem, Ibidem). É precisamente nesse período que o sociólogo brasileiro aponta para o surgimento do
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imperialismo como marca da dominação externa e da formação de um capitalismo dependente como realidade histórico-social na América Latina. O controle externo gera uma ordem social que bloqueia qualquer orientação de integração nacional das economias dependentes. 4) O padrão de dominação externa que se proliferou depois das décadas de reerguimento dos países europeus, no contexto conhecido como pós-II guerra, consistiria no “imperialismo total”. Nas palavras do sociólogo:
O traço específico de imperialismo total consiste no fato de que ele organiza a dominação externa a partir de dentro e em todos os níveis da ordem social, desde o controle da natalidade, a comunicação de massa e o consumo de massa, até a educação, a transplantação maciça de tecnologia ou de instituições sociais, a modernização da infra e da superestrutura, os expedientes financeiros ou do capital, o eixo vital da política nacional etc. (FERNANDES, 1975, p. 18).
Nesse mesmo trecho, ainda afirma que os “mais avançados países latino- americanos ressentem-se da falta dos requisitos básicos para o rápido crescimento econômico, cultural e social em bases autônomas” (Idem, Ibidem). Para Florestan os países latino-americanos estariam diante de uma real encruzilhada; afinal, a mesma dominação externa que estimula a “modernização” e o “crescimento” é aquela que impediria qualquer integração nacional ou qualquer autonomia real. Por isso, as vicissitudes na ordem institucional ou no controle financeiro só seriam realizadas através do setor estrangeiro:
ela prova que uma economia satélite ou dependente não possui as condições estruturais e dinâmicas para sobrepujar nacionalmente, pelos esforços de sua burguesia (isto é, lato sensu, os setores dominantes das classes alta e média), o subdesenvolvimento e suas consequências (Idem, p. 101).
De fato, algumas conclusões a que chegou Florestan Fernandes são equivalentes àquelas afiançadas pelo peruano Mariátegui: “a integração nacional, como fonte de transformações revolucionárias e de desenvolvimento, econômico, sociocultural e político, tornou-se impossível” (FERNANDES, 1998, p. 95, grifos nossos). Em outro texto, o sociólogo brasileiro insiste na aliança entre burguesia nacional – como sócia menor – e burguesia internacional – como sócia majoritária:
O que eu de designara como exploração dual – realizada simultaneamente pela burguesia internacional e pela burguesia nacional – deixava os países em uma situação peculiar. A parte do leão ficava naturalmente com o capital financeiro internacional. As classes burguesias nativas, como sócios menores, tinham de contentar-se com parcelas menores e decrescentes do bolo (FERNANDES, 1994a, p. 10).
38 Em outra passagem, ainda, o autor ressalta:
A questão não está, como muitos pensam entre uma “burguesia nacional”, agente do nacionalismo econômico, e uma “burguesia internacional”, agente direto do imperialismo, encarando-se a primeira com um mal menor e necessário. As qualificações propostas são inconsistentes; e o problema não é que existam duas “burguesias”, mas uma hegemonia burguesa duplamente composta, graças à qual interesses burgueses internos e externos se fundem, funcionando estrutural e dinamicamente de forma interdependente e articulada (FERNANDES, 1975, p. 146).
Nessa capitulação passiva, as “burguesias preferem os vínculos imperiais ao desafio do desconhecido e da utopia. Traem suas pátrias para manter o status de burguesias subjugadas pelo capital hegemônico estrangeiro e pela atração do sistema capitalista mundial de poder” (FERNANDES, 1994a, p. 17).
Além disso, o sociólogo brasileiro delineou de maneira mais precisa o lugar e o desenvolvimento da modernização na periferia do sistema capitalista. A explicação sociológica que o autor toma como ponto de partida em relação ao estudo sobre modernização é tratar o tema, antes de qualquer coisa, como um fenômeno histórico e total e, do mesmo modo, desautorizar a premissa de que o curso da história se processa de maneira homogênea e linear. Para Fernandes, esta última acepção – de cunho positivista – tinha seu núcleo explicativo ancorado em uma linha evolutiva, que ao identificar o progresso como medida universal da história ressaltaria uma transição lenta ou rápida inexorável do “tradicional” ao “moderno”. Em nenhum momento, elas apresentariam possíveis situações e agentes sociais empenhados em preservar ou modificar o padrão de integração da ordem social: “o ‘tradicional’ é vencido e o ‘moderno’ se impõe, através de uma generosa generalização do progresso e, quem sabe, da última era das luzes” (FERNANDES, 1975, p. 141). Todavia, por trás dessa perspectiva abstrata e genérica, o autor elenca uma série de perguntas-problema em busca de um entendimento crítico que expressa a face contraditória da modernização:
A quem se beneficia a modernização? Como ela se organiza a partir das nações que incorporam as outras em seus espaços econômicos, socioculturais e políticos? O que ela representa como destruição, como um processo perverso de alocação de recursos materiais e humanos, ou como uma deformação insuperável de estados sociais irrecuperáveis? (Idem, Ibidem).
Florestan apresenta, no quadro latino-americano, as inconsistências do projeto de modernização na periferia do capitalismo na qual, “a ciência e a tecnologia estará
39 condenada a uma evolução perversa e ao colapso”. O descompasso entre “progresso material” e “progresso social” condenaria a ciência e a tecnologia a uma tecnocracia despótica, “degradando-a como fonte de libertação do horizonte intelectual do homem” (FERNANDES, 1975, p. 125)35. Ao contrário do discurso nacional-desenvolvimentista e do PCB que tinham com agenda política remover o atraso por meio da modernização política e do desenvolvimento econômico, o sociólogo brasileiro assinalaria que a América Latina não estaria propriamente “atrasada” e muito menos “condenada”. Por outras palavras: o “atraso” havia chagado ao seu fim “embora de maneira sombria e dolorosa” (Idem, Ibidem). Para Florestan, a civilização prevaleceu e que ofereceu alternativas históricas às nações periféricas foi a “moderna civilização ocidental”36. O
sistema de produção das sociedades periféricas integra-se como parte de um processo de expansão do capitalismo moderno ocidental; isto é, “não é nativo e tampouco engendrou linhas autônomas de desenvolvimento autônomo” (FERNANDES, 1975, p. 127). O desenvolvimento capitalista que prevalece na América Latina é um capitalismo originariamente sem autonomia que organiza seu desenvolvimento para absorver e preservar a dominação externa. A modernização periférica é conformada de forma induzida e dependente, o que exige um conjunto de novas instituições, técnicas sociais e orientações de valores que reproduzam essa formação. Trata-se de uma equação desproporcional: quanto mais aumenta o grau de possibilidade de desenvolvimento científico-tecnológico nas sociedades periféricas maior é a diminuição da possibilidade real de criar um padrão de modernização relativamente autônomo37. O aumento representa um passo a mais, ou melhor, um novo momento de subordinação na unidade do espaço econômico internacional e, desse modo, na manutenção, ampliação e intensificação das relações de dependência.
Mas atenção: a (crítica da) modernização dependente na perspectiva de Florestan Fernandes não insinua qualquer negação da contribuição da ciência ou do pensamento
35 Nessa jusante que Fernandes (1975, p. 149-150) assinala, por exemplo, sua crítica aos cientistas sociais
que estão “plenamente identificados com as ilusões forjadas sob o capitalismo dependente” e que precisamente por isso “ainda confiam no progresso como fatalidade histórica”.
36 No segundo tipo de dominação externa aventada pelo sociólogo marxista, que se localiza
periodicamente no final do século XVIII até as primeiras três ou quatro décadas do século XIX, é quando se tem notícia de um impulso do mundo ocidental moderno. Nesse tempo, como assinala Fernandes (1975, p. 15, grifo nosso), “os ‘produtores’ de bens primários podiam absorver pelo menos parte do
quantum que antes lhes era tirado através do antigo padrão de exploração colonial, e suas ‘economias coloniais’ recebiam o primeiro impulso para a internalização de um mercado capitalista moderno”.
37 “A exportação do excedente econômico; a educação copiada de fora; a pesquisa científico-tecnológica
apenas adaptada a fins secundários, de segunda mão e de demonstração; a falta de uma política de integração nacional agressiva e revolucionária etc. convertem a heteronomia (ou dependência) a uma condição permanente, em contínua diversificação e intensificação” (FERNANDES, 1975, p. 136).
40 europeu ocidental. Segundo suas palavras, “a ciência é instrumental nos dois níveis e sua contribuição não pode ser ignorada (nem perdida) pelos povos que hoje são vítimas da modernização, quando poderiam governá-la e transformá-la em um processo de liberação coletiva” (FERNANDES, 1975, p. 143).