Atualmente brincar “é um direito infantil legalmente reconhecido a nível mundial e as brincadeiras e o jogo são cada vez mais apercebidos como importantes instrumentos pedagógicos ao serviço do desenvolvimento motor, cognitivo, social, afectivo e linguístico da criança” (Leal, 2009, p. 117), sendo portanto fundamental que a escola assuma e promova atividades lúdicas.
A jogar e a brincar a criança “desenvolve a linguagem, o pensamento, a
socialização, a iniciativa e a auto-estima” (Ramos, 2002, p. 2), tornando-se assim capaz de enfrentar desafios. A mesma autora refere que estas são ações indispensáveis à saúde física, emocional e intelectual. Assim, podemos afirmar que brincar possibilita que a criança aprenda, facilitando o seu desenvolvimento integral, ou seja, o seu desenvolvimento físico, social, cultural, afetivo, emocional e cognitivo.
Segundo Moyles (2002) "em todas as idades, o brincar é realizado por puro prazer e diversão e cria uma atitude alegre em relação à vida e à aprendizagem. Isso certamente é uma razão suficiente para valorizar o brincar". Todavia, para além do referido anteriormente, a atividade lúdica ainda propicia "a estimulação, a variedade, o interesse, a concentração e a motivação" (p. 21).
Assim, o brincar torna-se vital para o desenvolvimento da criança, pois através da brincadeira podemos proporcionar e aproveitar situações de aprendizagem inatas que levarão a criança a aprender de forma interessada e com gosto. Deste modo terá motivação para aprender acerca do mundo que a rodeia.
Considerando a opinião de Marques (1988), crianças pequenas não aprendem bem sentadas a uma mesa, quietas, mas sim se partirem da sua própria experiência, agindo e explorando objetos, conversando com as pessoas e resolvendo problemas reais, logo, brincar também ajuda as crianças a desenvolverem confiança em si mesmas e nas suas capacidades e é sempre estruturado pelo ambiente, materiais ou contextos em que sucede (Moyles, 2002).
O brincar, ao depender da vontade e decisão de quem brinca, torna-se um ato incerto, enquanto o aprender requer foco e busca sistemática de conteúdos a aprender. Apesar de se oporem em várias situações, existe um espaço para o estabelecimento desta relação (Kishimoto, 2013).
Enquanto brinca a criança atribui significados, ou seja, categoriza ações e
objetos. De acordo com Bruner citado por Kishimoto (2013), “pensar é categorizar, fazer inferências e resolver problemas” (p. 25). Vigotsky e Bruner (citados por Kishimoto,
2013), concordam que criar situações imaginárias é a atividade principal da fase Pré- Escolar, sendo o atributo mais importante no brincar, pois requer a liberdade de ação e decisão da criança para categorizar papéis imaginários expressos durante a brincadeira.
Bodrova e Leong (2009) afirmam que para Vigotsky o jogo simbólico é um dos mais importantes contextos para as crianças desenvolverem competências e serão estas competências que garantirão uma melhor adaptação e desempenho em ambientes escolares formais. Portanto, criar situações imaginárias pode ser um meio de desenvolver o pensamento abstrato, e quando as crianças utilizam objetos - como brinquedos e adereços - durante o jogo simbólico, caminham nesse sentido.
Cordeiro (2010) defende que o brincar:
- Desenvolve a imaginação e a criatividade - sendo “o jogo imaginativo um dos
grandes pilares desta idade” (p. 331), onde a manipulação de objetos é valorizada, podendo simbolizar tudo aquilo que a criança quiser, a brincadeira do “faz-de-conta” ajuda a criança a passar do domínio da fantasia para a realidade, tendo que encontrar ou inventar soluções para contornar obstáculos;
- Promove as competências socias – ao interagir com os pares, a criança aprende a conhecer o outro, a observar as diferenças e igualdades, a confiar e desconfiar, a negociar, escutar, argumentar, ceder e ainda a partilhar, cooperar e a organizar-se, perante si e perante os outros;
- Desenvolve competências físicas – ainda que brincar não seja sinónimo de atividade, a verdade é que na sua maioria envolve ação e movimento físico, desperta os sentidos, a perceção dos movimentos e a coordenação psicomotora, o que ajuda ao desenvolvimento da autonomia, porque a criança sente-se um ser capaz;
- Trabalha as emoções – pois ajuda a expressar e lidar com os sentimentos, sendo uma forma de a criança expressar livremente aquilo que sente. Ensinar a ganhar e a perder também se configuram aprendizagens fundamentais, pois ganhar origina uma sensação de alegria, enquanto perder desperta um sentimento de tristeza. A compreensão por parte da criança que ao ganhar não deve humilhar quem perdeu, e ao perder deve ter os mecanismos necessários para ultrapassar tal frustração, tendo coragem de encarar o outro, são ensinamentos e aprendizagens fundamentais para o futuro.
Através do brincar livre, exploratório, as crianças aprendem sobre pessoas, atitudes e respostas, materiais, propriedades, texturas, atributos visuais, auditivos e cinestésicos, e provavelmente vão ser capazes de aumentar, enriquecer e manifestar a
sua aprendizagem. Através do brincar dirigido elas terão “uma outra dimensão e uma nova variedade de possibilidades estendendo-se a um relativo domínio dentro daquela
área ou atividade” (Moyles, 2002, p. 33).
Na opinião de Ferland (2006) a brincadeira tem diferentes funções, que permitem:
- A descoberta, o que origina aprendizagens;
- A capacidade de domínio, que favorece a autoestima;
- A criatividade, que origina crianças capazes de pensar, com opiniões e ideias próprias;
- A capacidade de expressão, revelada na comunicação de sentimentos e relação com os outros;
- O prazer, que leva a ter interesse em agir, experimentando a incerteza, a novidade e o desafio.
A mesma autora defende que o brincar permite inúmeras aprendizagens, desconhecidas por muitos, referindo que talvez seja esta a razão para encararem tal atividade de forma fútil. Assim, consigna que o brincar desenvolve a componente sensorial, motora, cognitiva, afetiva e social.
Caberá ao educador, enquanto iniciador e mediador da aprendizagem, proporcionar situações de brincar livre e dirigido que deem resposta às necessidades de aprendizagem das crianças.
Segundo Moyles (2002), durante o brincar, as necessidades básicas de aprendizagem das crianças podem ser exercidas, originando oportunidades:
- De praticar, escolher, perseverar, imitar, imaginar, dominar, adquirir competência e confiança;
- De adquirir novos conhecimentos, habilidades, pensamentos e entendimentos coerentes e lógicos;
- De criar, observar, experimentar, movimentar-se, cooperar, sentir, pensar, memorizar e lembrar;
- De comunicar, questionar, interagir com os outros e ser parte de uma experiência social mais ampla em que a flexibilidade, a tolerância e a autodisciplina são vitais;
- De conhecer e valorizar a si mesmo e as próprias forças, e entender as limitações pessoais; e
- De ser ativo dentro de um ambiente seguro que encoraje e consolide o desenvolvimento de normas e valores sociais. (p. 36).
Os adultos expressam verbalmente os seus sentimentos, frustrações e angústias, mas como a criança ainda não adquiriu essa facilidade cognitiva e verbal, usa os brinquedos no lugar das palavras, portanto o brincar é uma atividade complexa, envolvendo a criança de forma física, mental, social e emocional. A brincar a criança
pode revelar “os seus sentimentos, experiências e reações a essas mesmas
experiências (desejos, receios, percepção de si própria, entre outros)” (Homem, 2009, p. 23).
De acordo com Vigotsky (citado por Bodrova & Leong, 2009) “o jogo ajuda a
criança a desenvolver a capacidade de auto-regular o seu comportamento físico, social
e cognitivo” (p. 11), isto significa que a criança ao seguir regras externas ou interiorizadas autorregula o seu comportamento ao invés de agir por impulso.
Castro (2009) também considera o jogo como um dos elementos culturais educativos capaz de visar a formação da personalidade e do caráter, ou seja, a formação do ser na sua totalidade. A brincar ou a jogar aprende-se “a disciplina, a coragem, a destreza, o oportunismo, o medo, a malícia, o divertimento, a justiça, o que
é e quem é o outro” (p. 100).
É emergente que a sociedade tenha noção de que o jogo é um importante instrumento no crescimento e desenvolvimento da criança, sendo fundamental que os contextos lúdicos na educação de infância sejam uma preocupação crescente e constante (Dempsey & Frost, 1993, p. 688). Aliás, Pellegrini e Boyd (1993) ao referirem que o jogo é um conceito quase sagrado para os educadores de infância indicam e valorizam a sua importância na área da educação.
Demonstrando a mesma opinião, Pereira, Palma e Nídio (2009) afirmam que o jogo possibilita à criança construir importantes facetas do seu desenvolvimento, pois a
jogar elas “aprendem e apreendem o mundo, experimentam diferentes habilidades
motoras, cognitivas e sociais, reproduzem e recriam situações do quotidiano, desenvolvem a cooperação, [e] aprendem a lidar com situações de conflitos” (p. 109).
Concluindo, quando a intenção e ação de promover o jogo for considerada com a mesma seriedade com que se encara a promoção do desenvolvimento cognitivo ou da linguagem, então estará garantido que todo o potencial implícito no jogo será efetivado (Bodrova & Leong, 2009).