Neste tópico será apresentado de forma estruturada e organizada as evidências obtidas através do instrumento de recolha de dados – questionário – respondido pelos participantes.
De modo a facilitar a leitura e análise dos dados, e ainda porque foi garantida confidencialidade aos participantes, foi atribuída a cada questionário uma letra, estando
assim nomeados desde a letra “A” à letra “X”.
Após a análise de conteúdo efetuada às respostas obtidas, houve a necessidade de categorizá-las, de modo a chegarmos aos resultados que darão a conhecer as conceções deste grupo de participantes acerca do que é brincar.
Assim, ao separar e analisar todas as respostas, e de acordo com as respostas verificadas (ver Apêndice C), foram organizadas seis categorias principais e, dentro destas, subcategorias, de modo a podermos ser mais específicos no tratamento dos dados e podermos agrupar as respostas para que fizessem sentido, tendo em conta o tema (verificar Quadro 3).
Após visualização do Quadro 3 compreende-se que a categoria número 1 denomina-se “funções do brincar”, sendo que dentro dela existem três subcategorias,
nomeadamente: “desenvolvimento de competências”, “imaginar” e “entretenimento”. Categorias N.º 1 2 3 4 5 6 Nome Funções do brincar Sentimentos associados ao brincar Objetos associados ao brincar Ações associadas ao brincar Pessoas associadas ao brincar Faixa etária associada ao brincar Subcategorias Desenvolvimento de competências Imaginar Entretenimento Felicidade Paz Respeito Amor Liberdade Espontaneidade Pureza Brinquedos Jogos Passatempo Jogar Filhos/as Criança Amigos Infância Intemporal
Devido ao número de respostas dos participantes (108) e por estas abrangeram várias ideias, com pontos de ligação entre elas, foram sistematizadas e agrupadas nas subcategorias respetivas estando esta organização visível nos apêndices D, E, F, G, H, I).
Atendamos ao seguinte exemplo: a categoria 2, denominada “sentimentos associados ao brincar” engloba 7 subcategorias, designadamente: “felicidade”, “paz”, “respeito”, “amor”, “liberdade”, “espontaneidade”, e “pureza”. Por sua vez, cada uma destas 7 subcategorias inclui ainda “expressões equivalentes”. Verificando o Apêndice
E, observa-se que a subcategoria “felicidade” inclui as seguintes “expressões
equivalentes”: “ser feliz”, “estar feliz”, “gargalhadas”, “rir”, “alegria”, e “risos”.
Após se compreender a organização dos dados, podemos iniciar a discussão
dos resultados obtidos. Verificando o Quadro 4 podemos observar que “funções do brincar” e “sentimentos associados ao brincar” foram as categorias com maior prevalência de respostas. A categoria “faixa etária associada ao brincar” foi aquela que
mereceu um menor número de ocorrências.
Participantes Categorias N.º total de ocorrências Funções do brincar 51 Sentimentos associados ao brincar 21 Objetos associados ao brincar 14 Ações associadas ao brincar 12 Pessoas associadas ao brincar 9
Faixa etária associada ao
brincar 4
Dentro de cada categoria, importa referir qual a subcategoria que apresentou maior número de respostas associadas:
- Categoria 1 “funções do brincar”: subcategoria “desenvolvimento de
competências” com 27 ocorrências (verificar Apêndice D);
- Categoria 2 “sentimentos associados ao brincar”: subcategoria “felicidade” com 10 ocorrências (verificar Apêndice E);
- Categoria 3 “objetos associados ao brincar”: subcategoria “brinquedos” com 12 ocorrências (verificar Apêndice F);
- Categoria 4 “ações associadas ao brincar”: subcategoria “jogar” com 7 ocorrências (Apêndice G);
- Categoria 5 “pessoas associadas ao brincar”: subcategoria “filhos/as” com 4 ocorrências (verificar Apêndice H);
- Categoria 6 “faixa etária associada ao brincar”: subcategoria “infância” e
“intemporal”, ambas com 2 ocorrências (verificar Apêndice I).
Considerámos pertinente referir e analisar as conceções dos participantes de acordo com o seu género, no entanto, importa esclarecer que existem mais participantes femininos (15) do que masculinos (7), o que não permite uma real comparação de ambos os resultados.
Assim, relativamente às conceções dos participantes de acordo como seu género (ver Quadro 5), verificámos que no caso do género feminino a categoria que obteve maior número de respostas foi a primeira - “funções do brincar” - com 43 ocorrências, e a que obteve menor número de respostas foi a sexta - “faixa etária
associada ao brincar” - com 3 ocorrências.
Quanto ao género masculino, foram duas as categorias a alcançar maior número
de ocorrências, nomeadamente “funções do brincar” e “ações associadas” ao brincar”, com 8 respostas cada uma. As categorias com menor número de ocorrências foram
“objetos associados ao brincar” e “faixa etária associada ao brincar”, com apenas uma
Quadro 5 – Número total de ocorrências por categoria segundo o género (masculino e feminino)
Os resultados mostram-nos que ambos os géneros valorizam maioritariamente as funções do brincar, sendo que o género feminino valoriza mais os sentimentos associados a este conceito do que o género masculino.
Observamos ainda que o brincar enquanto movimento e ação tem maior significado para o género masculino, o que associamos à cultura de uma sociedade que incentiva, desde a infância, a participação em atividades e modalidades desportivas - nomeadamente o futebol - nos homens.
Por outro lado, a categoria dos objetos associados ao brincar tem maior prevalência no género feminino, com 10 ocorrências de respostas, no lugar de 1 única resposta no género masculino. Depreendemos esta situação com o facto de as mulheres recorrerem a muitos objetos aquando das suas brincadeiras durante a infância, nomeadamente bonecas, utensílios de apoio a brincadeiras de faz-de-conta, etc.
Assim, de acordo com o referido anteriormente, Spodek e Saracho (1998) abordam o tema das diferenças de género relativas ao brincar, expondo que as diferenças na brincadeira refletem as diferenças do que é ensinado às meninas e aos meninos, indicando, por exemplo, que os meninos recebem bolas para jogar e as meninas bonecas para brincar. Isto leva a que as crianças compreendam que existem diferenças criadas pela sociedade, e a partir da forma como são tratadas podem moldar o seu comportamento. Participantes género masculino Participantes género feminino Categorias N.º total de ocorrências N.º total de ocorrências Funções do brincar 8 43 Sentimentos associados ao brincar 4 17 Objetos associados ao brincar 1 10 Ações associadas ao brincar 8 4 Pessoas associadas ao brincar 6 4
Faixa etária associada ao
Segundo Johnson, Christie e Yawkey (citados por Spodek & Saracho, 1998) os meninos envolvem-se mais em brincadeiras de luta, parecendo mais ativos que as meninas. Já as meninas envolvem-se mais frequentemente em brincadeiras com matérias mais complexos, mostrando um maior interesse em recorrer a diferentes brinquedos e materiais. Por este motivo os educadores de infância devem oferecer alternativas ao grupo e tentar eliminar comportamentos estereotipados.
Concluindo a discussão dos resultados deste estudo, e relativamente às conceções deste grupo de participantes, observamos que estes consideram o brincar como um meio de desenvolvimento de competências, mas também uma atividade que evoca sentimentos agradáveis como a felicidade. Os participantes destacam também o papel dos brinquedos e de atividades como jogar, saltar, ou seja, ações que impliquem movimento, nas suas conceções sobre o que é brincar.
As pessoas que os participantes mais associam ao brincar são os filhos/as, o que nos indica que esta atividade está intimamente ligada à infância, no entanto, como se pode observar no Apêndice I, existem dois participantes que consideram o “brincar” intemporal, pois referem que “não tem idade” e que devíamos brincar “para sempre”.
Tendo em atenção a totalidade das respostas dos participantes e após uma análise pormenorizada, conclui-se que este grupo valoriza o brincar, acreditando que é
uma atividade “fundamental para a vida”, o que sugere a sua valorização. Podemos afirmar que as opiniões referidas mostram uma conceção positiva, enfatizando que a brincadeira promove o desenvolvimento de diferentes competências, ao invés de uma visão redutora acerca deste conceito, não sendo encarado como um “passatempo” ou menosprezado pelos participantes em questão.