Inicialmente, eu planejava realizar uma pesquisa cujo objetivo era analisar como um grupo mulheres integrantes da Comunidade Quilombola do Mato do Tição participa, por meio da cultura escrita, da constituição, da manifestação e do reconhecimento da identidade quilombola ― transcrição exata do projeto inicial. Além disso, investigar como ocorre a circulação de símbolos e significações, relativas a essa cultura. Pesquisadora de primeira viagem, tentei obcecadamente buscar “onde estava a cultura escrita” naquela comunidade, ansiosa por qualquer sinal de escrita, forçando, nas minhas elucubrações mentais e devaneios, comparações e análises profundas a cada vez que alguma daquelas mulheres buscava uma caneta ou um papel.
No entanto ― assim como me mostraram as muitas leituras de etnografias e de teoria antropológica que precederam a pesquisa empírica ― fui a campo, permitindo-me ser afetada pelas experiências, e me esforçando para não estar atada aos apriorismos do projeto inicial de pesquisa. Conflito inicial: Perder o objeto! Com o passar do tempo, porém, e aprendendo também sobre a lógica do tempo no quilombo, comecei a interagir com o campo com mais tranquilidade. A vivência e a interlocução com a comunidade, dessa forma, transformaram as configurações dos temas e dos problemas de pesquisa. Passei a perseguir os sujeitos em suas interações com a linguagem de uma forma mais ampla, observando as categorias que aí emergiam, as possibilidades conceituais elaborados pela a sobre a linguagem em Mato do Tição e as singularidades pelas quais a comunidade operava. O meu objeto estava bem ali, nos imponderáveis da vida real. Para encontrá-lo, foi necessário desfazer os limites que antes delineavam meu campo, tornando-me estrangeira em relação ao meu próprio pensamento, estranhando-o.
Como já dissemos na introdução deste estudo, propusemos à comunidade a retomada do MOVA. Essa proposta justificaria a minha presença ali, além de cumprir com a parte tão
desafiadora da observação na opção metodológica da „observação participante‟. A resposta que tive ao propor a retomada do projeto foi que o jovem raramente num tinha educação, num pedia bença o pai e a mãe, à vó, os mais velho. E foi exatamente aí que eu errei. Pedir a bença em Matição consiste em reconhecer as hierarquias e as respeitar. É, antes de “sair entrando”, respeitar as vivências e as experiências das anfitriãs e dos anfitriões. Antes de “saber” quais são as demandas, as necessidades e as vontades das pessoas do Matição, devesse eu, no mínimo, conhecê-las e respeitá-las.
De alguma maneira, saí da reunião na qual apresentei a pesquisa e a proposta um pouco angustiada. Eu diria, até frustrada. Ia por água abaixo meu plano de morar no Matição dando aulas, de investigar, a partir daí, as culturas do escrito, já pensando que isso poderia trazer importantes contribuições no campo da educação de adultos. Mas o não à retomada do MOVA já começou há anos.
Talvez a escrita vinculada à escola não tivesse tanto sentido, fazia mais sentido empenhar as funções do registro para proteger os saberes dos velhos, já que essa geração vai morrendo e os jovens não se interessam pelo saber deles, o povo de fora, até nas universidade, tio Badu vai dá curso, mas aqui mesmo ninguém interessa ― como me disse Marilene em um de nossos primeiros encontros. O ciclo de perpetuação e a manutenção dos saberes entre as gerações por meio da oralidade seria, na opinião tanto de Marilene como de D. Nilse, quebrado pelo aparente desinteresse dos jovens caso não haja alguma mobilização que mude essa possibilidade. Uma forma de proteger o saber seria deixá-los todos registrados. Aí também a gente poda mostrar pras escolas, pras pessoas que vem aqui conhecer o quilombo, levar pra quando, por exemplo, tio Badu vai dar aula na universidade. Portanto, a função desse registro seria de não apenas de “proteger”, como também de torná-lo acessível a pessoas externas à comunidade. Uma maneira, então, de conceber, por meio da escrita, o saberes dos velhos em uma linguagem mais corriqueira e melhor recebida entre as pessoas de fora? Ou atualizar a maneira de se produzir e transmitir a si tais saberes para perpetuá-los entre os jovens em sua nova condição de sujeitos escolarizados? Provavelmente, uma articulação entre essas duas motivações, sempre com a intenção de “proteger” uma existência, um modo de vida, um direito de ser. Resistir, portanto.
O desinteresse pela retomada do MOVA, que, inicialmente me trouxe angústia e frustração, foi, na verdade, apenas o primeiro questionamento possibilitado pelo campo frente a meus apriorismos. Essa experiência nos desafiou a pensar de outra maneira (ou, de maneira outra) os usos e os significados atribuídos por elas em relação à escrita. Nesse sentido, Graff
(1990) nos ajuda a compreender o alfabetismo, e, portanto, o analfabetismo, como um mito, já que os efeitos por ele produzidos são determinados pela maneira como a “agência humana as explora em um contexto específico” (GRAFF, 1990, p.35). Segundo o autor, pressupõe-se o alfabetismo como um requisito para o desenvolvimento de um grupo, sem, no entanto, entender quais são os conceitos de desenvolvimento estabelecido dentro desse grupo. Nas palavras de Graff:
Os artigos sobre as „consequências‟, „implicações‟ ou „concomitantes‟
presumidos do alfabetismo têm-lhe atribuído uma quantidade verdadeiramente assustadora de efeitos cognitivos, afetivos, comportamentais e atitudinais. Essas características incluem, nas formulações ou listas típicas, atitudes que vão desde empatia, espírito de inovação, atitude empreendedora,
„cosmopolitismo‟, espírito crítico em relação à informação e à mídia,
identificação nacional, aceitação tecnológica, racionalidade e compromisso com a democracia, até oportunismo, linearidade de pensamento e comportamento, ou residência urbana! O alfabetismo é, às vezes, concebido como uma habilidade, mas com mais frequência como simbólico ou representativo de atitudes e mentalidades. Isto é sugestivo. Em outros níveis,
os „limiares‟ do alfabetismo são vistos como um requisito para o
desenvolvimento econômico, „decolagens‟, modernização, desenvolvimento político e estabilidade, padrões de vida, controle da fertilidade, e assim por diante. A quantidade de consequências e correlações ecológicas aduzidas é literalmente maciça; poder-se-ia, facilmente encher volumes com elas. A evidência, entretanto, é muito menor que as expectativas e suposições [...]. (GRAFF, 1990, p. 35).
A partir de então, comecei a me inquietar sobre quais seriam os usos da escrita que mais emergiam no campo. Nesse sentido, chamou-me a atenção as relações daquelas mulheres, a maioria delas pouco escolarizadas, em relação ao saber escolar, à escolarização de suas filhas e filhos, a interação entre a escola e a comunidade e à própria experiência com a escola. Além disso, como a escrita aparece ligada à religião, já que essa é uma das instâncias mais importantes na socialidade do grupo. E, por último, a relação delas com a escrita no que diz respeito aos objetivos específicos de retorno à comunidade, como os editais de cultura e projetos além do diálogo com o Estado.