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Uma das práticas locais em que a circulação se faz mais presente são os eventos religiosos ligados ao catolicismo81: rezas, festas, missas, etc. Nos depoimentos dos velhos, a escrita está sempre presente na relação do pai, Benjamin de Siqueira, com a religiosidade, na forma como ele aprendeu as rezas do catolicismo, a leitura da Bíblia, das Escrituras

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O trabalho de Maria José Francisco traz contribuições a respeito da relação entre religião e escrita em dois

trabalhos: Na tese “modos de participação nas culturas do escrito em uma comunidade rural no norte de minas gerais” (2009), a autora apresenta os resultados de pesquisa sobre modos de participação nas culturas do escrito

de determinado grupo pertencente a uma comunidade rural localizada no município de Porteirinha, no norte de Minas Gerais. O grupo focalizado é o de rezadeiras e benzedores, adultos com breves experiências de escolarização, estabelecidos na tradição oral em uma região com escassa produção e circulação de material escrito. Segundo seus resultados, a Igreja Católica é a principal instância na difusão de material escrito e de práticas de leitura e de escrita, influenciando fortemente o desenvolvimento de habilidades de leitura e de escrita de alguns dos sujeitos estudados.

Sagradas. Os padres falavam assim, você tem que estudar, ler muito igual seu pai, pra poder ficar igual ele assim espalhando a fé pro povo. Ou papai lia muito, muito mesmo, lia a bíblia todo dia e, às vezes, punha nós pra ler também, mas falava que aquilo era pros velho. E nessa leitura toda ele foi o que foi aqui pro povo e nós aprendeu foi com ele. Ou ele aprendeu foi com os antigo, mas ficava lendo muito pra aprender também, ele lia até em latim. Os velhos atribuem importância à atitude do pai de ler muito para aprender, mas excetuando D. Nilse (das mulheres), elas não têm o hábito de ler a Bíblia como fazia o pai.

No decorrer do trabalho de campo, participei de muitos eventos religiosos: das festas e rezas, das coroações, dos preparos. Nos preparos das festas, principalmente das grandes, como dos padroeiros, ou a reza de São João, é necessária uma organização e uma divisão de tarefas sistematizada ― o que é feito por meio da escrita. Sabrina escreve nos computadores da comunidade, imprime e distribui. Nesses materiais, estão as listas de compras, as divisões de tarefas, cronogramas e outros. Além disso, na organização dos próprios comércios: a impressão de ficha para as barraquinhas, a elaboração de cartazes que apresentam o cardápio com as delícias de Matição. A organização dos eventos está permeada pela presença da escrita.

Um evento que conta com uma autêntica presença da escrita é a Queima do Judas. No retorno do cortejo, é lido o testamento do Judas com alusão às heranças deixadas para cada morador. Isso é feito de acordo com as famas de cada um: aquele que tem fama de avarento, de dedo duro, etc., recebem o testamento de acordo com o que merecem. Mas ninguém se ofende. É um momento de muita diversão: todos riem, fazem comentários, mexem uns com os outros. Alguns até preparam a vingança no testamento do ano seguinte. Em seguida, ocorre o bingo em que todos participam.

Em maio, no Mês de Maria, tem coroação todos os dias. A música puxada pelos tios anuncia a entrada das anjinhas vestidas de branco, que cantam acompanhadas pelo coral de mulheres que existe em Matição. Cada uma das mulheres do coral tem uma pasta com as letras das músicas. É por ela que as cantoras acompanham o repertório, tanto nos momentos do ensaio ― que acontecem perto de uma hora antes do início da reza na frente da casa de D. Nilse, como durante a coroação. Quem é responsável por ensaiar as crianças é Adriana ― nora de D. Nilse, que também foi professora do MOVA. Ela entrega para cada uma um papel com a letra das canções, e repete com elas até que decorem ― e que cantem afinadas. Quando a criança é muito pequena e ainda não sabe ler, Adriana repete com ela quantas vezes for necessário para ela lembrar.

Hoje é dia de alegria

Vamos todas meninas saldar a rainha Hoje é dia de festa no céu, oh viva! Dá licença que eu vou entrar

Que nossa senhora mandou me chamar. Adeus, adeus

Eu agora eu vou me embora Você fica aí com Deus

Que eu vou com Nossa Senhora.

Essas são algumas das canções que as anjinhas que vão coroar nossa senhora cantam. As meninas cuidam dos papéis com as letras das canções assim como as mulheres adultas cuidam da pasta com o repertório: com devido capricho e organização. Quando alguma delas perde uma das músicas, é um “fuzuê”. As demais não ficam bravas, mas, mesmo em tom de piada, o ensaio para e as atenções se voltam para aquela que, ansiosamente, procura o papel perdido. Mais uma vez, a presença da escrita na organização de algum evento importante na comunidade.

Nas rezas do mês de maio, algumas mulheres fazem a leitura do Evangelho e dos Mistérios de Maria. Outras, como é o caso de Rosa, Rosaura e D. Nilse o fazem de cor. Durante as rezas, as missas e as festas, existem elementos que estão relacionados ao uso simbólico da cultura escrita ― como a presença da Bíblia aberta no altar. Apesar de haver disseminação e uso dos escritos e dela ser importante na organização dos eventos, não é a presença da escrita que define, conduz ou marca aquelas práticas, normalmente conduzidas pela oralidade. Nesse sentido, é interessante trazer Silva e Galvão (2007), cuja pesquisa sobre processos de aproximação com a cultura escrita realizada em Pernambuco (1950-1970) demonstra que as práticas religiosas, mesmo aquelas que são fundamentalmente marcadas pela oralidade, possibilitam maior contato dos sujeitos com a cultura escrita. Segundo as autoras, fatores relacionados às práticas religiosas como a condição de liderança religiosa ou organização de eventos contribuem para a formação de leitores.

O catolicismo exercido em Matição se organiza em torno da própria comunidade, com as tradições herdadas do pai Benjamim, com a permissão dada pelo santo padre de erguer a capela ali mesmo, das rezas aprendidas também pela Tia Tança. Raramente as mulheres participam de missas no centro de Jaboticatubas ou em outras comunidades. O que diferencia o contato das pessoas do Matição com outros espaços religiosos que atuam como propagadores de material escrito é o fato de que os próprios quilombolas é que produzem a

maioria dos materiais que circulam, como os folhetos e cartilhas82. Atualmente, fazem-nos com ajuda das gerações mais novas e dos computadores, mas, em algumas conversas, foi-me relatado que, antigamente, era tudo feito à mão e distribuído (em uma época que iam mais pessoas às rezas, hoje, segundo D. Nilse, vai pouca gente porque tem capela pra todo lado e o povo não quer mais saber de rezar).

As rezas e as rezadeiras― com destaque para as mais velhas (D. Divina, D. Nilse, D. Bina), mas também algumas mais jovens, como Rosa e Rosaura ― demonstram a capacidade de memorização de orações, de curase de cantos diversas, com diferentes graus de complexidade. Esse repertório, na maioria das vezes, era aprendido e veiculado via oralidade. D. Bina observa que hoje já tem a necessidade de deixar anotado, de antigamente nós lembrava tudo de cabeça mesmo. Hoje tem coisa demais na ideia, aí fica difícil de lembrar mesmo. Souza (2009) também observou, em sua pesquisa a respeito da cultura escrita em uma comunidade rural no município de Porteirinha, cada vez mais dependência a registros escritos em manifestações religiosas. Segundo ela:

Se, por muito tempo, ter “boa memória” e dominar com eficiência um repertório de rezas e de benzeções aprendido e veiculado oralmente era marca de prestígio a favor de rezadeiras, com a maior presença da escrita nas celebrações religiosas, principal espaço de encontro na comunidade, o lugar de destaque outrora ocupado por esses sujeitos ficou cada vez mais restrito. À medida que as celebrações passaram a ter maior presença de textos escritos

―Bíblia, livros, folhetos e cartilhas ― o lugar de destaque tornou-se cada vez

mais destinado a quem sabe ler. (SOUZA, 2009,p. 171).

82 A tese de Sônia Maria Alves de Oliveira Reis, defendida em 2014, aprofundou nas análises das relações entre

gênero e cultura escrita: Mulheres camponesas e culturas do escrito: trajetórias de lideranças comunitárias construídas nas CEBS, orientada por Carmem Lúcia Eiterer. Nesse trabalho, foram analisadas as condições e as instâncias formativas por meio das quais mulheres camponesas, pouco ou não escolarizadas e líderes das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) construíram sua participação na cultura do escrito. Para realizar a análise proposta, a autora selecionou seis mulheres camponesas, filhas de pequenos agricultores, e cujas infâncias foram marcadas pela religiosidade popular e pelo difícil acesso à escola. A distribuição do acesso à cultura escrita para

essas mulheres foi regulada pela escolarização, e limitada “devido a fatores referentes ao âmbito social, à

etnia/raça e ao gênero” (p. 219). Nesse sentido, a experiência de participação das líderes nas CEBs ― que atuam

“como espaços de fortes laços de solidariedade e de formação da consciência crítica das camadas pobres” (p. 220) ― como é concluído nessa pesquisa, apresenta-se como possível agência de letramento, ou seja, como um

elemento capaz de mobilizar nos sujeitos novas relações com a própria identidade.As entrevistas realizadas por Reis apontam para o fato de que as mulheres demonstram ser sujeitos ativos, agentes produtoras de uma organização social e de ideologias, e superam a condição de vítimas a que, muitas vezes, são relacionadas. No contexto das CEBS, onde atuam como agentes, elas participam de atividades nas quais são engendradas diferentes práticas de letramento, com diferentes usos e funções da escrita. Essas práticas surgem, conforme a autora, como apoio para um processo gradual de empoderamento experimentado pelas mulheres. Sentimento esse gerado pelos discursos e pelos valores constituídos sobre demandas da leitura e da escrita vivenciados por elas e pelos sentidos que atribuem a suas práticas.

Em Mato do Tição, o processo parece ser um pouco diferente. Na medida em que entram materiais escritos e aparece a necessidade da escrita para as celebrações, ocorrem mudanças na valorização, pelas próprias pessoas da comunidade ― e por estudantes, pesquisadores e curiosos, diga-se de passagem ― daquelas que ainda carregam na memória o vasto repertório das rezas e dos cantos, que passam a ser vistos como museus vivos. O risco que se corre, entretanto, é o fato dessa valorização ser atribuída a um elemento que remete ao tradicional, ao ancestral (no sentido de menos evoluído), ao exótico.

Dessa forma, podemos perceber como os eventos ligados à religião aproximam as mulheres da Comunidade Quilombola do Mato do Tição das culturas do escrito, como também contribuem para a organização da vida no quilombo, o que diz respeito a essas atividades. Entretanto, a oralidade continua sendo o principal elemento que direciona e sustenta as práticas religiosas ― as rezas, as curas e as benzeções. Ainda que os cantos e as rezas se apoiem em um material escrito, é apenas um auxílio, ou seja, a realização das rezas não necessita de leitura. Assim, a relação que estabelecem com a escrita no âmbito religioso é marcada por diversos aspectos, por vezes, ambíguos: as anciãs fazem críticas à falta de memória dos jovens (processo, talvez, catalisado pela maior inserção na cultura escrita), mas acham que os recursos possibilitados pela escrita que favorecem a memória, facilitam a organização dos eventos (como é o caso da festas). Ou seja, o fenômeno da presença da leitura e da escrita nos eventos religiosos evidencia relações complexas, diferentes formas de contato com a escrita, diferentes pontos de vista em relação a ela e relações específicas entre a oralidade e a escrita.