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Esilene dos Santos Reia

Maria Mozarina Beserra Almeida Isaías Batista de Lima

Os limites da minha linguagem de- notam os limites do meu mundo.

Ludwig Wittgenstein

Introdução

O

termo inclusão tem sido, nos dias atuais, o foco de várias discussões entre os educadores da rede pública de ensino. A legislação é explícita quanto à obrigação das escolas de acolher todas as crianças que se apresentem para matrícula, sejam elas portadoras de necessi- dades especiais ou não (Resolução CNE/CEB, nº 2, art. 2º). A política nacional de educação especial dá prioridade para atendimento de todas as pessoas com necessidades especiais – mental, visual, auditiva, física e múltipla, além dos portadores de condutas típicas (problemas de con- duta) e das pessoas superdotadas na rede de ensino comum (LDB/1996).

Nesse contexto, algumas mudanças ocorrem na educação brasi- leira pautadas em leis, decretos e resoluções que impulsionam a inclusão

social e educacional. Essas mudanças implicam, principalmente, a rees- truturação do ambiente escolar, para que este possa receber e atender às diferentes necessidades dos educandos. Porém, a inclusão do aluno surdo não depende apenas da sua matrícula em uma turma de ensino regular; deve ser respeitada, ainda, a sua condição sociolinguística.

O processo de inclusão exige uma rede de apoio, na qual se destaca a figura do intérprete da Língua de Sinais, para assegurar que o aluno tenha acesso, na sua própria língua (Libras), aos conteúdos das disciplinas.

De acordo com Brasil (2002, p. 11 apud RAMOS, 2011, p. 65), o tradutor-intérprete é a “pessoa que traduz e interpreta a língua de sinais para a língua falada e vice e versa, em quaisquer modalidades que se apresentar (oral ou escrita)”. O Decreto nº 5.626/2005 considera como tradutor e intérprete da língua de sinais e da língua portuguesa aquele que interpreta de uma língua fonte para outra língua alvo. Segundo tal decreto, a formação desse intérprete deve efetivar-se por meio de curso superior de Tradução e Interpretação, com habilitação em LIBRAS/ Língua portuguesa. Essa formação permite que o intérprete da Libras atue na educação infantil, na educação fundamental e na universidade (GUARINELLO et al., 2008).

Alguns autores ressaltam que, no Brasil, o intérprete encontra possibilidades restritas para o seu exercício profissional, com baixos salários e difícil acesso a cursos referentes à sua área de atuação, os quais são geralmente ofertados nos grandes centros urbanos (PIRES; NOBRE, 2000). Por essas razões, ainda é escasso o número de pessoas habilitadas para cumprir essa função. Dessa forma, os contextos educa- cionais que efetivamente contam com a prática de intérpretes em sala de aula são limitados.

Desde que foi garantida por lei a presença da Libras nos espaços de sala de aula, a mesma é compreendida como sendo de responsabili- dade dos tradutores e intérpretes da língua, cuja função, de acordo com Lodi (2013), mostra-se indefinida no documento e mesclada com a de outros profissionais de apoio educacional:

Cabe aos sistemas de ensino, ao organizar a educação especial na perspectiva da edu cação inclusiva, disponibilizar as fun-

ções de instrutor, tradutor/intérprete de Libras e guia-intérprete, bem como de monitor ou cuidador dos alunos com necessidade de apoio nas atividades de higiene, alimenta ção, locomoção, entre outras, que exijam auxílio constante no cotidiano escolar (BRASIL, 2008, p. 11).

A Lei que regulamenta a profissão de tradutor e intérprete de língua brasileira de sinais é recente. De acordo com a lei nº 12.319, de 1º de setembro de 2010, segundo o Art. 6º, compete aos intérpretes:

I – Efetuar comunicação entre surdos e ouvintes, surdos e surdos, surdos e surdos cegos, surdos cegos e ouvintes, por meio das Libras para língua oral e vice-versa;

II – Interpretar, em Língua Brasileira de sinais – Língua por- tuguesa, as atividades didático-pedagógicas e culturais desen- volvidas nas instituições de ensino nos níveis fundamental, médio e superior, de forma a viabilizar o acesso aos conteúdos curriculares;

III – Atuar nos processos seletivos para cursos na instituição de ensino e nos concursos públicos;

IV – Atuar no apoio à acessibilidade aos serviços e às ativida- des-fim das instituições de ensino e repartições públicas; e V – Prestar seus serviços em depoimento em juízo, em órgãos administrativos ou policiais (BRASIL, 2010).

A inserção do intérprete na sala de aula e o cumprimento de suas atribuições conforme garante a lei, teoricamente, devem minimizar as dificuldades encontradas pelos surdos, pois estes convivem com a desi- gualdade linguística dentro da sala de aula, por não terem uma língua compartilhada com seus colegas e professores ouvintes.

A disciplina de Química é considerada por muitos alunos como complexa, pois exige a compreensão de conceitos abstratos e utiliza uma linguagem específica, o que para eles pode representar uma difi- culdade em compreender determinados conceitos químicos, acentuada ainda mais quando a língua utilizada é desconhecida pelos alunos.

É isso que acontece com a maioria dos alunos surdos que cursam o Ensino Médio; pois, desprovidos da audição, recebem o conteúdo quí- mico em uma língua oralizada.

No que se refere à dificuldade dos alunos em compreender os conceitos químicos, Torriceli (2007, p. 16) afirma que: “A aprendi- zagem da Química passa necessariamente pela utilização de fórmulas, equações, símbolos, enfim, de uma série de representações que muitas vezes pode parecer muito difícil de ser absorvida”. Os pesquisadores Quadros et al. (2001, p.12) fazem suas considerações mostrando a im- portância do professor para a ligação entre o mundo concreto e o abs- trato no aprendizado dessa disciplina:

Esta ciência trabalha situações do mundo real e concreto cujas explicações, na maioria das vezes, usam entidades do mundo chamado microscópico, tais como átomos, íons, elétrons, entre outros. Navegar neste mundo infinitamente pequeno e, por- tanto, abstrato, usando essa abstração para explicar o mundo real, é difícil para uma parte significativa dos estudantes. Consideramos que o trabalho do professor poderia se dirigir exatamente para a ligação entre esses dois mundos – macroscó- pico/concreto e microscópico/abstrato – dando significado aos conteúdos químicos.

Nessa perspectiva, não é simples o papel do professor de Química como mediador no processo de construção do conhecimento científico dos alunos. Tratando-se de alunos com surdez, a situação se configura como um grande desafio, pois devido à falta de sinais apropriados para conceitos químicos em Libras e o fato de a maioria dos indivíduos des- conhecerem essa língua, o professor tem dificuldade em eliminar a bar- reira que prejudica o processo de ensino e aprendizagem, caracterizada pela falta de comunicação.

Diante dessa realidade, o papel do intérprete de Libras torna-se fundamental para o processo de ensino e aprendizagem de conceitos químicos para alunos com surdez. Segundo Lacerda (2002), são poucas as escolas que se preocupam com essa problemática, ou seja, que têm permitido ou proposto a inserção do intérprete em sala de aula como

possibilidade para solucionar ou minimizar os problemas linguísticos enfrentados pela comunidade surda no cotidiano escolar.

Diante do exposto e considerando que o ensino de ciências tem um papel importante na educação para contribuir com o desenvolvi- mento intelectual do indivíduo, este estudo procurou investigar o en- sino de Química sob a ótica da inclusão, direcionando o foco aos intér- pretes de Libras, com o objetivo de investigar a atuação destes diante das dificuldades em traduzir os conceitos químicos para Libras.