A opção por bovinocultura pela expressiva maioria das famílias participantes do Projeto Quilombolas não significava necessariamente a aquisição de gado, mas quaisquer investimentos em infraestrutura relacionada ao manejo dos animais, como melhoria ou ampliação de pastos, construção ou reforma de cercas ou de silos, aquisição de insumos, equipamentos ou instrumentos dedicados exclusivamente à atividade. Aos extensionistas coube, de acordo com as etapas previstas para a execução do projeto, apoiar os agricultores na escolha da atividade produtiva em que investiriam o valor do fomento oferecido, orientar as famílias na implantação da proposta e verificar se o dinheiro estava sendo investido de acordo com o planejado.
Nas oportunidades em que acompanhei o trabalho dos extensionistas, discuti o tema da escolha maciça pelo investimento em bovinocultura com todos os técnicos, separadamente, e com diferentes abordagens. Às vezes eu perguntava como eles viam a opção por bovinos, às vezes como viam a opção por outras formas de produção animal ou vegetal. Nas entrevistas eu tentava ouvir quais eram, para eles, as vantagens e desvantagens das diferentes opções de atividade produtiva na região. O argumento mais comum utilizado pelos extensionistas para explicar a opção pela bovinocultura era a “tradição regional” – termo por eles utilizado – da atividade de bovinocultura. Quando os provoquei a explicitar como, concretamente, essa “tradição” teria influenciado na escolha dos agricultores, os comentários dos extensionistas ganharam diferentes contornos.
Alguns extensionistas disseram que a maioria dos agricultores da região nutria uma “vontade de possuir gado”. A realização dessa vontade teria levado muitos agricultores a aproveitar a oportunidade de acesso ao recurso de R$ 2.400,00 – montante incomum para a maioria das famílias participantes do projeto – para iniciar ou reiniciar a atividade de bovinocultura. Em algumas falas dos extensionistas sobre essa vontade de possuir gado foi mencionado também o status de se “ter uma vaquinha”, o que seria visto por outros indivíduos da comunidade como um sinal externo de sucesso (ou de “poder” como preferiram se expressar alguns extensionistas).
O extensionista 541 argumentou que em se comparando a atividade de bovinocultura com outras ligadas a animais de menor porte (aves, suínos, ovinos) o agricultor consideraria dois elementos: 1) A vulnerabilidade desses animais de menor porte ao ataque de outros animais (como cobras e predadores); e 2) A relativa facilidade da ocorrência de roubos também no caso de animais de menor porte. O extensionista relatou, ainda, que o agricultor se aborreceria mais pelo fato de ter os animais subtraídos do que propriamente pela perda financeira ou do fator de produção representados pela falta dos animais.
Os extensionistas mencionaram também a noção de viabilidade que o agricultor teria sobre a atividade de bovinocultura que incluiria o uso do leite para a alimentação da família (seja in natura ou como ingrediente para o preparo de outros alimentos) e do seu excedente para fabricação de queijos que serviriam para diversificar a alimentação e para complementar a renda da família. Em outro argumento alinhado à noção de viabilidade, extensionistas referiram-se à suposta facilidade de manejo do gado, que não demandaria um acompanhamento tão próximo quanto o exigido por animais de menor porte. De acordo com os extensionistas, muitos agricultores simplesmente soltavam o gado pela manhã “para procurar comida” (ou os deixavam livres para pastar) e os recolhiam no final da tarde. Essa forma simplificada de manejo possibilitaria que os agricultores conciliassem bovinocultura e outras atividades desenvolvidas fora da propriedade, como serviços a terceiros, o que era uma vantagem para a composição da renda da família.
O extensionista 4, que era veterinário e especialista em bovinocultura, lembrou que, segundo dados a que teve acesso, no ano de 2012 foram vendidas cerca de 37 mil cabeças de gado no município. Esse número não incluiria a comercialização informal. Como destacado anteriormente neste capítulo, a venda do gado a um preço normalmente muito inferior ao valor de mercado é uma forma adotada pelos agricultores para reduzir os prejuízos nos períodos de seca. Esse extensionista era, pela divisão do trabalho estipulada pela equipe do escritório, responsável pelo acompanhamento técnico a 86 das 260 famílias participantes do Projeto Quilombolas. Das famílias acompanhadas por ele, apenas três fizeram opção diferente de bovinocultura para investir o valor do fomento oferecido pelo projeto.
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Para identificar os extensionistas utilizarei os números de 1 a 5 atribuídos a eles no Quadro 10, apresentado na página 76, sob o título “Caracterização dos extensionistas que compunham a equipe de trabalho do escritório”.
Giovanni: “na situação que você expõe... que é a situação que a gente vê mesmo por aí... a atividade de bovinocultura para o pequeno produtor seria a mais indicada?”
Extensionista 4: “agora... por esses três anos de seca aqui... está bem periclitante para o lado deles... né? até os grandes empresários estão vendendo animais... reduzindo o número de animais nas propriedades devido à baixa capacidade de suporte das pastagens...”
Giovanni: “neste projeto agora [Projeto Quilombolas]... das famílias que você está acompanhando a grande maioria é de bovinocultura, né?”
Extensionista 4: “não é muito fácil mudar para uma atividade que eles não têm muito domínio...”
No extrato da entrevista apresentado acima, o extensionista reconheceu que a opção pela bovinocultura por parte do agricultor familiar, sobretudo em face de um regime irregular de chuvas nos três últimos anos, havia sido uma atividade de risco, já que mesmo os produtores de maior porte estavam reduzindo o rebanho em função da escassez de pastos. Por outro lado, o técnico revelou a dificuldade em dissuadir o agricultor em função de um domínio da atividade de bovinocultura que os agricultores alegariam ter. No entanto, o extensionista declarou que tal “domínio” era insuficiente para fazer frente às dificuldades impostas pela seca na região.
Giovanni: “o que você está dizendo é que na parte de bovinocultura eles não têm tanto domínio?”
Extensionista 4: “[eles têm] domínio assim... no extrativismo... você está entendendo? (...) devido às tecnologias disponíveis hoje é considerado quase um extrativismo ainda... você está entendendo, não? (...) pelo número de animais... para adotar determinada tecnologia... exige determinado investimento que para investir para um animal... dois animais (...) é a mesma coisa que para investir para muitos (...) fazer uma irrigação para um hectare exige um x de investimento que pelo número de animais... dois animais... quatro animais... esse investimento x é muito alto...”
A tecnologia a que o extensionista se referiu incluía, por exemplo, o cultivo de milho com semente transgênica e em lavoura irrigada, o que permitiria até três safras anuais, opção essa que estaria se tornando comum para os produtores de médio e grande porte. Essa tecnologia demandaria considerável volume de investimentos em sistemas de irrigação, mecanização de colheita e estruturas de silagem42 para garantir a alimentação regular do gado. Para os
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Silagem ou ensilagem é a técnica utilizada para armazenamento de alimento para o gado produzido na “estação das águas” para utilização em períodos de seca ou quando o período de chuva ainda não tenha sido suficiente para formação de pastagem. O tipo de silo mais comum no município era o
agricultores familiares, restariam as variedades resistentes à seca (ou sequeiras, no jargão agrícola), como milho e sorgo, que mesmo indicadas para situações de pouca chuva, não estavam resistindo às secas que vinham acometendo a região.
Essa dificuldade para dissuadir os agricultores familiares em relação ao investimento dos recursos do Projeto Quilombolas em bovinocultura apareceu também nas verbalizações do extensionista 1. Seus depoimentos davam conta de que os produtores, em sua maioria, estavam já decididos a desenvolver determinada atividade produtiva, no caso a bovinocultura, a despeito de qualquer argumento ou orientação dos extensionistas. Ao relatar dificuldades em dissuadir o agricultor, o técnico mencionou o cuidado que os extensionistas precisavam ter em relação ao limite que separaria a “orientação” da “indução”. O respeito a esse limite teria sido uma exigência do órgão patrocinador do projeto para o qual o papel do extensionista era de orientar os agricultores por meio de recomendações para melhoria de suas práticas. O papel de orientação deveria ser mantido até “determinado ponto” a partir do qual a manutenção de recomendações contrárias às convicções dos agricultores configuraria insistência. Essa insistência caracterizaria, por sua vez, uma tentativa de induzir a escolha do agricultor, o que não seria uma conduta adequada dos agentes de extensão rural. Embora eu tenha tentado compreender, por meio de entrevistas, como os extensionistas faziam para reconhecer a fronteira entre a orientação e a indução, o ponto de transição não me restou claro.
O que os extensionistas disseram sobre a escolha dos agricultores da bovinocultura para investimento dos recursos disponibilizados pelo Projeto Quilombolas foram leves variações dos temas tratados nesta seção. Já os agricultores revelaram sobre a escolha que fizeram motivações mais nuançadas que apresento a seguir.