Em entrevista realizada com um dos coordenadores técnicos da unidade regional à qual o escritório municipal focalizado por este estudo está vinculado, pude obter elementos relevantes para compreender o ponto de vista dos gestores em relação ao trabalho dos extensionistas em campo.
O coordenador mencionou diversas vezes uma metodologia desenvolvida pela própria empresa para orientar o trabalho do extensionista junto aos agricultores. Essa metodologia foi documentada no formato de um livro, do ano de 2006, que em 134 páginas descrevia detalhadamente os passos a serem seguidos pelo técnico durante o atendimento ao agricultor. Registro, porém, que durante toda a pesquisa de campo não presenciei, uma vez sequer, extensionistas consultando esse livro, a despeito do trecho de apresentação da obra reproduzido a seguir – redigido por um diretor do órgão federal que financiou a publicação – que dava o tom da expectativa nutrida pelos gestores em relação ao uso do material.
Que este não seja um livro de gaveta, mas que seja empoeirado pela vida do solo das nossas comunidades, molhado pela água dos rios e riachos e pelo suor do nosso trabalho; que seja um instrumento de trabalho (RUAS et al., 2006, p. 10).
O livro abordava a metodologia de extensão rural proposta pela empresa em um texto organizado em sete capítulos: 1) Apresentação; 2) Introdução; 3) Resgate histórico; 4) Desafios atuais; 5) Referencial teórico; 6) [Nome atribuído à metodologia que também dá título ao livro]; 7) Técnicas; 8) Considerações finais; e 9) Bibliografia consultada. Ao descrever a conduta indicada para a etapa do atendimento denominada “Primeiro momento” do contato entre o extensionista e o agricultor, lê-se a seguinte passagem:
É importante resgatar a história de vida das pessoas, como vivem e produzem, e debater com elas suas condições de vida com relação à saúde, educação, produção, comercialização, cultura, lazer, meio-ambiente, infra- estrutura [sic], organização, as atividades não agrícolas, dentre outras, para que, a partir da compreensão desse contexto, as pessoas estabeleçam estratégias de atuação capazes de promover mudanças na sua realidade rumo ao futuro desejado. É importante também resgatar a história que envolve a realidade do extensionista (Ibid., p. 43).
Outro elemento de destaque que emergiu durante a entrevista foi a indicação de que, para incentivar mudanças no modo de operar do agricultor a fim de melhorar os resultados de sua prática, “o técnico não pode impor, é preciso convencer” e que a tendência à imposição estaria associada ao indivíduo que não se encontraria “bem preparado”. O princípio tido como fundamental para a gestão parece ser, nos termos desse coordenador, o de “nunca desprezar o conhecimento do produtor”.
Sobre a “preparação” mencionada, o coordenador disse que a empresa oferecia para os extensionistas contratados um período de “pré-treinamento” que consistia em conteúdos teóricos ministrados em centros de treinamento que a empresa mantinha em diversas regiões do estado. Essa formação teórica era complementada posteriormente em um momento denominado pela empresa como “parte prática” que previa um período em que o novato acompanhava o trabalho de extensionistas experientes durante atendimentos aos agricultores. Durante a pesquisa documental que realizei, tive acesso ao material de treinamento disponível na biblioteca do escritório municipal da empresa. Os textos focalizavam principalmente a apresentação detalhada das diversas técnicas de extensão rural a serem utilizadas e davam destaque também para discussões metodológicas. Essas discussões – de aparente inspiração freiriana – traziam críticas ao difusionismo e propunham uma abordagem educacional baseada na comunicação e na aprendizagem mútua entre extensionistas e agricultores, o que demonstrava a disposição teórica para mudança da prática convencional de extensão rural.
A concepção de educação ora preconizada não pretende, pois, “levar” conhecimentos, normas e “receitas” de qualquer tipo ao meio rural. Não pretende educar mediante mera transmissão, nem mediante simples difusão. Se o conhecimento se gera e/ou se recria no diálogo ou na comunicação entre sujeitos, desaparece a relação tradicional do instrutor e do treinando. Ambos serão educadores-educandos simultaneamente, educando-se reciprocamente no processo de relacionamento humano, no debate, na problematização, no equacionamento, na ação criadora e na busca conjunta de soluções para os problemas da realidade que desejam transformar (EMBRATER, 1987, p.19).
A ênfase em políticas públicas surgiu na entrevista, assim como se dava nas comunicações institucionais na empresa, como um aspecto central na atividade do extensionista. O coordenador disponibilizou uma relação de 45 políticas públicas diferentes (apresentada no capítulo anterior) que estariam sendo desenvolvidas com diferentes níveis de participação da empresa, seja de forma mais direta (na divulgação, na execução ou na fiscalização) seja de forma indireta (distintos graus de apoio técnico, social ou material).
“todas essas políticas públicas... principalmente em nível do estado... que logicamente são em parceria com o governo federal... a gente que executa... ‘Minas sem Fome’... estou recebendo essa semana ou semana que vem um pacote de sementes de feijão... milho... sorgo... cada município tem uma cota... tem que distribuir tudo... ‘Luz para Todos’... que é uma política do governo federal em parceria com o governo do estado... todo o levantamento do ‘Luz para Todos’ em Minas Gerais nós que fizemos... ‘Água para Todos’... também a mesma coisa... todas essas políticas que estão executando aí passam pela gente” (Coordenador técnico)
E ele continuou detalhando as tarefas associadas à execução de políticas públicas:
“além das políticas públicas... tem a parte de crédito rural... tem o PRONAF [Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar]... todo o PRONAF nós é que fazemos... todas as linhas de crédito... só o PRONAF são 16 linhas de crédito... tudo isso aí é executado pela turma nossa” (Coordenador técnico)
O coordenador admitiu que o volume de trabalho exigido dos extensionistas para possibilitar a participação da empresa nas diversas ações decorrentes de políticas públicas acabava por sobrecarregar as equipes que já se encontrariam em desvantagem numérica para fazer frente aos atendimentos “normais”, por assim dizer, às famílias dos municípios atendidos36. Segundo o entrevistado uma proporção considerada razoável para garantir um acompanhamento adequado seria de um extensionista para cada 130 famílias. Dados a serem apresentados mais adiante mostrarão que no escritório municipal focalizado na pesquisa de campo a empresa estabelecia uma meta anual muito superior à reconhecida como desejável pelo coordenador. Para aquele escritório a meta anual de atendimentos era de 330 famílias por técnico e, mesmo com o cumprimento da meta, estariam sendo atendidas 1.320 das cerca de 2.500 famílias que habitavam a zona rural do município.
“o problema às vezes é que sobrecarrega... você tem muitas atribuições... não dá tempo... é muita coisa... por exemplo... eu tenho uma série de políticas públicas sendo executadas... se eu tenho uma equipe pequena no município... sobrecarrega aquele técnico que está lá... se eu tenho uma equipe maior... a gente distribui... mas na maioria dos escritórios há falta de técnicos... os municípios do Norte de Minas são grandes... pra trabalhar e
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Por atendimentos “normais” entendam-se aqueles que são executados regularmente pelos extensionistas, tendo como público toda a população rural do município (no caso, aproximadamente 2.500 famílias). Diferentemente do Projeto Quilombolas que resultou de um contrato celebrado entre a empresa e o órgão financiador por meio de uma chamada pública de que participaram também outras organizações que prestam serviços de ATER. Tendo o escritório municipal sido escolhido para executar do referido projeto, aos atendimentos considerados normais somaram-se os necessários para cumprir as atividades exigidas pelo edital para as 260 famílias participantes.
manter é barra... complica pra gente quando a equipe é pequena” (Coordenador técnico)
Um modo de operar amplamente recomendado pela empresa para tentar amenizar esse evidente descompasso entre o número de técnicos e a demanda pelos serviços era a adoção de atendimentos coletivos aos agricultores, o que tanto os gestores quanto os extensionistas da empresa denominavam “atendimento grupal”. Tratava-se de reuniões para as quais era convidado um determinado número de agricultores que participam de atividades desenvolvidas por um ou mais extensionistas. O número de agricultores convidados e de extensionistas envolvidos dependia do propósito e do tipo do evento realizado.
“a metodologia que eu vou usar é que vai garantir a qualidade da minha assistência técnica... você tem que adequar sua metodologia... seu método de extensão... pra fazer uma boa assistência técnica... no Dia de Campo... o alcance... o efeito da difusão de tecnologia é muito grande (...) as visitas individuais são complicadas porque são caras... nós preferimos adotar os métodos grupais... [como] reuniões... palestras... Dias de Campo (...) aí você racionaliza a forma de trabalho e tem uma abrangência maior” (Coordenador técnico)
Por exemplo, para realização da coleta de dados cadastrais de agricultores interessados em participar de políticas públicas de crédito, normalmente eram reunidos cerca de vinte agricultores que eram atendidos por apenas um técnico. Esses encontros costumavam acontecer em associações de produtores, centros comunitários ou escolas, na comunidade em que havia agricultores interessados no cadastramento.
Já para a realização do evento denominado Dia de Campo (FIGURA 2), em que eram tratados temas pré-definidos e adotada uma dinâmica mais instrucional, eram convidados em média quinze agricultores para cada tema abordado, sendo que cada tema era assumido por um extensionista especialista ou que melhor dominasse o assunto em comparação com os colegas. No caso de um Dia de Campo que envolvesse quatro temas diferentes – bovinocultura, suinocultura, avicultura e horticultura, por exemplo – eram necessários quatro extensionistas e convidados cerca de sessenta agricultores. Cada extensionista conduzia sua sessão simultaneamente às demais e os grupos de agricultores iam se deslocando de um local (ou estação, como diziam os extensionistas) para outro da propriedade rural escolhida para sediar o evento. A escolha do local em que o Dia de Campo era realizado precisava atender ao duplo critério de prover condições materiais para as atividades (principalmente espaço e áreas de
sombra para abrigar as pessoas) e de se localizar em um ponto da comunidade rural com melhor acesso para o conjunto dos agricultores convidados.
Figura 2 – O Dia de Campo tinha caráter instrucional e era realizado com grupos de agricultores familiares
Fonte: Pesquisa de campo, 2013-2014
Quando solicitei ao coordenador que comparasse os resultados que os atendimentos coletivos geravam para o agricultor em relação aos gerados pelos atendimentos individuais, ele observou:
“depende da mensagem que você quer levar... o alcance da mensagem... se eu faço um Dia de Campo é preciso definir o que vai ser levado para o agricultor... qual a mensagem que eu quero levar... no Dia de Campo eu estou mostrando uma tecnologia que eu achei interessante... se o cara [referindo-se ao agricultor] chega lá... vê... e aquilo possibilitar a resolução de algum problema na propriedade dele... aquilo vai ser interessante para ele” (Coordenador técnico)
Em relação aos atendimentos individuais, que em verbalização transcrita anteriormente nesta seção o entrevistado considerou “complicadas” porque são “caras”, a percepção foi a seguinte:
“quando vou dar assistência técnica individual... eu estou chegando lá e pegando a realidade daquele produtor... fazendo uma transferência de tecnologia... de conhecimento... de troca de experiência com ele... é diferente (...) nós não recomendamos [a realização de assistências individuais]... mas cada caso é um caso” (Coordenador técnico)
Restou patente nas verbalizações do coordenador que a empresa encorajava os atendimentos coletivos como uma estratégia para que os serviços alcançassem um número maior de agricultores. No escritório municipal focalizado pela pesquisa de campo, como já mencionei, cinco extensionistas precisavam atender cerca de 2.500 famílias, o que resultava em uma relação de aproximadamente quinhentas famílias por extensionista. Esse número era três vezes mais famílias por extensionista do que a relação (de 130 famílias por extensionista) considerada desejável pelo próprio coordenador da empresa e mais de seis vezes a relação (de oitenta famílias por extensionista) exigida pelo órgão financiador do Projeto Quilombolas. A partir da seção a seguir, inicio a apresentação dos resultados do trabalho de campo no escritório municipal focalizado nesta pesquisa.