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pergunta central e alguns itens secundários para deixar as respostas mais claras, com o intuito de melhorar nossa compreensão.

O diálogo com esse material será exposto aqui, nessa parte do trabalho, separada por tópicos com base nas seis temáticas. Nesse sentido, abordaremos primeiro o tema: surfe e diversidade; depois, surfe e ética; surfe e mercado de trabalho; surfe e consumo; surfe e meio ambiente; e, por último, surfe e saúde.

6.4.2.1 Surfe e diversidade

Para esse tema, inicialmente perguntamos se, nas aulas, os jovens conversavam/abordavam/aprendiam sobre surfe e questões de diversidade. Como eles ficaram com dúvida, foi preciso separar alguns temas para que compreendessem a pergunta, assim, os temas colocados como exemplo para essa questão foram: 1) surfe feminino, preconceito e desvalorização das mulheres; 2) homossexualidade no surfe; e 3) surfe inclusivo.

Perguntamos, em seguida, quais assuntos foram trabalhados nas aulas, se algumas dessas temáticas foram abordadas, como foram essas aulas e se eles achavam importante dialogar sobre esses temas nas aulas de surfe.

Nesse sentido, as respostas para essa temática foram transcritas para um melhor entendimento mediante um texto único, apresentando-se da seguinte forma, segundo a fala de cada jovem:

Não! Aqui não conversa disso não, só dos deficientes, só uma vez a gente fez surfe e deficiente, uma aula de surfe com um garotinho deficiente, mas faz tempo, em 2014, veio ano passado também um homem que surfa e é da cadeira de roda. Acho dos deficientes, porque Deus me livre aconteça alguma coisa assim com um daqui, a pessoa não fica sem surfar, a gente pode ensinar a surfar. (Titanzinho, 13 anos). Conversa não... Às vezes, fala do surf inclusivo. Ele fala que o surfe é pra todos, não tem exceção e todos podem surfar... Veio um homem deficiente que surfa já... Não acho, porque aqui não precisa, porque várias mulheres aqui do bairro surfam e aqui não precisa disso não, porque o surfe é pra todos, todo mundo pode surfar. (Vizinho, 13 anos).

Sim! O professor fala com as meninas que sonham em se desenvolver no surfe pra seguir em frente... Ele vai conversando nas aulas, assim... Dá teve o de deficiente. Ano passado veio um deficiente aqui que faz surfe, veio aqui contar sua história aqui no IPOM. Acho importante falar com as meninas, porque tem meninas que não tá ligando no esporte por causa disso, porque o gênero é mais masculino, as pessoas olham mais o homem do que as meninas e as meninas tão muito desligada das coisas por causa disso. Hoje em dia, tá crescendo muita mulher no surfe aqui no Titã, a Larissa Santos, a Yanca, a Juliana, a Nega, muitas mulheres no Titã tá crescendo no mundo a fora. (Portão, 15 anos).

Não, nós trata aqui tudo igual, ninguém é melhor que ninguém. Surfe e deficiente conversa às vezes. Foi ano passado veio um homem que surfa e tá na cadeira de roda... mas nos grupos operativos a gente conversa disso... acho e não acho, porque a gente só tem surfe uma vez por semana e a gente quer surfar... (Havaizinho, 15 anos).

De acordo com a fala desses jovens, dos quatro, apenas um afirmou que o tema 1, surfe feminino, preconceito e desvalorização das mulheres, é dialogado nas aulas. Já o tema 2, homossexualidade no surfe, não foi nenhuma vez mencionado e sobre o tema 3, surfe inclusivo, todos afirmaram ter tido alguma vivência com essa temática em específico.

O jovem que disse ser trabalhado nas aulas o tema 1 falou que esse tema aparece quando, no dia a dia, as meninas são encorajadas pelo professor. Como podemos perceber quando ele destaca:

O professor fala com as meninas que sonham em se desenvolver no surfe pra seguir em frente, ele vai conversando nas aulas assim... (Portão, 15 anos).

Sobre todos terem respondido que já tiveram alguma vivência nas aulas sobre o tema 3, surfe inclusivo, eles destacaram dois momentos pontuais: um foi a visita de um garoto e o outro foi uma palestra de um adulto, ambos cadeirantes.

Sobre se eles achavam importante trabalhar esse tema, surfe e diversidade, dois responderam que sim. Um mencionou que seria importante apenas o trabalho nas aulas com a temática do surfe inclusivo e o outro referenciou que somente a discursão sobre o surfe feminino seria importante ser abordada nas aulas.

O primeiro justificou que seria importante para que, mesmo com deficiência, as pessoas pudessem surfar e eles, ao aprender sobre esse tema, podem ajudar as pessoas, quando responde com a seguinte explicação:

Acho dos deficientes, porque Deus me livre aconteça alguma coisa assim com um daqui, a pessoa não fica sem surfar, a gente pode ensinar a surfar. (Titanzinho, 13 anos).

O segundo jovem, que respondeu achar importante o trabalho com esse tema transversal, já fez a justificativa com base em uma explicação sobre a realidade do surfe feminino do bairro, com a seguinte explicação:

Acho importante falar com as meninas, porque tem meninas que não tá ligando no esporte por causa disso, porque o gênero é mais masculino, as pessoas olham mais o homem do que as meninas e as meninas tão muito desligada das coisas por causa disso. Hoje em dia, tá crescendo muita mulher no surfe aqui no Titã, a Larissa Santos, a Yanca, a Juliana, a Nega, muitas mulheres no Titã tá crescendo no mundo a fora. (Portão, 15 anos).

Essa resposta é bem interessante porque, nesse caso, o jovem constrói seu pensamento tomando a realidade das meninas que surfam do bairro, além de reconhecer que ainda existe no surfe uma predominância masculina que desestimula as mulheres que surfam.

Com relação às justificativas, nenhum dos jovens mencionam o tema 2, homossexualidade no surfe, como importante. Pela entrevista, percebemos a existência de certo receio em falar dessa temática, como se fosse algo não dialogado e não muito bem aceito em seus contextos, pois, quando perguntados sobre essa temática, eles eram bem sucintos na resposta e diziam não.

As conclusões que podemos manifestar, diante das falas dos jovens, é que esse tema transversal não é muito presente nas aulas. O diálogo que é feito sobre essa temática é desenvolvido eventualmente e sem intervenções específicas nas aulas, sem base em um planejamento. Porém, em uma das falas, foi percebido que essa temática é mais conversada nos grupos operativos, ou seja, na atividade com o psicólogo, o que podemos constatar um trabalho que perpassa para outras atividades do instituto.

Contudo, pelas falas, podemos perceber que, mesmo esse tema transversal sendo trabalhado em outras atividades do projeto, parece ocorrer esporadicamente, sem maiores aprofundamentos e intervenções.

Diante desse quadro, presumimos também a não existência de uma intervenção que dialogue com as realidades do surfe mediante uma proposta mais efetiva com elementos desse contexto e o tema transversal em destaque, como foi dado no exemplo das perguntas, com exceção para a temática do surfe inclusivo, e que, mesmo assim, não pareceu ter sido trabalho com frequência.

De acordo com Darido (2012), o tema transversal pluralidade cultural tem como objetivo o desenvolvimento do respeito e da valorização das diversidades, contribuindo, assim, para uma convivência mais harmoniosa em sociedade, com o repúdio a todas as formas de discriminação. Já com relação ao tema transversal orientação sexual, a mesma autora apresenta seu objetivo, expresso na citação abaixo:

Esse tema engloba os conceitos de sexualidade ligada à vida e à saúde; às questões de gênero, dando ênfase ao papel social de homens e mulheres; aos estereótipos e preconceitos da relação entre ambos; às discussões relacionadas às doenças sexualmente transmissíveis; e à gravidez na adolescência. (DARIDO, 2012, p. 85). O destaque para os objetivos desses dois temas (pluralidade cultural e orientação sexual) aqui expostos tem como intuito promover uma reflexão sobre eles, para que possamos

compreender a importância de se trabalhar com esses temas, possibilitando-nos, também, caminhos iniciais de um trabalho com essas temáticas.

Como foi dito anteriormente nesse mesmo tópico, a junção desses dois temas tem como base uma adaptação nossa, por pensarmos ser mais coerente o trabalho de uma temática única que engloba ambos os temas, como já explicitado.

O tema diversidade vem englobar todo o posicionamento do tema transversal pluralidade cultural e parte do tema orientação sexual, sendo excluídos os assuntos que tratam da sexualidade voltada para a saúde, DST, gravidez na adolescência, objetos esses, no nosso ponto de vista, mais coerentes com o tema transversal de saúde.

O diálogo desse tema transversal, diversidade, se faz muito importante, devido ainda vivermos em uma sociedade preconceituosa, marcada por atitudes de discriminação adversas, seja pela cor, pela orientação sexual, pela cultura.

No contexto das práticas corporais e, principalmente, no surfe, essa importância se faz presente de maneira ainda mais intensa, pois, nesse campo, a mulher tem pouco espaço, seja na condição do esporte para o lazer e, sobretudo, no domínio profissional, mais intensificado no universo do surfe tendo em vista a predominância dos homens nessa modalidade.

Como destaca Rúbio (2011, p. 103), em sua pesquisa sobre a questão de gênero no surfe, que identificou, na literatura científica e em sua pesquisa de campo, que existe um forte preconceito com as mulheres no universo do surfe, seja por usar apelidos taxativos, ofensivos ou por quando, na maioria das vezes que aparece vinculada a prática na mídia, seja pela exibição do corpo “[...] como corpos sexualizados, ou pedaços de corpos, posando como modelos em closes que privilegiavam, quase sempre, suas partes no biquíni”.

Entretanto, estas sensações são tidas como possibilidades de corpos corajosos e ágeis, ‘a priori’, entendidos como corpos masculinos. O surfe como campo em que o feminino é visto ainda como exceção dá a pensar que os esportes na natureza, a educação ao ar livre ou o turismo de aventura, embora tenham potencial de promover novas condutas políticas e a virtuosa sensibilidade ambiental, não estão livres de reproduzir outros padrões de dominação. (RÚBIO, 2011, p. 106).

Além da mulher, outra questão que não tem visibilidade, mas que poderia ser dialogada e vivenciada nos trabalhos com o surfe, são as discriminações enfrentadas pelo público LGBTS como constata Caparica (2013, p. 1)11:

11 Matéria sobre LGBTS e o surfe. Disponível em: <http://ladobi.uol.com.br/2013/11/gay-surfista-paixoes-sem- volta/>. Acesso em: 20 fev. 2016.

Associações imediatas a surfe: prancha, parafina, bronzeado, calor que provoca arrepio… a lista pode seguir por um bom tempo, mas dificilmente ‘gay’, ‘homossexual’ ou ‘lésbica’ vai aparecer cedo nela. Isso porque, apesar de ser um esporte pretensamente zen, calcado no companheirismo e no amor ao oceano, o surfe também é um dos ambientes mais intolerantes com os homossexuais.

Portanto, diante dessa realidade calcada em posturas discriminatórias diante desse contexto, campos como esse que trabalham com o surfe, principalmente na perspectiva de educação, formação e inclusão, apresentam um potencial no desenvolvimento de ações por meio do diálogo e de outras intervenções que venham a lutar contra posturas preconceituosas, de desrespeito e exclusão, configurando-se um importante canal para o trabalho com o tema transversal diversidade.

Quando pensamos na questão do surfe inclusivo, o ensino dessa prática corporal pode ser um campo interessante para se trabalhar com essa temática específica, pois, além de todos poderem vivenciar essa modalidade, ela promove vários benefícios no desenvolvimento integral, tanto das pessoas com necessidades especiais quanto dos idosos, caracterizando-se por um trabalho demasiadamente inclusivo.

Como podemos constatar pelo estudo de Doro (2015), sobre os benefícios do surfe para a qualidade de vida dos idosos, quando este constata que a prática foi importante na inclusão do idoso na sociedade.

O mesmo processo inclusivo também é constatado nos estudos de Matos (2015), que destaca os benefícios do surfe adaptado para as pessoas com deficiência, tanto pela melhoria dos aspectos físicos quanto pela sua inclusão social.