1.1. Yaratıcılık Modelleri
1.1.4. Bileşensel Yaratıcılık Modeli
Para compreender o trabalho desenvolvido no IPOM, bem como o surfe enquanto prática educativa para a formação humana e a inclusão socioeducativa dos jovens participantes desse projeto social, que tem como base o surfe orientado por uma concepção educativa social para a juventude do Titanzinho, mais do que fazer esse passeio pela estrutura física da instituição, foi preciso dialogar com a gestão, com os documentos do projeto e participar dos momentos de formações dos educadores, assim como atividades gerais do projeto, observando e buscando compreender quais ações e experiências educativas são vivenciadas nesta instituição.
O foco dessa pesquisa é o surfe, mas não seria coerente fixar o olhar investigativo apenas nas aulas de surfe, já que ele é um elemento base na constituição e na construção do cotidiano do projeto, pois como já foi colocado, o IPOM nasceu a partir da vontade de 4 surfistas em fazer um trabalho socioeducativo com o surfe, tendo como alvo os jovens da praia do Titanzinho, que é uma comunidade onde essa prática corporal é fortemente presente na vidas dos moradores dessa região até mesmo daqueles que não surfistas.
Deste modo, nesse tópico, avançamos o nosso olhar sobre a parte física e nos aproximamos agora da composição organizacional do projeto, para podermos fazer uma apresentação e uma reflexão dessa realidade de forma mais ampla. São percepções encontradas através dessa aproximação com o projeto, tanto no momento de inserção no campo, quanto no período de convivência, por quase um ano, no projeto IPOM.
Dialogando com essa dimensão mais organizacional do projeto, podemos perceber o compromisso social do instituto com aquela comunidade, a preocupação que se tem em trabalhar para a melhoria da vida daqueles que ali vivem, através do conhecimento, da formação, do desenvolvimento da autonomia dos jovens, reconhecendo o seu valor para a sociedade, como podemos perceber nos trechos do PPP da instituição:
O IPOM, institucionalmente, surgiu no início do 2º semestre do ano de 2010, pela vontade de seus fundadores em ajudar pessoas socialmente desfavorecidas. O IPOM tem por finalidade o acesso à cidadania, à educação, ao esporte para o pleno desenvolvimento, aos estudos em língua estrangeira, às artes, à cultura, ao
voluntariado e ao desenvolvimento social no combate à pobreza e a preservação do meio ambiente. (IPOM, 2016, p. 4).
O trecho acima destaca, como podemos ver, o compromisso, os objetivos e a preocupação com momentos de formação para os educadores visando o desenvolvimento de uma ação pedagógica voltada para conscientizar as pessoas, para que elas possam trabalhar em prol da transformação do mundo em um lugar melhor, isso foi constado também, durante os momentos de formação que pude acompanhar logo no início da pesquisa.
Especificamente, foram duas formações que pude acompanhar:
Formação 1: O papel do educador social (data: 26 de Dezembro de 2016) Formação 2: Pedagogia da Autonomia (data: 29 de Abril de 2016)
A primeira formação contou com uma palestra de um educador social de projetos do Lagamar e conselheiro tutelar, falando sobre a importância do trabalho social e da militância na defesa dos jovens da camada popular, dos bairros de periferia.
Essa formação discorreu sobre o engajamento e a responsabilidade do educador social, em consonância com as palavras de Freire (1996), ao partilhar da ideia de que todo educador tem um compromisso social com seus educandos e por assim com a sociedade.
Assim, o formador dirigia sua fala orientando os professores do projeto para que eles tivessem o cuidado em aprofundar os seus conhecimentos em relação aos direitos das crianças e dos adolescentes, bem como para a importância de se conhecer quais são os órgãos de apoio e proteção a esses jovens, firmando, neste sentido, a importância e o compromisso de se trabalhar em um projeto social.
Orientou também os educadores do projeto para que tivessem bastante atenção em perceber os problemas enfrentados por esses jovens, enfatizando, pincipalmente, a questão do abuso e da violência sexual, que têm sido casos frequentes.
Essa formação foi construtiva, pois buscou ampliar e fortalecer o papel do educador social, sendo importante para a prática docente de cada professor e sua respectiva atividade ensinada, seja o professor de surfe, com o ensino dessa prática, ou o professor de inglês, todos ali, naquele contexto, são educadores sociais e precisam pensar sua prática levando em conta o conhecimento especifico de cada área, sem esquecer-se de compartilhar um conhecimento geral de mundo, de sociedade e de vida, principalmente, dentro daquele contexto vivido no bairro Serviluz, onde os moradores não têm os seus direitos respeitados e sofrem cotidianamente com os problemas advindos da injustiça social.
De acordo com Freire (1996), ensinar exige compreender que a educação é uma forma de intervenção no mundo. Percebe-se, nesse sentido, a importância desse diálogo, por
possibilitar a reflexão de que os educadores precisam reconhecer que a sua prática é de extrema importância, compreendendo que a educação é uma forma de intervenção no mundo.
Portanto, essa conversa foi construtiva, ao compartilhar reflexões com os educadores do projeto, alertando-os para o fato de que não se pode planejar de forma descontextualizada, bem como o papel político e social da educação, independente da área de ensino.
Durante esse dia de formação, além dessa conversa, os professores fizeram uma apresentação sobre cada ação desenvolvida no instituto, destacando os objetivos das atividades e suas fundamentações.
Na fala dos educadores, pude perceber que, apesar de cada atividade apresentar suas especificidades da área, pontos comuns, como a preocupação com a autonomia e a formação dos jovens, foram presentes nas falas dos educadores.
Compreender os seus problemas, refletir e buscar coletivamente caminhos para a melhoria da vida dos jovens do projeto foi colocado por todos os professores de cada área em suas falas, seja através das aulas de inglês, das oficinas de arte-terapia, de arte gráfica, do clube de leitura, do ensino do surfe, da capoeira e do acompanhamento psicológico, que são algumas atividades do projeto.
O segundo momento de formação vivenciado durante esse período em campo foi uma palestra sobre pedagogia da autonomia, onde, nesse momento, foi dialogado sobre o trabalho de Paulo Freire para a educação, visando o diálogo sobre as reflexões encontradas na obra Pedagogia da Autonomia. Foi um momento de ampliação, encontro e descoberta com um conhecimento advindo de uma educação de caráter progressista, uma educação popular.
O envolvimento do instituto com as ideias de uma educação emancipada pode ser percebido também através do Projeto Político Pedagógico, como podemos ver na citação abaixo:
[...] todos os projetos elaborados pelo IPOM são voltados para a construção de uma educação que promova uma consciência crítica nos sujeitos, trabalhando a premissa do esporte para o desenvolvimento e uma prática educativa pautada nos princípios da pedagogia do amor crítico, tendo como base, um dos mais importantes teóricos brasileiros: Paulo Freire. (IPOM, 2016, p. 4)
Alguns educadores expressaram conhecer essa prática pedagógica, mas outros nunca tinham ouvido falar. Diante dessa percepção, trago a constatação da importância dos momentos de formação coletiva do projeto, pela socialização com conhecimentos importantes no âmbito de uma educação para o social, visto que ali se encontram educadores com formações diversas e, por isso, uns trazem determinados conhecimentos que outros já não
têm, como foi percebido nessa formação, ao constatar que uns conheciam Paulo Freire e outros nunca tinham escutado falar.
A partir dessa situação constatada no IPOM, amplio minha tarefa em refletir esse espaço, essa ação e medito sobre a necessidade de programas de formação para atender os educadores que trabalham nesses projetos sociais, ONGs etc., visando compartilhar conhecimentos fundamentais para as intervenções socioeducativas que são propostas, principalmente quando esse conteúdo carrega um olhar social como nos aponta Freire (2001b, p. 35):
Acredito que seja nosso dever criar meios de compreensão de realidades políticas e históricas que deem origem a possibilidades de mudança. Penso que seja nosso papel, desenvolver, métodos de trabalho que permitam aos oprimidos(as), pouco a pouco, revelarem sua própria realidade.
O diálogo seguiu uma sequência de imagens ilustrativas de atividades desenvolvidas no próprio instituto, acompanhadas de algumas reflexões encontradas na obra do educador, que foram destacadas ao longo da apresentação.
A educação progressista, popular, contextualizada, dialógica, amorosa e comprometida com a transformação social foram temas centrais presentes e debatidos durante esse momento de formação.
Considerando a proposta do instituto e o seu contexto de trabalho junto da juventude que vive em uma comunidade sobrecarregada de problemas sociais, através dessa formação pode-se perceber que a abordagem de educação popular, progressista, é bastante coerente no enfrentamento desses problemas e, assim, sendo essa uma importante concepção para o desenvolvimento do trabalho que o IPOM faz com os jovens desse lugar.
Diante dessas aproximações, percebe-se o discurso político pedagógico do IPOM na efetivação de uma prática educativa libertadora, contra-hegemônica, emancipadora, crítica, que visa à libertação das amarras sociais que oprimem e assolam a esperança desses jovens em poder viver com justiça, onde podemos constatar através também do seu PPP:
As ONG’s, como o IPOM, navegam nesse contra fluxo da mesmice educativa, trabalhando preceitos de uma formação libertadora, não engessada no antigo que teme em se fazer novo. O IPOM se concebe como espaço democrático, em que os diálogos são absorvidos, tem o seu lugar de importância, se faz presente na curiosidade e na escuta sincera por parte dos socioeducadores que atuam na instituição. (IPOM, 2016, p. 16).
Podemos perceber, através do PPP da instituição, que os socioeducadores do IPOM vivenciam um trabalho com base na tríade criada por Freire, onde o processo se
constrói na ação, reflexão e (re)ação, como é colocado em destaque na figura abaixo, retirada do documento oficial da instituição:
Figura 15 – Ilustração metodologia projeto
Fonte: IPOM (2016).
Como na formação anterior, nesta foi colocada também a reflexão de que todos os educadores do projeto, independente de sua área de atuação, necessitam ser comprometidos socialmente com aquela juventude e com as suas questões, assim, o professor de surfe, ao ensinar os conhecimentos dessa cultura corporal, precisa pensar a sua prática pedagógica além do ensino dos movimentos físicos, procurando trabalhar também com movimentos ditos sociais.
Por levantar essa discussão em torno de uma educação libertadora, essa formação configurou-se como um momento significativo ao projeto, pois o diálogo, o conhecimento compartilhado e as reflexões estabelecidas nesse momento foram importantes, por possibilitar maior aproximação dos educadores do instituto com uma concepção de ação social educativa, efetivamente comprometida com os valores humanos, superando visões assistencialistas e conservadoras em relação ao papel e ao desenvolvimento desses projetos sociais destinados à juventude.
No decorrer desse momento de aproximação com o projeto, outros pontos importantes, que trouxeram pistas sobre o lugar, puderam ser percebidos, como no caso da fundamentação do projeto que, ao fazer essa relação com o mar, dialogando especificamente com a cultura do surfe, transparece o cuidado que tem de estar próximo ao contexto, à história e à identidade daquele povo, ou seja, o respeito ao contexto cultural, à identidade cultural dos jovens que participantes do projeto, visto que aquela é uma comunidade de relações fortes
com o mar, principalmente o surfe, onde meninos e meninas, desde cedo, entram em contato com essa prática.
Essa proposta do projeto, contextualizando a cultura local, é percebida, inicialmente, pelo próprio nome da instituição, em que se pode observar a menção da expressão “Povo do Mar”, trazendo consigo o entendimento de uma identidade cultural ligada ao mar.
A forma como o corpo de funcionários e professores trata os jovens que participam do projeto, usando a expressão surfistinha, é também outro elemento norteador nessa reflexão, em que as crianças e os adolescentes são reconhecidos e se constroem a partir dessa identidade.
As atividades ofertadas no instituto também trazem esse reconhecimento do contexto diante da cultura local como ponto básico para o planejamento e desenvolvimento do projeto. Por exemplo, uma das justificativas para o ensino do inglês no projeto ocorre por esse ser o idioma oficial do surfe; assim, nessas aulas, os alunos aprendem os nomes das manobras e de outros elementos dessa cultura.
O ensino do inglês é justificado pensando também na possibilidade de que, caso eles se tornem atletas, não tenham dificuldade com essa língua, visando os campeonatos internacionais e as temporadas de treino em outros países.
Dessa forma, o inglês ali aprendido parte de um contexto de ligação com a cultura do surfe, o que pode ser constatado ao entrar na sala de inglês, pois esta é decorada com imagens desse universo corporal impressas nos desenhos produzidos pelos alunos e que estão colados na parede da sala.
No entanto, é importante também destacar que não se pode negar o processo de aculturação que pode advir desta relação, caso não seja bem trabalhada, pois essa vivência pode configurar uma descaracterização local, em supervalorização do global. Porém, nessa relação com o inglês, percebemos que essa dinâmica é mais uma ampliação cultural dos jovens do que uma descaracterização do local.
O reconhecimento do contexto social e das experiências dos jovens que participam do projeto também é destacado no PPP da instituição:
O IPOM está completando sete anos e esse projeto político pedagógico norteia nossas ações cotidianas, nos leva para o caminho do desenvolvimento sustentável, sistematiza nosso conhecimento e facilita assim toda a dimensão de um trabalho verdadeiramente coletivo. Temos uma base de ação na prática educativa que, juntando reflexões críticas, experiências e aprendizagens, produz-se o conhecimento especializado no contexto local. (IPOM, 2016, p. 35).
Refletindo a partir das ideais de Freire (1996), quando ele chama atenção para o cuidado que se deve ter em entender de onde o aluno vem, qual é o seu contexto, sua realidade e quais são os elementos que fazem parte do seu cotidiano, percebe-se o caráter contextual do projeto, ao desenvolver uma aprendizagem significativa e contextualizada, na qual se leva em consideração o universo daqueles jovens, suas vivências e experiências, servindo como elemento base para a construção daquela prática pedagógica.
A cultura surfe no projeto também é percebida através do fato de que os fundadores do instituto são surfistas, assim como a maioria dos funcionários e professores, estando, portanto, o surfe presente também no estilo de cada um, na fala, na roupa e na sua história de vida.
Nessa trajetória, as aulas mais observadas foram as de surfe, porém, percebendo que o surfe perpassava os vários momentos do projeto, o acompanhamento se deu em outras aulas, como a de informática, chamada Surfista Digital, momento em que os jovens aprendem a usar o computador, ao mesmo tempo em que são socializados outros conhecimentos, sendo este um trabalho multidisciplinar.
Na aula de informática que foi observada os jovens estavam editando imagens de surfe para serem estampadas em camisas que seriam vendidas por eles mesmos. O professor de informática, nessa aula, explicou que essa ação era multidisciplinar, articulada em várias etapas, onde os jovens iriam aprender a fazer as edições, mas também a ter noções de empreendedorismo, pois a ideia final é que eles criassem um espaço virtual para fazer a venda desse material.
A partir das observações, pude perceber a magnitude dessa experiência de aprendizagens interdisciplinares, em que o educador, no seu processo de mediação, compartilha seus conhecimentos, que se interligam na construção de uma autonomia dessa juventude, refletindo o compromisso no resgate da cidadania desses jovens do Titanzinho, como podemos constatar também na parte do PPP que fala sobre esse projeto/aula, o Surfista Digital:
Projeto Surfista Digital busca amenizar os problemas sociais existentes oferecendo as crianças e adolescentes da comunidade do Titanzinho ensino de qualidade na área digital. Através do uso das mídias digitais, acredita-se que haverá uma contribuição efetiva para a mudança de visão da sociedade, mostrando a importância da juventude como potenciais agentes de transformação social. Busca promover cidadania através do uso das mídias digitais. As atividades realizadas incluem jogos cognitivos, noções de empreendedorismo, fundamentos do design gráfico, além de vivências envolvendo aspectos sociais, ambientais, psicológicos, e temas transversais como: drogas, prostituição infantil entre outros. Os adolescentes também aprendem habilidades básicas para o mercado do trabalho. (IPOM, 2016, p. 26).
Tendo como incorporação a pedagogia amorosa, dialógica, corajosa no engajamento social, significativa, libertadora e os valores humanos de Freire, o projeto, no seu dia a dia, traz na sua convivência esses princípios, direta ou indiretamente, nas relações e nas atividades oferecidas pelo projeto, como é destacado em seu PPP, assim como é percebido tanto pela fala dos jovens como no olhar amoroso e cuidadoso dos educadores do projeto.
A instituição é construída pelas pessoas que dela fazem parte, isso possibilita uma aprendizagem cuidadosa, prazerosa porque é construída tendo como uma de suas bases o afeto. O conhecimento em Freire é construído pelos sujeitos em diálogo constante com a sua realidade. Mesmo com crianças e adolescentes, a noção de mundo, um mundo sustentável, tendo o respeito à natureza dentro de uma efetiva ação de proteção e cuidado, pode ser construída desde que os atores sociais envolvidos tenham ciência da missão. Compromisso assumido pelo IPOM e todos que dele fazem parte. (IPOM, 2016, p. 16).
Segundo Freire (1996), o docente precisa ser afetivo. Não é ruim o envolvimento afetivo com os educandos, essa aproximação é benéfica, uma vez que não interfira no cumprimento ético da sua ação docente.
A alegria ao ensinar é um bom sinal, é necessária e importante para a prática pedagógica, pois contagia ambos os sujeitos nesse processo, que acabam por ter prazer de estar ali, gostam e se sentem motivados.
Freire (1994, p. 53) exprime uma ideia de equilíbrio nessa relação de ensino e de aprendizagem, pautando particularidades, tanto racionais quanto emocionais, não podendo ser só emoção, nem também só razão: “A minha abertura ao querer bem significa a minha disponibilidade à alegria de viver. Justa alegria de viver, que, assumida plenamente, não permite que me transforme num ser ‘adocicado’ nem tampouco num ser arestoso e amargo”.
Nessa aproximação com o projeto, foi possível perceber a existência de elementos que configuram uma prática libertadora, estes subsídios são: a contextualização; a compreensão da educação como uma forma de intervenção no mundo; a politização do ensino; a importância em estar dialogando sobre as questões sociais; o compromisso social; e o respeito à cultura popular.
Após esse diálogo com o Projeto Político Pedagógico e os outros momentos do instituto, o próximo tópico trará compreensões e reflexões sobre a comunidade, mediante um trabalho ampliado sobre esse fenômeno.