3. TÜRKİYE’DE VERGİ İNCELEMESİ
3.4. Vergi İnceleme Süreçleri
Em uma sexta-feira, as duas da manhã do dia 10 de janeiro de 1887, nascia José Américo de Almeida, um ano antes da abolição da escravatura (1888) e dois antes da Proclamação da República (1889). Segundo filho do casal12 Inácio Augusto de Almeida – dono de um pequeno engenho e de uma criação bovina – e da senhora Josefa Leopoldina Leal de Almeida, uma dona de casa. Foi batizado com o sobrenome “Américo” por idéia da mãe, pois queria diferenciá-lo dos vários “Josés de Almeida” que nasceram na região e por ser uma admiradora do conterrâneo mais ilustre da cidade de Areia, o pintor oficial do Império, Pedro Américo.
Nascera no engenho Olho d’Água, nas proximidades da cidade de Areia, localizada na microrregião do brejo paraibano, a 126 Km da capital do estado. Esse engenho tinha sido propriedade de seu avô paterno, Augusto Clementino de Almeida e Albuquerque, “(...) um velhinho asseado, risão, conversador e de andar firme. (...) Pertencia a uma família de senhores de engenho” (ALMEIDA, 1976, pp.18 e 19). A avó materna chamava-se Arcanja de Almeida e Albuquerque, morrera de uma cólera-morbo quando o pai de José Américo tinha apenas 5 anos. Existe uma insuficiência de dados sobre a árvore genealógica de sua família, restando apenas algumas linhas sobre os seus antepassados que o próprio José Américo descreve no livro “Memórias: antes que me esqueça”: “O tronco da família veio de Portugal. Só conheço a
12 Segundo José Américo, não houve muita ternura na convivência familiar, tornou-se órfão de pai muito cedo.
Poucas vezes em que se referiu a esse assunto ele afirmou: “(...) Nunca me tomou nos braços (o pai), nem me sentou na perna, mas excedia-se de cuidados. (...) Cuidadosa mas sem carinhos ( a mãe); menos afetuosa que devotada. O apelido na família era a única ternura... Todos a temiam mas raramente nos castigava” (ALMEIDA, apud CAMARGO, 1984, p.20). Essa criação de poucos afagos e bastante cuidados renderam-lhe a personalidade de temperamento forte e fechada, assim definida por ele: “(...) sem ser abraçador, fazia amizades”, porém, “(...)sem deixar de ser seco” (ALMEIDA, apud CAMARGO, 1984, p.20).
ascendência até 1700, começando com José Gomes de Almeida. Meu bisavô paterno foi Luiz José de Almeida” (ALMEIDA, 1976, p.58).
Do lado da mãe, a descendência também era portuguesa, pois o seu bisavô, chamado José Antônio dos Santos Leal, era filho de um português. Mudando-se para a Paraíba – por razões não definidas –, instalou-se na cidade de Alagoa Grande onde conhecera uma moça natural de Cabaceiras (ou São João do Cariri, não se sabe ao certo), com quem se casou e, tempos depois, seria levado, por influência dela, a morar junto com os parentes da moça na cidade de Areia. Tornou-se um dos grandes proprietários de terras da região do Curimatau, adquirindo a fazenda Jandaíra, nas imediações de Areia, local onde nascera a avó materna de José Américo, chamada Maria Emília dos Santos Leal, a “ponta de rama” de uma prole generosa: 13 filhos ao todo13. Sua avó casou-se com um primo legítimo, chamado Matias Soares. Dentre os irmãos de sua avó- materna, destacou-se Joaquim José dos Santos Leal14, figura proeminente na cidade de Areia,
13 Ao chegar a Areia, José Antonio Leal já tinha 4 filhos, todos nascidos em Pernambuco. Além de Maria Emília, avó
materna de José Américo, os outros filhos e filhas que nasceram na Paraíba foram: “José, Joaquim, Antônio, Claudino, Rufino, Manuel, Joana, Francisca, Maria Paulina, Justina e Umbelina” (ALMEIDA, 1976, p.75).
14 Também conhecido como “major Quincas”, assumiu a responsabilidade de dar continuidade aos negócios da
família quando José Antonio dos Santos Leal faleceu no dia 8 de maio de 1834. “Foi um político poderoso e um lutador, (...) Derrotado como um dos chefes da Revolução Praieira, em Areia, onde fizera frente à coluna do cel. Feliciano Falcão, Joaquim dos Santos retirou-se para a fazenda Jandaíra, fugindo a perseguição desencadeada contra a sua pessoa e os seus. Sua própria mãe tivera a casa arrombada e saqueada” (ALMEIDA, 1976, p.75). Praticamente destruiu todo o prestígio da família Santos Leal se envolvendo em um episódio que chocou a população da cidade de Areia, além de ser o responsável pela ruína econômica e pessoal de seus irmãos. Aos 32 anos de idade Joaquim dos Santos Leal tornou-se amante de uma viúva chamada Carlota Lúcia de Brito que chegara do Pajeú de Flores, em 1845, depois de ter o marido assassinado. A viúva comprou uma fazenda de nome Cantinhos, nas imediações da cidade de Areia, e lá passou a viver com uma filha, chamada Jovina, e com os escravos e criados que trouxe alegando fugir da seca que devastava os sertões. O poder político da região era disputado por Joaquim dos Santos Leal, líder do Partido Liberal, e por Trajano Alípio de Holanda Chacon, “(...) antigo deputado e antigo presidente da Província, era chefe do Partido Conservador em Areia” (ALMEIDA, 1976, p.75). Francisco Chacon e Carlota passaram a entrar em atrito constante e em uma dessas discussões, Carlota ameaçou-lhe de morte. No dia 5 de setembro de 1849, Carlota cumpriu com a sua promessa nefasta, contratando Antônio Correia (seu primo) e José das Virgens para dar cabo da vida de Trajano Chacon. No “(...) dia da eleição que se fazia na igreja, para deputado geral, disputada por Trajano Chacon pelo Partido Conservador e Joaquim dos Santos pelo Partido Liberal” (ALMEIDA, 1976, p.77), ele foi alvejado por dois tiros e quatro facadas. Carlota fugiu com Joaquim dos Santos para o Ceará e depois para Campo-Maior, no Piauí, onde foram presos. Para José Américo, o tio: “Associou-se à sorte daquela que o comprometera e motivara o aniquilamento de toda a sua família. Sem medir sua responsabilidade de homem público e condutor político, fora tomado de uma paixão que o cegara” (ALMEIDA, 1976, p.78). O fato é que a sua fazenda foi queimada, o gado saqueado e alguns parentes e amigos foram mortos ou presos, a exemplo dos seus irmãos Antônio dos Santos Leal (preso) que assumira a chefia da família, e de Manuel dos Santos Leal, preso e enviado para Fernando de Noronha pela sua aproximação com Carlota. O desfecho do caso foi o seguinte: “Joaquim dos Santos, Manuel dos Santos, Carlota e Galdino Guedes foram cumprir pena no presídio de Fernando de Noronha. Joaquim dos Santos morreu lá, louco e cego. Manuel também cegou e enlouqueceu, sendo entregue a família que o levou para Jandaíra, onde morreu (...) Antônio das Virgens foi condenado a forca e executado em 1860. (...) Carlota abandonou o amante pelo diretor do presídio. (...) Depois da proclamação da República, que reduziu a prisão perpétua a trinta anos de reclusão, ela foi vista no Recife” (ALMEIDA, 1976, pp.78, 79). Mais informações a esse
“(...) comandante da Guarda Nacional, antigo deputado provincial, candidato a deputado geral e combatente da Revolução Praieira” (ALMEIDA, 1976, p.74).
A mãe de José Américo casou-se com 14 anos, teve 15 filhos, sobrevivendo apenas 11. O mais velho chamava-se Inácio, ordenou-se padre “por um equívoco”, segundo José Américo, e possuía uma excelente oratória; o segundo chamava-se Jaime, abandonou os estudos muito cedo, pois precisou se dedicar aos negócios da família quando o pai faleceu; em seguida vieram Maria Amélia e Maria das Neves; o quinto a nascer foi José Américo, baixo, de nariz largo e cabelo alourado, puxou os traços familiares da mãe, herdando do pai o “conceito de vida”15; o sexto foi Hermenegildo, tinha uma maior predisposição às doenças e por isso recebeu maior atenção por parte do pai; o sétimo chamava-se Augusto, possuía grande capacidade intelectual e uma excelente memória; depois vieram Miguel, Arcanja (vítima de uma paralisia que lhe tirou a saúde), Júlia (que morreu ainda jovem) e João, que morreu aos 15 anos vítima de uma febre tifóide. Uma família de pouca união, principalmente entre os mais velhos (ALMEIDA, 1976, pp.71, 72).
Igual um “bicho do mato”, como ele mesmo se autodenominara, dividiu a infância salutar com os irmãos e irmãs, além dos garotos que viviam nas proximidades do engenho e com os filhos dos moradores que habitavam na propriedade do pai, trabalhadores que recebiam apenas um cruzado por diária, dinheiro esse que mal dava para se alimentar. Uma gente simples, descrita por José Américo como “(...) um povinho acomodado. Acima do patrão, só Deus e Maria Santíssima. (...) só conheciam duas satisfações: a da boca e a do sexo” (ALMEIDA, 1976, p.61). Segundo ele, seu avô paterno estabelecera o engenho em terras que não davam lucro, onde o pai: “Tirava da terra empobrecida o sustento da família e dos agregados”; e que “(...) o lucro que davam eram gotas de suor”, pois a “(...) exploração agrícola, apesar de seu atraso, garantia a sobrexistência” (ALMEIDA, 1976, p.58). Entretanto o engenho cresceu aos poucos, pois ele mesmo afirma que o pai “(...) prosperou e adquiriu outra propriedade – Timbaúba” (ALMEIDA, 1976, p.58).
respeito, vide ALMEIDA, José Américo de. O AMOR MALDITO. In: Memórias: antes que me esqueça. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976, pp.74-82.
15 Assim ele descrevia a sua auto-imagem: “Apareci eu, por incrível que pareça, de nariz largo e – Santo Deus! de
cabelo alourado, que haveria de mudar para preto e para branco. Na infância era travesso e calado. Baixote e entroncado. Só comecei a crescer depois dos dez anos. Com quem parecia? Teria puxado a minha mãe? Guardava alguns dos seus traços. O que herdei do meu pai foi o conceito de vida” (ALMEIDA, apud CAMARGO, 1984, p.20).
Quando criança não se destacou nos estudos, aprendeu – junto com os irmãos e irmãs – as primeiras letras através dos ensinamentos de uma jovem iniciante na profissão, chamada Júlia Verônica dos Santos Leal, neta de um tio-avô chamado Antônio dos Santos Leal. Foi justamente nesse período que José Américo descobriu que era portador de miopia, pois “sujava o nariz na tinta” (ALMEIDA, 1976, p.54). Embora tenha se esforçado, não conseguiu aprender o modelo feminino de caligrafia que era adotado pela professora Júlia, pois só aprendeu a ler, mas não sabia escrever (ALMEIDA, 1976, p.55). Além do gosto pela leitura, herdou dos ensinamentos da professora outra importante característica: a dedicação pessoal. Reforçando tal afirmação, publicou parte do trecho de uma carta do padre Luiz Santiago, endereçada a ele, em seu livro “Memórias: antes que me esqueça”:
Contou-me sua professora que o senhor com sete anos de idade furtava-se no recreio ao bulício da meninada e com a lousa e o creão, sentado no chão, de pernas cruzadas, passava a escrever com um interesse de gente grande. Vivia a pedir explicações sobre as palavras e as frases que desconhecia. O vigário Odilon, seu tio, recomendava que puxasse por aquele menino em que via um futuro (apud ALMEIDA, 1976, p.54).
Como tantas outras crianças daquela região, a exemplo da maior parte dos seus irmãos e irmãs que continuaram morando no engenho, José Américo provavelmente não teria um futuro promissor pela frente se não fosse um “golpe do destino” que lhe fora reservado. “Melhorar da sorte” ou até mesmo “tirar o pé da lama”, são expressões que ele mesmo utilizou para designar um dos acontecimentos mais importantes de sua vida, quando tinha apenas 8 anos de idade: ir morar na casa do tio, padre Odilon Benvindo de Almeida e Albuquerque, irmão de seu pai, para estudar na cidade de Areia. Por esse mesmo destino passou o seu irmão mais velho, chamado Inácio, que se ordenou padre. O menino que corria solto pelo terreiro do engenho Olho d’Água, agora estava “preso” entre as paredes e os portões sempre trancados de chave: “Sem ter conhecimento, nem pôr os pés na rua, eu vivia na ignorância de tudo o que se passava” (ALMEIDA, 1976, p.94). A respeito da sua relação com o tio, afirmou: “Meu tio ignorava a minha presença, não me dava a menor atenção, nem sequer uma palavrinha. Não tomava liberdade com os sobrinhos. (...) Nunca fez um agrado, tinha pudor da ternura.” (ALMEIDA, 1976, pp.87, 88). Alegria, José Américo só sentia no fim de semana, na sexta-feira, quando tinha a permissão do tio Odilon para ir ao engenho dos pais: “Se me perguntassem qual foi o dia mais feliz da minha vida, eu não teria dúvidas em responder: ‘Foi esse’” (ALMEIDA, 1976, p.98).
Meses depois, os pais de José Américo instalaram-se na cidade para acompanhar o aprendizado dos filhos.
Aos 12 anos José Américo perdeu o pai, vítima de uma doença não diagnosticada pelos médicos, pois não sabiam ao certo se teria sido acometido de uma malária ou tifo. Seu Inácio Almeida chegara do sítio na cidade, em plena terça-feira, queixando-se de dores fortes por todo o corpo, padecendo durante sessenta dias acamado e com febre alta. Faleceu com 48 anos no dia 21 de setembro de 1899, em um sábado, deixando a mulher com uma ruma16 de filhos para cuidar. Em pleno domingo chuvoso, José Américo observava atento ao desaparecimento daquele que era a maior de suas referências. Com a morte do pai, o garoto se viu obrigado a retornar para a casa do tio Odilon, entretanto, a sua vida não seria mais a mesma.
O menino que vivia trancado em casa, agora, experimentava passear pelas ruas, ouvindo atento as notícias na esquina da loja do seu Alfredo Simeão, notícias que muitas vezes eram impróprias àquele garoto, a exemplo do embate entre o clero – na pessoa do padre Odilon, seu tio – e a maçonaria, na figura de Artur Aquiles – jornalista anti-clerical, diretor do jornal O Comércio (ALMEIDA, 1976, p.119). O garoto estava crescendo e o tio, que sempre ficava a espreitá-lo, percebia as suas mudanças comportamentais. Tinha medo que a ausência paterna lhe trouxesse malefícios, a exemplo de más companhias. Como se não bastasse tantas mudanças, José Américo arranjou a sua primeira namoradinha – logo onde – na igreja, sob os olhos do tio padre: “Por causa dela apanhei, em plena novena, com os fiéis por testemunha” (ALMEIDA, 1976, p.131).
No ano de 1901, aos 14 anos, descobriu – por intermédio de sua irmã Nevinha – que haviam-lhe reservado, mais uma vez à sua revelia, um novo caminho para a sua vida: “Vão botá- lo no seminário” (ALMEIDA, 1976, p.139). Uma mudança verdadeiramente radical estava novamente para acontecer em sua vida. Encaminhado ao mosteiro de São Francisco, José Américo foi incorporado ao grupo dos “médios-maiores”17, mesmo com pouca idade e nenhuma vocação: “Viajei, a cavalo, oito léguas puxadas, fazendo uma volta até a paróquia do meu tio Walfredo Leal. Daí seguiria para a capital, por estrada de ferro, em companhia do meu parente Augusto Virgílio, que ia também para o seminário” (ALMEIDA, 1976, p.139). Se a casa do tio
16 Expressão regionalista utilizada para indicar grande quantidade.
17 José Américo deveria ter sido incorporado entre os “médios-menores”, pois esse era o caminho dos novatos, recém
chegados. Contudo, por influência dos seus dois tios padres – Odilon de Almeida e Walfredo Leal – foi incorporado entre os “médios-maiores”.
Odilon, em Areia, era um lugar reservado e monótono, o mosteiro de São Francisco era uma casa cheia e vazia ao mesmo tempo, pois embora abrigasse cerca de 300 seminaristas, não havia comunicação entre o grupo e proibia-se de tudo: amizades particulares, contato entre irmãos, primos, parentes de qualquer grau, ou seja, qualquer espécie de camaradagem: “Havia sempre uma testemunha a fiscalizar o comportamento e a espionar” (ALMEIDA, 1976, p.149). A alimentação servida aos seminaristas era pouca e de péssima qualidade: “No café da manhã comia-se o ‘pão que o diabo amassou’, feito ali mesmo, na padaria doméstica”; no almoço era servido “um boi morto”, pois como o tempo era pouco, mal retiravam o couro do bicho. Na hora do jantar serviam uma feijoada coberta por gorgulhos, uma espécie de inseto/praga que se instalava nos caroços do feijão (ALMEIDA, 1976, p.151).
Durante o mês de janeiro de 1904, realizou-se o casamento da sua irmã Nevinha. Nesse momento, aos 17 anos recém completados, José Américo refletiu profundamente sobre a conjuntura de vida a que estava ligado. No dia seguinte, em pleno domingo, decidiu que não iria mais a missa e que os seus dias de seminarista haviam chegado ao fim. Seu tio Odilon de Almeida não se pronunciou e seu irmão mais velho, ameaçou mandá-lo de volta para o engenho Olho d’Água, onde teria o mesmo destino do pai: morrer na labuta! Obstinado a enfrentar tudo e todos insistiu em sua idéia e recebeu o apoio da mãe e do irmão Jaime, o chefe da família. Também recebeu o apoio do seu padrinho de crisma, o primeiro bispo da Paraíba, Dom Adauto Aurélio de Miranda Henriques, que sem imaginar, terminou profetizando o seu futuro: “Ele terá outras missões” (ALMEIDA, 1976, p.164). Na segunda-feira, José Américo pegou o ônibus e correu para a capital, no último dia de inscrição para os exames adicionais no Liceu Paraibano. Concluindo o ginásio no Liceu, ingressou na Faculdade de Direito no Recife, onde bacharelou-se em 1908, aos 21 anos. Na verdade, diversos outros políticos haviam passado por esse mesmo curso, o que caracterizava-o como uma espécie de “(...) treinamento preferido dos políticos brasileiros”, segundo o historiador brasilianista, Thomas Skidmore (1982, p.27).
Durante o período em que esteve em Recife, aliou-se ao grupo paraibano que apoiava o ex-presidente Antônio Alfredo da Gama e Melo, líder da oposição e adversário político do padre Walfredo Leal, tio de José Américo e presidente da Paraíba entre 1905 e 1908, substituindo o então presidente eleito Álvaro Machado, que havia deixado o cargo para assumir uma vaga no cargo de senador na capital federal, o Rio de Janeiro. As críticas tecidas por José Américo ao
grupo político liderado pelo tio, durante as eleições de 1907, vieram em forma de artigos de opinião, divulgados no jornal oposicionista A REPÚBLICA, administrado por Lyra Tavares:
(...) com um pseudônimo de fácil identificação, o antigo aliado (José Américo) teceu comentários e fez críticas mordazes ao sistema dominante (...) A oligarquia Alvarista revezava-se, num movimento de gangorra, entre Álvaro, Walfredo e João Machado, através de eleição ou de renúncia, ora para a Presidência do Estado, ora para o Senado ou a Câmara Federal. (...) No vigor da mocidade, José Américo tornou-se um esgrimista animoso, de língua solta, nos editoriais que lhe competiam, sem dar ouvidos às advertências do outro tio padre, o moderado Odilon Benvindo Albuquerque de Almeida (LUNA, 2000, p.11).
Essa foi efetivamente a primeira participação de José Américo em relação à política paraibana, justamente contra aquele que era a grande referência política de sua família e que congregava parte do poderio político do Estado. Apesar dessa peleja com o sobrinho, Monsenhor Walfredo Leal acabou tendo um papel imprescindível na vida de José Américo. A inserção deste na vida pública se deu, indubitavelmente, a partir da influência do seu tio, irmão de sua mãe Josefa de Almeida, figura que estaria por trás das indicações dos primeiros cargos públicos ocupados por José Américo. Dessa forma, de posse do título de bacharel em Direito, no final de 1908, foi nomeado – por influência do tio presidente – promotor de justiça da comarca de Sousa, alto sertão da Paraíba. Um lugar ermo, distante de tudo, onde nem os trens de carga conseguiam chegar até lá:
Para assumir o cargo, largou-se num cavalo de sela, em companhia do irmão Hermenegildo. Um burro encangalhado conduzia a equipagem com gêneros alimentícios e utensílios de cozinha. (...) Levaram sete dias para percorrer menos de quatrocentos quilômetros que separam a cidade de Areia da comarca de Sousa. (Hoje esse trajeto se faz, de automóvel, em cinco horas). A viagem foi tranqüila, sem incidentes, e por sorte, não cruzaram com malfeitores que já transitavam naquela região (LUNA, 1994, p.134).
Chegando a cidade de Sousa, levando uma carta do padre Inácio de Almeida – o irmão que se ordenou padre – tornaram-se hóspedes, por pouco tempo, do cônego Bernardino Vieira, vigário daquela paróquia. Essa seria a primeira experiência de José Américo longe da influência direta de sua família: tornou-se dono de suas ações e senhor do próprio caminho que começaria a traçar naquela região. Estava entre as figuras de maior projeção, pois em uma cidade do interior, naquele tempo, um promotor de justiça tinha um status tão importante quanto o delegado, o
padre, ou até mesmo o juiz, sendo os verdadeiros “(...) donos daquela sociedade” (ALMEIDA, apud CAMARGO, 1984, p.81). Embora tenha permanecido naquela região por pouco tempo – cerca de um ano – esse foi, sem sombra de dúvidas, o primeiro contato in loco de José Américo