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3. TÜRKİYE’DE VERGİ İNCELEMESİ

3.7. Türkiye’de Vergi İncelemesinin Verimliliğini Etkileyen Unsurlar

No início do ano de 1945, a débâcle do Estado Novo (1937-1945) 95 e do longo período em que Getúlio Vargas permaneceu à frente da chefia do Executivo Federal (1930-1945) estava a caminho. O fim da primeira “Era Vargas” seria motivada, principalmente, pela célebre entrevista concedida pelo seu ex-ministro da Viação e Obras Públicas e ex-companheiro “revolucionário”,

95 A partir da década de 1980, um número considerável de historiadores passou a se debruçar sobre o Estado Novo,

buscando novas concepções históricas que explicassem efetivamente esse período. Até então os historiadores utilizavam, deliberadamente, diversos conceitos para definir esse importante momento político da nossa história: “populista, bonapartista, autoritário, fascista, totalitário” (CAPELATO, 1998, p.183). As críticas aos estudos sobre o Estudo Novo se iniciam na década de 70, com o artigo de René Gertz, intitulado “Estado Novo: um inventário historiográfico” (1990). Nele o autor afirmou que “(...) os estudos sobre o regime são poucos, e especialmente quando comparados à vastíssima literatura relacionada ao nazismo e ao fascismo” (GERTZ, 1990, p.112). Dentre as principais obras historiográficas que lançaram um novo olhar sobre a primeira “Era Vargas”, além da referida obra de Gértz, destacamos: 1º Em relação aos estudos que se voltam para uma análise crítica sobre o movimento operário, recusando as antigas teses predominantes até os anos 60 e 70, que insistiam na fragilidade e na manipulação de Vargas sobre os sindicatos e sobre a massa trabalhadora - “Satisfeitos com alguns benefícios materiais, a legislação social em particular, eles (os trabalhadores), em troca, dedicaram a Vargas submissão e obediência política” (FERREIRA, 2001, p.61) – vide: GOMES, Angela de Castro. O populismo e as ciências sociais no Brasil: notas sobre a trajetória de um conceito. In: O populismo e sua história debate e crítica. Jorge Ferreira (Org.). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, pp.17-57; FERREIRA, Jorge. O nome e a coisa: o populismo na política brasileira. In: O populismo e sua história: debate e crítica. Jorge Ferreira (Org.). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, pp.61-124; CAPELATO, Maria Helena. Estado Novo: novas histórias. In: Historiografia

brasileira em perspectiva. Marcos Cezar Freitas (Org.). São Paulo: Contexto, 1998, pp.183-213; 2º Sobre o poder

que os meios de comunicação obtiveram durante a ditadura varguista, principalmente a partir da utilização da propaganda como uma espécie de aparelho ideológico montado por Vargas e seus asseclas, tendo como fonte de inspiração as idéias nazi-fascistas de controle ideológico sobre a população alemã e italiana, vide GARCIA, Nelson Jahr. O Controle Ideológico. In: Estado Novo, ideologia e propaganda política. Nelson J. Garcia (Org.). São Paulo: Loyola, 1982,pp. 97-121; CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. O Estado Novo, o D.O.P.S. e a Ideologia de Segurança Nacional. In: Repensando o Estado Novo. Dulce Pandolfi (Org.). Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1999, pp.327-340; FERREIRA, Jorge. Estado e repressão política no primeiro governo Vargas. In Jorge Ferreira. Trabalhadores do Brasil. O imaginário popular. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1997, pp. 91-122; CAPELATO, Maria Helena. Propaganda política e controle dos meios de comunicação. In: Repensando o Estado

Novo. Dulce Pandolfi (Org.). Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1999, pp. 167-178. Outras obras

informações sobre o projeto político – nacionalista-desenvolvimentista – implantado por Vargas nesse período, vide CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil. O longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001; SKIDMORE, Thomas. Brasil: de Getúlio a Castelo. 9 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988; SOLA, Lourdes. O golpe de 37 e o Estado Novo. In: Brasil em perspectiva. Carlos Guilherme Mota (Org.). 17ª ed. São Paulo: DIFEL, 1988, pp. 256-282; LEVINE, Robert M. Os diferentes Getúlios. In: Pai dos pobres? O Brasil e a era Vargas. Robert Levine (org.). São Paulo: Companhia das Letras, 2001, pp. 141-160; MENDES, Oswaldo. Getúlio Vargas. 5º ed. São Paulo: Moderna, 1986. (Coleção - Polêmica), pp. 17-57. A propósito das barbaridades e atrocidades cometidas durante esse período, ver o longo depoimento de Graciliano Ramos – intelectual e escritor regionalista, autor de Vidas Secas – que se tornou um dos mais importantes opositores a ditadura varguista, sendo preso e torturado durante esse período: RAMOS, Graciliano. Memórias do cárcere. São Paulo: Record, 2008.

José Américo de Almeida, ao jornalista Carlos Lacerda96. As repercussões alcançadas por essa entrevista e os inúmeros protestos populares que explodiram em diversas partes do país – (...) a agremiação dos estudantes universitários, UNE, recentemente organizada no Rio de Janeiro, realizou um comício; uma demonstração semelhante, em Recife, provocou violências policiais e levou à morte dois estudantes (SKIDMORE, 1982, p.73) – enfraqueceram, em parte, o prestígio de Vargas que se viu obrigado a assinar o decreto-lei nº 7.586, no dia 28 de maio de 1945, marcando a data das eleições gerais para o dia 2 de dezembro, do corrente ano, levando ele a recuar em relação a sua possível candidatura. O decreto-lei passou a regular:

(...) o alistamento, o processo eleitoral e a organização dos partidos, procurando estimular, compulsoriamente, a criação destes em bases nacionais. Também restabeleceu a nova lei a justiça eleitoral, não prevista na Carta de 1937, incumbindo-lhe dirigir o pleito, apurar os votos, reconhecer e proclamar os eleitos. (...) A apuração dos votos, tanto nas eleições municipais, como nas estaduais e federais, ficou a cargo das juntas apuradoras, presididas por um juiz vitalício e integrada por mais

96 A entrevista foi publicada pelo jornal carioca Correio da Manhã, no dia 22 de fevereiro de 1945, sob um título

aparentemente inofensivo: “A situação: declaração do sr. José Américo”. Nesse momento, o ex-chefe da

“Revolução” de 1930 no Nordeste, desfere uma longa e tenaz crítica contra a política ditatorial empreendida por Vargas durante o período estadonovista, rompendo não só com o silencio do seu auto-exílio da vida pública – um período de cerca de 8 anos –, como também, conseguiu romper o silêncio mordaz instituído pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), chefiado por Lourival Fontes, que já dava os primeiros indícios de um certo relaxamento em relação ao controle e censura sobre os meios de comunicação do país. Aproveitando o mote que dominava boa parte das notícias estampadas pela imprensa nacional – a realização do Congresso de Escritores Brasileiros – o então Ministro do Tribunal de Contas, José Américo, deixou claro que existia a inadiável necessidade de novas eleições no Brasil e que a candidatura de Getúlio Vargas, novamente a presidência da República, seria uma excrescência. “Todos devem intervir na vida pública, segundo sublinhou bem a Declaração de Princípios dos Escritores. Por isso mesmo saio do retraimento em que me tenho mantido para manifestar uma opinião sincera em relação ao problema fundamental do meu País. (...) Já todos sabem o que se está processando clandestinamente. Forja-se um método destinado a legalizar poderes vigentes, a manter interventores e demais autoridades políticas, pela consagração de processos eleitorais capazes de coonestar essa transformação aparente. (...) Mas – acentua – uma Constituição outorgada não será democrática porque lhe falta a legitimidade originária. (...) O Brasil vai ingressar no seu momento mais difícil. E precisa, sobretudo, da união nacional para encontrar os meios necessários a uma estruturação democrática apta a lhe dar substância que fundamente a obra de restauração do após-guerra. Faz-se necessário, para tamanha empresa, além do concurso de massas, a utilização de todos os elementos de cooperação capaz, de todos os valores mobilizáveis da nacionalidade. Precisamente isto – acentua – seria impossível se o atual Chefe do Governo se fizesse candidato”. (ALMEIDA, 1985, pp.313; 314; 316). Ainda segundo José Américo, a longa estadia de um poder discricionário a frente do Executivo Federal, havia viciado os elementos políticos e administrativos que compunham esse regimém, impossibilitando que o sistema político do país vivenciasse uma “renovação cívica e material”. Dessa forma, ele acrescentou: “Ora, um governo não se compõe de um só homem providencial e de um povo anestesiado. Já há dias lembrava o meu amigo Adolfo Konder que qualquer cidadão capaz pode ser Presidente da República – verdade elementar que íamos esquecendo” (ALMEIDA, 1985, p.318). Interessante ressaltar que, nesse mesmo dia, José Américo daria outra entrevista bombástica ao jornalista Edgar da Mata Machado, vinculado ao jornal O Globo. Mais informações a esse respeito, vide a entrevista completa em ALMEIDA, José Américo de. A palavra e o tempo (1937 – 1945 – 1950). 2. Ed. Rio de Janeiro: José Olympio Ed.:

Fundação Casa José Américo, 1985, pp.313-325. Sobre as conseqüências dessa entrevista para a carreira política de José Américo, vide CAMARGO, Aspásia. Cap. XI: CAI O ESTADO NOVO. O Nordeste e a política: diálogo com José Américo de Almeida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, pp.291-309.

dois cidadãos “de notória integridade moral e independência”, designados pelos Tribunais Regionais (LEAL, 1975, pp.235, 236).

Parte da população brasileira e algumas lideranças políticas importantes perceberam que o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) havia extinguido os sistemas ditatoriais, de cunho absolutista, por toda a Europa – a exemplo do nazismo de Hitler e do fascismo de Mussolini –, por tanto, segundo José Américo97, tornou-se impossível uma nova candidatura varguista à Presidência da República:

Depois do aniquilamento do fascismo na Europa, o Brasil mantinha-se na mesma situação. Eduardo Gomes, Virgílio de Melo Franco, Juracy Magalhães e outros queriam que eu convencesse o general Dutra de que o Brasil não podia continuar a se perfilar com os inimigos da democracia, pois o mundo todo se libertava do fascismo (CAMARGO, 1984, p.298).

A partir de então, novas composições partidárias foram surgindo paulatinamente no país para a possível disputa a Presidência da República que provavelmente ocorreria ainda durante o ano de 1945. O primeiro nome lançado para presidente foi o do Brigadeiro Eduardo Gomes, comandante da Força Aérea e representante do grupo dos “constitucionalistas liberais” opositores ao Estado Novo que, posteriormente, lançariam a legenda política intitulada União Democrática Nacional (UDN), movimento esse que contou com a efetiva participação de José Américo em sua comissão diretora. Na condição de candidato da situação é lançada a candidatura do general Eurico Gaspar Dutra, ministro da Guerra, pelo então governador de São Paulo, Benedito Valadares e pelo presidente Vargas, que declarou oficialmente apoio ao candidato em um comício realizado no dia 1º de maio. No dia 9, desse mesmo mês, surgiu o Partido Social Democrático (PSD), que seria composto por figuras políticas que haviam ocupado cargos estratégicos durante o Estado Novo e declarava apoio à candidatura de Dutra à Presidência da República.

Concomitantemente ao lançamento dessas duas candidaturas, surgiu um movimento – encabeçado por alguns próceres ligados ao Partido Comunista, que havia saído da clandestinidade com o retorno de Júlio Prestes do exílio, e por Hugo Borghi, deputado federal pela cidade de São Paulo e um dos organizadores do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) – que buscou efetivar o

97 Mais informações a respeito do convite feito por José Américo ao ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra, para

encabeçar a principal chapa de sucessão a Vargas nesse período, vide ALMEIDA, José Américo de. Eu e Eles. 3 Ed. João Pessoa: A União, 1994, p.100.

nome de Getúlio Vargas entre os candidatos a eleição presidencial na tentativa de “(...) ‘redemocratizar’ o país sob os auspícios do ditador” (SKIDMORE, 1982, p.75), tornando-o uma espécie de “(...) condutor dos trabalhos constituintes previstos para 1946” (GOMES, 1998, p.530). Esse grupo ficou conhecido como os “queremistas” devido ao refrão de uma marchinha criada para a campanha de Vargas: “Queremos Getúlio”98.

Uma das manifestações programadas pelos queremistas, claramente apoiados pelo Ministério do Trabalho e financiados por setores empresariais, chamou-se Dia do Fico, pois pedia-se que Vargas ficasse para o “bem do povo e felicidade geral da nação”. (...) No Rio de Janeiro e em outras cidades do país, corriam muitos boatos sobre o futuro de Vargas, cuja saída do poder ameaçaria o destino dos trabalhadores, vale dizer, da legislação social-trabalhista. (...) O queremismo foi provavelmente, um dos indicadores mais evidentes da popularidade de Vargas (GOMES, 1998, pp.530, 531).

Embora a campanha pró-Vargas ganhasse a cada dia mais adeptos, a oposição se articulava no sentido de realizar, de todas as formas, as eleições antes da composição de uma nova Constituição encabeçada pelo ditador. No final do mês de setembro, a política brasileira experimentou mais uma intromissão yankee, depois que o embaixador dos Estados Unidos no país, Adolph A. Berle Jr., deu uma entrevista re-afirmando a necessidade da redemocratização do país a partir da realização de eleições livres. Essa intromissão estadunidense provocou a reação dos queremistas e dos comunistas ligados ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), que “(...) tacharam as eleições próximas como ‘maquinações reacionárias’” (SKIDMORE, 1982, p.75). Foi nesse momento de incertezas que, em junho de 1945, o ditador Getúlio Vargas lançou um pacote de medidas que causaram grande insatisfação entre os opositores se seu regime, principalmente os políticos e latifundiários ligados a UDN. Entre os decretos assinados pelo ditador, estava o decreto “antitruste” que criou uma comissão encarregada de...

(...) desapropriar qualquer organização cujos negócios estivessem sendo conduzidos de maneira lesiva aos interêsses nacionais. O decreto que começou a vigorar a 1º de agôsto tinha por objetivo estabilizar o custo de vida, proibindo a prática do monopólio. Mencionava especificamente “emprêsas nacionais ou estrangeiras sabidamente ligadas a associações, ‘trustes’ ou ‘cartéis’” (SKIDMORE, 1982, p.76).

98 Mais informações sobre o movimento queremista e suas implicações para a política brasileira nesse período, vide

GOMES, Angela de Castro. A política brasileira em busca da modernidade: na fronteira entre o público e o privado. In: História da Vida Privada no Brasil: contrastes da intimidade contemporânea. Lilia Moritz Schwarcz (Org.). São Paulo: Companhia das Letras, 1998, pp.489-558.

Além de atingir diretamente os latifundiários, a proposta varguista comprometeu, efetivamente, os interesses comerciais de grupos poderosos, principalmente advindos dos Estados Unidos, que esperavam ser beneficiados pelo governo brasileiro. Como forma de retaliação, políticos vinculados a UDN e a candidatura do brigadeiro Eduardo Gomes lançaram um protesto imediato contra as medidas varguistas, declarando-as “(...) ‘nada mais do que um instrumento do tipo nazi-facista, com que o ditador ameaça tôda a economia brasileira’” (SKIDMORE, 1982, p.76). Segundo José Américo, outro episódio teve uma repercussão negativa muito maior para a imagem de Vargas e, provavelmente, transformou-se no golpe de misericórdia sobre a política estadonovista, problemática essa curiosamente criada pelo próprio ditador ao nomear o seu irmão como Chefe de Polícia do Rio de Janeiro, Benjamim Vargas, atribuindo-lhe a função de encabeçar o movimento queremista:

Desde que eu dei a entrevista e aboliu-se a censura, o prestígio de Getúlio passou a ser abalado. Antes não havia política nenhuma, mas daí por diante houve debates e ele foi perdendo terreno. Depois, ele pensou que podia afastar a candidatura de Dutra e organizou-se o queremismo com os amigos de Benjamim Vargas – doidos, agressivos, ameaçando. Mas o que foi decisivo para a sua deposição, em 1945, foi o erro que ele cometeu, nomeando Benjamim para chefe de polícia. Dutra e Góis consideraram essa nomeação uma vitória do queremismo, como se Getúlio estivesse querendo suplantar a candidatura de Dutra. E resolveram dar o golpe. Foi uma coisa muito simples: a nomeação de Benjamim desencadeou tudo (apud ALMEIDA, 1984, p.307).

Essa opinião defendida pelo então ministro do TCU também foi corroborada pelo historiador brasilianista, Thomas Skidmore, na obra intitulada “Brasil: de Getúlio Vargas a Castelo Branco (1930-1964)”:

A 25 de outubro Vargas deu outro passo mais audacioso, o que foi demais para os generais. Comunicou a João Alberto, chefe de Polícia do Distrito Federal, que êste seria substituído por Benjamim Vargas, seu irmão e figura medíocre, conhecido por suas ligações com o lado mais sombrio dos negócios públicos (SKDMORE, 1982, p.77).

Após essa decisão, assumida de forma unilateral por Vargas, formou-se uma conspiração entre os militares oficiais do Exército – dirigida pelo general Góis Monteiro – desejosos pela derrubada do ditador civil. No dia 29 de outubro de 1945, o general Dutra levou um documento a Vargas, comunicando-lhe a insatisfação desse grupo de militares que trazia também uma espécie

de ultimato: ou ele retirava a indicação do seu irmão ao referido cargo, ou seria deposto através de um golpe. Além de discordar daquela solicitação, Vargas acreditou que tudo aquilo não passava de um blefe, insistindo na indicação de Benjamim. A posição assumida por Vargas legitimou o golpe chefiado por Góis Monteiro, determinado no mesmo dia da visita de Dutra:

Naquela noite, mandou (Góis Monteiro) o General Oswaldo Cordeiro de Farias ao palácio presidencial, para informar a Vargas de que o seu período havia terminado. A princípio, Getúlio se recusou a aceder. Mas desistiu, quando o seu velho companheiro explicou que qualquer resistência seria impossível. Quando Cordeiro de Farias perguntou se o presidente havia pensado em seus planos para o futuro, Vargas respondeu: “Quero ir direto daqui para São Borja”. A partida de Vargas foi ràpidamente arranjada, e, em 30 de outubro, êle entrou em seu “exílio”, no Rio Grande do Sul (SKDMORE, 1982, pp.77, 78).

Com o fim do estado Novo, diversos partidos foram criados, ou voltaram a compor os seus quadros políticos no país e, especialmente, no estado paraibano. Após a redemocratização, cinco partidos passam a liderar as disputas eleitorais no Estado: a União Democrática Nacional (UDN); o Partido Social Democrático (PSD); o histórico Partido Comunista do Brasil (PCB); o Partido Popular Sindicalista (PPS) e o Partido Democrata Cristão (PDC). Desses partidos, três legendas destacaram-se por suas atuações durante as sucessivas eleições que se realizariam ao longo da segunda metade da década de 1940 e início de 1950: PSD99, UDN100 e PCB101. Embora

99 Como havíamos dito anteriormente, o Partido Social Democrático era formado, em sua maioria, por forças

políticas ligadas diretamente ao Estado Novo. Na Paraíba era encabeçado pelo ex-interventor Ruy Carneiro e “(...) congregava as periferias urbanas do litoral, os pequenos e médios proprietários do interior e a maioria dos partidários da Revolução de 30” (MELLO, 2000, p.45). Entretanto também possuía em suas hostes, a exemplo da UDN, políticos conservadores, ligados diretamente a política ruralista/coronelísticas, como bem afirma a historiadora Monique Cittadino: “Na verdade, a presença dos representantes dos grupos oligárquicos é também marcante no interior do PSD: durante o seu governo, Ruy Carneiro procurou atrair os chefes políticos não prestigiados por Argemiro de Figueiredo buscando, em cada município, o apoio dos opositores locais ao argemirismo. Estes elementos, no momento da criação dos partidos, ingressaram no PSD, conferindo-lhe uma feição coronelística e, portanto, conservadora, neste aspecto não diferindo muito da UDN” (CITTADINO, 1998, p.31).

100 A União Democrática Nacional era composta, quase exclusivamente, por grupos políticos e econômicos

opositores ao regime estadonovista, responsáveis pela deposição de Vargas do poder. Na Paraíba, desde 1937, quando surgem os primeiros acordos para a organização da legenda no Estado, dois nomes de peso passaram a disputar a sua liderança: José Américo e Argemiro de Figueirêdo. Em 1945 o partido é fundado e o quadro político interno é composto sob duas alas majoritárias: a ala “americista” e a ala “argemirista”. Considerado o partido de maior projeção no Estado, forja-se sob “(...) uma frente integrada por todos os segmentos contrários ao Estado Novo – liberais, ex-perrepistas, tenentistas, comunistas, socialistas, radicais e o grosso da estudantada e bacharéis em Direito” (MELLO, 2000, p.44).

101 Nesse período, o movimento de esquerda no Estado paraibano – oposição as estruturas burguesas-coronelísticas –

foi encabeçado pela União Socialista da Paraíba, vinculando-se posteriormente ao Partido Comunista do Brasil (PCB). O líder do PCB, em âmbito nacional, era Luiz Carlos Prestes, que rompe com os últimos fios do laço político que mantinha com a UDN, ao lançar “(...) a tese de ‘União Nacional com Vargas contra o facismo’... (quando)

a luta pela redemocratização do país tenha alcançado o seu objetivo – retirar Vargas do poder –, o que se viu foi a criação de chapas partidárias que continuaram representando os interesses das mesmas lideranças políticas conservadoras e de uma boa parte dos grupos econômicos que surgiram dentro do próprio Estado Novo, ou seja, percebemos que não houve mudanças efetivas e significativas com relação às estruturas de poder no país.

A exceção do Partido Comunista (PCB), pode-se afirmar que os demais partidos eram constituídos pelas lideranças políticas mais tradicionais e conservadoras, de um lado, e por membros gestados a partir da própria máquina que estava supostamente sendo implodida, de outro (CITTADINO, 1998, p.28).

No dia 02 de dezembro de 1945 ocorreram as eleições para o cargo de Presidente da República e para Assembléia Nacional Constituinte. Em âmbito nacional, o brigadeiro Eduardo Gomes e a UDN perderam as eleições para o general Dutra, eleito com ampla maioria dos votos: