“Algo toma forma em nós. Que as sementes do inverno se transformem em árvores e folhas!
O tema do receptor abriu-nos janelas de compreensão. Um texto opera dentro de quem o lê ou ouve transformando-o. O que quer que seja, manifestado como quer que seja, pode nos penetrar e habitar. Ao nos possuir, age junto conosco e em nós e através de nós, pode nos recriar.
E em nós pode construir uma nova história.
Assim pudemos compreender que Deus “possuiu” Inácio. E fez dele, e nele, a voz necessária para que Ele chegasse a outros. Deus fez em Inácio, a escuta diferencial para que Ele pudesse ser falado.
E tudo aconteceu a despeito de Inácio. Inácio estava além dele mesmo. Entregou-se para que nele se fizesse a Vontade do Pai. Que gratidão Deus deve ter tido por Inácio! E que gratidão Inácio teve por Ele, pois só através Dele pode ir além de si mesmo. É pelo texto produzido que podemos depreender o homem e seu contato com o além dele. Tudo se passa permeado pela busca e na busca do contato com Deus. O acontecer vai do visível e manifesto ao não visível e apreensível. O acontecer vai da experiência da queda à experiência do encontrar e levantar-se. Algo é encontrado porque foi buscado e escavado sob os escombros do deserto interno. E ali está! Ali está o que já havia tocado o coração e já nele habitava: Deus.
O peregrinar é condição do sair de si mesmo. Seguir peregrinando é condição de construir-se e reconstruir-se.
Enquanto leitores-receptores,seguimos.”1
“Aperfeiçoar-se – este termo insólito – distancia-se do acumular, do superpor, do acrescer. Talvez venha de uma outra ordem de sabedoria, a do reconhecimento, a capacidade delicada de ir aos poucos atingindo e conquistando, não propriamente o essencial, mas o inevitável. E o inevitável é construir-se.”2
1 Texto de Maria Teresa Moreira Rodrigues, elaborado no decorrer deste mesmo trabalho. Ϯ
SANTOS, Roberto C., “Apresentação”. In: LISPECTOR, Clarice. Laços de família. São Paulo: Francisco Alves, 1991, p.13.
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Os Exercícios Espirituais de sto. Inácio de Loyola - PUC-SP. 2011
Temos dois textos. Em ambos, o tema é “buscar-encontrar”, é “aperfeiçoar- se/contruir-se”, não importa se com conotação sagrada ou profana. Em ambos, o binômio escrita-leitura pode “penetrar” o ser humano. E esse “ser penetrado” está acontecendo, em cada um de nós, todo o tempo, de várias e diferentes maneiras. Michel de Certeau vai tratar desse tema, sobretudo em sua obra A invenção do cotidiano3. Se escrever é produzir um texto, ler deve ser um peregrinar por ele. Ler é dar sentido a um sistema de signos e dele tirar a reserva de formas que está ali para ser encontrada. O ato de ler é um deixar-se modificar pelo texto, transformando-o numa produção própria, a produção daquele que o lê. “O leitor não toma nem o lugar do autor nem um lugar de autor. Inventa nos textos outra coisa que não aquilo que era a ‘intenção’ deles.”4. Ou seja, um texto ganha sentido graças a seus leitores.
No entanto, a operação escritor-leitor, obra-receptor, transformando-se e transformando o texto (ou outro objeto), não é uma operação simples e que clara e naturalmente acontece. Há questões que são inerentes ao próprio sujeito da leitura e que dizem respeito às suas possibilidades e/ou impedimentos internos. E há também questões que dizem respeito às “agências reguladoras de plantão”, as transmissoras dos textos, e que costumam exercer interferência na relação texto-leitor. Por exemplo, houve um tempo em que esse controle foi exercido pela Igreja, que demarcava o que deveria e o que não deveria ser lido na Sagrada Escritura. Hoje, podemos pensar que há uma leitura que é proposta aos consumidores dos meios de comunicação em geral, mas que não deixa de conter, em si, um controle e uma demarcação. É uma proposta feita pelos produtores da cultura vigente, que esperam e encontram uma recepção positiva de seus fiéis seguidores, já cativos de um sistema que pode ser manipulador da linguagem. Portanto, a leitura, do que quer que seja, pode estar obliterada no receptor, e pode ser vivida dentro de uma relação de forças, quer seja entre mestres e alunos, quer seja entre produtores e consumidores.
No entanto, acreditamos que a leitura do texto dos EE consegue escapar a “controles” e a manipulações, permitindo um encontro genuíno entre leitor e receptor, sobretudo porque não são matéria para ser lida, mas para ser feita, no seguimento de um processo que traz, no seu bojo, exatamente o encontro consigo mesmo, ao buscar encontrar algo que está além daquele que busca.
É dentro deste quadro que destacamos a importância do livro dos EE: a importância de ser um texto capaz de gerar, no leitor-exercitante, uma “escrita própria e transformadora”. E é
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CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano. 6 ed, Petrópolis: Vozes, 2001. Aqui, foi-nos de especial importância o capítulo XII, “Ler, uma operação de caça”, às p.259-273.
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Os Exercícios Espirituais de sto. Inácio de Loyola - PUC-SP. 2011
exatamente com estas palavras que Roland Barthes vai se referir ao trabalho que os EE provocam, naquele que os faz. Em sua obra Sade, Fourier, Loyola5, Barthes traça uma longa análise do texto dos EE de Inácio, a quem chama por Loyola, e explica porque: “Loyola é apenas um nome de aldeia. Sei que deveria dizer Inácio, ou Inácio de Loyola, mas continuo a fala desse autor como sempre o chamei para mim mesmo”6.
A importância do trabalho de Barthes reside exatamente no fato de que, tendo sido gerado fora dos muros eclesiais, podemos nele ver os EE sendo reconhecidos, valorizados e estudados, ou seja, interferindo em outros leitores-receptores além dos que fazem as leituras “autorizadas”. Por outro lado, encontramos que a recíproca é verdadeira; os que fazem as leituras “autorizadas” vão para fora dos muros confessionais e o que ali descobrem é valorizado e estudado. Santiago Arzubialde7, por exemplo, reconhecido especialista nos EE, considera um “achado luminoso”8, a leitura de Roland Barthes dos EE, que encontra neles um texto que é único, por sua lógica interna de quatro textos. E Michel de Certeau partilha da valorização dada por Arzubialde: “é preciso ser Barthes para se atrever a fazê-lo”9, ou seja, apenas personalidades como ele poderiam ver sua liberdade de leitor ser tolerada entre os “funcionários especializados da cultura vigente”.
É dentro deste quadro de mútuo reconhecimento que se destaca a importância do livro dos EE como texto capaz de gerar, no leitor-exercitante, uma “escrita própria e transformadora”. Os EE são para criar e construir a liberdade, e sempre mais se forem feitos, compreendidos, vividos e dados, desde um Inácio resgatado na totalidade de sua experiência pessoal vivificante e do seu texto integral. Um trecho de Miguel de Certeau vai ilustrar mais esse tema:
“Com o enfraquecimento da instituição [Igreja], aparece entre o texto e seus leitores a reciprocidade que ela escondia, como se, em se retirando, ela permitisse ver a pluralidade indefinida das ‘escrituras’ produzidas por diversas leituras. A criatividade do leitor vai crescendo à medida que vai decrescendo a instituição que a controlava. (...) A leitura ficaria então situada na conjunção de uma estratificação social (das relações de classe) e de operações poéticas (construção do texto por seu praticante): uma hierarquização social atua para conformar o leitor à ‘informação’ distribuída por uma elite (ou semi-elite): as operações de leitura trapaceiam com a primeira insinuando sua inventividade nas brechas
5BARTHES, Roland. Sade, Fourier, Loyola. São Paulo, Martins Fontes, 2005. 6 BARTHES, Roland. Sade, Fourier, Loyola. Notas. p.XXI.
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ARZUBIALDE, Santiago. Ejercicios espirituales de s. Ignacio: historia y análisis. 2 ed. revisada, Bilbao/Santander: Mensajero/Sal Terrae, 2009.
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ARZUBIALDE, Santiago. Ejercicios espirituales de s. Ignacio. p.27. ϵ
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano. p.267. Os autores deste trabalho é que inferiram que Certeau poderia estar se referindo a esse trabalho de Barthes, sobre o material dos EE - de “propriedade” de uma instituição, no caso a “Companhia de Jesus”.
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Os Exercícios Espirituais de sto. Inácio de Loyola - PUC-SP. 2011
de uma ortodoxia cultural. (...) Ambas pois colaboram para fazer da leitura uma incógnita de onde emerge de um lado, teatralizada e dominante, a única experiência letrada e, do outro, raros e parcelados, à maneira de bolhas que somem do fundo d’água, os índices de uma poética comum”. 10
Os EE podem escapar à “informação distribuída por uma elite”11 e podem favorecer a “inventividade nas brechas de uma ortodoxia cultural”. O próprio “nascimento” do texto dos EE mostra-nos isso, como já vimos nos capítulos anteriores, até pela experiência de seu criador, Inácio, que primeiro os viveu, desde os tempos de convalescença em Loyola, depois os escreveu e transmitiu. Considerando que os EE favorecem o apropriar-se de uma experiência, podemos usar a expressão de Michel de Certeau, e dizer que eles permitem operações poéticas, que são a construção do texto por seu praticante.
No entanto, é também necessário ter como um alerta a última frase de Michel de Certeau, no capítulo XII, “Ler: uma operação de caça”, da obra já citada.
“Mas onde o aparelho científico (o nosso) é levado a partilhar a ilusão dos poderes de que é necessariamente solidário, isto é, a supor as multidões transformadas pelas conquistas e as vitórias de uma produção expansionista, é sempre bom recordar que não se devem tomar os outros por idiotas.”12
O cuidado está presente nas propostas de Inácio, tanto para que cuidemos do que chega até nós, como do que concluímos por nós mesmos. Vale mencionar que ele é pensado como um “mestre da suspeita” por Josep Rambla Blanch, não por estar alinhado com os grandes críticos da religião, na modernidade: Marx, Freud e Nietzsche. Ele é assim pensado, pois sempre coloca “sob suspeita o próprio sujeito, a própria pessoa crente e sua experiência de fé”13. Josep Rambla Blanch considera que “A suspeita é o campo mais próprio da razão. A razão é um dos instrumentos mais valiosos que o ser humano tem para afrontar o mundo. Ela não é criadora, pode ser explicadora, mas é, sobretudo, crítica e ‘inquisidora’ (no bom sentido da palavra): por isso é também crítica de si mesma e de seus próprios condicionamentos e
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CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano. p.267 - 268. Os itálicos são nossos. ϭϭ
Importante afirmar, nessa altura do trabalho, que os autores não estão fazendo ou insinuando qualquer crítica à Companhia de Jesus com a qual, aliás, mantêm relação de mútua cooperação com muitos de seus religiosos e, em especial, com o Centro de Espiritualidade de Itaici (CEI). Além disso, reconhece o esforço que os jesuítas sempre fizeram para levar os EE a todos, assim como estimulam a participação de leigos em suas atividades.11 No entanto, estamos cientes que estruturas burocrática e política, de qualquer instituição, costumam gerar algum engessamento em seus membros e em suas atuações. E o que a Companhia de Jesus e os Jesuítas representaram e representam, na história da Igreja e na história universal, do ponto de vista da política, da cultura e do social, não está no escopo deste trabalho.
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Michel de Certeau. A invenção do cotidiano, p.273. Os itálicos são nossos. ϭϯ
RAMBLA BLANCH, Josep. In: Maestros de la sospecha, críticos de la fe. Centre d’Estudis Cristianisme i Justícia. Série Estudios. n.12. Barcelona.
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Os Exercícios Espirituais de sto. Inácio de Loyola - PUC-SP. 2011
limitações.”14 E como já pudemos ver, ao longo do capítulo anterior, Inácio incita-nos continuamente a suspeitar de nós mesmos, oferecendo-nos “avisos e regras”, no decorrer do processo dos EE; e, para tanto, incitando-nos a fazer uso de nosso aparato de inteligência/memória/vontade. Suas inúmeras regras, avisos e adições se prestam a esse trabalho, que tem como meta conhecer e ordenar os afetos, condição para a pessoa humana alcançar a liberdade e o sentido verdadeiro de sua vida.
Neste preâmbulo, quisemos abordar os EE, tratando-os como possibilidade de leitura e processo de criação e transformação pessoal, já fora do âmbito eclesial e de uma leitura religiosa cristã. Com isso, acreditamos estar facilitando o diálogo com o universo da leitura que Barthes fez dos EE.