1.1.3. Vergi Hukukunda Zamanaşımı Uygulamasının Dayanakları
1.1.3.1. Hukuk devleti ilkesi ve vergi hukukunda zamanaşımı uygulaması
1.1.3.1.2. Hukuki güvenliğin sağlanması açısından vergi
Barthes vê nos EE uma condição muito particular, pois embora seja um só Texto, pois atingiu o status de escritura, ele traz dentro de si quatro textos diferentes, interligados por uma lógica interna; e ele assim os nomeará: o texto literal, o semântico, o alegórico e o anagógico.38
O primeiro texto é aquele dirigido ao diretor do retiro. É o texto literal, pois representa o nível literal da obra, do discurso; é sua natureza objetiva, histórica. Aqui há uma relação de leitura, mas é uma relação que se dá entre Inácio e o diretor.
O segundo texto é aquele que o diretor dirige ao exercitante. Aqui, a relação entre os dois interlocutores já não é a mesma anterior. Não é uma relação de leitura, de ensino. Trata- se de uma relação de doação, que implica em confiança e crédito por parte do exercitante, e em socorro e neutralidade por parte do diretor.39 O diretor dá os EE, adapta-os, lida com eles como matéria que permite manejo, susceptível de ser alongada, encurtada, amaciada, reforçada; e tudo conforme a particularidade daquele que os recebe. O texto não é mais o próprio discurso, é como um argumento. Agora, o texto é o texto semântico.
Para compreendermos melhor a divisão proposta por Barthes, e para nos situarmos no Texto de Inácio, vejamos: no primeiro texto, chamado literal, as Anotações40 [EE 1 a 20] precedem as Quatro Semanas (processo total); já no segundo texto, chamado semântico, as Anotações não precisam mais anteceder as Semanas, pois são material que se refere a todas elas; as Anotações são um parâmetro a ser seguido quando necessário, e assim podem ser dadas ou revistas. Isso mostra-nos a independência dos dois textos, o literal e o semântico,
38 Aqui, podemos pensar nos quatro sentidos da Escritura, tais como eram apresentados na Idade Média. Uma
expressão medieval diz o seguinte: “Littera gesta docet; quid credas allegoria, moralis quid agas, quo tendas anagogia”, cuja tradução seria: “A letra diz o que acontece, a alegoria diz em que se crê, o sentido moral o que fazer, a anagogia em que sentido caminhar” (BUZZETI, Carlo. 4x1: um único trecho bíblico e vários "fazeres". São Paulo: Paulinas, 1998, p.41). Palavras do prof. Pedro de Vasconcelos, em sala de aula, 2010: “Os intérpretes medievais da Bíblia apostavam na convergência entre esses quatro sentidos (literal, alegórico, moral e anagógico) e também na hierarquia entre eles, cabendo a primazia ao anagógico (referente ao destino humano final, onde se localizaria o sentido místico do texto bíblico) e a menor importância ao literal.”
39 Adolfo Chércoles, sj e muitos outros insistem em que Inácio não usava a expressão “diretor”, apenas dizia “aquele que dá os EE”, pois não há quem “dirige” os EE, pois eles são interlocução com Deus, que tem primazia sobre todo o processo.
40 No início do texto dos EE, temos: “[EE 1]: Anotações para adquirir alguma compreensão dos EE que se seguem e para ajudar tanto o que os há de dar, como o que os há de receber.”
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Os Exercícios Espirituais de sto. Inácio de Loyola - PUC-SP. 2011
que podem ser manejados de forma diferente, embora na escrita os dois textos sejam um só. E ainda há algo interessante que Barthes nos vai apontar: embora haja um ator comum aos dois, que é o diretor, no primeiro texto ele é destinatário, e no segundo ele é doador. Algo semelhante acontecerá com a pessoa do exercitante, depois.
No terceiro texto, o exercitante que antes fora receptor, aqui será emitente. Tendo recebido o texto agora ele escreve outro, que é o texto “agido”, pois construído a partir das “ações” propostas pelo diretor do retiro, que são as meditações, os gestos e as práticas prescritas, cerne do exercício dos EE. Este texto será diferente do segundo, porque não tem como ser cumprido à risca, já que será o texto da palavra elaborada pelo exercitante, em suas meditações e contemplações. Assim elaborada, esta palavra é dirigida à divindade, na desejada e buscada relação entre exercitante e Deus, que é a razão última dos EE. Nesta relação, há um emitente e um receptor: “Deus é o destinatário de uma língua cujas palavras são aqui orações, colóquios e meditações.”41 Cada oração é precedida de um pedido para que Deus receba a mensagem que se seguirá, que é essencialmente alegórica42, feita de imagens e imitações, segundo o modo de orar proposto. Este é o texto alegórico.
Como a divindade é chamada a responder, na tessitura do texto dos EE está prevista, tecida e entretecida uma resposta de Deus. E ela será o quarto texto, texto da relação entre Deus, o doador e o exercitante, o destinatário. É texto anagógico, o que trata do destino humano final e traduz o sentido místico da relação.
Vimos como os EE são um texto que contém quatro textos diferentes, interligados por uma lógica interna. Fazer os EE é percorrer todos os textos, indo da letra dos EE (texto literal – o primeiro) ao seu conteúdo (texto semântico – o segundo), e passando pelo agir o texto (texto alegórico – o terceiro), antes de atingir o sentido mais profundo, que é o signo libertado pela divindade (texto anagógico – o quarto).
Na tabela abaixo temos os quatro diferentes textos com seus respectivos nomes. Também podemos visualizar o doador e o destinatário de cada um dos textos; quem foi o destinatário em um texto, no seguinte será o doador. Chamamos a atenção de que nos dois últimos textos há uma troca de papéis; nestes, está tecida a relação exercitante-divindade e
41 BARTHES, Roland. Sade, Fourier, Loyola. p.39.
42 Alegoria: “essa figura da linguagem é um ‘dizer outra coisa’. [ ] Transporta um ‘segundo sentido’ para um ‘primeiro sentido’. [ ] Envolve um sentido – conhecido! – com uma aparência comum de significação óbvia e comum. [ ] É fácil perceber que a alegoria parte de algo conhecido para terminar em uma figura, a qual, por sua vez, remete o leitor ou o ouvinte a algo conhecido, mas lido a partir da imagem.” – CROATTO, José Severino.
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Os Exercícios Espirituais de sto. Inácio de Loyola - PUC-SP. 2011
divindade-exercitante, e a este caberá “ouvir” a divindade43. Terminada a sequência dos textos, ela é continuamente retomada quando os EE são dados.
I II III IV
Texto literal Semântico Alegórico Anagógico Inácio
O diretor O diretor
O exercitante O exercitante
A divindade A divindade O exercitante Os quatro diferentes textos44
O texto múltiplo dos EE é uma estrutura. É um texto que se estrutura de forma inteligente, que inclui tanto os sentidos da Escritura como a interlocução com a divindade. Em os sentidos da Escritura45 encontramos o que marcou a relação entre Deus e a criatura no pensamento teológico da Idade Média. Na interlocução temos o texto colocado em ação pelos quatro interlocutores que assumem papel duplo, exceto Inácio. Inácio abre a cadeia de mensagens, mas é também o exercitante que a fecha. Para conhecer a língua usada pela divindade em sua resposta, que estará no texto anagógico, o texto místico por excelência, é necessário recorrer ao Diário Espiritual de Inácio; é lá que ele é nomeadamente o sujeito46, assim como o pode ser todo aquele que faz os EE.
Do texto múltiplo ainda podemos dizer que inclui o revezamento: cada um recebe e transmite o que recebeu, e é assim que a estrutura do texto ganha corpo. Abaixo, uma frase de Pannikar que ilustra ainda mais esse sentido de colaboração e comunicação entre partes envolvidas, mesmo que ele esteja se referindo a outro contexto.
“Dentro de um mundo hierárquico – entendida a hierarquia em seu sentido etimológico (ordem sacra) –, a iniciação é necessária, porque a passagem de um estado a outro, de um
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O tema da “consulta à divindade” será visto no bloco seguinte, o 3.3.3. A mântica. ϰϰ
BARTHES, Roland. Sade, Fourier, Loyola. p.40.
45 Ver nota de rodapé sobre os quatro sentidos da Escritura na Idade Média, em nota anterior. ϰϲ
É por isso que Inácio recomenda que cada um tenha seu Diário Espiritual e nele escreva as revisões de orações, que incluem o registro das moções vividas durante a oração, de onde se pode (ou não) depreender e conhecer a língua usada pela divindade. Sobre questões ligadas ao Diário Espiritual ver as seções 1.2.2 e 1.3 do Cap. I deste mesmo trabalho.
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grau a outro, de um nível a outro, não é automática; necessita-se de uma colaboração
entre mãos que se estendam e braços que cheguem a alcançar tais mãos.”47
Barthes entende que a função desse revezamento é dispor, em cada revezamento da interlocução, duas incertezas que são necessárias para o processo. Uma, é que o exercitante não pode e nada deve saber, antecipadamente [EE 11]48, sobre a sequência das experiências que lhe são recomendadas progressivamente pelo diretor. Ele é o leitor de uma narrativa e deve vivê-la em suspense e a partir de si mesmo, pois ele próprio é o ator da história da qual recebe os elementos que pouco a pouco lhe vão sendo oferecidos. Outra incerteza diz respeito às perguntas que permanecerão no ar, nos dois últimos textos: Receberá a divindade a língua do exercitante? E dará em troca uma língua para decifrar? O [EE 98]49 é o momento culminante da interlocução, em que o exercitante faz oblação de si à divindade.
Estas duas incertezas, previstas e buscadas pela estrutura do texto, marcam o drama da interlocução que acontece nos EE. O exercitante assemelha-se a um sujeito que fala, ignorando o fim da frase que começa; ele vive a incompletude da série falada. Além disso, ao exercitante não é dado o fundamento de toda fala, a interlocução; ele tem que inventar a língua com a qual deve se dirigir à divindade (texto alegórico) e ainda preparar a resposta possível (texto anagógico – diário espiritual); ele tem que aceitar este trabalho enorme e incerto de ser um construtor de linguagem, um logotécnico.