3.3. TAHSİL ZAMANAŞIMINI DURDURAN VE KESEN NEDENLER
3.3.2. Tahsil Zamanaşımını Kesen Nedenler
José Afonso da Silva constatou a existência de um grupo de normas constitucionais que não seriam capazes de produzir, por conta exclusiva de sua própria vigência, “todos os seus efeitos essenciais”. Tal fenômeno, segundo o citado autor, ocorreria porque o legislador não teria estabelecido “sobre a matéria, uma normatividade para isso bastante, deixando essa tarefa ao legislador ordinário ou outro órgão do Estado”101. Assim, encerrando sua classificação tricotômica das normas constitucionais, José Afonso da Silva abre o estudo daquelas que denomina normas constitucionais de eficácia limitada ou reduzida.
Este grupo de normas compreenderia dois tipos distintos de normas: a) as normas definidoras de princípio institutivo ou organizativo; e, b) as normas definidoras de princípio programático102.
As normas constitucionais definidoras de princípio institutivo ou organizativo seriam aquelas que estabelecem os esquemas das instituições políticas do Estado, apresentando, por isso, um “conteúdo organizativo e
101 Aplicabilidade das normas constitucionais. 6ª ed. São Paulo: Malheiros, 2003, p. 82. 102 Antes de avançar, José Afonso da Silva abre um aposto elucidativo para advertir que
palavra princípio possui um amplo espectro semântico no Direito, podendo ser empregada em sentidos diversos. Aqui, esquematicamente, os apresentamos conforme extraímos da obra em estudo: a) normas definidoras de princípio institutivo. Nesta acepção, a palavra princípio se apresentaria com o sentido de início, ponto de partida, começo. Tratar-se-iam, portanto, de “normas que contêm o início ou esquema de determinado órgão, entidade ou instituição, deixando a efetiva criação, estruturação ou formação para lei complementar ou ordinária”; b)
normas constitucionais de princípios gerais ou normas-princípios: Referem-se às proposições
jurídicas das quais se desdobram analiticamente as normas particulares que incidem e regulam diretamente os fatos sociais. Para José Afonso da Silva, seria mais adequado chamá-las de normas fundamentais, embora a Constituição Federal de 1988 as tenha denominado de princípios fundamentais. Neste grupo se acomodariam as normas que estabelecem as diretrizes gerais que informam e condicionam a ordem jurídica, tais como os princípios da isonomia, da legalidade, da irretroatividade da lei, dentre outros; c) normas que contêm
princípios gerais do direito constitucional: Citando a lição de Pinto Ferreira, José Afonso da
Silva afirma que nesta categoria se concentrariam “os summa genera do direito constitucional, fórmulas básicas ou postos-chave de interpretação e construção teórica do constitucionalismo”. Seriam os princípios da supremacia da constituição, do federalismo, do controle jurisdicional da constitucionalidade das leis, dentre outros. (Idem, pp. 118-121).
regulativo de órgãos e entidades, respectivas atribuições e relações”103. Seriam
normas de eficácia limitada pelo fato de exigirem uma legislação posterior que lhes complemente e desenvolva sua eficácia, permitindo, assim, sua efetiva aplicação.
Como exemplos de normas constitucionais definidoras de princípio institutivo, a Constituição Federal de 1988 prevê que “a lei disporá sobre a organização administrativa e judiciária dos Territórios” (artigo 22); “a lei regulará a organização e o funcionamento do Conselho da República” (artigo 90, § 2º); “a lei regulará a organização e o funcionamento do Conselho de Defesa Nacional” (artigo 91, § 2º); “a lei disporá sobre a competência do Tribunal Superior do Trabalho” (artigo 111-A, § 1º); “a lei disporá sobre a constituição, investidura, jurisdição, competência, garantias e condições de exercício dos órgãos da Justiça do Trabalho” (artigo 113).
As normas constitucionais definidoras de princípio programático, por sua vez, teriam finalidades e conteúdos notavelmente distintos.
No Estado Liberal, os cidadãos conquistaram estatutos jurídicos que lhes asseguraram a proteção contra os abusos praticados pelo próprio Estado. Tais estatutos passaram a vedar, limitar ou conformar a ação dos entes públicos em suas relações com os jurisdicionados. A defesa da liberdade do indivíduo passou a se operar, sobretudo, por uma postura omissiva do Estado, que adotou a abstenção como instrumento de efetivação do projeto constitucional, cujo desenvolvimento competiria aos próprios cidadãos.
A empiria demonstrou que não apenas o Estado atua como potencial agressor das liberdades individuais. Há entes que exercem um poder privado sobre os demais cidadãos, apoiado em um desnível econômico, social,
103 SILVA, José Afonso da. Aplicabilidade das normas constitucionais. 6ª ed. São Paulo:
cultural ou dogmático. A abstenção do Estado deixava o cidadão à mercê de outras fontes de poder e equivalia à própria ação nociva que as garantias constitucionais visavam proteger. O Estado Liberal falhou na promoção do desenvolvimento dos direitos básicos dos cidadãos.
Foi necessária uma evolução do conceito e do papel do Estado na sociedade, com “a ampliação de sua atividade e a intervenção na vida econômico social que permanecia à sua margem”104. Esse modelo intervencionista, resultado do embate dialético entre o liberalismo e o socialismo, passou a ser instrumento de realização dos direitos fundamentais dos cidadãos.
Neste panorama, as normas constitucionais definidoras de princípio programático veiculariam um conteúdo social que criaria as bases para um efetiva “interferência do Estado na ordem econômico-social, mediante prestações positivas, a fim de propiciar a realização do bem comum, através da democracia social”105.
Muitas destas normas, afirma José Afonso da Silva, “são traduzidas no texto supremo apenas em princípio, como esquemas genéricos, simples programas a serem desenvolvidos ulteriormente”106 pelo legislador.
São programas de ação, linhas diretoras que orientam os órgãos do Estado em sua missão constitucional. É neste exato ponto que se identificariam as normas constitucionais definidoras de princípio programático.
Poderíamos conceber como programáticas aquelas normas constitucionais através das quais o constituinte, em vez de regular direta e imediatamente determinados interesses, limitou-se a traçar-lhes os princípios
104 SILVA, José Afonso da. Aplicabilidade das normas constitucionais. 6ª ed. São Paulo:
Malheiros, 2003, p. 136.
105 Idem.
para serem cumpridos pelos órgãos do Poder Público, como programas das respectivas atividades, visando à realização dos fins sociais do Estado107.
Segundo José Afonso da Silva, tais normas têm a vocação de traduzir “os elementos sócio-ideológicos da constituição, onde se acham os direitos sociais, [...] econômicos e culturais”, além de, com maior relevância, indicar “os fins e objetivos do Estado, o que importa definir o sentido geral da ordem jurídica” 108.
Assim, as normas programáticas seriam aquelas que: a) definem os direitos sociais, assim considerados em um sentido amplo, a ponto de abranger os direitos econômicos e culturais; b) estabelecem princípios gerais da ordem econômica e social, como, por exemplo, a defesa do consumidor, do meio ambiente, da livre concorrência, a redução das desigualdades regionais e sociais, a busca do pleno emprego, o bem-estar e a justiça social, tal como se encontram nos artigos 170 e 193 da Constituição Federal de 1988.
As normas constitucionais que estabelecem princípios gerais da ordem econômica e social são considerados como programáticos apenas pelo fato de definirem o projeto constitucional, estabelecendo objetivos e tarefas ao Poder Público. Tais normas constituem, segundo José Afonso da Silva, “Direito imediatamente vigente e são diretamente aplicáveis”, embora reconheça que a doutrina e a jurisprudência ainda não foram capazes de perceber o seu alcance e lhes dar aplicação adequada109.
As normas definidoras de direitos econômicos e sociais seriam irradiações destas disposições principiológicas. De forma oposta à escola liberal e seu postulado de omissão do Estado, as normas que definem direitos
107 SILVA, José Afonso da. Aplicabilidade das normas constitucionais. 6ª ed. São Paulo:
Malheiros, 2003, p. 138.
108 Idem, p. 139. 109 Ibidem, pp. 143-144.
econômicos e sociais impõe ao Poder Público uma prestação positiva que consolide meios eficazes para que os cidadãos possam materialmente atingir e fruir todos os direitos e as liberdades que o projeto constitucional lhes confere.
Certo, porém, que tais normas dependem de providências ulteriores do Poder Público, que as desenvolverá por completo, por meio de politicas e instituições, até se consubstanciarem em situações subjetivas de vantagem para o cidadão. Tais normas ditam comportamentos aos poderes do Estado, possuindo, portanto, um caráter imperativo e vinculativo que afirmam sua juridicidade.
Em conclusão, José Afonso da Silva reconhece nas normas programáticas uma eficácia imediata, direta e vinculante ao estabelecerem um dever para o legislador ordinário; ao condicionarem a legislação futura, sobre as quais exerce uma força paralisante em caso de incompatibilidade; ao informarem os fins do Estado, inspirando a ordem jurídica; ao atribuir um sentido teleológico que vincula a atividade interpretativa e integrativa das normas jurídicas; ao condicionarem a atividade discricionária da Administração e do Judiciário; e, ainda, ao eventualmente criarem situações subjetivas de vantagem.