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4. KANUNĠ TEMSĠLCĠ

4.5. Anonim ve Limited ġirketlerde Kanuni Temsilciler ve Görev ve Yetkileri

4.5.7. Tasfiye Memurları

Na querela conceitual que distingue a razão do raciocínio, a constatação rousseauniana de que os “juízos que nos enganam”, como podemos notar, advém das falhas do raciocínio, e não da razão. Se Rousseau se dirige contra a insuficiência da razão, é porque ele sabe da sua natural limitação. Se ele insiste em reafirmar essa opinião, é porque se opõe aos

philosophes, que, por intermédio da razão, tudo querem conhecer. Rousseau é um pensador de

artifícios; contra o dogmatismo religioso, ele opõe a virtude de uma vida simples e a autonomia da razão; contra a pretensiosa razão dos teóricos das Luzes, ele oporá a consciência e novamente

o exemplo de uma vida virtuosa. Dessa forma, em seu Projeto de educação para o Sr. de Saint-

-Marie (Projeto), Rousseau (1994b), ao ensinar ao seu aluno princípios de moral, fará com que

ele entenda quando deve opor o coração (couer) à razão (raison). Em sua pedagogia do Projeto, Rousseau faz apelo ao “resignar-se do sentimento” contra as inebriantes luzes da razão, que mais nos ofuscam do que nos aperfeiçoam. Nesse escrito, ele nos diz que “[...] o bom senso depende mais ainda dos sentimentos do coração do que as luzes do espírito; constata-se que as pessoas mais sábias e mais esclarecidas nem sempre são aquelas que se comportam melhor nos assuntos da vida” (ROUSSEAU, 1994b, p. 61). Nesse sentido, da virtude contra os defeitos da razão, Rousseau (1995, p. 51) opõe a miséria das luzes à riqueza das virtudes necessárias para uma vida feliz:

Mas, se me restam poucas aquisições a esperar das luzes úteis, restam-me outras bem importantes a fazer no campo das virtudes necessárias ao meu espírito. É nesse ponto que seria tempo de enriquecer e de ornar minha alma com um cabedal que ela pudesse levar consigo, quando, liberta deste corpo que a perturba e a cega, e vendo a verdade sem véus, ela perceberá a miséria de todos esses conhecimentos de que nossos falsos sábios são tão orgulhosos.

Na disputa de Rousseau contra os dogmáticos da fé religiosa e os dogmáticos das

Luzes, Jean-Jacques escolherá o homem em sua totalidade. Salinas Fortes (1989, p. 34)

salienta que, para Rousseau:

[...] a atividade do conhecimento não é mais deixada com exclusividade ou ao puro intelecto ou às impressões sensíveis. No conhecimento, acha-se comprometido o homem na sua totalidade e, portanto, também o sentimento e suas ‘paixões’. [...] Trata-se, pois, de uma recusa do intelectualismo e do racionalismo [...].

No âmbito da investigação, diz o intérprete, Rousseau inaugura, antecipando-se a Kant, um novo estatuto no campo do conhecimento. Se a capacidade humana do conhecimento é limitada, reconhece Rousseau, a esfera “prática” dos nossos deveres e das nossas condutas será mais importante do que o conhecimento teórico (SALINAS FORTES, 1995). Assim, podemos concluir que a autonomia da razão servirá de antídoto ao dogmatismo religioso, bem como o couer funcionará como uma alternativa às Luzes e a vida virtuosa atuará como um remédio para ambos.

Contudo, a querela de Rousseau com os philosophes não terminará na sua crítica à “razão pretensiosa” que a tudo quer conhecer; em outras duas oportunidades, ele se opõe às seitas filosóficas: num texto intitulado Meu retrato, ele combate o que chamou de “ceticismo moral” dos filósofos; na Carta a Franquières, ele desfere suas críticas contra o “ceticismo radical” dos mesmos. Rousseau, que só tardiamente conheceu o glamour dos salões

parisienses, pôde cedo perceber a hipocrisia das rodas de conversa de Paris. Os grupos particulares, os seus preconceitos, o clima de artificialidade, a soberba das suas opiniões, o tom superior e a descrença nos valores da virtude serão características das cabalas filosóficas parisienses. Em tom crítico, Rousseau descreve sua experiência nesses ambientes14; assim, ele

ressalta primeiramente que conheceu um pouco o tom das sociedades, os assuntos nela tratados e como eram tratados e, por fim, com uma entonação mais acentuada, ele faz uma espécie de julgamento dessas sociedades. Em breves palavras, ele diz: “[...] Onde está a grande maravilha de passar a vida em conversas ociosas, a discutir sutilmente o pró e o contra e a estabelecer um ceticismo moral que torna indiferente aos homens a escolha do vício e da virtude?” (ROUSSEAU, 2009, p. 80). Nesses lugares, constata o genebrino, faz-se presente o ateísmo dos philosophes com o seu ceticismo radical, que, ao supervalorizarem a razão, têm como intenção fazer com que os homens desacreditem em Deus. Rousseau (2005f, p. 186) julga, em oposição ao ceticismo filosófico, que “[...] Arrancar do coração dos homens toda crença em Deus é destruir toda a virtude”. A saída encontrada por ele contra o orgulho vão dos filósofos será o apelo ao sentimento interior e à retirada imediata do homem para dentro de si. Desse modo, ele assevera: “[...] sentir juntar-se aos seus simples raciocínios o peso do assentimento interior [...]. Esse sentimento interno é o da própria natureza, é um apelo contra os sofismas da razão” (ROUSSEAU, 2005f, p. 182).

As soluções propostas por Rousseau aos dogmatismos dos dois lados, tanto da religião quanto da filosofia, curiosamente também nos revelam outras facetas do seu pensamento: a primeira delas é que Rousseau, como vimos, professa um ceticismo radical, que se assemelha, às vezes, ao pirronismo; o segundo é que, ao propor saídas, inclusive para o seu próprio ceticismo, Rousseau não abre mão de utilizar-se dos mais variados meios para combater filósofos e religiosos, deixando, assim, a brecha interpretativa de um certo relativismo em seu pensamento. Embora, por diversas vezes, Rousseau nos apresente um ceticismo pirrônico15, não podemos confundir seu pensamento com o de Pirro. Algumas

semelhanças são possíveis, por exemplo, no campo moral, o respeito à tradição e à opção por

14 Na Nova Heloísa, dentre inúmeras críticas feitas por Rousseau (1994a, p. 213) aos salões parisienses e ao seu

ceticismo moral, destacamos esta passagem de sua obra: “[...] [Em Paris,] cada um pensa por seu próprio interesse, ninguém no bem comum; como os interesses particulares sempre se opõem entre si, há um choque perpétuo de intrigas e de cabalas, um fluxo e refluxo de preconceitos, de opiniões contrárias, em que os mais inflamados, animados pelos outros, quase nunca sabem do que se trata [...]. O bom, o mau, o belo, o feio, a verdade e a virtude têm apenas uma existência local e circunscrita”. Em Confissões, Rousseau (2008a, p. 513) também faz duras críticas às seitas filosóficas de Paris: “[...] Inimigo de tudo o que leva o nome de partido, facção, cabala, nunca esperei nada de bom das pessoas que delas fazem parte”.

15 Olaso (2011, p. 12) diz sobre Rousseau que “Sua leitura desiludida dos filósofos e sua ideia de razão

inscrevem-se no interior do pirronismo. Sua retirada para o foro íntimo da consciência parece relatar um abandono radical de toda discussão, uma drástica époché pirrônica”.

uma vida simples e virtuosa; e, no âmbito do conhecimento, a descrença profunda sobre as eternas disputas entre os filósofos e o reconhecimento dos limites da razão podem aproximar Rousseau de Pirro. Contudo, como escreve Brochard (2009, p. 73) “[...] O ideal de Pirro é a indiferença absoluta, a completa apatia: o que quer que aconteça, o sábio, ou pelo menos aquele que chegou, o que é difícil, a despojar-se do homem, não se deixa perturbar”; esse ideal, no entanto, não é o de Rousseau. Olaso (2011, p. 20), por seu turno, assegura que Rousseau: “[...] Em vez de preparar-se para suportar o inevitável e adotar a muda impavidez do pirrônico, conclui que a voz da consciência é a voz da natureza, não dos homens. Esta voz da natureza [...] é uma voz imbatível que não é dogmática”.

Em uma outra perspectiva, podemos perguntar se Rousseau é um pensador relativista. A resposta pode ser afirmativa se nos ativermos aos seus argumentos que servem como artifícios contra os dogmáticos da fé e da razão; mas pode ser negativa, haja vista que o perspectivismo de Rousseau concorre para uma unidade teoricamente coerente no interior de sua filosofia16. Para Prado Júnior (2008), essa tentativa de síntese entre a fé e a razão no

interior do pensamento rousseauniano se dará através da tentativa de Rousseau de superar o ceticismo. A orientação de Prado Júnior (2008) aproxima-se daquela de Salinas Fortes (1976), para o qual o conhecimento abstrato não pode ser, na filosofia de Rousseau, a fonte de conhecimento do mundo; e isso servirá de crítica tanto contra os fanáticos da religião quanto contra os philosophes. Contudo, diferentemente da solução apresentada por Salinas Fortes (1976), de considerar a totalidade do homem em suas paixões e em seus afetos, Prado Júnior (2008) apostará numa unidade constitutiva do ser, ou seja, em uma conciliação da finitude humana com a infinidade de Deus, que será, segundo ele, inerente ao pensamento de Rousseau.

[...] Em Rousseau, a Ordem da natureza é sempre postulada, mas não pode ser reconstruída metodicamente pelo conhecimento ou, pelo menos, não de modo apodítico. A Ordem não é, evidentemente, um número inacessível: ela pode se desvelar em experiências privilegiadas. Nesses momentos, o sentimento da existência parece até abolir o abismo que separa o finito do infinito. [...] o sentimento pode assim nos aproximar do infinito e o conhecimento nunca pode encontrar o fundamentum absolutum que lhe permitiria constituir-se em sistema. O encadeamento do Saber, segundo uma ordem linear de razões, está excluído como possibilidade no horizonte do pensamento de Rousseau. (PRADO JÚNIOR, 2008, p. 79).

Olaso (2011, p. 21), para quem o ceticismo do Vigário saboiano é ligado tanto ao pirronismo como ao ceticismo moderno, igualmente apontará a consciência como uma saída

16 Salinas Fortes (1976, p. 27) reconhece que “As contradições de Rousseau operam em diferentes níveis de seu

discurso porque é de diferentes assuntos que ele trata”. E Goyard-Fabre (2001, p. 3) sublinha que “A escrita incerta de Rousseau não desfaz [...] o desenvolvimento de uma problemática concreta e viva que incide na arquitetônica complexa de um sistema de pensamento”.

original de Rousseau ao ceticismo radical: “A consciência, portanto, é a norma do entendimento e o princípio da razão. Na consciência se faz presente a physis, ela é o critério buscado pelos pirrônicos, que oferece a marca natural e infalível”. Não obstante, esclarece o autor, a physis de Rousseau, diferentemente da concepção individualista da physis pirrônica, é divina, por estar no homem como voz da consciência, e histórica, por representar um estado do homem (OLASO, 2011). Uma outra alternativa de situar o ceticismo rousseauniano no debate do Setecentos é comparar o seu ceticismo com aquele produzido pelo ceticismo moderno. Olaso (2011), ao descrever esse último, faz-nos perceber a grande influência das ideias do século XVIII sobre Rousseau. Numa síntese descritiva do ceticismo moderno, ele postula que o genebrino reconhece os limites do conhecimento humano; toma sempre o partido mais razoável; não é dogmático; pondera as opiniões; funda a gnosiologia; e não se atém às verdades prontas e acabadas, mas se contenta com as aproximações, ou seja, com a verossimilhança dos fatos (OLASO, 2011).

Olaso (2011) salienta que a saída de Rousseau, tanto em relação ao pirronismo como em relação aos philosophes, com sua pretensão de verdade racional, é uma espécie de metafísica tópica, isto é, uma teoria constituída apenas de conhecimentos prováveis. Como afirma Olaso (2011, p. 15): “[...] Para criticar os dogmáticos, [Rousseau] utiliza as armas dos céticos, mas, para sustentar sua própria posição, recorre a uma filosofia tópica que tem consciência de sua debilidade e dos limites do nosso espírito”. Rousseau, como vimos, é um pensador que não abre mão de meios para combater seus adversários; por um lado, ele segue a orientação geral do ceticismo, em qualquer época, que é a de reconhecer os limites das luzes humanas; e, por outro, ele toma “sempre o partido mais razoável” para sustentar suas posições. Consoante Rousseau, todos os nossos conhecimentos são limitados; o máximo a que podemos chegar é a algo próximo da verdade, e, mesmo assim, isso só se realizará no campo das hipóteses17. O método de Rousseau é igualmente conjectural e hipotético, e é isso que

perceberemos a seguir.