16. ALACAKLI VERGĠ DARESĠNĠN KUSURU
17.6. Ödeme Emrine Yapılabilecek Ġtirazlar
Esta tese confirma a hipótese de Rousseau (2005f) de que os sentidos servem à nossa conservação e igualmente são a porta de entrada do nosso conhecimento, porém eles não servem nem para nos instruir nem para nos informar sobre o que é útil ou prejudicial para nossa existência. Segundo Rousseau (2005f), quem nos fornece a ideia do verdadeiro ou do falso é o entendimento. É ele que julga, avalia e, portanto, instrui-nos sobre os dados recebidos pelos sentidos (ROUSSEAU, 2014). Contudo, embora o nosso julgamento seja falível, diz Rousseau na Profissão de fé, porque misturamos o nosso entendimento às impressões dos sentidos, não somos seres meramente passivos, é a faculdade de julgar que distingue, mediante a comparação, a diferença entre os objetos que nos são apresentados. Desse modo, em aberta discordância com Condillac, como veremos, Rousseau (2014, p. 381) diz que, “[...] se fôssemos meramente passivos no emprego de nossos sentidos, não haveria entre eles nenhuma comunicação; ser-nos-ia impossível saber que o corpo que tocamos e o objeto que vemos são os mesmos”.
Quanto a isso, Locke tem a mesma opinião de Rousseau. Para ambos, o homem não é subordinado à percepção das coisas externas a ele. Embora importantes, as sensações são submissas aos julgamentos do seu intelecto. Locke (2012c, p. 694-695) realça que as nossas faculdades, como a percepção dos sentidos e do entendimento, são “[...] predispostas a aprender o que é conhecimento”. Como ele afirma, “[...] as percepções são produzidas em nós por causas externas que afetam os nossos sentidos” (LOCKE, 2012c, p. 695), todavia, embora o conhecimento se dê em nós através das percepções particulares, todo o nosso conhecimento se inicia na mente (LOCKE, 2012c). Woolhouse (2011) confirma a teoria de Locke (2012c) e, por consequência, também a de Rousseau. Ele indica que, na teoria de Locke, se não existem conhecimentos inatos na mente humana, pelo menos existe uma certa disposição inata da nossa mente (da razão) em conhecer (WOOLHOUSE, 2011). Essa ideia é confirmada por Rousseau
na Profissão de fé, quando ele assegura o caráter ativo do nosso espírito, ou seja, da reflexão, na avaliação dos dados provenientes dos sentidos: “[...] sempre será verdade que ela [a reflexão] está em mim, e não nas coisas, que sou eu que a produzo, embora só a produza por ocasião da impressão que fazem sobre mim os objetos” (ROUSSEAU, 2014, p. 381).
Na Profissão de fé, o Vigário de Rousseau segue o mesmo roteiro dos tipos de conhecimento descritos por Locke. Ele admite que o conhecimento intuitivo confirma a certeza da nossa existência; o conhecimento demonstrativo torna clara e evidente a existência de Deus; e o conhecimento sensível é a porta de entrada do nosso conhecimento. A famosa reviravolta do “Cogito, ergo sum” cartesiano promovida por Rousseau é semelhante, como podemos notar, à prova fornecida pelo conhecimento intuitivo de Locke sobre a existência humana. “Sinto, logo existo” seria a resposta de Locke e de Rousseau à dúvida metódica de Descartes. Na Profissão de fé, o Vigário faz derivar da vontade a prova de sua existência: “Existo porque sinto, assim [...] perguntar-me-ás também como sei, então, que existem movimentos espontâneos; dir-te-ei que o sei porque o sinto. Quero mexer meu braço e mexo- -o, sem que esse movimento tenha outra causa imediata além de minha vontade” (ROUSSEAU, 2014, p. 382). Segundo Woolhouse (2011), mesmo sendo proveniente dos sentidos, o conhecimento intuitivo é, na filosofia de Locke (por que não dizer também na filosofia de Rousseau), o substituto para o conhecimento inato, pois a mente, de modo imediato, entende e dá o seu assentimento sobre a certeza de sua própria existência. Aqui mais próximo a Locke e a Condillac, como observa Prado Júnior (2008), o Vigário de Rousseau faz da prova de sua existência um epifenômeno de sua exterioridade. Para provar a certeza de sua realidade, Rousseau liga a prova intuitiva de sua existência às constatações provenientes de suas faculdades sensíveis, confirmando, assim, ser um discípulo de Locke.
O segundo tipo de conhecimento, ou o conhecimento demonstrativo, traz-nos a certeza da existência de Deus. Consoante Locke, a maior parte dos nossos conhecimentos precisa ser demonstrada através de deduções e de ideias intermediárias; é a razão que encontra os meios e os aplica corretamente para descobrir essa certeza indubitável que é Deus. A partir de suas obras, o generoso Criador revela-nos sua existência: “[...] nossas ideias complexas de Deus e de espíritos independentes são feitas de ideias simples de reflexão [...]; [devemos] moldar a ideia mais conveniente possível do ser supremo, [pois] partimos de ideias que experimentamos em nós mesmos [...]” (LOCKE, 2012c, p. 327). Sobre isso, afirma Locke (2012c, p. 701): “[...] Nenhuma existência de algo fora de nós que não seja Deus pode ser conhecida com certeza para além dos sentidos que nos informam”. Na Profissão de fé, é possível extrairmos uma outra interpretação da existência da divindade auxiliar àquela que
podemos notar entre Rousseau e o racionalismo cartesiano. Não apenas a intuição intelectual, mas também a prova demonstrativa de Locke serve ao Vigário de Rousseau (2014, p. 387) como garantia para assegurar-lhe a realidade de Deus: “Julgo a ordem do mundo embora desconheça seu fim, porque, para julgar essa ordem, basta-me comparar as partes entre si, estudar seu concurso, suas relações, observar seu concerto [...], assim não deixo de perceber como os seres que o compõem prestam-se mútuo apoio”. De maneira semelhante a Locke, o Vigário extrai a certeza da existência de Deus por intermédio de suas obras: “Acredito, pois, que o mundo é governado por uma vontade poderosa e sábia; vejo-o, ou melhor, sinto-o, e isso que importa saber [...]. Percebo Deus por toda parte em suas obras; sinto-o em mim, vejo- -o por toda parte ao meu redor” (ROUSSEAU, 2014, p. 389-390). Para Locke e Rousseau, Deus só nos pode ser conhecido mediante a extensão de suas obras, contudo sua existência só se torna clara e evidente para nós através da percepção dos nossos sentidos e da atividade do nosso espírito. É isso que Locke chama propriamente de conhecimento demonstrativo.
O empirismo moderado de Locke, do qual Rousseau é adepto, como vimos, guarda profundas semelhanças com o racionalismo. Entretanto, há uma diferença positiva com relação à escola de Descartes, que é a admissibilidade do conhecimento por sensação. Um dos problemas do cartesianismo foi desembaraçar-se da presença do corpo frente à alma. Locke, seguido por Rousseau, não só admite a importância dos sentidos nessa relação, como liga toda produção do conhecimento à sua existência. Mente e corpo, embora dissemelhantes e com funções variadas, não são concorrentes nem faculdades opostas, eles se auxiliam e contribuem para a elaboração do saber humano. Lembremos das palavras de Rousseau (2014, p. 160) no Livro II do Emílio: “[...] As primeiras faculdades que se formam e se aperfeiçoam em nós são os sentidos. São, portanto, as primeiras faculdades que seria preciso cultivar; são as únicas que são esquecidas, ou as mais desdenhadas”. E ele complementa: “Exercitar os sentidos não é apenas fazer uso deles, mas aprender a bem julgar através deles é aprender, por assim dizer, a sentir; pois nós não sabemos nem tocar, nem ver, nem ouvir a não ser da maneira como aprendemos” (ROUSSEAU, 2014, p. 160). Em seu Ensaio, Locke (2012c, p. 693) escreve com a mesma atenção dedicada por Rousseau ao assunto: “É a recepção atual de ideias de fora que nos adverte da existência de outras coisas e nos permite conhecer a existência de algo, naquele instante, fora de nós, de algo que causa em nós a ideia, mesmo que não saibamos nem imaginemos o que seja”. Algumas linhas depois, ele conclui o seu pensamento:
[...] A maior garantia do alcance de minhas faculdades é o testemunho dos meus olhos, próprios e únicos juízes, que confio ser tão certo que não posso duvidar, enquanto escrevo, de que vejo branco e preto, realmente existentes e causando em
mim uma sensação, assim como eu não duvidaria que ao escrever movo a minha mão. (LOCKE, 2012c, p. 694).
Apesar das observações positivas de Locke e de Rousseau sobre o papel dos sentidos na elaboração do conhecimento humano, o conhecimento sensível é, para ambos, o mais contraditório entre os tipos de conhecimento. Ainda que sejam a porta de entrada de todo o nosso saber, para Locke e para Rousseau, as sensações são fontes de erro e volatilidade. No Livro IV do seu Ensaio, Locke (2012c, p. 694) assinala que:
Darmo-nos conta, pelos sentidos, da existência de coisas fora de nós não é algo tão certo quanto nosso conhecimento intuitivo ou quanto as deduções de nossa razão com ideias abstratas em nossa mente, trata-se, entretanto, de uma garantia que merece o nome de conhecimento.
Os sentidos só nos informam a certeza de uma sensação atual. Conforme Locke (2012c, p. 699), “[...] não posso ter a certeza que o mesmo homem exista agora, pois não há nenhuma conexão necessária entre sua existência de um minuto atrás e sua existência atual”. Com a mesma desconfiança, Rousseau (2014) admite o conhecimento mediante os sentidos. Contudo, se são as sensações que nos ligam aos objetos externos a nós, nem por isso, afirma Rousseau (2014, p. 161), “[...] somos senhores do uso de todos os nossos sentidos”. Os sentidos são fontes do conhecimento, porém, eles são limitados e só recebem o conhecimento primário das coisas (ROUSSEAU, 2005f).
Como vimos, Rousseau (2005f) é cético no tocante à atuação dos sentidos. Locke (2012c) não escapa a esse ceticismo. Ele aponta que os sentidos mal se constituem como uma fonte de conhecimento (LOCKE, 2012c). Para suprir essa carência dos nossos sentidos, Locke (2012c) pontua que existe uma certa disposição inata do nosso entendimento em descobrir verdades. Com certo esforço, o espírito constata e é capaz de tornar claras e evidentes certezas para ele antes desconhecidas. O conhecimento intuitivo de nossa própria existência e as provas demonstrativas da existência de Deus são exemplos dessa disposição inata do espírito em conhecer. O residualismo inatista é constante no Ensaio de Locke (2012c, p. 113): “[...] As origens de nosso conhecimento são, portanto, impressões, nos sentidos, de objetos externos, extrínsecos à mente, e operações desta, procedentes de poderes intrínsecos a ela, e que, refletidos por ela mesma, se tornam objetos de sua própria contemplação”. Rousseau segue Locke; ele não aceita o inatismo que advoga a existência de ideias a priori gravadas em nossa mente, mas admite que existe uma disposição inata do nosso espírito em conhecer. É o que ele afirma no Livro IV do Emílio: “[...] Conhecer o bem não é amá-lo; o homem não tem
um conhecimento inato do bem; mas, assim que a sua razão faz com que o conheça, sua consciência leva a amá-lo: é este sentimento que é inato” (ROUSSEAU, 2014, p. 411).