No início do Livro I do seu Ensaio sobre o entendimento humano, Locke afirma a superioridade da razão humana sobre a natureza. Sua intenção com a obra é investigar a origem, a certeza e a extensão dos nossos conhecimentos (LOCKE, 2012c). A razão é, para ele, a faculdade responsável tanto por alargar como por regular o conhecimento humano: “[...] A razão concerne conhecimento e opinião, e é indispensável na assistência de todas as outras
39 Mesmo radicalizando as teses de Locke, como veremos, Condillac (1993) acreditava no papel central da
razão na aquisição do conhecimento humano. As sensações não pensam, admite ele; somente a razão pode dar sentido aos conhecimentos adquiridos. Monzani (1993), em sua Introdução ao Tratado dos sistemas, destaca que os filósofos franceses do século XVIII, mesmo se opondo ao racionalismo, como Condillac, eram também racionalistas, só que, em vez de admitirem a “razão pura”, estes concebiam o entendimento como uma faculdade que parte da experiência sensível e desenvolve-se juntamente com ela.
faculdades intelectuais [...]” (LOCKE, 2012c, p. 735). Embora Locke (2012c) admita que aprendamos sempre partindo do particular em direção ao geral, o alcance dos nossos sentidos e da nossa intuição é muito curto; a maioria dos nossos conhecimentos depende de deduções e de ideias intermediárias; e “[...] a faculdade que encontra os meios e os aplica corretamente, descobrindo certeza numa probabilidade em outra, chama-se razão40” (LOCKE, 2012c, p. 735).
Para Locke (2012c, p. 575), conhecer “[...] é apenas perceber conexão e concordância, oposição e discordância, entre quaisquer de nossas ideias. Se há percepção [da razão], há conhecimento; do contrário não há conhecimento, apesar de nossa imaginação, opinião ou crença”.
Apesar dos sentidos serem a porta de entrada do nosso conhecimento, eles não se realizam sem a intervenção ativa da razão. “Por razão, eu entendo, em contraposição à fé, descobrir certeza ou probabilidade numa proposição ou verdade à qual a mente chega por deduções a partir de ideias de sensação ou de reflexão [...]” (LOCKE, 2012c, p. 758). Para o inglês, “[...] A razão é sempre, em última instância, o nosso guia” (LOCKE, 2012c, p. 775). A razão ou o juízo é uma faculdade que nos foi dada por Deus para suprir a falta de conhecimento certo e claro quando este não é possível (LOCKE, 2012c). Nesse sentido, a razão entendida como juízo torna-se a responsável por julgar duas ou mais ideias “[...] após compará-las mediante probabilidade41” (LOCKE, 2012c, p. 753). Em seu artigo intitulado A teoria do
conhecimento de Locke, Woolhouse (2011, p. 186) pontua que, para o filósofo inglês, o
conhecimento deriva da experiência e “[...] pressupõe uma distinção entre o conhecimento como tal e as ideias que são os ‘materiais do conhecimento’”. Todos esses materiais, realça Woolhouse (2011), a partir dos quais o conhecimento é moldado por nossa razão, são derivados da experiência42. O uso decisivo da razão na efetivação do conhecimento nos indica uma certa
cautela quando classificamos Locke como um empirista, diz Woolhouse (2011).
40 Maruyama (2005, p. 81, grifos da autora) diz que, para Locke, “[...] o pensamento (thinking) é a ação, e não a
essência da alma. Além dos objetos exteriores que produzem as impressões em nós, Locke supõe ações ou potências na alma. Esses dois elementos – os objetos sensíveis e as operações internas do espírito – são as únicas fontes do conhecimento humano. Assim, a redução do espírito tem seu término nas sensações produzidas pelos objetos exteriores e nesse sentido interno, pelo qual o espírito se volta para ele mesmo e que ele denomina ‘reflexão’ aos quais podemos acrescentar a percepção e a vontade, as duas potências da alma ou, mais precisamente, as duas operações internas que, refletidas no espírito, fornecem a matéria-prima do conhecimento, as ideias simples”.
41 É importante salientarmos, contudo, que, no pensamento de Locke, o espírito nem sempre é ativo. No Livro
II, capítulo I, § 25, do Ensaio sobre o entendimento humano, ele explica que o espírito, ao receber ideias simples, é principalmente passivo (LOCKE, 2012c). Sobre isso, é importante destacar que pensar é um ato provável, e não a essência da alma (LOCKE, 2012c).
42 Maruyama (2005) possui, no entanto, uma visão oposta à de Woolhouse (2011). Em seu livro, ela nega a
atividade soberana do espírito sobre a experiência: “[...] se Locke nega às faculdades do espírito a categoria de ser ou de essência da alma, como poderia argumentar, em favor de sua atividade, como uma suposição concernente ao dualismo substancial?” (MARUYAMA, 2005, p. 83). Para tal, ela leva em conta o argumento de Locke (2012c) de que as ideias simples provêm das coisas mesmas e que nós não podemos ter outras ideias das qualidades sensíveis além daquelas que são produzidas em nós a partir do que vem do exterior pelos sentidos. O que a autora procura demonstrar é a influência de Locke sobre o pensamento de Helvétius.
Em vários momentos do seu Ensaio sobre o entendimento humano, Locke aproxima-se do racionalismo. Apesar de negar a impressão das ideias inatas em nossa mente, ele afirma que existe uma certa tendência natural das nossas faculdades intelectuais de produzir e regular o nosso conhecimento: “[...] Não nego que haja, impressa na mente do homem, tendências naturais [...], mas isso nada diz de caracteres inatos na mente, que deveriam ser princípios de conhecimento a regular a nossa prática” (LOCKE, 2012c, p. 51- 52). Sheridan (2013, p. 26) assinala que “[...] O Livro I [do Ensaio] é um argumento explícito contra princípios inatos, mas não contra ideias inatas [...]; o Livro II prova apenas que as proposições não são inatas, deixando a doutrina das ideias inatas incólume”. Essa teoria é confirmada pelo próprio Locke (2012c, p. 80-81), como se pode constatar à frente:
[...] Mesmo sem impressões originárias de conhecimentos ou ideias estampadas na mente, não faltou a Deus bondade para com o homem, pois forneceu-lhe as faculdades que servem para descobrir todas as coisas requeridas para o fim desse ser; e sem dúvida é possível mostrar que o homem, apenas com o uso correto de suas habilidades naturais, sem nenhum princípio inato, pode alcançar conhecimento de um Deus e de outras que lhe concernem [...]; se não tem ideia de um Deus, é porque nunca se dedicou aos pensamentos que conduzem a ela.
Para demonstrar o alcance das faculdades naturais do homem, em seu Ensaio, Locke afirma existirem três tipos de conhecimento: o intuitivo, o demonstrativo e o sensível. Através do primeiro, é possível percebermos a nossa própria existência. Eu penso, eu raciocino, eu experimento prazer e dor; diz ele que “[...] A experiência convence-nos de que temos um conhecimento intuitivo de nossa própria existência, uma percepção interna infalível de que somos conscientes para nós mesmos de nossa própria existência, e nessa matéria não estamos longe do mais alto grau de certeza” (LOCKE, 2012c, p. 679). O segundo tipo de conhecimento é o demonstrativo, por meio do qual podemos provar a existência de Deus e das verdades matemáticas, por exemplo. A demonstração acontece porque “[...] temos sentidos, percepção e razão; não poderíamos querer dele uma prova mais clara enquanto estivermos presos em nós mesmos” (LOCKE, 2012c, p. 680). O conhecimento que cada um tem de si, assegura Locke (2012c, p. 681), está para além de toda dúvida e nos dá a certeza de que algo realmente existe: “O homem encontra em si mesmo percepção e conhecimento. Damos, assim, mais um passo, pois agora estamos certos não apenas de que há no mundo um ser, mas que esse ser é inteligente e sábio”. Finalmente, sobre o terceiro tipo de conhecimento, o sensível, Locke (2012c, p. 693) destaca que “Nosso conhecimento da existência de todas as coisas só é possível por sensação [...]; o homem particular só pode conhecer a existência de
O principal argumento do autor Do Espírito é que “julgar é sentir” e a dedução da passividade do espírito feita por Locke seria o suficiente para demonstrar a tese de Helvétius.
um outro ser quando este, operando atualmente sobre ele, se dá a perceber”. Mesmo assim, o conhecimento por sensações é o menos seguro entre todas as formas de conhecimento, porque nem passa pela intuição nem pelas provas demonstrativas que nos conduzem a conhecimentos claros e evidentes em si mesmos (LOCKE, 2012c). Sobre isso, Woolhouse (2011) postula que, na teoria de Locke, o conhecimento sensível não constitui verdadeiramente uma forma de conhecimento, porque não é capaz de garantir sozinho, ou seja, sem o auxílio da razão, um conhecimento efetivo sobre as coisas que podemos conhecer.