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O processo de acumulação primitiva ocorre em uma lógica diferente daquela naturalizada nas trocas de mercadoria, porque coloca os seus pressupostos, violentando as relações sociais que organizavam a sociedade no período medieval, ou instalando também violentamente uma organização social em que as trocas desiguais são impostas (colônias).

Em princípio, a generalização da forma-mercadoria que está no fim desse processo implica, como vimos, a existência do trabalhador “livre” para ser empregado pelo capital e valorizá-lo. Para tanto, esse trabalhador tem que ser “libertado” e nisso consiste o sentido da acumulação primitiva: uma mobilização do trabalho. Só a partir dessa condição fundamental a produção capitalista pode se dar, trabalhadores livres de um lado e compradores de força de trabalho alheia, inter-relacionando-se na produção de mercadorias.

“A relação-capital pressupõe a separação entre os trabalhadores e a propriedade das condições de realização do trabalho. Tão logo a produção capitalista se apóie sobre seus próprios pés, não apenas conserva aquela separação, mas a reproduz em escala sempre crescente. (...) Portanto, o processo que cria a relação-capital não pode ser outra coisa que o processo de separação do trabalhador da propriedade das condições de seu trabalho, um processo que transforma, por um lado, os meios sociais de subsistência e de produção em capital, por outro, os produtores diretos em trabalhadores assalariados. A assim chamada

171 “A questão do por que esse trabalhador livre se defronta com ele na esfera da circulação não interessa

ao possuidor de dinheiro, que encontra o mercado de trabalho como uma divisão específica do mercado de mercadorias. Nós nos ateremos ao fato na teoria assim como o possuidor de dinheiro na prática. Uma coisa, no entanto, é clara. A Natureza não produz de um lado possuidores de dinheiro e de mercadorias e, do outro, meros possuidores das próprias forças de trabalho. Essa relação não faz parte da história natural nem tampouco social, comum a todos os períodos históricos. Ela mesma é evidentemente o resultado de um desenvolvimento histórico anterior, o produto de muitas revoluções econômicas, da decadência de toda uma série de formações mais antigas da produção social” (Marx, 1985, I, t. 1, cap. 3; 140).

172 “Todo esse movimento parece, portanto, girar num círculo vicioso, do qual só podemos sair supondo

uma acumulação ‘primitiva’ (previous accumulation em A. Smith), precedente à acumulação capitalista, uma acumulação que não é resultado do modo de produção capitalista, mas sim seu ponto de partida” (Marx, 1985, I, t. 2; 261).

acumulação primitiva é, portanto, nada mais que o processo histórico de separação entre produtor e meio de produção. Ele aparece como ‘primitivo’ porque constitui a pré-história do capital e do modo de produção que lhe corresponde” (Marx, 1985, I, t. 2, cap. 24; 262).

A partir disso, passaríamos a lidar com um exemplo histórico concreto, o da Inglaterra. É aqui que seria detalhado a tão conhecida história dos cercamentos das terras comunais, que já vinha tendo importância na obra de Marx desde seus escritos da juventude. Aludiremos, entretanto, a tal processo apenas o mais brevemente possível, posto que nosso intuito será, antes, contrapô-lo à outra maneira como a acumulação primitiva se deu nesta época, no processo de colonização.

Voltamos, rapidamente, assim, ao século XIV, quando a servidão encaminhava- se para o seu fim. A maioria da população do reino inglês, 4/5, era de agricultores, sendo que a maior parte desse contingente era de pessoas que “viviam da exploração de suas pequenas parcelas freehold (freehold é propriedade plenamente livre)”, mas muitos servos haviam sido desalojados pelos arrendatários livres e, desse modo, já existia o trabalho assalariado, em parte, daqueles que “aproveitavam seu tempo de lazer trabalhando para os grandes proprietários, em parte numa classe independente, relativa e absolutamente pouco numerosa, de trabalhadores assalariados propriamente ditos” (Marx, 1985, I, t. 2; 263-4); dispondo todos ainda do usufruto coletivo das terras comunais173, além do que, em geral, tinham junto à casa uma parcela razoável de terra para uso próprio (aproximadamente 4 acres)174. Desse quadro, vê-se que aquela separação do trabalhador das condições de reprodução de sua vida ainda não se completara. A transição, todavia, já havia se iniciado.

A relação da produção feudal com a distribuição da terra é completamente distinta da relação capitalista. Na primeira, quanto maior o número de pessoas trabalhando a terra melhor para o senhor feudal; seu poder emana da quantidade de súditos que possui. A necessidade de súditos que possam se sustentar é patente para o senhor. Essa “riqueza” do povo excluía, no entanto, a do capital.

173 “Além disso, junto com os camponeses propriamente ditos, gozavam o usufruto das terras comunais,

em que pastava seu gado e que lhes forneciam ao mesmo tempo combustíveis, como lenha, turfa, etc.” (Marx, 1985; 263).

174 “Também estes eram [os trabalhadores assalariados propriamente ditos], ao mesmo tempo, de fato

camponeses economicamente autônomos, pois recebiam, além de seu salário, um terreno arável de 4 ou mais acres além do cottage” (Marx, 1985; 263).

A reviravolta no cenário estável acima descrito se dá pela tentativa centralizadora do poder real. Tal ímpeto centralizador foi esboçado também posteriormente por J. Habermas, em seu Mudança estrutural da esfera pública (1981), quando aponta que a centralização do poder nas mãos do rei e de sua corte é o início da esfera pública aristocrática, precursora da esfera pública literária, que dará vez à forma de sociabilidade em público característica da esfera pública burguesa, mediada pela racionalidade nas trocas tanto de opiniões como de, e principalmente, de mercadorias. Aqui essa faceta do processo é descrita de forma parecida, entretanto o poder real não foi a única causa da dissolução do complexo de relações sociais de produção da Idade Média e seus séquitos feudais. A expulsão do campesinato de sua base fundiária foi empreendida violentamente também pelos senhores feudais, “em oposição mais teimosa à realeza e ao Parlamento” (Marx, 1985; 264).

O impulso foi antes de caráter econômico; sua causa, a alta do preço da lã pelas transformações da produção ocorridas nos Países Baixos175. Uma parcela mais nova da nobreza feudal, que não havia se desgastado recentemente em grandes guerras, aproveitou o exemplo dado no continente e passou a transformar enormes extensões de terras de lavoura em pastagens de ovelhas. O desejo de lucros os fez passar por cima de seus súditos, destruindo violentamente as habitações dos camponeses para dar lugar às pastagens e suas ovelhas176.

A legislação tentou em vão barrar essa rápida e brutal transformação do campo que levava a classe trabalhadora rural inglesa a cair sem transição, de forma abrupta, num mundo novo, a “idade de ferro”. Diz Bacon em sua história de Henrique VII:

“‘Naquele tempo’ (1489) ‘aumentaram as queixas sobre a transformação de terras de lavoura em pastagens’ (para criação de ovelhas etc.) ‘fáceis de cuidar por poucos pastores; e arrendamentos por tempo determinado, vitalícios ou anualmente revogáveis (dos quais vivia uma grande parte dos yeomen) foram transformados em domínios senhoriais. Isso provocou uma decadência das cidades, igrejas e dízimos. (...) Na cura desse mal, a sabedoria do rei e do Parlamento naquela época foi admirável. (...) Tomaram medidas contra essa usurpação despovoadora das terras comunais (depopulating enclosures) e a exploração pastoril

175 “O impulso imediato para isso foi dado, na Inglaterra, nomeadamente pelo florescimento da

manufatura flamenga de lã e a conseqüente alta dos preços da lã” (Marx, 1985; 264).

176 “A velha nobreza feudal fora devorada pelas grandes guerras feudais; a nova era filha de seu tempo,

para a qual o dinheiro era o poder dos poderes. Por isso, a transformação de terras de lavoura em pastagens de ovelhas tornou-se sua divisa. As habitações dos camponeses e os cottages dos trabalhadores foram violentamente demolidos ou entregues à ruína” (Marx, 1985; 264).

despovoadora (depopulating pasture) que lhe seguia as pegadas” (Marx, 1985; 265).

Segue-se, então, uma série de medidas iniciadas pelo rei Henrique VII, para tentar proibir, por exemplo, que as casas dos camponeses em áreas de mais de 20 acres fossem derrubadas. Um decreto de 1533 chega a limitar em dois mil o número de cabeças de ovelhas que um único proprietário pudesse ter. Porém, “as queixas do povo e a legislação, que (...) [,] continuamente por 150 anos, se voltam contra a expropriação dos pequenos arrendatários e camponeses, foram igualmente infrutíferas” (Marx, 1985; 265).

Fracassaram porque se tentou conservar uma reprodução, pelo menos aparentemente, digna e farta da vida de seus súditos quando um processo havia sido desencadeado no sentido oposto, no sentido de mobilizar os trabalhadores, transformá- los em trabalhadores “livres”.

As leis seguiram, no entanto, em sua tentativa de obrigar que em volta dos cottages, das casas rurais, houvesse uma área mínima de 4 acres para o plantio particular do trabalhador rural ali residente, por mais que fosse empregado. Até meados do século XVIII as queixas não cessaram acerca dos cottages dos trabalhadores agrícolas que não tivessem como complemento 1 ou 2 acres de terra. “Hoje ele está feliz quando ela é dotada de um jardinzinho ou quando pode arrendar longe dela umas poucas varas de terra” (Marx, 1985; 266).

A Reforma protestante, no século XVI, deu um impulso no processo de expropriação violenta da massa do povo na medida em que expulsou os moradores dos conventos, confiscou e revendeu os bens da Igreja – que era uma das maiores proprietárias feudais de grande parte da base fundiária inglesa –, a preços irrisórios “a arrendatários ou a habitantes das cidades especuladoras, que expulsaram em massa os antigos súditos hereditários, juntando suas explorações” (Marx, 1985; 266).

Tratar o movimento religioso da Reforma atrelado a tais transformação permite- nos, cabe aqui apontar, deslocar as considerações de Max Weber (2004) sobre as implicações morais e ascéticas do mesmo. Mais do que apontar as “afinidades eletivas” entre a ética protestante (embasada numa mudança da noção de vocação, atrelada a uma transformação comportamental dos membros protestantes) e o espírito do capitalismo, sem cair numa causalidade direta que Weber chamou de “tese tola” (Weber, 2004, cap. 3; 82), o importante aqui é perceber como o processo social de mobilização culmina numa forma social, que escapa à análise de Weber (cf. Kurz, 2004; 21). Mais do que

justificando as medidas que implicam num disciplinamento da população mobilizada, os padrões de comportamento atrelados à ética protestante se autonomizaram (Marx) do próprio universo da religião, atrelando-se à mera mobilidade do trabalho própria da valorização do valor, algo que Weber chega a apontar para o dito “capitalismo vitorioso” (Weber, 2004; 45-6, 143 e 168) sem, mais uma vez, compreender a forma fetichista que os embasa.

Retomando, não obstante, os exemplos da acumulação primitiva inglesa, a parte do dízimo cobrado pela Igreja que era revertida a camponeses empobrecidos, parte essa legalmente assegurada, foi confiscada. O Estado foi obrigado, com isso, a substituir a Igreja nesse papel, implementando o imposto para os pobres, no reinado da rainha Elizabeth I. Foi, ademais, a primeira vez que os autores de uma lei sequer apresentaram uma explicação das razões de sua formulação, porque se sentiam envergonhados pela situação. A lei gerou controvérsias e o “espírito” protestante se evidenciava nas discussões. Alguns muitos defenderam que só teriam direito aos recursos do imposto os pobres que trabalhassem. Outros mais radicais chegaram a propor o encarceramento dos pobres nas paróquias para obrigá-los a trabalhar (cf. nota 197, p. 266). Chegou-se a defender, no Parlamento escocês, o retorno da servidão para acabar com a mendicância177. Data dessa época o fim da yeomanry.

Poderíamos seguir reproduzindo a multiplicidade de eventos que compõem o processo, porém o que foi exposto já dá conta de mostrar como o rápido processo de transformação da produção agrícola leva a uma mobilização forçada do campesinato inglês. O cercamento das terras comunais completa a aniquilação das possibilidades de reprodução dessa população178. Seguem-se legislações que visam disciplinar essa massa de pessoas que passam a vagar pelas estradas e cidades inglesas.

“Assim, o povo do campo, tendo sua base fundiária expropriada à força e dela sendo expulso e transformado em vagabundos, foi enquadrado por leis grotescas e terroristas numa disciplina necessária ao sistema de

177 Eden tenta a explicação: “Da liberdade dos lavradores data o pauperismo (…) [;] manufaturas e

comércio são os verdadeiros pais de nossos pobres nacionais”. Ao que Marx emenda, trazendo a explicação de fato: “Eden, como aquele republicano escocês por princípio, equivoca-se apenas porque não é a abolição da servidão, mas a abolição da propriedade do lavrador sobre a base fundiária que o torna proletário, respectivamente pauper” (Marx, 1985; 267).

178

“A revolução agrícola, no último terço do século XV, que prossegue por quase todo o século XVI (com exceção de suas últimas décadas) enriqueceu o arrendatário com a mesma rapidez com que empobreceu o povo do campo. A usurpação das pastagens comunais etc. permitiu-lhe grande multiplicação de seu gado, quase sem custos, enquanto o gado fornecia-lhe maior quantidade de adubo para o cultivo do solo” (Marx, I, t.2, 1990, cap. 24; 364).

trabalho assalariado, por meio do acoite, do ferro em brasa e da tortura” (Marx, I, t. 2, 1990, cap. 24; 358).

Mobilizada pela expulsão de suas terras, agora ocupadas por ovelhas e gado (a chamada Revolução Agrícola) ou mesmo por florestas para a prática de caça dos nobres, com a apropriação privada das terras comunais, e mobilizada também pelas legislações que obrigavam-na a trabalhar, a população inglesa foi separada da base fundiária, separada dos meios de produção, da maneira mais violenta. É um processo escatológico de ruptura que passa pela separação do produtor direto da gleba de terra e de suas relações, por assim dizer, feudais, mas também passa pelo rompimento da dominação pessoal das corporações de ofício179. A liberdade do trabalhador evidencia-se aqui essencialmente em seu aspecto negativo: livres dos meios de produção. Repetindo, por fim, para reforçar o sentido dessas transformações, e já adentrando na base fundamental do processo histórico em questão, qual seja a expropriação do povo do campo de sua base fundiária:

“O que faz época na história da acumulação primitiva são todos os revolucionamentos que servem de alavanca à classe capitalista em formação; sobretudo, porém, todos os momentos em que as grandes massas humanas são arrancadas súbita e violentamente de seus meios de subsistência e lançadas no mercado de trabalho como proletários livres como os pássaros. A expropriação da base fundiária do produtor rural, do camponês, forma a base de todo o processo” (Marx, 1985; 263).

6.3. Mobilização do trabalho ou formação do trabalho (acumulação primitiva): o