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determinando a renda fundiária

A organização do Partido Republicano Paulista e o “compromisso” estabelecido em suas bases haviam criado uma situação única de coesão na política paulista, através de uma dupla conseqüência interligada. Esta coesão, aliás, seria o fundamento de sustentação da própria República, após 1898, naquilo que ficou conhecido como “política dos governadores”. Por um lado, produzira-se uma situação de quase completa ausência de oposição; por outro, uma organização poderosa, o PRP, capaz de calar os opositores e manter uma disciplina entre os seus membros (Perissimoto, 1999, II; 177- 178). Se, por um lado, numa primeira fase (1873-1898), o PRP fora um partido da classe dos cafeicultores de São Paulo, especialmente daqueles do Oeste Paulista. Num segundo momento, entre 1898 e 1930, consolidado no poder e reproduzindo-se nele, transformara-se num “partido da administração”, na concepção de Renato Monseff Perissimoto (1999, II; 178).

Nesse processo, levou adiante suas principais bandeiras modernizadoras, com reconhecível interesse dos proprietários fundiários do Oeste Paulista. Uma delas era a luta pela federação, o que, por muito tempo, deu unidade ao partido. A defesa de um Estado forte, comandado pelos interesses da expansão cafeeira, era colocada, de início, em oposição à centralização monárquica:

“Aos olhos dos promotores da expansão cafeeira paulista, o Estado monáquico era um obstáculo a ser derrotado, pelo menos no seu aspecto centralizador. Quando a Monarquia mostrou-se intransigente quanto a este ponto, antigos adeptos começaram a retirar o seu apoio à Coroa. (...) Desse ponto de vista, uma das grandes vantagens da federação, por exemplo, seria conferir aos novos administradores da província autônoma o poder de suprimir o imposto de exportação sobre o café” (Perissimoto, 1999, II; 180-181).

Paralelamente a essa defesa, o PRP esteve, desde seus primeiros anos, na linha de frente pela consolidação da política de subvenção estatal à imigração em massa, o que veremos em maiores detalhes na seção seguinte. Num primeiro momento, porém, a própria composição heterogênea da classe de fazendeiros em São Paulo não tomava a imigração como um “substituto” para a escravidão, mas uma complementação a esta. A escravidão, como vimos e veremos, ainda era a base da produção cafeeira. A hesitação no que tange ao posicionamento contra a abolição seria marcante nesta primeira fase do PRP, levando inclusive muitos defensores do abolicionismo a abandonar o partido.

Porém, o próprio conflito evidenciava um conflito material entre duas formas de reprodução social que duelavam para se estabelecer no início da expansão cafeeira para Oeste Paulista, para além do centro campineiro. O PRP era, de fato, aí um partido de classe148.

A consolidação de sua principal bandeira, o federalismo, com a Proclamação da República, mas especialmente depois com a organização da “política dos governadores”, levariam à consolidação daquele mesmo “compromisso coronelismo”, assentado em bases estaduais. O coronelismo é definitivamente, assim, determinado historicamente, dentro dos marcos da Primeira República149.

O partido totalmente articulado com a burocracia estatal logo se veria diante de exigências de um capital diversificado que, gradativamente, estava para além dos interesses dos fazendeiros de café do Oeste Paulista, embora estes também personificassem as ramificações do comércio, da indústria e etc. Porém, o que Perissimoto procura mostrar é como o partido no governo paulista tinha que lidar com problemas que, por vezes, transcendiam os interesses imediatos da classe, ao mesmo tempo em que crescia a centralização do poder dentro do próprio partido. Logo, o Estado parecia estar para além dos limites da classe:

“A partir da vitória republicana, transformado o PRP em organização do governo, o partido não poderia levar à cúpula do Estado indivíduos que ali atuassem como meros representantes de classe. Ao contrário, os seus membros deveriam estar preparados para tratar de problemas que ultrapassavam aquele estreito horizonte” (Perissimoto, 1999, II; 185). A crescente centralização e a especialização dos seus representantes como personificações não apenas do capital cafeeiro, mas cada vez mais do próprio Estado, fazia crescer as dissidências dentro do partido; o poder do PRP se mostrava sufocante, quando na verdade era o poder centralizado do Estado que sufocava a sua base para se impor como autonomizado do seu capital150.

Nesse sentido é que deve-se compreender a ascensão do Partido Democrata, não como defensor de um novo padrão de reprodução social das relações sociais de

148 Cf. Perissimoto, 1999, II; 182.

149 Algo que mesmo Nunes Leal chegou a apontar: “o fenômeno estudado é

característico do regime republicano, embora diversos dos elementos que ajudam a compor o quadro do ‘coronelismo’ fossem de observação freqüente durante o Império e alguns deles no próprio período colonial” (Leal, 1976; 254).

150 “Todos os outros conflitos no interior do PRP estão, de uma ou outra maneira,

vinculados a uma reação ao poder sufocante exercido pelo Presidente do estado sobre a política, em geral, e sobre o partido, em particular” (Perissimoto, 1999, II; 189).

produção. Isto é, o PD não se colocava em favor da industrialização e da classe operária, apesar de muitos dos seus integrantes terem tomado certos lemas democratizantes, após a Liga Nacionalista e durante as grandes greves de 1914 e 1917. A base social deste partido era, de fato, mais diversificada, como pudemos notar no caso particular de Cajobi com a presença de muitos comerciantes, além do médico da localidade (Dr. Adhemaro de Godoy), professores, farmacêuticos e advogados, porém os fazendeiros eram a maioria e deram as diretrizes do partido a todo momento151. O que motivava, profundamente, os membros desse partido era uma reação ao monopólio estatal do PRP (ou será que ao monopólio do Estado sobre o PRP?). Seus alvos sempre recaíam sobre a tributação excessiva e sobre a centralização corporificada, por exemplo, no Instituto do Café do estado de São Paulo. No caso particular, notamos a crítica ao monopólio político do PRP, primeiro, determinando os rumos da ferrovia, em detrimento dos interesses particulares de parte dos fazendeiros da área de Cajobi, que engrossariam as fileiras da dissidência. Depois, as barreiras à emancipação de Cajobi impostas pelo representante local do PRP foram a causa do rompimento. Mais uma vez, não se tratava exatamente de uma crítica profunda ao projeto do PRP, o que se evidenciava na hesitação dos “dissidentes” em se “des”-filiar do grande partido. Quando todo o esquema coronelista foi contestado na Revolução de 1930, todas as críticas seriam deixadas de lado e os “dissidentes” do PD lutariam, lado a lado, com os arrogantes do PRP, pelo menos num primeiro momento, na organização do revide constitucionalista de 1932 (cf. Prates, 1984; 64-66).

Tomado o processo como um todo, mais do que uma reprodução de um poder particular dos coronéis, temos aí um processo com um sentido modernizador, em que o Estado forte se coloca como coordenador de mudanças estruturais que estão para além dos interesses imediatos da classe que este próprio Estado parece representar. Robert Kurz (2000) chamaria atenção para um processo que se dá “pelas costas” de seus sujeitos. Dessa maneira, os coronéis e membros do PRP aparecem como “sujeitos sujeitados” na imposição de políticas modernizadoras de extrema importância para um capital que logo não será meramente um capital cafeeiro:

“Como procuramos mostrar (...), se o Estado promoveu a reprodução ampliada da economia cafeeira, o fez segundo um sentido específico, não

151 Retomando a pesquisa de Maria Lígia Coelho Prado, Perissimoto afirma que: “se é certo que o PD

teve bases de apoio que ultrapassavam os limites do capital cafeeiro, a este coube, contudo, o comando interno do partido” (Perissimoto, 1999, I; 302).

redutível aos interesses imediatos da classe em questão, em alguns até mesmo francamente contrários a eles, tanto a curto como a longo prazo. Nessas circunstâncias, o PRP foi um instruento do Estado, e não da classe, utilizado pelo Executivo para vencer toda e qualquer oposição à forma pela qual a alta burocracia paulista conduzia as políticas econômica e tributária” (Perissimoto, 1999, II; 191-192).

O Partido Democrata parece ter surgido como uma resistência da base do capital cafeeira a este processo de fortalecimento do Estado, através da perpetuação do compromisso coronelista pelo forte PRP. A crítica à arrogância do PRP pelo PD pode, assim, ser vista, como uma “resistência” ao processo de autonomização do Estado152.

Porém, o estudo até aqui levado a cabo procurou mostrar como esse avanço do Estado e a prepotência perrepista foram decisivos na determinação dos critérios de localização e na “captura” das melhores áreas, em termos de fertilidade, que foram articuladas àqueles critérios. Isto é, os coronéis locais travaram seus conflitos no sentido de determinar onde seriam estabelecidos os patrimônios, com o que tiveram que fazer as devidas mediações com os posseiros da região da pecuária na localidade. Esses posseiros, no processo, tornaram-se proprietários fundiários, devidamente hierarquizados segundo o que conseguiram consolidar como propriedade fundiária, no mesmo percurso de institucionalização.

Assim, tivemos a “partilha” dos espigões e dos campos da nascente Olímpia, com todas as idas e vindas de suas muitas vicissitudes que nos escapam. No entanto, os registros mostram a manutenção de certas famílias daqueles posseiros entre os grandes proprietários locais. Mostram também a perpetuação de elementos ligados ao coronelismo entre os grandes cafeicultores. Mostram uma distinção grande de preços entre as diferentes áreas: espigões em oposição aos campos de pecuária; espigões com relação às baixadas; baixadas com cafeeiros e baixadas com pecuária; baixadas com pecuária e grandes campos pecuaristas do norte do município.

A renda diferencial, assim, determinada pelo coronelismo foi apontada em aspectos que estão para além da simples constatação da diferença de preços. Diferentes padrões de reprodutibilidade estão por trás de números que só indicam se a propriedade é grande ou pequena, cara ou barata. A retomada do fio da história, procurou dar vida a estes números e mostrar como são resultado de um processo. A determinação do coronelismo sobre esses padrões de reprodução das relações sociais de produção (estas,

152 “essas organizações [a Liga Agrícola e Rural Brasileira, a Sociedade Rural Brasileira e o Partido

Democrata – CAB] do capital cafeeiro foram criadas ou pelo menos tiveram a sua ação orientada com vistas a reagir ao avanço do Estado e à prepotência perrepista” (Perissimoto, 1999, I; 314).

até aqui, apenas tangenciadas pela análise) corroboram a noção do coronelismo compondo, de maneira ampla, a região do colonato. A citação de Francisco de Oliveira agora ganha outros contornos: “Uma ‘região’ seria, em suma, o espaço (...) onde o econômico e o político se fusionam e assumem uma forma especial de aparecer no produto social e nos pressupostos da reposição” (Oliveira, 2008; 148).

Por outro lado, o compromisso coronelismo, atrelado ao processo de autonomização do Estado, permitindo a organização da distribuição da base fundiária e a consolidação das cidades na área, com seus respectivos aparatos estatais, possibilitam enxergar nesse processo uma modernização retardatária, conforme a teorização de Robert Kurz (2000). Modernização porque colocam padrões de reprodução social próprios da forma-mercadoria em estágios mais desdobrados. Assim, a propriedade privada da terra é mais apropriada às relações contratuais, mediadas mais pelo dinheiro do que pela pessoa ou seu poder de imposição. As eleições guardam um mesmo potencial de abstração das relações pessoais, instalando uma mediação contratual própria do Direito153 e apropriada às trocas de mercadoria. Retardatária porque coloca- se em relação de “atraso” a ser corrigido, em relação ao padrão europeu de reprodução social.

153 “O carácter abstracto, repressivo, dissociador e exclusionista do universalismo ocidental, constituído

com base na relação de valor, não se afirma apenas no seu nível basilar sexual, mas também para além deste. Este universalismo, referido unicamente ao mundo interior à forma do valor, constitui sob vários aspectos um sistema de exclusão, com os seus mecanismos. A definição "do ser humano" como sujeito do valor não só reduz o feminino dissociado a um patamar meio-humano, como, pela sua própria natureza, exclui socialmente da humanidade todos os indivíduos que, a título temporário ou definitivo, não (ou já não) possam actuar no âmbito do auto-movimento do "sujeito automático" e que, por conseguinte, do ponto de vista deste, que se tornou o ponto de vista da reprodução social em geral, têm de ser considerados "supérfluos" e assim, em princípio, não-humanos. O direito iluminista do Homem implica a desumanização temporária ou total dos indivíduos não reproduzíveis de forma capitalista, porque desde o início se refere somente ao Homem enquanto sujeito do valor” (Robert Kurz, em “A razão sangrenta – Vinte teses contra o Iluminismo e os valores ocidentais”, Oitava Tese, 2002).

Seção 2 – Região e formação contraditória da superpopulação relativa