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O outro lado essencial, e o que mais nos interessa aqui, são os “revolucionamentos” que constituem a expansão comercial. Retemos aqui a conformação do antigo sistema colonial, seu sentido e dinâmica.

O sentido da colonização e a organização social no período colonial

179 “Para tornar-se livre vendedor de força de trabalho, que leva sua mercadoria a qualquer lugar onde

houver mercado para ela, ele precisa ainda ter escapado do domínio das corporações, de seus regulamentos para aprendizes e oficiais e das prescrições restritivas do trabalho” (Marx, 1985; 262).

De uma formulação muito ampla e abrangente sobre a existência de um sentido a ser desvendado na história de um povo pelo pesquisador, sentido este que dá coerência e unidade ao emaranhado de acontecimentos, Prado Jr. logo diferencia a sua noção de sentido de qualquer estruturação social mais estática e hermética por elaborá-la como sujeita a variações.

O exemplo que segue da história moderna de Portugal não seria, de modo algum, aleatório. Sua unificação, no início do século XV, marca um novo rumo da história de seu povo, pela reconquista do território tomado aos árabes, constituição do Reino e organização das empresas e conquistas ultramarinas. É destas últimas que se poderá, por sua vez, compreender a colonização do que viria a se tornar o Brasil. As histórias de Portugal e Brasil, da Europa e suas Colônias fazem parte, em sua síntese180, de um mesmo processo de integração. “Processo que acabaria por integrar o Universo todo em uma nova ordem, que é a do mundo moderno, em que a Europa, ou antes, a sua civilização, se estenderia dominadora por toda parte” (Prado Jr., 2000; 8-9).

“Em suma e no essencial, todos os grandes acontecimentos desta era, que se convencionou com razão chamar dos ‘descobrimentos’, articulam- se num conjunto que não é senão um capítulo da história do comércio europeu” (Prado Jr., 2000; 11).

“Colonização” deixaria, com a experiência portuguesa, de se ater meramente ao estabelecimento de simples feitorias como até então se havia procedido no Mediterrâneo, Oriente e em outras partes. Na ausência inicial de uma população estabelecida e produzindo o que se pudesse transformar em mercadorias comercializáveis no mercado europeu, Portugal deu os primeiros passos na organização da produção e no povoamento em suas ilhas do Atlântico181. Nisso, para o caso das colônias recém-descobertas no novo continente, da extração de alguns poucos produtos (pau-brasil, no Brasil, peles e pesca nas colônias do Norte, e metais preciosos no México e no Peru), passar-se-á a uma colonização diferenciada.

180 “Não sofremos nenhuma descontinuidade no correr da história da colônia. E se escolhi um momento

dela, apenas a sua última página, foi tão-somente porque (...) aquele momento se apresenta como um termo final e a resultante de toda nossa evolução anterior. A sua síntese. Não se compreende por isso, se desprezarmos inteiramente aquela evolução, o que nela houve de fundamental e permanente. Numa palavra, o seu sentido” (Prado Jr., 2000; 8).

181 “Aqui ainda, Portugal foi um pioneiro. Seus primeiros passos, neste terreno, são nas ilhas do Atlântico,

postos avançados, pela identidade de condições para os fins visados, do continente americano; e isto ainda no séc. XV. Era preciso povoar e organizar a produção: Portugal realizou estes objetivos brilhantemente” (Prado Jr., 2000; 13).

Assim, é dessa breve apresentação que se depreendem as características essenciais que constituíram a colonização dos trópicos. Seu caráter de grande empresa decorre, pois, da intensificação das intenções de exploração que já se verificavam na própria expansão do comércio europeu e que, na América do Norte, ficariam atrofiadas pela possibilidade única de se produzir o que também se podia produzir na própria Europa e pelas motivações dos seus colonos. Por seu lado, a grande empresa produtora de mercadorias tropicais para a Europa, conformar-se-ia, principalmente, com a grande plantação dessas mercadorias em grandes extensões de terra (ou com a grande mineração) e com a exploração do trabalho escravo. O sentido de produzir mercadorias para o exterior levava, pois, a uma estruturação social para realizá-lo e desta decorre a nossa sociedade colonial e mesmo talvez além182.

“No seu conjunto, e vista no plano mundial e internacional, a colonização dos trópicos toma o aspecto de uma vasta empresa comercial, mais completa que a antiga feitoria, mas sempre com o mesmo caráter que ela, destinada a explorar os recursos naturais de um território virgem em proveito do comércio europeu. É este o verdadeiro sentido da colonização tropical, de que o Brasil é uma das resultantes; e ele explicará os elementos fundamentais, tanto no econômico como no social, da formação e evolução históricas dos trópicos americanos” (Prado Jr., 2000; 19-20).

Maria Sylvia de Carvalho Franco (1984) iria um pouco além dessa formulação para compreender que o que unifica Colônia e Metrópole não era tão somente a produção de mercadorias para o comércio europeu, mas a realização do lucro através deste, apesar de que era exatamente disso que Prado Jr. falava quando aludia aos necessários “incentivos” que os colonizadores dos trópicos precisavam para deixar suas terras183. Compartilhamos, ainda assim, da intenção evocada no método de Franco:

“É esse o método que será sustentado aqui: conceber como mundial o desenvolvimento do capitalismo e investigar o engendramento de suas partes, das formas particulares que assumiram, no movimento de

182 “Se vamos à essência da nossa formação, veremos que na realidade nos constituímos para fornecer

açúcar, tabaco, alguns outros gêneros; mais tarde ouro e diamantes; depois, algodão, e em seguida café, para o comércio europeu. Nada mais que isto. E com tal objetivo, objetivo exterior, voltado para fora do país e sem atenção a considerações que não fossem o interesse daquele comércio, que se organizarão a sociedade e a economia brasileiras. Tudo se disporá naquele sentido: a estrutura, bem como as atividades do país” (Prado Jr., 2000; 20).

183 “Coloquemo-nos naquela Europa anterior ao séc. XV, isolada dos trópicos, só indireta e

longínquamente acessíveis, e imaginemo-la, como de fato estava, privada quase inteiramente de produtos que se hoje, pela sua banalidade, parecem secundários, eram então prezados como requintes de luxo” (Prado Jr., 2000; 17).

diferenciação histórica dessa determinação universal – lucro e acumulação” (Franco, 1984; 174).

Ambos os autores, porém, estão de acordo sobre o modo como se organizou o empreendimento colonial para se obter tais mercadorias tropicais e os respectivos lucro e acumulação. Diferente do processo de libertação dos servos da base fundiária inglesa, a mobilização do trabalho que aqui se exige seria de outra “natureza”, uma vez que não se tratava exclusivamente de expropriar a população aborígene, sendo impossível o completo controle da “base fundiária” da colônia. Ao mesmo tempo em que se exige, portanto, o trabalho escravo, exige-se a constituição da grande unidade de produção. Não seria absurdo, portanto, pensar numa reformulação da idéia de “mobilização”, propondo uma de “formação” do trabalho, algo que nossa perspectiva permite sugerir mesmo para o caso anteriormente analisado da Inglaterra, posto que o trabalho produtor de mercadoria, o único que se permite a generalização como trabalho abstrato, só existe depois da conformação moderna que o próprio processo lhe dá. A questão se complica para uma formação moderna de um trabalho que também produz mercadorias, mas que é, por outro lado, trabalho escravo.

Interessa-nos, sobretudo, na explanação de Franco, a compreensão que esta propõe, portanto, sobre a escravidão como uma outra mobilidade forçada do trabalho (Toledo, 2001). Isto é, separando no processo de compra e venda da força de trabalho, tal qual recuperado anteriormente a partir da teoria marxiana e sua exposição por Gaudemar porém diferente destas, as noções de posse e propriedade, a autora aborda a liberdade instaurada nessa troca fundamental como uma alienação temporária da propriedade da mercadoria força de trabalho, mas nunca de sua posse, sob pena do trabalhador ser transformado em escravo. Esta distinção entre posse e propriedade da força de trabalho será crucial para o entendimento que ela propõe. Enquanto a posse relaciona-se às capacidades da pessoa, a propriedade diz respeito ao uso que se faz destas.

“O homem que possui força de trabalho, que a encerra em seu ser, não é, ipso facto, o seu proprietário. Possuir força de trabalho significa compreendê-la em si e não implica o poder de dispor dela livremente, o que vem a ser sua propriedade. E á a propriedade da força de trabalho (e não a sua posse) que legaliza sua venda; só o proprietário pode aparecer como um dos termos da relação de dependência determinada pelo mercado. Isto posto, o que decorre necessariamente da premissa que define as relações engendradas pela troca de mercadorias é que a força de trabalho só pode aparecer no mercado, como mercadoria, sempre e quando seja oferecida pelo seu proprietário e não (...) pelo seu possuidor” (Franco, 1984; 156-7).

Para que o próprio trabalhador possa vender a sua força de trabalho como mercadoria é preciso que ele seja livre, que tenha o estatuto de pessoa. Mas isso só acontece numa situação particular, a do capitalismo, o que transforma aquela situação estritamente necessária numa situação atrelada a um “arranjo peculiar dessas relações” (Franco, 1984; 157). A possibilidade da força de trabalho ser mercadoria está limitada pela condição de liberdade do trabalhador, enquanto a condição da possibilidade do possuidor da força de trabalho ser o seu vendedor está limitada por uma condição histórica.

Invertendo, por sua vez, o raciocínio de Marx, Franco acentua a particularidade histórica em que possuidor de força de trabalho e vendedor de força de trabalho são a mesma pessoa, o capitalismo (e no período de que aqui tratamos, especialmente o capitalismo que se processa na realidade inglesa), para levar adiante a possibilidade de uma disjunção entre os termos, que coloque a força de trabalho como mercadoria cuja posse pertence a outra pessoa que não o trabalhador, ainda que as capacidades para o trabalho estejam atadas ao corpo deste. Mantém-se, não obstante, a necessidade fundamental da compra da mercadoria, portanto da existência de um mercado de trabalho, cujo uso realiza um valor maior do que o despendido em sua compra, apesar de haver uma constituição jurídica diferenciada184.

Mais do que logicamente possível de se conciliar dentro da teoria marxiana, a utilização do trabalho escravo foi não só concretizada em toda a sua crueza, como

184

“Creio que se pode, agora, concluir:

1. que a única passagem necessária, a partir da premissa sobre as relações de dependência inerentes à troca de mercadorias, no que se refere à constituição do vendedor de força de trabalho, é de que ele seja proprietário dessa mercadoria, atributo que legaliza a sua venda;

2. nesses termos, a força de trabalho pode tornar-se mercadoria sempre que oferecida pelo seu proprietário, juridicamente habilitado a vendê-la;

3. por conseguinte, a presença do possuidor da força de trabalho no mercado, na figura de seu vendedor, corresponde apenas a uma das situações possíveis desse personagem, aquela em que determinações muito particulares fazem do trabalhador um homem livre;

4. resulta, assim, que a igualdade jurídica inerente às relações de troca de mercadorias refere-se às categorias de proprietário e de comprador de força de trabalho;

5. portanto, só existe igualdade jurídica entre o comprador de força de trabalho e o seu possuidor na situação particular em que este último guardar o caráter de homem livre, proprietário e vendedor temporário de sim mesmo.

Retornando ao ponto inicial, partindo de um fundamento de ordem estritamente lógica (como a premissa de Marx), e conduzindo o pensamento também estritamente dentro desses limites, pode-se propor:

1. para que a força de trabalho apareça como mercadoria, como objeto de compra e venda, não é condição necessária que o trabalhador seja livre;

2. sendo o requisito para a formação de mais-valia que a força de trabalho seja mercadoria, o capital torna-se compatível com outros regimes de trabalho, isto é, desde que constituído um mercado de força de trabalho.

Pode-se, então, propor a hipótese de que não exista incompatibilidade entre produção capitalista e a instituição do trabalho escravo” (Franco, 1984; 159-160).

também havia que sê-lo para realizar aquele sentido da colonização. Não se tratava de uma escolha entre trabalho livre ou trabalho escravo, uma vez que o trabalhador livre estava sendo simultaneamente gestado historicamente e ainda não existia como categoria social, na concepção de Franco. A acumulação primitiva engatinhava, as “empresas” açucareiras viam a possibilidade da expansão do comércio de açúcar, sempre atrelado a uma expansão da produção que, sob as mesmas bases técnicas, requeria aumento proporcional de trabalho. Apenas a escravidão podia responder a essa demanda.

“(...) só a forma violentamente aberta e juridicamente garantida de apropriação da força de trabalho alheia, que é a escravidão, poderia prover o contingente requerido pelo setor açucareiro. (...)

A escravidão representa, face a essa exigência, a possibilidade de mobilização rápida e plástica de mão-de-obra, adequando-a às necessidades da produção em grande quantidade e em volume crescente” (Franco, 1984; 178)185.

Único expropriado total, o escravo era o agente de trabalho historicamente possível para ser compelido a trabalhar inteiramente a serviço das empresas açucareiras e em número expandível. Isto, além de inverter a relação entre trabalho e terra monopolizada, posto que é o “trabalho” aqui que é monopolizado, diferente do processo inglês anteriormente vislumbrado, mostra-se de fundamental importância para o capitalismo. Mais do que pensar em formas “pré-capitalistas” identificadas com as colônias escravocratas a alimentar a formação do capitalismo, Franco mostra um sistema particular de dominação social, um modo de produção presidido pelo capital (Franco, 1984; 179).

Pensando esse sistema particular como uma unidade contraditória, a contradição fundamental residia no fato de que “a massa de homens engajada na produção mercantil estava apartada do movimento de circulação de mercadorias” (Franco, 1984; 179). Isto

185 João Manuel Cardoso de Mello compreende o mesmo, afirmando no entanto a maior rentabilidade do

escravo no caso: “(...) não é difícil compreender que somente haveria produção colonial se houvesse trabalho compulsório, servil (encomienda, mita, endentured, etc.) ou escravo. (...) Se o móvel da empresa colonial era o lucro, tratava-se de rebaixar, ao máximo, o custo de reprodução da força de trabalho. Havendo abundância de terras apropriáveis, os colonos contariam com a possibilidade de produzirem a própria subsistência, transformando-se em pequenos proprietários e, especialmente, em posseiros. Nestas condições, obter produção mercantil em larga escala significava assalariar a sua força de trabalho, o que exigiria que a taxa de salários fosse substancialmente elevada para compensar, aos olhos do colono, a alternativa da auto-subsistência. Assim sendo, o trabalho compulsório era mais rentável que o emprego de trabalho assalariado” (Mello, 1982; 39-40).

é, os escravos trabalhavam na produção de produtos para a venda, nessas unidades especializadas que requeriam tais trabalhadores expropriados em números progressivo, porém eles não supriam suas necessidades pela compra de outros gêneros produzidos.

“Surge, pois, uma formação social integrada por homens engajados precipuamente numa produção especializada e obrigados, ao mesmo tempo, a auto-suprirem-se. (...) Na situação brasileira, essas duas práticas são constitutivas uma da outra. (...) Concebendo desse modo o vínculo entre a produção direta de meios de vida e a produção mercantil – como práticas que se negam e se determinam –, não se correrá o risco de perder o significado histórico da economia e da sociedade coloniais. Não se correrá o risco, por exemplo, de encará-las como uma dualidade integrada, que conjuga aspectos feudais e capitalista, mas se estará em condição de captá-las como uma unidade contraditória” (Franco, 1984; 179-180).

Como unidade contraditória também há que se pensar a existência concomitante e mutuamente necessária do sistema colonial e o nascente capitalismo europeu, quando a generalização das trocas apresentava-se não mais do que como tendência.

O sentido profundo da colonização

Organizemos, por outro lado, nossa discussão mais a fundo no conceito de colonização e no sentido da colonização. Novais (1969) retoma a noção mais geral, tal como formulada por Maximilien Sorre, para iniciar uma aproximação ao significado de colonização. Segundo ele, a colonização, envolvendo uma relação entre o homem e a natureza, estabeleceria uma forma de ocupação, povoamento e valorização das áreas, ou seja, “alargamento e organização do ecúmeno” (1969; 56). Porém, Novais já rebate-a segundo a perda da historicidade por uma tão ampla conceituação186. Ainda assim, é a partir dessa noção abstrata que Novais critica a tipologia das colônias, para propor parcialmente a sua noção de colonização, defendendo uma perspectiva histórica:

“Portanto: colonização significa, no plano mais genérico, alargamento do espaço humanizado, envolvendo ocupação, povoamento e valorização de novas áreas (Sorre); historicamente, na época moderna, entre a expansão ultramarina e européia e a revolução industrial, exploração e povoamento (Leroy-Beaulieu) constituem-se nos dois sentidos básicos em que se processa o movimento de europeização do mundo, delimitando as duas categorias fundamentais de colônias geradas nesse período. Assim, a pouco e pouco, através da crítica dos conceitos, vamo-nos aproximando

186 Por exemplo, mostra como esse conceito geográfico de Sorre não consegue explicar muito de como “a

colonização dos séculos XVI, XVII e XVIII assume a forma mercantilista” (Novais, 1969; 56), por ser muito abstrato.

da perspectiva histórica, pois sòmente ela permite enlaçar todos esses elementos, revelando-lhes o sentido como partes de uma totalidade concreta e dinâmica” (Novais, 1969; 59).

A especificidade histórica da colonização moderna seria, pois, a forma mercantilista de colonização187: “Noutras palavras, é o sistema colonial do mercantilismo que dá sentido à colonização européia entre os Descobrimentos Marítimos e a Revolução Industrial” (Novais, 2005; 58). Para tanto, há que se compreender como operava a acumulação mercantilista, visando lucros extraordinários no comércio, para se entender como as colônias constituíam-se na “retaguarda econômica da metrópole”. Mercantilismo esse ancorado especialmente no metalismo e numa noção de acumulação pelo comércio que exigia, pois, uma balança comercial favorável, no que se denota uma concepção de entesouramento a ser bem compreendida:

“Ela envolvia uma conceituação primária da natureza dos bens econômicos, e a suposição de que os lucros se geram no processo de circulação das mercadorias, isto é, configuram vantagens em detrimento do parceiro. Assim, o receituário mercantilista encaminha-se diretamente para a formulação da doutrina da balança favorável; balança dos contratos na formulação mais tosca, no nível dos mercadores particulares, balança do comércio no plano do intercâmbio internacional. Era a maneira de promover a entrada líquida do bullión, termômetro da riqueza nacional. Daí, a política protecionista: tarifária em primeiro lugar; ligada a esta, fomentista da produção nacional daqueles produtos que concorram vantajosamente no mercado entre as nações. (...)

Pois que a política mercantilista ia sendo praticada pelos vários estados modernos em desenfreada competição, necessário se fazia a reserva de certas áreas onde se pudessem por definição aplicar as normas mercantilistas; as colônias garantiriam a auto-suficiência metropolitana, meta fundamental da política mercantilista, permitindo assim ao Estado colonizador vantajosamente competir com os demais concorrentes. O projeto colonizador tinha, portanto, sólida urdidura com a mentalidade da época absolutista” (Novais, 2005; 61-2).

O principal mecanismo desse “receituário” que foi, de fato, colocado em prática pela expansão colonialista ultramarina dos século XV a XVIII, seria o “exclusivo metropolitano”, a permitir uma situação favorável para as trocas comerciais da metrópole. Articulado ao papel centralizador do Estado Absolutista do Antigo Regime, subordinava a Colônia, garantindo super-lucros para a metrópole (Novais, 2005; 72),

187 Nisso também havemos de nos diferenciar ao longo do texto, mostrando uma diferenciação entre o

sistema colonial do mercantilismo e a teoria da moderna colonização ou a colonização sistemática, teorizada por Wakefield. Este é exatamente o eixo da primeira parte desta seção.

através de uma espécie de reserva de mercado (Novais, 2005; 85). Dessa maneira, garantindo vantagens tanto na compra das mercadorias coloniais como na venda das mercadorias manufaturadas (metropolitanas), o exclusivo era o mecanismo primordial para acelerar a acumulação primitiva da metrópole188.

Cabe nessa totalidade assim abordada também uma reformulação do próprio escravismo que possibilitava a produção colonial e com ela fomentava a acumulação primitiva européia, pelas trocas desiguais consolidadas no monopólio estipulado. Também o escravismo constituir-se-ia num ramo do comércio colonial, talvez o mais lucrativo de todos189. Também Novais, como Franco e Prado Jr e ainda Mello, compreende a impossibilidade de se instaurar o trabalho livre nas condições de produção da colônia190, mas dá um passo adiante ao colocar o próprio escravismo como decorrência do tráfico negreiro, e não o contrário191.

188 “Este o mecanismo fundamental, gerador de lucros excedentes, lucros coloniais; através dele, a

economia central metropolitana incorporava o sobreproduto das economias coloniais ancilares. Efetivamente, detendo a exclusividade da compra dos produtos coloniais, os mercadores da mãe-pátria