• Sonuç bulunamadı

A mera exposição da relação de valor que pauta a troca das mercadorias não explica como se dá a valorização pelo consumo produtivo da força de trabalho. Explica, no entanto, como uma relação fetichista esconde uma relação de exploração, mostrando- a como se fosse uma troca igualitária entre proprietários de mercadorias. Falta, ainda, evidenciar o mecanismo básico dessa relação de exploração dessa mercadoria diferenciada que é a força de trabalho.

167 “Finalmente, tão logo os homens trabalham uns para os outros de alguma maneira, seu trabalho

O consumo desse “trabalho” não é exatamente a simples compra do mesmo. Evidentemente, no plano da circulação, o “trabalho”, ou melhor, a força de trabalho é comprada como qualquer outra mercadoria. Paga-se pelo seu valor de troca, isto é, acorda-se quanto ao salário que será pago. E da mesma maneira como ocorre com qualquer mercadoria, o valor de troca pago pela força de trabalho, o salário acordado, é mera expressão do valor dessa mercadoria, não a sua substância, que equivale ao tempo necessário para a sua produção. Há, assim, um processo de produção dessa mercadoria, da força de trabalho.

Devemos ter em mente, no entanto, que a força de trabalho, comparando-a com as outras mercadorias, em sua configuração histórica moderna, é a única que, em primeiro lugar, vai sozinha ao mercado, e que, acima de tudo, ao ser consumida, cria valor. O consumo da mercadoria-força de trabalho (seu valor de uso) é a realização de trabalho produtivo, capaz de criar outras mercadorias que, por sua vez, serão trocadas no mercado. “Assim, surge o valor da força de trabalho, revelando a possibilidade de um valor de uso muito superior ao valor de troca, reduzido ao ‘custo de produção’ da força de trabalho168”. Assim, ainda, é que se pode concluir que “o agente real de produção é a força de trabalho” (Gaudemar, 1977; 188).

Uma análise mais detalhada da característica essencial da força de trabalho indicará, ela mesma, o sentido desse processo. Isto é, a força de trabalho, para valorizar o valor, transformar dinheiro em capital, requer a disponibilidade, no mercado, do trabalhador livre.

Contraditoriamente livre, numa liberdade que se realiza tanto positiva – “dispondo à sua vontade da sua força de trabalho como de uma mercadoria que lhe pertence” (Gaudemar, 1977; 189), apresentando uma aparência de ser sujeito de sua própria história, ao escolher o serviço e o local de trabalho desejado – como negativamente – por não possuir qualquer outra mercadoria que não seja a sua própria força de trabalho para vender, sendo, por isso, obrigado a vendê-la a todo custo (o que nega aquela aparência) para realizá-la, ou melhor, para sobreviver, no limite.

“Para transformar dinheiro em capital, o possuidor de dinheiro precisa encontrar, portanto, o trabalhador livre no mercado de mercadorias, livre no duplo sentido de que ele dispõe, como pessoa livre, de sua força de trabalho como sua mercadoria, e de que ele, por outro lado, não tem outras mercadorias para vender, solto e solteiro, livre de todas as coisas

168 “Essa mercadoria, ‘possui, do mesmo modo que qualquer outra, um valor. Como se determina esse

necessárias à realização de sua força de trabalho” (Marx, 1985, I, t. 1, cap. 3; 140).

Pensando, a partir disso, num mercado de trabalho multidimensional, que apresenta características variadas e mesmo contraditórias, “deformando-se no tempo e no espaço”, podemos compreender como essa liberdade implica numa necessidade de mobilidade da força de trabalho, e do seu possuidor: ele tem que conseguir realizar os pressupostos de valorização do capital que somente a sua mercadoria (força de trabalho) pode realizar, ao mesmo tempo em que é obrigado a realizar estes pressupostos. A mobilidade é, assim, condição da sujeição ao capital169; condição do capital, portanto.

“No seu aspecto positivo, a ‘liberdade’ conduz à possibilidade do trabalhador escolher o seu trabalho e o local onde exercê-lo; no seu aspecto negativo, ela conduz às exigências do capital e ao seu poder de despedir em qualquer altura um trabalhador, ou de transformar o seu trabalho assim como as condições que ele o exerce. Em ambos os casos, a força de trabalho deve ser móvel, isto é, capaz de manter os locais preparados pelo capital, quer tenham sido escolhidos quer impostos; móvel, quer dizer apta para as deslocações e modificações do seu emprego, no limite, tão indiferente ao conteúdo do seu emprego como o capital o é de onde investe, desde que o lucro extraído seja satisfatório. O dinheiro vem reforçar esta tendência e assim estimular a mobilidade da força de trabalho. Pouco importa o emprego, desde que o salário recebido em troca seja satisfatório” (Gaudemar, 1977; 190-1).

Estamos diante de um processo instaurado de trocas generalizadas, com uma certa mobilidade perfeita da força de trabalho já formada. Também na análise que anteriormente apresentamos da mercadoria pressupõe-se essa mobilidade do trabalho, posto que ela permite a produção de mercadorias, permitindo a realização não somente da relação de valor, mas também da mais-valia, e daí, a forma capital.

Adiantamos, todavia, em nossa exposição que há um processo de produção dessa força de trabalho. Adentrar nesse processo exige um entendimento crítico da relação de valor, porque, assim que esta se reitera, apaga-se esse processo, abstraído nas trocas de mercadorias. Tínhamos um círculo vicioso de reprodução, e agora já podemos falar de uma reprodução ampliada do capital, desde que essa mais-valia gerada retorne aos investimentos produtivos alargando as possibilidades de extração de mais mais-valia170. Precisamos sair dele para encontrar uma acumulação de capital que, dando-se em outra

169 “A mobilidade da força de trabalho é assim introduzida, em primeiro lugar, como a condição de

exercício da sua ‘liberdade’ de se deixar sujeitar ao capital, de se tornar a mercadoria cujo consumo criará o valor e assim produzirá o capital” (Gaudemar, 1977; 190).

lógica, instaura a relação de valor. A relação de valor e o processo de valorização são, portanto, conseqüências históricas de um vasto processo que culmina na sociedade moderna (produtora de mercadorias)171. A gestação, portanto, da liberdade do trabalhador e da sua mobilidade acontece numa acumulação primitiva172.