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1.7. Sermaye Piyasası Araçları

1.7.3. Sermaye piyasası araçlarından menkul kıymet türleri

1.7.3.12. Varlığa dayalı menkul kıymetler (vdmk)

Considerando a desse tema, pretende-se buscar intersecções entre as notas trazidas a respeito da formação histórico-social brasileira, com o papel do direito na formulação dos “necessitados”. Desse modo, é trabalhada aqui a hipótese de que, na sociedade brasileira ter-se-ia um quadro formado pelas representações sociais possíveis nesse contexto, posto que embasadas justamente no movimento imprimido e reforçado pela ideologia, que operaria de modo a alimentar e propagar as idéias criadas nessa interação.

Tendo sido abordadas, na primeira seção desse capítulo, as fontes em que se fincaram as origens do mito fundador da sociedade brasileira (CHAUI, 2001), parece que um possível diálogo com a forma como operam as representações daí derivadas se mostra com a construção de SANTOS (2007). Este autor situa a persistência da estabilidade da desigualdade social no Brasil, não obstante o quadro no qual a democracia representativa se encontra.

Nesse sentido, o mencionado sociólogo pontua que o cenário traçado para as democracias ricas não se aplicaria ao Brasil (2007:34), sendo que nesse país a democracia não estaria se encaminhando para impasses ou decadência precoce, embora se tenha profusão de comentários nesse sentido. Esse entendimento se coaduna com o apanhado histórico de CARVALHO (2008), aqui também utilizado como referência para atingir pontos da construção da democracia brasileira.

Admitindo esse pressuposto – de que o panorama de a democracia estar em xeque não seria cabível no contexto brasileiro – SANTOS (2007) vai desconstruindo as representações aí relacionadas. Nesse sentido é que esse autor traz que a arena eleitoral no Brasil vem em um crescente15, sendo que seria impossível negar o fenômeno brasileiro da conversão eleitoral, em comparação com outros países. Além disso, situa que, diferente do que ocorre em vários países europeus16, no Brasil o eleitorado

15 Apresentando dados, SANTOS (2007), em várias tabelas, entre outras a 3.4, cuja fonte é o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e que trata do número de zonas eleitorais e crescimento proporcional por regiões entre 1988-2002, demonstra estatisticamente o suporte para suas afirmações. Ainda nesse sentido vale a menção ao gráfico 3.1, que faz comparativo entre o eleitorado e seu comparecimento, entre 1945-2002, com fontes no TSE e dados estatísticos desse próprio autor, vários volumes, SANTOS (2002).

16 Cf. SANTOS (2007:65), nas décadas eleitorais de 1980-1984 a 1990-1994, houve queda na fração do eleitorado em nove pontos na Áustria, em onze na então República Federal da Alemanha e em sete na Noruega. O período mais utilizado para a tese de alheamento do eleitor brasileiro, como traz esse mesmo autor, é o de 1986 a 1998, intervalo similar ao mencionado para os países europeus. No Brasil, à exceção da eleição para a Constituinte, a taxa de comparecimento permaneceu praticamente estável, reduzindo-se em

comparece, não sendo igualmente cabível falar-se em alheamento da população (SANTOS, 2007:63-65).

Não se pode então negar que se venha assistindo a um aumento do número de eleitores brasileiros. Não se pode afirmar que esses mesmos sejam alheios à participação política. No entanto, a força com que se propagam entendimentos em sentido contrário tem proporcionado a manutenção da ordem posta, com sua alimentação constante por meio da criação de representações que bem tem servido para ocultar os mecanismos de opressão e bloquear instrumentos de mudança.

Com todo esse contexto, seria possível buscar o que estaria por trás de uma participação política reduzida aos períodos de eleições e mesmo uma falta de repúdio a essa estrutura de desigualdade social? Parece que um dos lugares reservados nessa dinâmica é ocupado por uma construção ideológica, que mascara a realidade.

Segundo CHAUI (1994:31), a ideologia é um fato social por ser produzida pelas relações sociais, sendo uma certa maneira de produção de idéias pela sociedade. As representações daí derivadas tenderão a ocultar o modo real de sua criação, bem como a origem das formas sociais de exploração econômica e de dominação política. Dentro do contexto brasileiro, SANTOS (2007:128) afirma que a produção de representações relacionadas com uma putativa alienação das massas poderia ser derivada de uma estratégia de sobrevivência em um contexto de constitucionalidade precária. Como tratado anteriormente, os “necessitados” compõem um grupo composto pela maior parte da população brasileira. A presença de representações aí relacionadas gira, sobretudo, em torno de uma suposta apatia face à desigualdade social com a qual convive essa sociedade.

Remetendo esse funcionamento para o campo do direito, parece ser útil buscar um paralelo com a introdução dos trabalhadores na seara jurídica e a criação da categoria dos “necessitados”. O direito, por meio da lei, veio normatizar situações que foram consideradas como sendo a realidade. Foi criado um padrão genérico,

4,3% em 1998, taxa que equivale à mesma em oito de vinte e três países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), sendo que nos demais quinze países essa porcentagem de queda de participação superou a brasileira.

estandardizando o tratamento legal a esses sujeitos. Contudo, isso pode inibir ou mesmo neutralizar quaisquer modificações se for tomado com fim e não como ponto de partida.

Tomando-se WARAT (1979) fica reforçada a advertência de que essas práticas ideológicas trabalham organizando os dados da realidade de modo a assegurarem a reprodução dos valores e práticas predominantes. As respostas já estão sobre determinadas. Esse mesmo autor prossegue pontuando que, com as práticas científicas, tem-se funcionamento distinto. Essas buscam situar os problemas ao nível de um sistema de conceitos, que se voltam para a explicação da articulação em que os dados se relacionam.

Sem perder de vista todo esse conjunto emaranhado de variáveis que atuam na construção dos “necessitados” é que se toma como pressuposto a existência dessas representações. A condição de carência econômica utilizada como diferenciadora para a categoria de “necessitado” não pode servir para que os aí situados sirvam de lema para toda sorte de políticas sociais que só reforçam essa mesma circunstância, justificando- a.

O que se vê na lógica de produção de “necessitados” é que a esse estado de carência vão sendo agregadas qualificações de conotação negativa – alheamento, falta de participação política, inércia, incapacidade para pleitear seus próprios direitos – como representações que estariam arraigadas a esse grupo social. Construído esse cenário, toda a história de formação da sociedade brasileira, suas estruturas fundantes e seu mecanismo de manutenção são colocados de lado. Os “necessitados” são descolados da origem autoritária na qual se formou o Brasil, tendo sua pobreza atribuída à falta de vontade para crescer dadas as oportunidades que seriam oferecidas por seu país.

Com o olhar voltado para essa questão da sensibilidade social no cenário brasileiro de patentes desigualdades, SANTOS (2007:174) assinala ser bastante provável o papel da pobreza na demarcação do limite da possibilidade de alguma mudança, a ser promovida pelos sujeitos que se encontram nessa condição de carência econômica. No entendimento trazido por esse autor, a depender da situação de pobreza, das expectativas que essa mesma situação permite formular e do patamar de segurança que se tenha alcançado dentro de um cotidiano de privações, os riscos de organizar coletivamente com vistas a buscar modificações nessa estrutura, por vezes pode significar maior prejuízo do que manter tudo como está. Não se vislumbra, talvez seja até pertinente dizer, não há

como se vislumbrar ganhos com uma ação social. Os custos de um eventual fracasso mostram-se como de difícil absorção.

Importa ainda ressaltar que se parte do entendimento que uma postura como a descrita não pode ser explicada deslocando-se a motivação para tanto em um alheamento dos sujeitos, recaindo-se em questões morais voltadas para a justificação desse comportamento. No propósito de construir um estudo científico é que se quer levar em conta essas construções, de modo a tomá-las como um dos elementos constituintes das representações que os “necessitados” também constroem lidando com sua experiência de acesso à justiça por meio da Defensoria Pública.

Por isso, nesse exercício de escuta das percepções dos “necessitados” aos quais aqui se volta o olhar, ou seja, com foco em alguns dos usuários da Defensoria Pública, foi considerado esse mecanismo de criação de representações para o manejo do trabalho de campo, bem como para a posterior análise do material coletado.