A- SOSYAL YAPI
3- Vakıflar-Mescitler
Seguindo a tradição da América Latina, especialmente no caso do Brasil, muitos países sempre tenderam a construir processos políticos com base em modelos europeus e estadunidenses. Contudo, na atualidade e em sentido inverso, as experiências de democracia participativa do hemisfério sul têm servido ao hemisfério norte. Como exemplo, o Brasil se destaca no campo de discussão de experiências participativas em todo o mundo com o pioneirismo em relação ao Orçamento Participativo e aos Conselhos Gestores de Políticas Públicas (LAVALLE; HOUTZAGER; CASTELLO, 2006a; ROCHA, 2011).
No Brasil, a democracia participativa se fundamenta em institutos amparados pela Constituição Federal de 1988 (SANTOS, 1998a; 1998b; MENDES, 2007; ROCHA, 2011), após o processo de democratização do país. Assim, o artigo 14 garante a participação popular e o artigo 29 requer a participação popular no planejamento das cidades (SANTOS e AVRITZER, 2005; AVRITZER, 2005). Esses mecanismos políticos de participação foram especialmente criados e implantados por gestões do Partido dos Trabalhadores (PT) em vários municípios brasileiros (SANTOS, 1998a; 1998b; 1998c; DOIMO, 1995; SANTOS e AVRITZER, 2005; AVRITZER, 2005; FREY, 2007; ROCHA, 2011).
Desse contexto institucionalizado pelo Estado resultou a maior e mais difundida experiência de democracia participativa da atualidade, que vem da implantação do Orçamento
Participativo (OP) em Porto Alegre (RS) (SANTOS, 1998a; 1998b; 1998c; AVRITZER, 2005) e de experiências participativas em outras cidades brasileiras, como Belo Horizonte (MG), São Paulo (SP), Santos (SP), Campinas (SP), Vitória (ES) e Goiânia (GO) (SANTOS, 1998a; 1998b). Elas foram possíveis graças ao Poder Executivo, por meio de Conselhos Gestores de Políticas Públicas e Orçamento Participativo, e ao Poder Legislativo, por instrumentos em que se incluem plebiscitos, referendos e iniciativa popular de lei. Além da Constituição, foram importantes legislações complementares que tiveram o papel de definir políticas públicas, bem como de criar instrumentos de controle dos representantes (MENDES, 2007).
Santos explica o que é orçamento participativo (OP):
a process of decision making based upon general rules and criteria of distributive justice discussed and approved by regular, institutional organs of participation in which the popular classes have majority representation. The communities in which they live and organize are recognized as having urban collective rights that legitimate both their claims and demands and their participation in the decisions taken to meet them (SANTOS, 1998a, p.482).
Ressalta-se a amplitude e o reconhecimento da importância que o modelo de OP tem, pois já foi implementado em mais de 1.500 cidades pelo mundo, especialmente em países da América Latina, da Ásia (em parceria com o Banco Mundial e a ONU) e em países da Europa (BAIOCCHI; GANUZA, 2014).
Vários são os estudos que buscam elucidar a questão da participação em diferentes contextos. Rocha (2011), por exemplo, apresenta um estudo em que se comparam experiências do Conselho Gestor de Saúde em dois municípios do Estado de Minas Gerais e de outra instância de participação, o Centro de Encontro e Integração de Ações implantado em outro município mineiro. No trabalho de Frey (2007), são analisadas formas de participação pública com canais de comunicação que intermedeiam atores nos processos de resolução de conflitos sociais e possibilitam aumentar a governabilidade urbana e dar estímulos para ações coletivas, visando ao desenvolvimento local. O autor apresenta casos do Brasil, como os de Porto Alegre (RS) e Santos (SP), que podem possibilitar entender processos democráticos por participação pública, e da cidade de Curitiba (PR), que apresenta a governança comunitária no que se denomina de Nova Administração Pública.
Silva (2013) apresenta análise e discussão de um caso brasileiro no qual a participação popular em processos de tomada de decisão foi possível e se tornou um exemplo do que pode ser realizado com o envolvimento dos cidadãos. Trata-se da Campanha Nacional contra a ALCA (CNA). Essa campanha foi criada em 2002, quando o governo brasileiro negociava
com outros países latino-americanos e os EUA a criação da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA). Depois de uma série de mobilizações, em vários estados, contra a ALCA, o governo brasileiro decidiu realizar um plebiscito, em setembro de 2002, cujo resultado foi esmagadora maioria de votos contra a assinatura do acordo e contra a permanência do Brasil nas negociações.
A CNA permaneceu ativa até 2006, quando as negociações foram suspensas. Apesar de o fim das negociações ter se dado em função das políticas externas dos demais países e do Brasil, a autora, com ampla pesquisa realizada, defende a influência da participação popular. A participação popular resultou na criação, em 2003, de duas frentes parlamentares: Frente Parlamentar contra a ALCA e Frente Parlamentar de Acompanhamento das Negociações da ALCA e em Defesa da Soberania, ambas criadas em 2003. O que se conclui é que a pressão social colaborou para a redução do distanciamento entre governo e sociedade e demonstrou possibilidades de encontro de sistemas/processos democráticos e institucionais e não institucionais (organização civil), além do ganho proporcionado em termos de aprendizado a partir da experiência da democracia participativa.
Identifica-se, nesses e em outros estudos, notável alteração nos processos democráticos com progressiva implantação de mecanismos de participação que buscam enriquecer e complementar o sistema representativo, como confirmação de legitimidade e não como forma de substituí-lo (MARTÍ, 2008). Mas a democracia participativa supõe que haja exercício contínuo por parte da sociedade e que os institutos de participação popular, como conselhos gestores e orçamento participativo, sejam estruturados como forma de substituição e não em consonância com sistema representativo. Caso haja consonância, caracteriza-se uma crise democrática por meio de fissuras que afetam a legitimidade e eficácia da democracia. A participação não pode ou não deveria se restringir ao momento do voto. Daí a importância de utilizar instrumentos de participação direta, tanto para discussão de propostas de políticas, quanto para fiscalização e controle nos processos de implementação. Sendo alcançadas essas dimensões, pode-se realizar a democracia de forma completa e profunda (MENDES, 2007). No contexto dos movimentos sociais que são foco especial deste estudo, os representantes, em muitos casos, atuam de forma isolada, realizando ações que pressionam opinião pública e atores políticos. Esse tipo de atuação é preferido, em detrimento da participação em espaços institucionais, especialmente em razão de receios quanto à cooptação ou à discordância em relação ao tipo de mecanismos envolvidos (PEREIRA, 2012). Dessa forma, nem sempre os
mecanismos institucionalizados são as melhores formas utilizados pelo Estado para ampliar a participação da sociedade.