A progressiva politização do debate em torno dos trabalhos da CPI nuclear causou grande preocupação no governo de Juscelino Kubitschek, que temia que a mobilização dos nacionalistas levasse a uma situação de instabilidade política similar à dos últimos
170 Congresso Nacional de Defesa dos Minérios: Diretrizes, Resoluções Finais, Moções: 9, 10 e 11 de junho de 1956. Rio de Janeiro: Comissão Permanente de Defesa dos Minérios e da Economia Nacional, 1956. Documento digitalizado e disponível pelo site do acervo do Arquivo da Polícia Política, do Ministério Público Mineiro: http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/modules/dops (acessado a 5 de maio de 2013).
meses do segundo governo Vargas – que se viu sem o apoio de sua base política, em meio à crise que teve o seu desfecho com o suicídio do presidente (BETHEL, 2008: 116- 117). Tentando acalmar os ânimos - e esvaziar as denúncias que relacionavam as exportações de monazita às relações amistosas entre o presidente e Augusto Frederico Schmidt (um dos sócios da Orquima) -, o líder do governo na Câmara, o deputado Tarcílio Vieira de Melo (PSD-BA), realizou um pronunciamento na Casa no dia 30 de abril, com esclarecimentos sobre a política nuclear então vigente.
No discurso, Vieira de Melo procurou mostrar que o governo estava aberto a mudanças na política nuclear, e afirmou que a CPI havia revelado detalhes “graves” sobre os acordos de exportação de minérios atômico aos EUA. Em resposta às crescentes críticas contra tais acordos, o parlamentar declarou que o recém-inaugurado governo havia autorizado a exportação de 150 toneladas de óxido de tório, devido a tal montante estar incluído em um contrato “feito pelo governo anterior”. Segundo ele, o convênio Brasil-Estados Unidos previa a exportação de um total de 300 toneladas de óxido de tório (CM, 1/05/1956).
Décadas mais tarde, Renato Archer abordou os acontecimentos nos bastidores que teriam se seguido a tal pronunciamento de Vieira de Melo171. Segundo Archer, “cerca de quatro dias depois” do referido discurso, ele teria encontrado Álvaro Alberto em Copacabana – o qual teria lhe alertado que as informações de Vieira de Melo não eram de todo verdadeiras172. Archer relatou que o Almirante teria afirmado que a exportação de areia monazítica “legalmente autorizada” já havia sido concluída, e “se algo continuava a ser exportado agora, era ilegal e contrariava a política oficialmente estabelecida” (ROCHA FILHO e GARCIA, 2006: 115).
Segundo Archer, após avisar Vieira de Melo sobre a advertência de Álvaro Alberto, ele e o líder do governo na Câmara tiveram uma audiência com Juscelino Kubitschek dias depois, realizada no Palácio do Catete. A reunião teria contado também com a presença do general Nelson de Mello, chefe da Casa Militar da Presidência da República, e do diplomata Edmundo Barbosa, então chefe do Departamento Econômico
171 Em linhas gerais, Renato Archer abordou tais acontecimentos, sem alterações relevantes de conteúdo, tanto no depoimento ao CPDOC-FGV, em 1978 (MOREIRA e SOARES [Orgs.], 2007); quanto em depoimento a Álvaro Rocha Filho e João Carlos Vitor Garcia, em 1992 (ROCHA FILHO e GARCIA, 2006).
172 Em depoimento ao CPDOC, em 1978, Renato Archer relatou ter uma longa amizade com Álvaro Alberto, que remetia aos tempos em que fora aluno do almirante na Escola Naval (MOREIRA e SOARES [Orgs.], 2007: 53-54).
e Comercial do Itamaraty. Na ocasião, Kubitschek teria ficado surpreso com a informação, dada por Barbosa, de que não havia um acordo de exportação de monazita formalmente assinado pelos governos brasileiro e estadunidense (MOREIRA e SOARES [Orgs.], 2007: 70-71).
Diante de tal informação, Juscelino Kubitschek teria ordenado Vieira de Mello a ligar para o Itamarati, para que toda a documentação relativa aos acordos atômicos com os EUA fosse transportada para o Palácio do Catete. Nesse momento, Edmundo Barbosa teria esclarecido: “Os documentos não estão no Itamaraty. Estão na minha casa”. Segundo Archer, Juscelino teria olhado para o diplomata com um misto de “espanto” e “horror”, e teria lhe ordenado: “você vai mandar buscar isso já, e eu vou mandar publicar tudo” (IBID).
Renato Archer relata que a reunião teve uma pausa para que Barbosa fosse buscar os documentos em sua residência. Nesse intervalo, o deputado teria ido para a sala do chefe da Casa Civil da Presidência (cargo então ocupado por Oswaldo Penido), onde teria sucedido um acontecimento inusitado: Edmundo Barbosa teria entrado, posteriormente na mesma sala e, sem notar a presença de Archer (que estaria lendo um livro), teria ligado para João Carlos Muniz, então embaixador do Brasil nos Estados Unidos. Segundo Archer, Barbosa teria proferido tais palavras ao telefone:
“Embaixador, estamos testemunhando as dificuldades de um presidente novo, sem experiência. Imagine que ele quer publicar (...) todos os acordos secretos feitos com os Estados Unidos. Eu proporia ao senhor que falasse com o Departamento de Estado e mostrasse que é preciso providenciar um protesto antes que o presidente divulgue esta sua decisão” (ROCHA FILHO e GARCIA, 2006: 116).
Na retomada da reunião, Archer afirma que Barbosa, enquanto abria uma mala em cima de uma mesa e retirava os documentos solicitados por Kubitschek, tentou dissuadir o presidente de publicá-los, dizendo que os EUA não “permitiriam” a publicação das informações classificadas. Nesse momento, Archer teria intervido na conversa, e comunicado ao presidente, e a todos os demais presentes, sobre a ligação do diplomata ao embaixador brasileiro nos EUA. Juscelino teria ficado furioso e, virando- se para Barbosa, teria dito: “Filho de uma puta! Você vai sair daqui correndo para
providenciar que eles não protestem! Se protestarem, vou demiti-lo como traidor da pátria. (...) Ponha-se daqui pra fora! (IBID)”.
Na sequência, Juscelino Kubitschek teria incumbido Renato Archer, por sugestão de Vieira de Melo, de estudar toda a documentação que estava com Barbosa, e fazer um pronunciamento na Câmara para expor ao grande público detalhes das negociações secretas com os EUA. Embora tal história não tenha sido mencionada nos depoimentos deixados pelos demais atores que teriam participado de tal reunião, Vieira de Melo fez um discurso na Câmara no dia 8 de maio (portanto, poucos dias depois de ir à tribuna prestar esclarecimentos sobre a política nuclear), no qual leu excertos de documentos diversos sobre os acordos de exportação de monazita aos EUA assinados desde 1952 – o que atesta que a cronologia dos depoimentos de Archer é factível173.
Dentre outros documentos, Vieira de Melo leu na tribuna da Câmara uma comunicação do diplomata José Carlos Macedo Soares ao presidente Juscelino Kubitschek, que esclarecia que o acordo de exportação de 300 toneladas de óxido de tório, então vigente, havia sido autorizada pela CEME no dia 15 de março de 1955 – portanto, dois meses após a saída de Álvaro Alberto da presidência do CNPq. Nos esclarecimentos, Soares destaca que o CNPq havia aprovado tais exportações.
Vieira de Melo anunciou ainda a criação de uma Comissão Interministerial, formada por civis e militares, e subordinada ao CSN, para estudar a questão nuclear e propor medidas. O líder do governo na Câmara declarou ainda que o presidente estava atento ao debate nuclear, e convidou todos os partidos a darem a sua contribuição para definir novos rumos para o setor (UH, 9/05/1956). Entretanto, novos eventos na Câmara iriam dar a Renato Archer uma posição de protagonismo nos trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito.