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A transição para a Presidência de Juscelino Kubitschek se deu em meio a uma conjuntura de acirrada polarização política. Após vencer Juarez Távora nas eleições presidenciais de outubro de 1955, por estreita margem de votos, JK passou a sofrer intensa campanha de contestação por parte da UDN e de setores militares oposicionistas. Com base no argumento de que o vice de Kubitschek, João Goulart, iria devolver o país a um regime getulista, líderes opositores, como o jornalista Carlos Lacerda, passaram a advogar por um golpe para impedir a posse dos vencedores do pleito eleitoral daquele ano (BETHEL, 2008: 124-126).

O estopim da crise foi o discurso do Coronel Jurandir Mamede, membro da Escola Superior de Guerra (ESG) e um dos proeminentes líderes militares anti- getulistas, na ocasião do funeral do General Canrobert Pereira da Costa. No episódio, Mamede proferiu duras críticas contra a eleição de Kubitschek e Goulart, classificando- a como a “vitória da minoria” e de “mentira democrática”, e terminou clamando por um golpe de Estado para prevenir a posse dos mesmos (IBID).

Foi o que bastou para a eclosão do Movimento 11 de Novembro (também conhecido como “Novembrada”), no qual o Marechal Henrique Teixeira Lott deu um “golpe preventivo” para garantir a posse de Juscelino Kubitschek como presidente159, fato este que teve grande influência nos primeiros meses de 1956. Em decorrência disso, JK assumiu o cargo em meio a um estado de sítio, recebendo a faixa presidencial do vice- presidente do Congresso, Nereu Ramos (PSD-SC) (BETHEL, 2008).

159 Para maiores informações sobre o Movimento 11 de Novembro, ocorrido no ano de 1955, consultar: LAMARÃO, Sérgio. “Movimento 11 de Novembro”. Verbete disponível no endereço:

http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/FatosImagens/Movimento11Novembro (Acessado a 13 de dezembro

Kubitschek elegeu-se com base em um plano de governo que foi batizado de “Programa de Metas”. Trata-se de um conjunto de investimentos estratégicos nos setores de energia, transportes, educação, e outros; áreas vistas como fundamentais para impulsionara a industrialização do país. Com efeito, a segunda meta desse plano era dedicada à energia nuclear, e estipulava a ampliação da metalurgia de minérios atômicos no país, bem como a construção da primeira usina atômica brasileira – com uma potência prevista de 10.000KW (LAFER, 2002: 120). É oportuno ainda destacar que, em sua mensagem à Câmara dos Deputados em fevereiro de 1956, o novo presidente afirmou:

“Aproxima-se a era das usinas atômicas, para cuja utilização o país deve se preparar desde já, incluindo no programa de expansão da indústria da eletricidade algumas usinas atômicas, embora de pequeno porte, a fim de que nossos engenheiros possam se familiarizar com essa nova técnica e estejam preparados para os grandes projetos que fatalmente surgirão no futuro não muito remoto” (BRASIL apud SANTOS, 2008: 4).

Contudo, mal iniciado o novo governo, Kubitschek viu-se confrontado com questionamentos acerca das exportações de monazita, e da política nuclear vigente. No dia 7 de fevereiro daquele ano, o deputado Rafael Corrêa de Oliveira (UDN-PB) encaminhou à Mesa da Câmara dois requerimentos: no primeiro, dirigido ao Ministério das Relações Exteriores (MRE), o parlamentar solicitou esclarecimentos sobre os acordos então vigentes para a exportação de minérios físseis - “quem os assinou, por ordem de quem e com quais credenciais”. No segundo requerimento, destinado ao Ministério da Fazenda (MF), o deputado pediu informações sobre a quantidade de minérios atômicos exportados, os destinos, empresas envolvidas e valores anuais de tais operações (CM, 7/02/1956: 8).

Embora este historiador não tenha conseguido averiguar se o deputado logrou obter as respostas requeridas, é possível analisar os seus requerimentos como um desdobramento do PL-944/65, já que teve lugar poucos dias após a apresentação daquele projeto. Contudo, o fato mais importante sucedeu-se no dia 10 de fevereiro, quando a Câmara aprovou a criação da “Comissão Parlamentar de Inquérito para Proceder às Investigações Sobre o Problema da Energia Atômica no Brasil”, por meio da Resolução No. 49 (DCN, 11/02/1956). Segundo Dagoberto Salles, a CPI fora criada

a partir de requerimento do deputado Armando Falcão (PSD-CE) (SALLES, 1958: Nota Introdutória).

Segundo Renato Archer, em seu depoimento concedido ao CPDOC/FGV em 1978 (MOREIRA e SOARES [Orgs.], 2007: 71), na sua composição original, a CPI de 1956 seria presidida por Armando Falcão, um dos mais notórios aliados de Juscelino Kubitschek na Câmara. Todavia, o jornalista e deputado Carlos Lacerda (UDN-DF) denunciou, por meio de artigos no seu jornal Tribuna da Imprensa, que Falcão havia atuado como funcionário da Orquima, e o acusou de pretender blindar o governo nos trabalhos da CPI160. O deputado pessedista acabou excluído da Comissão Parlamentar, e a sua composição final foi a seguinte: Gabriel Passos (UDN-MG) – presidente; Arinos de Mattos (PSD-RJ) – vice-presidente; Dagoberto Salles (PSD-SP) – relator (SALLES, 1957). Também integraram a CPI, como membros, os deputados Marcos Parente (UDN- PI); Frota Moreira (PTB-SP); Colombo de Souza (PSP-CE); e Renato Archer (PSD- MA).

Quase simultaneamente à criação da CPI, outro fato que aumentou a pressão contra o governo JK foi a Exposição de Motivos n.D-1, de 27 de fevereiro, de autoria do Estado-Maior das Forças Armadas161, e dirigida ao presidente da República. No documento, os militares registraram a sua oposição frontal aos acordos celebrados com os EUA na área atômica, considerando-os como lesivos à Lei No. 1310/51. O EMFA ainda declarou, no mesmo documento, que a salvaguarda da produção dos minérios era de essencial importância para a segurança e a continuidade do progresso industrial do Brasil (MONIZ BANDEIRA, 2011b: 155).

Tal pressão, por parte dos militares do EMFA, foi reafirmada por uma nova Exposição de Motivos (no. 1/CPMPM), de 19 de março, na qual a instituição afirmou mais uma vez a sua oposição aos acordos afirmados com os EUA. O documento criticou em especial a exportação de minérios atômicos, e destacou “o interesse universal sobre o material estratégico, que, inclusive, poderá condicionar o próprio futuro energético do país” (MONIZ BANDEIRA, 2011a: 69).

160 IBID. As acusações de Carlos Lacerda contra Armando Falcão também foram reproduzias em reportagem do Jornal do Brasil, publicada na edição de 4 de abril de 1956.

161 O Estado-Maior das Forças Armadas era o órgão equivalente ao atual Ministério da Defesa. Em fevereiro de 1956, a pasta era composta pelo Almirante de Esquadra Alves Câmara (Marinha); o Marechal Henrique T. Lott (Exército); e pelo Major Brigadeiro Vasco Alves Seco (Aeronáutica). IN: Site do Ministério da Defesa - www.defesa.gov.br (acessado a 5 de maio de 2013).

É importante destacar, contudo, que tais protestos do EMFA se deram em meio à crise de Jacareacangá, que teve lugar entre 10 e 29 de fevereiro daquele ano, e que se caracterizou pelo questionamento de oficiais da Aeronáutica contra a posse de JK como presidente (SKIDMORE, 1976: 213). Embora a rebelião tenha se encerrado com uma ampla anistia aos revoltosos, é de se destacar que permaneceu um clima de insegurança nos primeiros meses da presidência de Kubitschek – o que possivelmente concorreu para que este fosse mais sensível ao assunto nuclear.

A própria atenção da imprensa para o tema não deve ser desprezada como um fator adicional de preocupação para o recém-iniciado governo JK. Com efeito, o Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda, já vinha sugerindo, desde o ano anterior, que Juscelino e Augusto Frederico Schmidt teriam uma amizade baseada nos interesses comerciais da Orquima – em especial para facilitar a exportação de monazita aos EUA, em troca de trigo. Lacerda ainda se posicionou contra as exportações de monazita, qualificando tais operações de “erro gravíssimo”(TI, 10/02/1955).

Décadas mais tarde, Renato Archer resumiu a preocupação que o tema das exportações de monazita despertou nos círculos de poder do governo JK:

“Para se entender bem a razão desta preocupação, é preciso analisar a conjuntura dos primeiros dias do governo Kubitschek, um governo fraco, contestado pelos militares quanto à legitimidade de sua eleição. Qualquer fato que pudesse ganhar um contorno de sensacionalismo, em um período de liberdade absoluta de imprensa, era tido como um fato grave” (MOREIRA e SOARES [Orgs.], 2007: 69).