Talvez seja necessário discutir, ainda que de forma sucinta, algumas noções sobre o termo sertão. Com isso, pretende-se demonstrar que, por mais geral que seja tal definição, é possível chegar a um ponto de partida razoável de entendimento. O termo tem múltiplas vertentes explicativas e, por isso, é plausível partir de um sertão múltiplo, que poder ser paisagem, sentimentos, perspectivas, incertezas, geografia, economia e pessoas. Assim será feito neste trabalho, uma abordagem plural de seus significados e possibilidades, sem, no entanto, deixar de ser um lugar real. Gilmar Arruda141 informa que a origem da palavra sertão vem dos portugueses, no período medieval. Eles utilizaram a palavra nas colônias africanas para designar as terras menos valorizadas, caracterizadas pela secura e pouca fertilidade,
138
HERMING, John. “Os índios e a fronteira colonial”. In: BETHELL, Leslie. (org.) História da América
Latina. Vol. 2: América Latina Colonial. São Paulo: Edusp/Funag, 2008, p. 423-69, p. 425.
139
MAXWELL, Kenneth R. “Porque o Brasil foi diferente...”. 2000, p. 189.
140
BOTELHO, T. R; PAIVA, C. A; CASTRO, J. F. M. “Política de população no período joanino”. In: SCOTT; Ana Volpi; FLECK, Eliane (Org.). A Corte no Brasil: população e sociedade no Brasil e em Portugal no início do séc. XIX. São Leopoldo-RS: Ed. Unisinos; Oikos, 2008, p. 59-88, p. 68.
141
portanto, as menos habitadas. Do ponto de vista europeu, pode-se tratar de um lugar distante em vários sentidos. Vicentini apresenta uma definição ainda mais detalhada:
[...] de-sertum, supirro de desere, significa ‘o que sai de fileira’, e passou a linguagem militar para indicar o que deserta, o que sai de ordem, o que desaparece. Daí o substantivo desertanum para indicar o lugar desconhecido aonde ia o desertor. Facilitando a posição lugar certo e lugar incerto, desconhecido e, figuradamente, impenetrável.142
Para a autora, foi com esse sentido que a palavra chegou ao Brasil nos primeiros momentos da ocupação pelos portugueses, conforme ela indicou na carta de Pero Vaz de Caminha, afirmando que “De ponta a ponta é toda praia palma, muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, [vista] do mar, muito grande, porque a estender os olhos não podíamos ver senão terra e arvoredos, que nos parecia mui longa terra”.143 Esse princípio de paradoxo permaneceu por muito tempo, de maneira que ainda nos dias de hoje se encontra esse sentido na palavra. Foi do mar que se definiu o sertão, não por coincidência o lugar ganhou significados opostos ao que caracterizaria as regiões litorâneas, quase sempre percebidas como lugares de fácil habitação e compreensão. Nas entrelinhas de tal definição, é possível perceber o litoral como um lugar que evolui, enquanto o outro seria tudo que vai de encontro a suas definições.
No Brasil, os bandeirantes foram os primeiros a desbravar o interior, os sertões, e à medida que o faziam, colocavam-no mais adiante no tempo e no espaço. Ao levar a civilização europeia por meio da cultura, religião, economia, benfeitorias e da guerra, o sertão se distanciava, pois ele era aquilo que ainda não havia sido conquistado. Do ponto de vista geográfico, essa era uma característica importante, mas o significado transcendeu esse atributo e ganhou também uma dimensão múltipla que abarca o social, o político, o econômico, o poético e, entre outros elementos, um modo de vida singular.
Nísia Trindade Lima144 afirma que, no início da República brasileira, houve uma valorização do sertão “seja como espaço a ser incorporado ao espaço civilizado das elites políticas do país, seja como referência da autenticidade nacional”. Naquela época, houve um processo de mudança, traduzido num projeto modernizador para o país. As ferrovias foram
142
VICENTINI, Albertina. “O sertão e a literatura”. Revista Sociedade e Cultura. Goiânia: Ed. UFG, 1998, p. 45.
143
AMADO, Janaína e FIGUEIREDO, Luiz Carlos. Brasil 1500: quarenta documentos. Brasília: UnB, São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2001. Disponível em: http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/historia/0015.html. Acesso em: 23 de novembro de 2012.
144
LIMA, Nísia, Trindade. Um sertão chamado Brasil: intelectuais e representação geográfica da identidade nacional. Rio de Janeiro: Revan/IUPERJ/UCAM, 1999, p. 65.
um símbolo dessa marcha, que eram acompanhadas de outras obras no âmbito dos transportes e comunicações. Ações que resolvessem ou reduzissem o problema da seca também tiveram destaque. Buscava-se integrar, pelo “progresso”, econômica e culturalmente, as duas regiões, de maneira que, de acordo com esse pensamento, o sertão pudesse alcançar mais que benefícios, portanto, seu verdadeiro valor.
A perspectiva de leitura sobre o sertão varia de acordo com os grupos sociais no tempo e no espaço. Para as pessoas do litoral, em determinado momento, o sertão era o lugar rude, selvagem, habitado por índios e animais selvagens; para os devassadores bandeirantes, era um lugar de perigo e de desafios, mas também onde poderiam ser adquiridas grandes recompensas; para os perseguidos pela lei governamental, poderia ser um lugar de liberdade.145 Para muitos, era lugar de miséria, para outros, de fortuna, assim como era lugar de esperança e desesperança. Desse modo, há infindáveis definições dualistas.
Não seria muito diferente na perspectiva literária que há, pelo prisma romântico, significação de paraíso. É nesta acepção que também se encontra o valor à natureza: montanhas, rios, vegetação, entre outros aspectos. No Brasil, essa valorização foi, muitas vezes, associada a uma forma de recompensar uma suposta debilidade cultural do povo. Também havia uma perspectiva literária de associação ao inferno, unida à imagem do retirante. Entre as duas imagens, havia outra, a de purgatório, um lugar de travessia.146
Talvez, em termos de literatura brasileira, as duas imagens mais consolidadas sejam as que provêm de Euclides da Cunha e de Guimarães Rosa. O sertão euclidiano é bem definido no tempo e no espaço, é palpável, definível e precisa ser integrado econômica, política e culturalmente ao outro Brasil, pois nisto estaria sua salvação. Na perspectiva do segundo autor, o sertão “não acontece num espaço ou num tempo exteriores, mas [...] desloca o sertão dentro de nós, no encontro do espaço e do tempo psíquicos ou internos do homem”.147 Trata- se de uma visão externa e outra interna. O sertão, especialmente o maranhense, será analisado sob essas duas perspectivas, com ênfase na visão dos sertanejos sobre si mesmos.
A grande odisseia da pecuária brasileira fez estender o território colonial em escala geométrica, com o devassamento de áreas desconhecidas e a dizimação ou expulsão de quase todas as populações nativas. Ela começou quase sem grandes pretensões, no seio da grande
145
OLIVEIRA, Lúcia Lippi. A conquista do espaço: sertão e fronteira no pensamento brasileiro. História,
ciências, saúde - Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 5, n. S, p. 195-235, jul. 1998, p. 197.
146
OLIVEIRA, Lúcia Lippi. A conquista do espaço... p. 200.
147
SENA, Custódia Selma. A categoria sertão: um exercício de imaginação antropológica. Revista Sociedade e
lavoura açucareira, nos litorais baiano e pernambucano. Dali surgiram ramificações que alcançaram todos os lugares distantes possíveis no desconhecido Brasil, num processo inicialmente lento. A partir daí, ganhou ritmo acelerado e deu ao Brasil o feitio que ele tem nos dias de hoje. Antes de a atividade pecuária ganhar importância, ela ficava ali, à sombra de outra atividade: a produção de açúcar. O engenho era o centro de gravidade econômica no nordeste colonial, pois os investimentos disponíveis, as leis regulatórias e os benefícios eram prioritariamente dirigidos à produção do açúcar, sustentáculo, por muito tempo, das finanças metropolitanas. Mesmo no período áureo da mineração e da pecuária, bem como de outras atividades agrícolas, a lavoura da cana era ainda muito importante, quando não a principal atividade econômica no Brasil, ainda que considerando os momentos de crise do setor, frente a novos centros de produção que surgiram na gestão holandesa.
A lavoura de cana praticamente conduziu os rumos da colônia. Ela ocupava grandes extensões de terra e foi importante para a ampliação do território, dizimação e escravização de indígenas pelo interior do continente. Um exemplo disso é a capitania de São Vicente em que os bandeirantes promoveram uma grande empreitada para matar e escravizar nativos para as lavouras. Na época, o tráfico de escravos internacional estava comprometido por causa da intervenção holandesa, que exercia domínio sobre as rotas do atlântico. Pesquisas indicam que em menos de uma década o número de nativos exterminados alcançou mais de 200 mil pessoas.148
Esse caso não foi exceção no Nordeste, em que muitas vezes houve dificuldades de importação de africanos, e a alternativa indígena era a saída. Raimundo José de Sousa Gaioso, enfatizando a importância dos religiosos, afirma que não se deve “roubar aos jesuítas a glória que lhes pertence de haverem eles concorrido muito para o aumento das colônias da América, dando-lhes na pessoa dos índios muitos braços para a lavoura”.149 Na produção açucareira em grande escala, no entanto, o comum era a mão de obra africana. Quando se intensificou a apropriação do trabalho indígena, começaram os conflitos com a Igreja, monopolizadora desse trabalho. Os jesuítas foram grandes proprietários de terras, desenvolveram uma agricultura de grande porte sob o trabalho escravo.
148
BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz; WEFFORT, Francisco C. O feudo... 2007, p. 190.
149
GAIOSO, Raimundo José de Sousa. Compêndio histórico-político dos princípios da lavoura do Maranhão: suas produções e progressos que tem tido até o presente. Rio de Janeiro: Editora Livro do Mundo Inteiro, 1970, p. 236.
De acordo com Dauril Alden, “toda capitania produtora de açúcar possuía um ou mais engenhos jesuítas”.150 O autor informa que na Bahia, no principal centro produtor de açúcar no Brasil, havia cinco engenhos pertencentes aos religiosos. Também havia empreendimentos da Amazônia ao Piauí, passando por muitas localidades entre essas duas, a exemplo do Maranhão. Os empreendimentos jesuíticos eram bem organizados e incluíam, além da produção de açúcar, a criação de gado, de outros animais e de outras produções agrícolas, como as famosas drogas do sertão, produzidas no Norte. Ainda assim, os animais seriam indispensáveis, uma vez que dispunham de força incomparavelmente superior e melhor preço que o escravo, ocasionando uma divisão de tarefas que poderia preservar por mais tempo a força de trabalho escrava.
Em relação à alimentação, o boi não era menos importante, pois a carne foi uma das principais fontes de nutrição numa sociedade com recursos limitados. Mesmo para as famílias mais abastadas, a segurança alimentar era instável e quanto mais distante do litoral, mais difíceis eram as condições. A carne, bem como outros derivados do boi, era alternativa corrente. Esse fornecimento, muitas vezes, era feito pelo dono da fazenda, especialmente nas de maior porte. Nas pequenas, era dividido entre o dono e o vaqueiro, e o empregado pagaria cerca de 25% do animal, pago no acerto de contas final entre os dois, num processo conhecido, de acordo com Paula Ribeiro, por “pagar a morta”.151 Sempre se buscavam alternativas, com relativo sucesso, mas a carne, leite e derivados foram o elemento vital na sobrevivência daquela sociedade, tanto nos engenhos do litoral quanto nas fazendas do interior. De acordo com Antonil:
O certo é que não somente a cidade, mas a maior parte dos moradores do recôncavo [na Bahia] se sustentam [...] da carne do açougue e da que se vende nas freguesias e vilas, e que comumente os negros, que são um número muito grande nas cidades, vivem de fuçuras, bofes e tripas, sangue e mais fato das rezes, e que no sertão mais alto a carne e o leite é o ordinário mantimento de todos.152
Sem a carne de vaca, a vida seria mais difícil naquelas regiões, provavelmente não haveria o mesmo processo de ocupação do território. Além do alimento, extraía-se dos animais uma infinidade de subprodutos necessários à sobrevivência e ao uso cotidiano, de
150
ALDEN, Dauril. “O período final do Brasil colonial”. In: BETHELL, Leslie. (org.) História da América
Latina. Vol. 2: América Latina Colonial. São Paulo: Edusp/Funag, 2008, p. 527-92, p. 540.
151
RIBEIRO, Francisco de Paula. 1849. Descrição do território dos Pastos Bons, nos sertões do Maranhão; propriedades dos seus terrenos, suas produções, caráter dos seus habitantes colonos, e estado atual dos seus estabelecimentos. Revista Trimensal de Historia e Geografia ou Jornal do Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro, tomo XII, 1º. Trimestre de 1849, p. 41-86. Rio de Janeiro. [segunda edição 1872], p. 8.
152
ANTONIL, André João; MANSUY, Andree. Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas. Paris: Institut des Hautes Etudes de l’Amerique Latine, 1968, p. 480.
maneira a suprir a falta de ferramentas de trabalho numa região m que não havia indústria, nem um comércio capaz de suprir as necessidades daquelas populações. As habitações humildes tinham portas feitas de couro e camas de esteira. Os moradores também confeccionavam objetos com finalidades diversas para carregar alimento e água. Além disso, faziam roupas, botas, cinturão, chapéu, entre outros, a depender da necessidade.153
De forma secundária, mas não de pouca importância, outras atividades acompanhavam os engenhos e a criação de gado. Uma agricultura de subsistência, sempre que as condições geográficas permitiam, era cultivada como forma de melhorar as condições de vida. Além dos alimentos tradicionais, os produtos da horta somavam-se aos agrícolas, que, por sua vez ,se agregavam à atividade de caça e pesca. A criação de outros animais, a exemplo do porco e do bode, em alguns lugares, contribuiu para melhorar as condições de alimentação. Rapadura e aguardente igualmente fizeram parte de um conjunto possível de produtos que fizeram parte da vida cotidiana no sertão.154
Não menos importante foi o cavalo, pois este tipo de criação alcançou maior vulto que as outras criações secundárias, pois não seria possível a manutenção da fazenda sem seu uso, vez que elas ocupavam grandes áreas. No Nordeste, o destaque foi maior que em outras regiões do Brasil, pois havia propriedades especializadas na criação desses animais. De acordo com Paula Ribeiro, uma fazenda não poderia ter menos que 25 cavalos, nas maiores fazendas, esse número poderia dobrar, dependendo da área e do tamanho do rebanho.155 Acrescenta Schwarts que “os cavalos prosperaram na Bahia de tal modo que, na década de 1580, podia-se encontrar um comércio de cavalos em expansão da Bahia para Pernambuco e até para Angola”.156 Ainda que secundária, a atividade criatória de outros animais bem como a produção de alimentos para a sobrevivência foram de grande importância para o desenvolvimento da pecuária.
A vastidão territorial adquirida por poucas famílias no sistema de concessão de sesmarias não passou despercebida por Antonil. Este enfatizou que o vasto sertão nordestino pertencia a apenas duas famílias: a da Torre e a dos Guedes Brito. A primeira possuía 260 léguas de terras, que acompanhavam uma das margens do Rio São Francisco, enquanto a
153
RIEDEL, Diaulas (org.). O sertão, o boi e a seca: Maranhão, Piauí, Ceará e Rio Grande do Norte/seleção, introdução e notas de Ernani Silva Bruno. São Paulo: Cultrix, 1959, 26-7.
154
RIEDEL, Diaulas (org.). O sertão, o boi e a seca... p. 26-7.
155
RIBEIRO, Francisco de Paula. 1849. Descrição do território dos Pastos Bons... p. 84.
156
SCHWARTS, S. B. “O Brasil colonial”, c. 1580-1750: as grandes lavouras e as periferias. In: BETHELL, Leslie. (org.) História da América Latina. Vol. 2: América Latina Colonial. São Paulo: Edusp/Funag, 2008, p. 339-421, p. 378.
outra possuía cerca de 170 léguas. Na impossibilidade de cultivo ou manutenção dessas áreas, a saída era o arrendamento de fatias, compostas de uma légua, a um valor anual de dez mil réis.157 Do ponto de vista da ocupação, diante dos recursos disponíveis, o sistema funcionou por muito tempo, várias fazendas foram criadas, grandes e pequenas, com rebanhos de diferentes tamanhos.
O gado foi obrigado a se distanciar das lavouras, prioritárias para o Governo, porque elas precisavam das terras férteis. O rebanho, à medida que aumentava, também exigia porções de terra cada vez maiores. Para resolver a tensão, a Coroa criou uma lei, no início do século XVIII, proibindo a aproximação mínima de 80 quilômetros da lavoura.158 Os rebanhos foram para áreas cada vez mais distantes da costa, onde encontraram lugar para se desenvolver. Mesmo com as dificuldades estruturais, os conflitos com tribos indígenas, os lugares áridos, a facilidade para se estabelecer e manter uma fazenda era tanta que todas as adversidades foram superadas. Em comparação com a lavoura canavieira, seu manejo era mais barato e fácil, carecendo de investimentos mínimos.
As áreas agrícolas do litoral precisavam de carne para o abastecimento, e quando começou o surto populacional nas regiões das minas, a demanda por alimento se multiplicou, forçando as fazendas também a aumentar a produção. Não foi difícil, pois para a instalação de um empreendimento pecuário seria necessário não mais que uma casa rústica e poucos currais improvisados. As pessoas empregadas também eram em número reduzido, assim como os animais que auxiliavam no trabalho, com isso estava formada uma fazenda nos sertões. Trabalho escravo havia, mas o comum era a mão de obra livre, muitas vezes indígena. Francisco de Paula Ribeiro oferece uma descrição detalhada de como se estrutura uma fazenda, referindo-se especialmente ao Maranhão:
1º Organizar os currais e casas de vivenda nas terras designadas, para os gados, vaqueiros e fábricas [...] O vaqueiro queima os campos em tempo próprio, e não todos de uma vez para que, no entanto que estas queimadas, como ali se chamam, produzem novos pastos tenros e viçosos tenham em partes os gados capins secos de que sustentar-se. Ele é o que procura extinguir as onças ou tigres que aparecem nas fazendas, matar os morcegos e cobras venenosas [...].159
Desempenhar esse serviço por um tempo médio de cinco anos dava ao vaqueiro o direito a uma parte das crias, e a depender do tamanho do empreendimento, o vaqueiro poderia formar sua própria fazenda. Dessa maneira, surgiram muitos empreendimentos nos
157
ANTONIL, André João; MANSUY, Andree. Cultura e opulência do Brasil... 1968, p. 476-7.
158
SCHWARTS, S. B. “O Brasil colonial...”. 2008, p. 379.
159
sertões coloniais.160 Por isso, elas se espalharam tão rapidamente e quando o rebanho crescia, seu dono entregava parte dele aos cuidados de outro, dando continuidade ao ciclo. Nessa atividade, o mais comum era o emprego de brancos pobres, mestiços ou índios. A possibilidade de se tornarem fazendeiros permitia a um número de pessoas aderir à criação diante do estático sistema da agricultura. Lá, além de tudo, o trabalho era mais exaustivo, motivo de atrair poucos trabalhadores livres.
As fazendas eram estabelecidas de preferência próximas a algum curso d’água. Nesse caso, era feita uma divisão em que elas ficavam às margens de algum rio, quando havia. Dessa maneira, favorecia-se uma melhor exploração do território, prioridade para o Governo. Havia ocasião em que o dono da fazenda e seus filhos faziam o trabalho necessário à sobrevivência da fazenda.161 Cada modalidade ocorria de acordo com a necessidade de cada lugar, a regra, no entanto, era o pagamento ao vaqueiro livre e seus ajudantes, os fábricas, livres ou escravos. Uma das tarefas que mais exigia cuidados desses homens, cuidadores do gado, próprio ou do patrão, era o transporte de uma região para outra. Esse percurso pode ser traçado da seguinte maneira:
Constam as boiadas que ordinariamente vêm para a Bahia, de cem, cento e cinquenta, duzentas e trezentas cabeças de gado [...] os que as trazem são brancos, mulatos e pretos e também índios que com este trabalho procuram ter algum lucro [...]. As suas jornadas são de [...] seis léguas conforme comodidade dos pastos aonde hão de parar. Porém onde há falta de água, seguem o caminho de quinze e vinte léguas, marchando de dia e de noite com pouco descanso [...].162
Tratava-se de uma jornada exaustiva e arriscada, muitos bois morriam no caminho, seus condutores recebiam de acordo com o número de animais que chegavam a salvo. Os auxiliares, chamados de tangedores, recebiam, independentemente, das perdas no decorrer do percurso. Por não correr os mesmos riscos que o vaqueiro, seus ganhos eram mais modestos e fixos, diferentemente do contratado, que poderia ter prejuízos ou bons lucros. Essa era prática comum e foi dessa maneira que muitas vezes os rebanhos migraram de uma região para outra,