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O legado de Pombal está associado à ilustração portuguesa, ao provocar uma série de mudanças na economia, na política, na ciência e na cultura de maneira geral, naquela sociedade, conforme mostrado aqui na primeira parte do trabalho. As circunstâncias próprias do final do século XVIII, no que se refere ao enfraquecimento do modelo colonial, somaram- se a fatores internos na metrópole e na própria colônia, que contribuíram para o aumento da importância dos diversos viajantes pelo Brasil. É certo também que houve uma readequação na função daqueles homens para atender as necessidades de então.

Em termos gerais, a Universidade de Coimbra era quem dava as diretrizes da modernização para uma nova economia, começando pela agricultura, depois pela indústria e comércio. Os intelectuais daquela instituição, que também eram filhos de comerciantes e proprietários de terras, interessados no desenvolvimento desse setor, seriam os principais responsáveis por novas transformações. Com isso, o Estado português se beneficiou como também o fizeram os grupos que participaram diretamente do processo.

Sempre foi uma aspiração de Portugal reduzir sua dependência para melhorar suas condições econômicas, e os intelectuais seriam responsáveis por parte da tarefa. Para R. Raminelli, a viagem dos naturalistas foi um passo importante para várias reformas econômicas que surgiram no reino, impulsionadas pelo ministro Pombal. “Suas intervenções buscavam, ao mesmo tempo, criar vínculos de dependência entre as economias metropolitana e colonial, além de descobrir minas, diversificar a agricultura e as matérias-primas destinadas ao mercado lusitano”.113 Juntamente com isso, somava-se a preocupação com o território, sempre cobiçado e, algumas vezes, ameaçado por sua maior rival, a Espanha.

Uma forma comum de produção desses trabalhos científico-econômicos eram as memórias ou roteiros, de forte caráter utilitário, que abarcavam uma vasta gama de elementos naturais e culturais: “A descrição física incluía situação geográfica do clima, demarcação e limites do terreno [...] águas, mar, rios [...] a descrição econômica, englobava a história da população, a série dos governadores, as instituições, a agricultura, o comércio, as letras, as armas”.114 Talvez não seja demais lembrar que, no aspecto cultural, o que envolvia as tribos

113

RAMINELLI, R. Viagens Ultramarinas. São Paulo: Alameda, 2008, p. 101.

114

SILVA, Maria Beatriz Nizza da. A cultura luso-brasileira. Da reforma da Universidade à independência do Brasil. Lisboa, Editorial Estampa, 1999, p. 32.

indígenas ganhava destacada importância, não porque os europeus dessem valor aos costumes nativos, mas porque se buscava encontrar a melhor maneira de inseri-los na cultura hegemônica. Um dos motivos para isso era a falta de braços para o trabalho, fator sempre preocupante na colônia e até mesmo na metrópole. A população indígena interessava à política metropolitana apenas na integração ao processo produtivo, daí o extermínio de grandes parcelas desse contingente.

As academias científicas que atuavam também diretamente no processo econômico da metrópole deram grande contribuição na execução e difusão de ideias que pudessem contribuir, em diversos aspectos, com o desenvolvimento da pátria mãe, ainda que muitas vezes seus resultados ficassem restritos ao campo teórico. A Academia de Ciências de Lisboa foi constituída no fim de 1779,115 com o intuito também de subsidiar a exploração dos recursos naturais brasileiros, a fim de aumentar o potencial de aproveitamento das matérias- primas da colônia. O Marquês de Lavradio propôs a criação de uma academia de ciências no Rio de Janeiro, ainda em 1772. Para ele, uma instituição como essa teria como finalidade essencial o exame de tudo que pudesse ser aproveitável no que chamavam, na época, de reinos vegetal, animal e mineral.116

Os sócios das academias tinham entre as principais funções o dever de divulgar o máximo de informações possíveis sobre as regiões em que atuavam, tanto no Brasil, quanto em outras regiões da África ou da Índia. Na visão daqueles homens de ciência, o conhecimento era premissa básica para uma plena dominação. Uma das principais conquistas das Academias seria o desenvolvimento das artes e das ciências em seus aspectos mais práticos. Os sócios eram distribuídos entre os que se dedicavam, além das Belas Letras, às Ciências da Observação e ao Cálculo.117

Naquela época, surgiu um maior interesse em inventariar as riquezas, materiais e não materiais. Nas memórias dos viajantes, era comum haver diagnósticos de determinados problemas econômicos e a resolução para eles, acerca da agricultura, da pequena indústria e, entre outros, do comércio. Além disso, conforme já dito, havia o interesse pelos habitantes desses lugares, sua cultura e sua aptidão para as atividades econômicas do reino. Nesses documentos, foram descritos como se produziam roupas, armas, casas, cerâmicas e uma série de outros saberes. Em troca dos serviços, beneficiavam-se com o prestígio, pois assumiam

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CARDOSO, José Luís. O pensamento económico em Portugal nos finais do século XVIII, 1780-1808. Lisboa: Editorial Estampa, 1989, p. 27.

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SILVA, Maria Beatriz Nizza da. A cultura luso-brasileira... 1999, p. 27.

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cargos na magistratura ou em outros setores do Estado. O trabalho dos bacharéis levou a crer que a união racional entre império e colônia era possível, com base no aproveitamento dos recursos naturais.

Quando surgia algum grupo descontente entre os cientistas, o Governo se encarregava de encontrar uma solução pacífica e benéfica a todos. Uma saída lógica para conter um possível desagrado de parte dessa elite luso-brasileira foi arranjar cargos que lhes dessem prestígio e dinheiro. Se por um lado essas ações produziram seus efeitos positivos, por outro, trouxeram consequências negativas. Para Raminelli,118 na medida em que eram contemplados com tais vantagens, aqueles cientistas se tornavam cada vez mais burocratizados. Nesse caso, havia tendência ao abandono do ofício de naturalista, com esvaziamento das instituições que os projetavam, especialmente no início do século XIX. Nesse contexto, abriu- se espaço para outros agentes, entre os quais militares de baixa patente, que também esperavam adquirir prestígio e oferecer suas contribuições ao Estado, mesmo que com menor reconhecimentoda comunidade científica e administrativa. Francisco de Paula Ribeiro foi um desses beneficiados, que acabou por ganhar, ao longo da vida, algumas promoções por serviços prestados ao governo português, em especial na capitania do Maranhão.

Os militares, naquele momento, desempenharam papel importante, pois, formados em Coimbra, na maior parte das vezes, eram preparados para atuar em diversas áreas, especialmente nas que englobavam objetivos econômicos práticos e imediatos. “[...] Se Pombal criara os cursos de Matemática e de Filosofia na Universidade de Coimbra, fora, entre outros objetivos, para desenvolver as aptidões dos oficiais da Tropa de Linha, nomeadamente os engenheiros”.119 Com isso, não se quer afirmar que a evasão desses cientistas burocratizados foi completa, mas foi significativa. De alguma maneira, isso mostrava que o projeto científico de Coimbra, se não estava em decadência, perdia expressão.

Com a chegada da corte portuguesa ao Brasil, abriu-se um canal que facilitou novas explorações, tanto com interesses econômicos, quanto com outras finalidades, em benefício de Portugal ou de outras nações. Cientistas de várias nacionalidades e várias especialidades se interessaram pelo território brasileiro. Há uma classificação para os viajantes que aqui aportaram entre os anos 1808 e 1822, em cinco grupos, cada um representando funções e interesses distintos, de acordo com a natureza de cada categoria. O primeiro deles era constituído por naturalistas, representados por Saint-Hilaire, Spix e Martius; o segundo, o dos

118

RAMINELLI, R. Viagens Ultramarinas... 2008, p. 9.

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artistas, entre os quais Jean Debret; depois os militares, com exemplificação dos prussianos Leithold e Raugo; o quarto grupo seria o dos especialistas, geralmente contratados pelo Governo português para a realização de tarefas específicas; por fim os viajantes renomados, homens bem-sucedidos financeiramente e com prestígio social, entre os mais conhecidos estavam o inglês John Luccock e o português Henry Koster.120

Ilka Boaventura afirma que as viagens tinham objetivos específicos, de acordo com a formação dos viajantes e do teor da própria excursão. Portanto, quando estavam relacionadas a pesquisas científicas, elas tendiam a dar mais visibilidade a temas como a Geologia, Botânica, Mineralogia e, entre outros, História e Geografia. Se objetivavam o turismo, o comércio ou o lazer, os temas se ligavam a uma apresentação de imagem geral das regiões visitadas.121 Dessa maneira, se dava com outras áreas de interesse. Ainda de acordo com a autora, essas viagens atendiam a diferentes finalidades, entre as quais a exploração de recursos naturais, a conquista de mercados para produtos industriais e o aumento da riqueza e da soberania nacional.122

Pode-se ainda acrescentar a contribuição da professora Kátia Gerab Baggio, ao diferenciar os relatos de viagens. Nesse sentido, eles podem ter formatos diversos, desde relatórios e memórias a diários e poesias.123 Embora boa parte desses trabalhos fosse publicada, muitos outros não o eram e a pretensão da tarefa, muitas vezes, definia o formato. Uma questão fundamental nos relatos era seu grau de credibilidade, e para isso era necessário o maior número de informações possíveis, conforme observa a professora Baggio em seu artigo sobre viajantes sul americanos no século XX.124 Apesar das diferenças de contexto, a maioria desses viajantes se preocupava com a veracidade de seus relatos, ainda que nem sempre conseguissem o intento. Paula Ribeiro era um exemplo disso, pois escreveu memórias acrescidas de um mapa com o intuito de oferecer o maior número de informações possíveis sobre a capitania maranhense, conforme se verá mais adiante.

Os distintos grupos de viajantes, cada um à sua maneira, contribuíram para uma nova maneira de pensar a nação, sua economia, política, arte, cultura. Várias ações entraram em

120

BONATO, Tiago. O olhar, a descrição: a construção do sertão do nordeste brasileiro nos relatos de viagem do final do período colonial (1783 - 1822). Dissertação de mestrado, Centro de Documentação e Pesquisa de História dos Domínios Portugueses – CEDOPE. Universidade Federal do Paraná, 2010, p. 5.

121

LEITE, Ilka Boaventura. Antropologia da viagem: escravos e libertos em Minas Gerais no século XIX. Belo Horizonte: editora UFMG, 1996, p. 92.

122

LEITE, Ilka Boaventura. Antropologia da viagem... p. 67.

123

BAGGIO, Kátia Gerab. “As viagens, seus relatos e os intercâmbios intelectuais entre brasileiros e hispano- americanos”. In: FERNANDES, Luiz Estevam de Oliveira (org.). História da América: historiografia e interpretações. Ouro Preto: EDUFOP/PPGHIS, 2012, p. 242.

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pauta para se consolidar um projeto que pudesse oferecer uma nova configuração para a economia da metrópole e da colônia. Ainda que com limitações, Portugal conseguiu alcançar importantes resultados econômicos, e isso o diferenciou dos tempos mais sombrios de dependência econômica. Do ponto de vista prático, um dos elementos em jogo era a própria defesa do território e, para isso, o conhecimento sobre ele era premissa básica. Até então a maior parte do imenso território brasileiro era desconhecida e suas fronteiras fragilizadas, o que poderia favorecer a perda de terras a qualquer momento. Levaria muitos anos, após a chegada da família real, até que os confins do Brasil fossem explorados pelo governo. Raminelli125 oferece uma pista das intensões governamentais:

“Se antes de 1808, a tônica das memórias produzidas pelos luso-brasileiros era o comércio, os entraves produzidos pelos monopólios e a circulação de plantas, depois seus escritos pretendiam garantir a unidade do império”. Alternativas econômicas e geopolíticas tornaram-se fundamentais, pois no início do século XIX, especialmente após a vinda da família real para o Brasil e a extinção do pacto colonial, a jovem nação necessitava encontrar seus meios de sobrevivência.

O resultado das ações desses viajantes, especialmente os ligados àqueles problemas econômicos, visava a apresentar soluções imediatas ao Estado português. De acordo com Ilka Boaventura, D. João precisou de cientistas das diversas áreas, como Cartografia, Geologia, Etnografia, Zoologia, entre outras, que pudessem fornecer conhecimento prático sobre as terras coloniais.126 Se não alcançaram todos os resultados esperados, ao menos contribuíram de outros modos, com maneiras de pensar e resolver problemas estruturais, bem como com novos olhares sobre a cultura brasileira.

Há notícias de que o primeiro governante luso a pensar numa possível transferência do corpo administrativo para os trópicos tenha sido D. João IV, ainda em 1661,127 numa época em que o Império português se sentia ameaçado pelo tratado de paz entre França e Espanha. Fala-se que ainda por volta de 1735 a possibilidade de mudança da Corte para terras brasileiras havia sido fortemente cogitada, mas que de fato só ganharia consistência nos últimos anos do século XVIII.128 Seria uma das maneiras mais seguras de manter os domínios sobre a colônia brasileira, e assim assegurar a própria sobrevivência do império, dada a notória dependência lusa perante sua possessão. Em caso de concretização desse projeto ainda

125

RAMINELLI, R. Viagens Ultramarinas... 2008, p. 275.

126

LEITE, Ilka Boaventura. Antropologia da viagem... p. 50.

127

MAGNOLI, Demétrio. O Corpo da Pátria: Imaginação geográfica e política externa no Brasil. (1808- 912). São Paulo. Ed. UNESP. 1997, p. 81.

128

PEDREIRA, Jorge Miguel. “Economia e política na explicação da independência do Brasil.” in: MALERBA, Jurandir (org.). A independência brasileira: novas dimensões. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2006. p. 55-97, p. 77.

nas primeiras décadas do século XVIII, haveria nomeação de um vice-rei para governar a capital portuguesa.129

Por motivos de dependência ou receio de perder o território, um projeto de transferência da Corte sempre permeou a política portuguesa, e a guerra europeia, no início do século XIX, seria um elemento motivador a mais. Para alguns, a supremacia industrial inglesa ainda não tinha corpo suficiente para forçar o colapso do sistema colonial,130 e ainda levaria mais tempo até que o velho sistema fosse suprimido por novas relações socioeconômicas entre nações e no interior delas. De acordo com Maria Lyra: “Nesse sentido, a transferência da sede da metrópole portuguesa para o Brasil, em 1808, não se liga apenas à circunstância da guerra na Europa [...] tratava-se de uma ideia antiga, que já fora muitas vezes sugerida como meio de preservação da monarquia portuguesa”.131

Postas tais circunstâncias, o ato em si da mudança administrativa foi diretamente condicionado pela invasão francesa a Lisboa. Talvez sem o bloqueio continental e sem a guerra, a vinda nunca passasse de um desejo não consumado. Contudo, uma vez ocorrido, o governo luso tentaria colocar em prática ações que melhorassem a economia naquele momento de crise. Por outro lado, teve que lidar com circunstâncias não esperadas, acima da capacidade reativa do império.

A chegada da Corte no território brasileiro, por si só, trouxe mudanças imediatas nas relações geopolíticas, pois a duradoura neutralidade portuguesa foi quebrada ao desobedecer à imposição francesa de isolar a Inglaterra. Lisboa pagou um preço pela proteção inglesa, que incluía trazer, com segurança, escoltada pela marinha britânica, a família real até o Brasil. Ainda na Bahia, D. João elaborou uma carta régia, em janeiro de 1808, abrindo os portos brasileiros às chamadas nações amigas. No ano da chegada da comitiva, 90 navios aportaram no Rio de Janeiro, provindos de diferentes países. Esse número, um par de anos depois, aumentou para mais de 400. No início da segunda década do século XIX, já havia dezenas de estabelecimentos comerciais portugueses e ingleses, correspondendo a um alto volume de movimentações. 132

Menos de dez anos após a chegada da Corte, o Brasil foi elevado a Reino Unido de Portugal e Algarves. Isso por si só contribuiu para despertar na elite colonial um sentimento

129

MAXWELL, Kenneth R. Marques de Pombal: paradoxo do iluminismo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996, p. 16.

130

PEDREIRA, Jorge Miguel. “Economia e política....”. p. 55-97. p. 63.

131

LYRA, Maria de Lourdes Vianna. O império em construção... São Paulo: Atual, 2000, p. 10.

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de engrandecimento, capaz de produzir ações práticas em torno de um projeto próprio, que envolveu, entre outros fatos, o anseio por autonomia e liberdade política. De acordo com Kenneth Maxwell, “a questão importante a respeito do Brasil é, portanto, que ele se tornou econômica e politicamente independente entre 1808 e 1820, enquanto desempenhava o papel do centro do Império luso-brasileiro”. 133 Pode-se afirmar que se tratou de um processo relativamente rápido, também no que diz respeito ao crescimento e à força de grupos locais que conduziram o processo da futura separação entre metrópole e colônia.

O governo português empreendeu um significativo esforço para renovar o modelo de relações coloniais, pois vários alvarás visaram a dar fôlego à indústria e ao comércio. Para isso foi necessária uma mudança nas leis antigas.134 No período que vai até a independência, a economia colonial caminhava para uma economia de exportação em proporções muito maiores que antes, com isso nascia um novo sistema. Novas pautas, com o Brasil no centro, ganhavam força, de maneira que culminariam, com o futuro desligamento institucional de Portugal, na independência. Um dos fatores mais importantes da construção de uma “mentalidade” brasileira foi a própria situação econômica de então.

Para os estudiosos que valorizam os aspectos internos da independência, é crível, de acordo com as observações de Miguel Pedreira,135 que há muito tempo era evidente a capacidade econômica brasileira, denotando que já havia condições suficientes para uma autogestão. Assim como as colônias britânicas da América do Norte, teria o Brasil todas as condições de ser uma nação independente e integrada ao sistema de relações comerciais internacionais. Com isso, pode-se chegar à conclusão de que as aspirações políticas de independência por si só não sobreviveriam sem uma substância na realidade econômica, vez que, por gerações, o Brasil sustentou as finanças da metrópole.

Tais ideias só ganharam força num cenário de evidente decadência metropolitana, e muito do que acontecia naquele momento político e econômico não era estranho aos portugueses. Nova era a crescente mudança estrutural no sistema econômico internacional, no tempo em que a metrópole se instalou na colônia. Os problemas econômicos, naquele momento, despertaram sentimentos singulares e a necessidade de uma saída. Na prática, pensava-se em novos formatos de gestão, sem a interferência Portuguesa. Gradativamente

133

MAXWELL, Kenneth R. “Porque o Brasil foi diferente? O contexto da independência”. In: Viagem

incompleta. A experiência brasileira (1500-2000). Formação: histórias. Carlos Guilherme Mota. 2 ed. São Paulo:

SENAC e SESC, 2000, p. 179-95, p. 187.

134

MARQUES, A. H. de OLIVEIRA (dir.). Nova História da Expansão Portuguesa, vol. VIII, Lisboa: Estampa, 1986, p. 138.

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surgia o anseio por novas relações econômicas, com prevalência da liberdade comercial e o fim dos monopólios coloniais. Aqui, as ideias ilustradas chegaram com maior intensidade após a chegada da Corte e adquiriram esse caráter de liberdade econômica, tal como assegura Emília Viotti, ao afirmar que “no Brasil, Ilustração foi antes de mais nada, anticolonialismo. Criticar a realeza, o poder absoluto dos reis, significava lutar pela emancipação dos laços coloniais”. 136

Apesar de as novas ideias ganharem força no Brasil, o projeto de uma nação moderna, industrializada e livre teve que ser confrontado com o mundo real. O longo processo econômico entre metrópole e colônia sempre contribuiu decisivamente para inibir qualquer outro tipo de atividade que não a mera exploração dos recursos naturais, ou um comércio de produtos com pouca elaboração industrial. Mesmo quando o governo revogou decretos que proibiram a industrialização, eles não surtiram muitos efeitos práticos, pois as próprias condições político-econômicas do momento não o permitiram.137

Ao que parece, foi mais difícil para os brasileiros que para os portugueses entender esse caráter agrícola de suas terras, especialmente porque uma nação moderna, ilustrada, seria aquela que seguisse a trilha da industrialização nos moldes inglês ou francês. Nesse contexto de conflitos entre querer e ser, as memórias econômicas foram vitais, tanto para um projeto metropolitano, de constituição de um grande império, quanto para um projeto de futura independência. O conhecimento do território era vital para os dois lados. As memórias dos