4. Đslâm Hukuk Usûlünde Emir ve Nehiy
1.2. Nehiy Hakkında Genel Bilgiler
2.1.1. Usûl-u Fıkha Göre Zıt Kavramı
De fato, é preciso reconhecer que as sociedades atuais não apenas criam riscos como também os transformam em mercadorias e vendem maneiras diversas do indivíduo supostamente proteger-se deles. Os riscos, ou a percepção que se tem deles, estão diretamente ligados a avaliações sobre as incertezas do futuro.
A difusão e a comercialização dos riscos não rompem completamente com a lógica do desenvolvimento capitalista, mas, em vez disso, colocam este último em um novo estágio. (...) Os riscos da modernização, do ponto de vista dos vencedores, são big business. Alguém poderia dizer, acompanhando Luhmann, que com o advento dos riscos, a economia se torna autoreferenciada independentemente da satisfação das necessidades humanas ao seu redor (Beck, 1992:23).
Toda a discussão sobre o mercado de compra e venda dos mais diversos tipos de Seguros e sobre a atuação das Agências de classificação de risco20 vai nesta direção de um negócio autoreferenciado. Uma das mais claras expressões da mercantilização dos riscos é o processo de individualização e mercantilização do risco que representa a velhice nas nossas sociedades capitalistas atuais. Especialmente em contextos de crise econômica, em que se intensificam os ataques aos direitos trabalhistas e sociais, fica claro que pouco se pode contar com sistemas públicos de aposentadoria e que a vida futura radicaliza-se cada vez mais como uma responsabilidade individual pertinente agora à esfera do mercado.
Em sociedades nas quais a formalização do mercado de trabalho é cada vez menor e a insegurança social cada vez maior devido ao desmanche neoliberal dos
20
As três principais agências de classificação de risco são a Moody’s, a Standard& Poor’s e a Fitch. A classificação de risco se refere ao mecanismo de classificação da qualidade de crédito de uma empresa, país, um título ou uma operação. Para realizar uma classificação de risco as agências recorrem tanto a técnicas quantitativas, como análise de balanço, fluxo de caixa, projeções estatísticas, quanto a análises de elementos qualitativos, como ambiente externo, questões jurídicas e percepções sobre o emissor (cf. UOL Economia, 2008).
sistemas de bem-estar social construídos ao longo do séc. XX (cf. Oliveira-Rizek, 2007), o sentido coletivo que tornava cúmplices diferentes gerações de uma mesma sociedade nos sistemas de repartição pública dos benefícios, agora é substituído pela lógica dos planos de capitalização individual e privada e dos fundos de pensão.
Se for razoável afirmar que o risco vem se tornando um conceito cultural e amplamente associado às políticas de gestão social, gestão dos riscos, a questão da previdência poderia ser compreendida no seu desenvolvimento histórico como um dos dispositivos de regulação da população pelo Estado, tanto mais presente quanto mais o Estado se incumbir da administração e do controle das incertezas e dos riscos do futuro.
Ocorre, porém, que esta seria uma interpretação plausível apenas para o período de construção das diversas tentativas do Estado de Bem-Estar Social ou Socialista, mas não para o contexto neoliberal que se iniciou na década de 1970, em que o Estado foi drasticamente reduzido nas suas atribuições sociais. Ao examinarmos o processo histórico que nos conduziu aos dias atuais de hegemonia neoliberal, o que se verifica é que, sobretudo a partir das décadas de 1960-70, há uma retirada do Estado do seu papel histórico de afiançador de direitos sociais. Como descreve precisamente Telles,
Se bem é certo que os modelos conhecidos de proteção social vêm sendo postos em xeque pelas atuais mudanças no mundo do trabalho e que conquistas sociais vêm sendo demolidas pela onda neoliberal no mundo inteiro, também é verdade que esse questionamento e essa desmontagem reabrem as tensões, antinomias e contradições que estiveram na origem dessa história. E fazem ver as difíceis (e frágeis) relações entre o mundo social e o universo público da cidadania, na disjunção, sempre reaberta, entre a ordem legal que promete a igualdade e a reposição das desigualdades e exclusões na trama das relações sociais; entre a exigência ética da justiça e os imperativos de eficácia da economia; entre universos culturais e valorativos de coletividades diversas e a lógica devastadora do mercado (2007:3).
O que o contexto histórico dos últimos quarenta anos do século XX nos revela é a redução drástica daquela formação que Hannah Arendt já havia identificado como a
esfera do social21, e sua paulatina substituição por uma organização social segundo a lógica do que aqui propomos chamar de uma oîkonomia individual. O social caracteriza-se por expandir até a escala nacional a lógica do oîkos, isto é, da esfera privada do lar, sendo marcado por uma gestão governamental das desigualdades sociais e por um tratamento técnico das mesmas pela esfera política.
A oîkonomia individual que a modernidade avançada impulsionou absorve diversas das questões de sobrevivência e reprodução material que antes eram relegadas ao plano do social, lançando-as sobre os indivíduos, mais do que sobre a esfera pública. Uma privatização, em sentido arendtiano, o de privação da esfera pública e da alteridade, que joga os indivíduos aos seus espaços privados, à solidão e à insegurança, contribuindo para a difusão de uma sociabilidade marcada por um individualismo feroz (Oliveira, 2006:276).
A emergência desta oîkonomia individual tem consequências sobre diversos dos esquemas de direitos sociais imperfeitamente construídos até a modernidade, dentre os quais um dos mais afetados é aquele representado pelo pacto inter-geracional com relação à velhice. O rompimento deste “pacto” pela repartição das contribuições previdenciárias terá como consequência a expansão imediata de um mercado individualizado de previdência complementar, privada, no qual cada um responde por si só e a prevenção dos riscos futuros é convertida em uma mercadoria financeira como qualquer outra.
21
O efeito dessa individualização da economia e financeirização da velhice (da poupança dos aposentados, bem entendido), vai muito além de uma simples injeção de capital nos mercados que será apropriado por instituições privadas que oferecem produtos financeiros aos seus novos clientes. A principal consequência deste processo
será a inédita criação de um paradoxal vínculo entre trabalhadores,
aposentados/pensionistas e especuladores. Pois como assinala Lordon (2008:1-5),
A perversidade está no fato de que, de um lado, todos os acidentes do mercado financeiro estão fadados a recair sobre eles [os aposentados ou detentores de planos de previdência privada], já que eles pagarão pelas perdas de crescimento [de seus rendimentos]; e, de outro, no que vem a ser o desfecho supremo, passa a ser proibido mexer em qualquer coisa que seja das estruturas financeiras, pelo motivo (razoável, eis o pior!) de que isso equivaleria a atentar contra as suas aposentadorias. Afinal, dentro desta armadilha perfeita, o fato de investir contra a rentabilidade financeira não equivale a investir contra a renda dos idosos?
Temos assim um contexto em que a retração do Estado das áreas sociais e a individualização da economia coincidem justamente com a periodização estabelecida por diversos autores sobre o fim de um longo ciclo no capitalismo com o abandono do padrão ouro (Chesnais, Duménil, Lévy, Paulani, Harvey, Graeber, et. al.). Este descolamento em relação ao equivalente geral ouro impulsionou uma economia monetária baseada no crédito e que começava rapidamente a se expandir em todo o mundo naquele momento22.
As políticas empregadas nos anos 1970 encerraram um longo ciclo de monetarização que havia sido iniciado no século XV com as grandes navegações e no
qual prevaleceu uma organização social em torno do dinheiro “real”, isto é, atrelado a
uma mercadoria equivalente-geral, o ouro.
22
Note-se que a invenção dos cartões de débito American Express é recentíssima, data dos anos 1960, e a difusão de cartões de crédito VISA e Mastercard se inicia apenas na década de 1970.
Para Paulani-Muller (2010:813-814), pode-se identificar este período como o início de uma fase de amadurecimento pleno do capital, uma “modernidade do
capital”. Estaríamos vivendo um momento histórico em que o capital conseguiu
abandonar plenamente os últimos resquícios de sua aderência ao plano natural, sob o simbolismo do ouro, para tornar-se puro signo:
Ao ser o ouro – um símbolo – substituído por um mero signo também no plano mundial, o capital autonomiza-se de maneira total e completa. (...) É exatamente o fetichismo da mercadoria a base de tal autonomização plena. Como mostra Marx, a posição do dinheiro como mercadoria, vale dizer, sua posição como capital portador de juros, é a última figura do fetiche, exatamente na medida em que ele toma para si, corporifica em si mesmo, o movimento de autovalorização
[independente de qualquer lastro “real”].
Os avanços nas tecnologias da informação e nos modelos da matemática financeira radicalizaram esta experiência, impulsionando uma nova corrida à
“diferenciação concorrente de mercadorias” já assinalada por Simmel cerca de setenta
anos antes. Só que no contexto contemporâneo, as mercadorias concorrentes em questão são mercadorias financeiras que Simmel não conheceu, mas o processo é o mesmo, sob variações de uma mesma forma: o dinheiro na sua função pura de capital fictício (Frisby, 1990:182). A descrição contemporânea deste fenômeno realizada por David Harvey é precisa:
Uma onda de inovações ocorreu nos serviços financeiros para produzir não apenas interligações globais bem mais sofisticadas como também novos tipos de mercados financeiros baseados na securitização, nos derivativos e em todo tipo de negociação de futuros (2008:41).
Assim, grande parte das negociações financeiras envolvem expectativas sobre o futuro e acordos sobre dinheiro que podem se realizar ou não dependendo do que venha a ocorrer em determinada data. Especula-se sobre o preço do dólar; sobre o preço dos
alimentos, do petróleo e de outras commodities; como também sobre a vida econômica futura das pessoas, donde a atual explosão do mercado de seguros e previdência privada.
À medida que o Estado da época neoliberal abdica da gestão das questões sociais em geral e do sistema previdenciário em particular, este vai deixando de ser uma dos dispositivos da biopolítica e da governamentalidade neoliberal (ao modo foucaultiano), para se tornar um dos pilares desta nova individualização contemporânea, a qual envolve cada vez mais a gestão individual do futuro e os serviços privados de proteção contra riscos como mercadorias quaisquer.
Neste sentido, a previdência privada e o desenvolvimento do mercado dos mais variados tipos de seguros são aqui entendidos como formas da individualização da gestão do risco e da incerteza sobre o futuro. São instituições que representam um processo reflexivo de transferência do risco por meio da sua individualização, tipicamente realizado ao modo “blame the victim”23, isto é, o fracasso será de inteira responsabilidade individual. Como precisamente descreve Harvey (2008:86;181),
[Durante as décadas de 1980 e 1990] o ataque geral à força de trabalho opera em duas frentes. O poder dos sindicatos e de outras instituições da classe trabalhadora é restringido ou desmantelado no interior de um Estado particular (se necessário por meio da violência). Estabelecem-se mercados de trabalho flexíveis. (...) A estabilidade no emprego torna-se coisa do passado. Um
“sistema de responsabilidade pessoal” substitui as proteções sociais (pensões, assistência à
saúde, proteções contra acidentes) que foram antes responsabilidade dos empregadores e do Estado. Os indivíduos compram produtos nos mercados, que passam a ser os novos fornecedores de proteções sociais. A segurança individual se torna assim uma questão de escolha individual vinculada à capacidade de pagamento por produtos financeiros inseridos em mercados financeiros arriscados. (...) Em geral se atribuem os fracassos pessoais a falhas individuais, e com demasiada frequência a vítima é quem leva a culpa!
23
A respeito desta discussão, ver principalmente: Ryan, William (1976). Blaming the Victim. Vintage, USA, 1976. Para uma relação com o Brasil, ver: Kowaric, Lúcio (2003). Sobre a vulnerabilidade socioeconômica e civil: Estados Unidos, França e Brasil. RBCS vol.18, n.51, fevereiro 2003.
Os indivíduos então são levados a recorrer (e pagar) a especialistas técnicos destas áreas específicas da economia e da estatística para efetuar escolhas sobre este ou aquele aspecto decisivo da vida financeira. Os leigos acatam então a recomendação do técnico com a autoridade que lhe é devida, mesmo sabendo que a securitização do futuro está sempre sujeita a uma margem de imponderável e de subjetividade que escapa a qualquer cálculo objetivo de risco. Em grande medida foi a crença exagerada na precisão deste tipo de técnica que gerou a crise que levou uma grande parte das pessoas endividadas a perderem suas casas em 2008-2009 nos EUA.
Para poder vender estes títulos [subprime] ao público sem deságio, as instituições [e bancos] os empacotaram com outros títulos de risco considerado menor, numa manobra conhecida como de diluição de riscos. (...) Quando o ciclo imobiliário entrou em baixa, o preço das residências e o aluguel das mesmas sofreram forte queda, tornando desproporcionalmente onerosa a dívida assumida por milhões de famílias pobres. Em outras palavras, o prejuízo causado pelo estouro da bolha foi colocado sobre os ombros de quem menos podia suportá-lo (Singer, 2008:2).