4. Đslâm Hukuk Usûlünde Emir ve Nehiy
1.1.5. Emrin Tekrara ve Devama Delâleti
Letícia Fonseca Richtofen de Freitas e Rosa Maria Hessel Silveira, em artigo publicado em 2004 – “A figura do gaúcho e a identidade cultural latino-americana”, analisam a constituição da “autêntica identidade gaúcha” na educação e formação de crianças e estudantes. Seu corpus de análise são algumas reportagens dos periódicos Zero Hora e
Correio do Povo, publicadas em setembro de 2003, mês da Revolução Farroupilha. Entre os
méritos do artigo, também está a compreensão das esferas de ressemantização em curso:
No caso da constituição dessa identidade gaúcha privilegiada, várias instâncias, múltiplas e diferenciadas em suas ações e concepções, atuam, como a própria escola (frequentemente – no caso das escolas metropolitanas – inserindo-a numa espécie de “currículo turístico”), a mídia (TV, jornais) e os Centros de Tradições Gaúchas (...)100
As duas pesquisadoras observam que a mídia impressa se envolve em um processo de legitimação do reforço das tradições estabelecidas sobre o gaúcho, visando à formação e integração dos jovens no discurso do gauchismo tradicionalista a partir da escola e da família. A cobertura jornalística do período escolhido exalta a participação de crianças no Acampamento Farroupilha101, o envolvimento de escolas em desfiles tradicionalistas do 20 de
99 FLORES, Moacyr. Historiografia: estudos. Porto Alegre: Nova Dimensão, 1989. p. 72-73
100 FREITAS, Letícia Fonseca Richthofen de. SILVEIRA, Rosa Maria Hessel. A figura do gaúcho e a identidade
cultural latino-americana. In: Educação. Porto Alegre - RS, ano XXVII, n. 2 (53), p. 266
101 OLIVEN, Ruben George. A parte e o todo: a diversidade cultural no Brasil-nação. Petrópolis: Vozes, 2006.
p. 153. Evento anual, realizado no Parque Maurício Sirotsky desde 1987, em Porto Alegre. Milhares de pessoas, oriundas de diversas partes do Estado, passam duas semanas ou mais acampadas no parque, “vivendo” as tradições gaúchas, fazendo churrascos em fogo de chão, rodas de chimarrão, torneios com
setembro, em narrativas como a do menino de dois anos de idade que queria dormir no Galpão do Acampamento, com o incentivo e aprovação do pai, tradicionalista. Como as autoras observam a certa altura, os pais concordam que “as crianças deveriam aprender, desde cedo, a como 'ser' gaúcho ou gaúcha, participando de desfiles, se 'pilchando' (...), aprendendo a dançar, participando de invernadas, enfim, 'adquirindo o gosto e o espírito do gauchismo'”102 – perfeitamente alinhados com as diretrizes do Movimento Tradicionalista Gaúcho para a educação e formação das crianças no tradicionalismo.
Conforme nos informa o Correio do Povo103, em escolas públicas de um município do
interior do Rio Grande do Sul, crianças do Ensino Fundamental começam a aprender como laçar gado. O prefeito da cidade, incentivador desse acréscimo pedagógico, deseja resgatar as tradições gaúchas com a iniciativa. Foram montadas, em madeira, “vacas paradas”, a serem instaladas nas escolas do município. A introdução das crianças no métier do laço, durante os recreios e aulas de Educação Física, permite a participação em torneio de laço a ser realizado durante a Semana Farroupilha. Em outra nota, logo abaixo da reportagem, somos informados que o prefeito tem a intenção de aperfeiçoar a “formação dos futuros tradicionalistas de Jacuizinho”, encaminhando-os aos CTG's locais para “orientações sobre provas campeiras”. Por fim, a nota esclarece que há cinco CTG's na cidade. Apoiados pela prefeitura, esses CTG's participam de rodeios e rateiam os lucros obtidos entre si.
Outras escolas, em Porto Alegre, promovem nos anos 1980 e 1990 festas juninas de temática gaúcha, ao invés da caipira, treinando crianças das séries iniciais do Ensino Fundamental para apresentações de danças folclóricas, onde as meninas se vestem de prendas e os meninos, pilchados, para apresentarem canções nativistas, como Céu, sol, sul, terra e
cor104. Entre as escolas particulares mais tradicionais de Porto Alegre, apenas uma ainda mantém em 2007 uma festa junina com temática tradicionalista gaúcha, enquanto as demais praticam a festa junina caipira ou não praticam.105
cavalos. Os acampados geralmente pertencem a piquetes autônomos ou representações de CTG's, mas inúmeras famílias também gozam suas férias no Acampamento. O Acampamento acontece durante a Semana Farroupilha, que acontece de 14 a 20 de setembro.
102 FREITAS, Letícia Fonseca Richthofen de. SILVEIRA, Rosa Maria Hessel. op. cit. p. 273
103 Escolas terão aulas de tiro de laço. Correio do Povo, Porto Alegre, p. 14, 8 de julho de 2007. Ver anexo E 104 O próprio autor, em fins da década de 1980 e início de 1990, testemunhou essa experiência no Colégio
Sévigné, sem contudo tomar parte nas apresentações tradicionalistas. Em 2007, na mesma escola e por ocasião da festa junina, foi realizado um casamento caipira, também testemunhado pelo autor. Sinal dos tempos: trocamos a tradição inventada dos gaúchos, para retornarmos à tradição inventada dos paulistas.
105 As escolas pesquisadas foram Colégio Anchieta, Colégio Marista Rosário, Colégio Sévigné, Colégio La Salle
Ficamos em dúvida se tradições ensinadas nas escolas podem realmente ser chamadas de “tradições”. Rosa Maria Hessel Silveira acredita que a identidade gaúcha nas escolas, principalmente urbanas, constitui um festejo centrado em “cenografia, rito, encenação e teatro”106. Uma folclorização estereotipada, a radicalização de um simulacro de tradicionalismo, muito mais vazio do que este, é o que se ensina nas escolas do Estado, conclui a autora.
Sob o título “De modelo a toda Terra”, reportagem de Zero Hora107 celebra os 80 anos
do maior expoente vivo do Tradicionalismo gaúcho, João Carlos D'Ávila Paixão Côrtes. A reportagem é dividida em três segmentos. O primeiro segmento apresenta o folclorista em inúmeras fotos de décadas anteriores, com alguns diálogos selecionados pelo jornalista Renato Mendonça e um histórico sobre a estátua O Laçador, inspirada em Paixão Côrtes, transferida alguns meses antes para um novo local em Porto Alegre. As fotos são da condução da primeira Chama Crioula em 1948; de Paixão Côrtes em um programa de televisão na França; de Paixão no Rio de Janeiro, recebendo um prêmio musical acompanhado por Pixinguinha; em um convento ensinando danças e folclores para freiras; entre duas índias nas Missões Paraguaias; e uma foto colorida, em meia-página, da estátua do Laçador. O segundo segmento descreve o retorno do folclorista à “Festa do Divino Espírito Santo” na localidade de Mostardas, registrada por ele quarenta anos antes, entremeando o relato do jornalista com as observações do folclorista. O último segmento, na contracapa do caderno Cultura, é composto por quatro causos recordados por Paixão Côrtes, integralmente escritos pelo folclorista, acompanhados de um cartum em meia-página, retratando Paixão Côrtes em um cenário rural, com gado ao fundo e tomando chimarrão, braço esquerdo erguido. A reportagem adota um tom gentil, reverencia Paixão Côrtes. A apresentação na capa do caderno Cultura informa que
Paixão Côrtes comemora 80 anos na próxima quinta-feira. O folclorista gaúcho, célebre por ter servido de modelo para O Laçador, imagem que saúda todos aqueles que chegam a Porto Alegre, tornou-se ele próprio uma figura meio mítica. Depois de anos de aventuras pelo interior do Rio Grande, ao lado de Barbosa Lessa, recolhendo e fixando danças típicas, trajes campeiros e causos diversos, Paixão é reverenciado como
Colégio Bom Conselho realiza uma quermesse. As demais seguem a linha caipira. Dados referentes ao ano de 2007. Ver anexo F.
106 SILVEIRA, Rosa Maria Hessel. Ser gaúcho/a, escola e Vinte de Setembro. In: Seminário Internacional de
Reestruturação Curricular. Porto Alegre: Ed. da Universidade, 2000. p. 283
expressão sincera da cultura tradicionalista.108
O principal destaque da matéria são os pensamentos expressados pelo folclorista. Apresentado como “expressão sincera da cultura tradicionalista”, encontramos em Paixão Côrtes diálogos muito mais sóbrios que os textos jornalísticos:
Os tradicionalistas de hoje se preocupam em regular a vivência na tradição, tem uma ação normativa, às vezes, inclusive, sem fundamento. Isso é importante, mas falta a preocupação em progredir, avançar a pesquisa. Claro que é indispensável combater modismos, mas não adianta se contentar em definir o que pode e o que não pode, mas encontrar as razões disso.109
[Ao chegar para a cerimônia de reinauguração da estátua O Laçador, antes da recolocação da estátua no novo local] Os trabalhadores na obra me reconheceram e me cercaram. Diziam “O Laçador está aqui” e me abraçavam, choravam compulsivamente, se ajoelhavam. Senti uma coisa esquisita, parecia que eu era um santo.110
Nossas tradições não são só laçar e ginetear. Isso [a Festa do Divino Espírito Santo, em Mostardas] também é nossa tradição. Felizes de quem têm uma tradição como a dos senhores da região açoriana.111
É interessante constatarmos a reação de um dos principais folcloristas do Rio Grande do Sul, que empresta sua fisionomia na juventude como o modelo imortalizado do gaúcho na figura de O Laçador, considerado pela reportagem até mesmo “uma figura meio mítica”, diante do comportamento algo histérico dos trabalhadores da obra de mudança da estátua. Ele sabe que não é um mito, “sou da cidade e do campo. Sou artista e também pesquisador. Não sou só registrador, eu também interpreto”112. As pessoas, porém, o reconhecem apenas pelo mito ao redor da sua figura. Um dos destaques da matéria, nas páginas internas, afirma ser Paixão Côrtes consagrado como “símbolo identitário: personagem-síntese do tradicionalismo gaúcho”. Não há exagero na afirmação. Para as pessoas, Paixão Côrtes é a encarnação viva do gaúcho, ele é o gaúcho.
O seu pensamento a respeito do Tradicionalismo e da tradição coloca em perspectiva muitas das críticas que lhes são dirigidas. Embora ainda esteja carregado da noção policialesca, vigilante, “claro que é indispensável combater modismos”, Paixão Côrtes acrescenta e critica, “não adianta se contentar em definir o que pode e o que não pode, mas
108 MENDONÇA, Renato. Caderno Cultura. Zero Hora, Porto Alegre, p. 4-8, 7 de julho de 2007. p. 1. 109 Ibidem, p. 4.
110 Ibidem, p. 5. 111 Ibidem, p. 7. 112 Ibidem, p. 8.
encontrar as razões disso”. Ele reconhece que esse é um problema principal no Tradicionalismo. Quando afirma que “nossas tradições não são só laçar e ginetear”, Paixão Cortês está se posicionando, ironicamente, contra uma hegemonia do gaúcho da Campanha que ele próprio ajudou a estabelecer (se voluntariamente, ou não, é tema aberto a pesquisa). Sua reflexão, levemos em conta, acompanha um período no qual a cultura rio-grandense abre espaço significativo para a manifestação de outros tipos, o italiano, o alemão, o negro, o brasileiro, seja no cinema, na pesquisa histórica, na cultura popular113. Considerando a si próprio como pesquisador, antes de intérprete, ele demonstra coerência ao reconhecer a multiplicidade das tradições que existem no Rio Grande do Sul, além daquelas típicas do gaúcho da Campanha.
Apesar do tom de ressentimento, velado, percebido e bem captado pelo jornalista que conduziu a matéria, em relação ao Tradicionalismo, e apesar do estranhamento em ser reconhecido como “mito”, Paixão Côrtes permanece interpretando seu papel de “personagem- síntese”. Conta causos, faz comentários bem-humorados, enaltece os resultados alcançados pelas suas iniciativas desde 1947, “Me preocupo com o que ainda não fiz, e não com o que fiz”, está diante de nós o homem que enfrentou o preconceito dos porto-alegrenses ao verem- no pilchado e montado na década de 1940 e chegou onde chegou. Por mais que ele se esforce em relativizar ou suavizar a proeminência do gaúcho da Campanha, lembrando e mesmo exaltando as diversidades folclóricas do Rio Grande do Sul, sua voz é a única nota levemente dissonante em uma matéria que só reforça os imaginários decorrentes do Tradicionalismo.
Também em Zero Hora, outra reportagem, “Um legado que sobrevive”114, nos apresenta a sobrevivência da tradição campeira da castração de terneiros a ponta de faca, em uma fazenda do norte do Estado. Acompanhando a reportagem, uma foto maior das sombras de dois gaúchos, um deles montado, no momento em que tentam laçar uma cabeça de gado; uma foto menor do momento em que o animal é imobilizado pelos “peões”; um quadro titulado Saiba mais, com detalhes técnicos sobre a castração; uma nota intitulada Tradição
não aprovada, com o ponto de vista (contrário à tradição) da Secretaria Estadual de
Agricultura; um quadro destacando a voz do pecuarista dono da fazenda onde é realizada a reportagem; e, por fim, um quadro intitulado Para o seu filho ler, casualmente muito
113 Alguns exemplos: os filmes O Quatrilho, Saneamento Básico, os “curtas gaúchos” patrocinados pela RBS,
sobre colonizadores europeus de diversas etnias, as pesquisas históricas intensas sobre a escravidão e o papel do negro no Estado, o espaço aumentado do Carnaval em Porto Alegre, etc.
informativo de como a tradição é vista hoje:
Pode parecer estranho, mas no interior do Estado era costume fazer uma festa para tirar os testículos dos terneiros.
Os homens do campo, acostumados a tratar com os animais, fazem isso para que os bichos engordem mais depressa, pois ficam mais dóceis e correm menos pelo campo afora. Assim, produzem mais carne para ser vendida nos açougues.
A tradição de fazer essa festa é mantida em algumas fazendas, embora em muitas outras a retirada seja feita por pessoas como veterinários, que estudaram em universidades para fazer isso.
Hoje em dia, os donos ou funcionários de fazendas fazem a festa só de vez em quando como uma forma de relembrar os costumes dos pais e avós. Se para os moradores da cidade isso parece estranho ou absurdo, para eles se trata de algo normal, que faz parte da cultura do Rio Grande do Sul.115
Conforme os filhos dos leitores de Zero Hora foram informados, a tradição cuida de preservar um evento que desaparece, enfatizando que se isso parece “estranho ou absurdo” na cidade, para quem mora no campo é algo “normal”. É preciso levar em conta o contexto dos habitantes das cidades. Neste início de século XXI, são pautas quase diárias da imprensa os problemas ambientais e suas conseqüências, o aquecimento global, a preservação da natureza116. Os rio-grandenses são especialmente sensíveis aos direitos dos animais. A tradição passa por esse filtro, quando a reportagem destaca em quadro a frase do pecuarista dono da fazenda: “Cuidamos para que os bichos sofram o menos possível. É tudo uma grande festa. Uma legítima festa gaúcha”. O gaúcho contemporâneo castra à faca, mas o clima de
opinião vigente faz com que ele se mostre preocupado com o sofrimento dos bichinhos. A
reportagem também descreve a integração da “lida campeira” com a modernidade quando foca os peões se deslocando em “caminhonetes possantes”, ao invés de cavalos, para alcançarem o local da castração, com a ressalva imediata: “Não dispensam, porém, o figurino gaudério. São seis ao todo. Cada um com seu laço devidamente a postos (...)”. A reportagem ainda nos contempla com o paradeiro das mulheres nessa festa, “enquanto a lida segue no campo, na sede da fazenda as mulheres preparam o almoço (...)”, indicativo de um papel subalterno/submisso117 que chega a ser caricato, mas muito coerente com um Tradicionalismo
115 Um legado que sobrevive. Zero Hora, Porto Alegre, p. 29, 15 de julho de 2007.
116 Algumas páginas distante da matéria sobre castração, podemos ler a seguinte reportagem: Aquecimento
global – o clima endoidou? Zero Hora, Porto Alegre, p. 34, 15 de julho de 2007. Ver anexo I.
117 Sendo o gaúcho um tipo essencialmente masculino, as mulheres possuem poucas alternativas – a submissão
ao papel secundário, ou a apropriação do símbolo masculino como meio de ascensão social simbólica. Oliven observa a respeito das mulheres que, quando elas optam por se vestir “à gaúcha”, muitas preferem vestir peças da indumentária associada aos homens – como o chiripá, que ele cita, Ieda Maria Vargas usou para desfilar no exterior quando se tornou Miss Universo, em 1963. Ele relembra que os imigrantes italianos e alemães seguem o mesmo caminho ao chegarem ao Estado: procuram incorporar os símbolos gaúchos que
onde a mulher permanece peça figurativa, excluída da participação ativa na tradição.
A imprensa, oferecendo suporte permanente para a ressemantização do gaúcho baseada nos valores do Tradicionalismo, como vimos até aqui, dificilmente abre espaço para visões divergentes, cuja freqüência e difusão, consequentemente, são muito menores. Num desses raros momentos fora do tom, Juremir Machado da Silva, em coluna no jornal Correio
do Povo em 27 de julho de 2007, comenta a demissão do ministro da Defesa, Waldir Pires,
uma das principais conseqüências políticas do desastre aéreo do vôo Porto Alegre – São Paulo da companhia aérea TAM, ocorrido dez dias antes. Ao qualificar o novo ministro, Juremir afirma o seguinte:
Felizmente, uma solução técnica foi adotada. Nelson Jobim, advogado de formação e ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, foi escolhido para substituir Waldir Pires. Jobim tem duas extraordinárias qualificações para a função: é gaúcho e já viajou muito de avião. Conhece o aeroporto de Congonhas como poucos. Tem tudo para dar certo na Defesa. O que está faltando mesmo é um ministro do Ataque. Só duas funções exigem ainda menos prática e habilidade que o Ministério da Defesa: a direção da ANAC [Agência Nacional de Aviação Civil] – em mãos, no momento, de outro profissional qualificado pela sua condição técnica de gaúcho - e a Presidência da República.118
A superioridade dos rio-grandenses, uma espécie de a priori tácito do senso-comum dos habitantes do Rio Grande do Sul, é alvo da ironia e do sarcasmo do colunista, uma das raras vozes dissonantes do discurso tradicionalista no Rio Grande do Sul. Verificamos a partir da sua ironia um sentido muito disseminado do que significa ser gaúcho nos tempos atuais, para o senso-comum: ser naturalmente dotado de todas as aptidões morais, competências técnicas e profissionais para o desempenho, com garbo e desembaraço, de qualquer função, mesmo sem as aptidões realmente necessárias e desejáveis para certos cargos.
O comum em matéria de crônica jornalística é o reforço do gaúcho como indivíduo superior, nobre e valoroso. Um cronista do Segundo Caderno do jornal Zero Hora, escrevendo sobre o título “O mito do gaúcho”, compara romanos a gaúchos, a respeito da mitificação que ambos os povos fizeram/fazem do seu passado. A crônica é reveladora do senso-comum que impera sobre o gaúcho:
eram reconhecidos como socialmente superiores, na sociedade do Rio Grande do Sul. Para mais detalhes consultar OLIVEN, Ruben George, op. cit. p. 173-174
118 SILVA, Juremir Machado da. Homenagem ao ministro. Correio do Povo, Porto Alegre, p. 4, 27 de julho de
Quando vejo essas discussões inflamadas sobre a autenticidade do gaúcho e a sua idealização, não posso deixar de pensar no que aconteceu a Enéias, depois da queda de Tróia (...)
Ora, apesar dos gregos terem vencido a guerra, os leitores de todas as épocas sempre se identificaram mais com os troianos, grandiosos mesmo na derrota. Muitos povos alegaram ser continuadores daquela linhagem ancestral de homens admiráveis. Os romanos, aliás, viram aí uma forma de conquistar um passado que estivesse mais à altura do seu destino histórico. (...) ao se transformar num gigantesco império, precisava de uma origem mais adequada, cabendo a um poema épico, a famosa Eneida, de Virgílio, a tarefa de fornecer uma versão mais gloriosa (...) Não era uma mentira; como sempre acontece nesses mitos fundadores, a imaginação criativa tinha completado uma lacuna do relato histórico.
Pisamos aqui naquela faixa impenetrável que fica entre a História e a ficção. Assim como os romanos, a gente do Rio Grande fez instintivamente uma seleção de experiências, valores, modelos e imagens guardadas na memória, construindo em torno do gaúcho um relato sobre a origem deste sentimento difuso, mas inconfundível, de pertencermos a um mesmo grupo. É um mito, e é exatamente por isso que ele nos une. No sábado, debaixo da chuva, perto da ponte, três gaúchos passaram por mim, cavalgando a passo, em silêncio, acompanhados por uma cachorrada miúda. Fiquei com inveja, confesso: todos ali, homens e animais, olhavam na mesma direção, sempre para frente; ao menos pareciam saber de onde tinham vindo - e para onde estavam indo.119
Quando o cronista afirma que “assim como os romanos, a gente do Rio Grande fez