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5. S ¨ UPERMAN˙IFOLD VE S ¨ UPERS˙IMETR˙I UZER˙INDE K˙INEMAT˙IK ¨

3.6 S¨uperskalar c¸arpım y¨ontemi

As Cantigas de Santa Maria são um conjunto de quatrocentas vinte e sete composições em galaico-português, que no século XIII era a língua fundamental da lírica culta em Castela. Encontram-se repartidas em quatro manuscritos, um deles na Biblioteca Nacional da Espanha (Codex To, por Toledo), dois no Escorial (Codex E e T) e o quarto em Florença (Codex F).31

Existem dúvidas sobre a autoria directa do Rei Afonso X, o Sábio, mas ninguém dúvida da sua participação directa como compositor em muitas delas. W. Mettmann, autor duma edição crítica dos textos das Cantigas, crê que ao poeta e trovador galego Aires Nunes pode-se atribuir muitas delas. A questão da autoria ainda não está resolvida, mas com tempo as investigações vão crescendo e a idéia de uma participação directa do rei consolida-se.

As Cantigas de Santa Maria podem se dividir em dois grupos:

O primeiro forma as cantigas da nossa Senhora, são cantigas narrativas com louvações à Virgem Santa Maria e que é um verdadeiro compêndio de histórias, milagres, jogos, etc relacionados com a Virgem, seja pela sua intervenção directa ou pelos amores místicos que a sua figura gera nas almas piedosas.

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Cfr. BARROS; 1941: 13

31

Cfr. site Cantigas de Santa Maria Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre. Ligações externas – Texto na íntegra das cantigas e ficheiro MIDI

 

 

O segundo são as cantigas de loor (louvor), mais reduzido (posto que são as cantigas cujo número de ordem é múltiplo de dez); trata-se de poemas mais sérios, profundos, quase místicos, nos quais em lugar de cantar os milagres da Virgem, reflete-se sobre ela, como numa oração.

Das Cantigas de Santa Maria, transcrevemos este excerto: o Prólogo – Porque trobar - a cantiga 10 – “Rosas das Rosas” – e a cantiga70 – “Eno nome de Santa Maria

PROLOGUE

Porque trobar

Este é o prologo das cantigas de Santa Maria, ementando as cousas que á mester eno trobar

Porque trobar é cousa en que jaz entendimento, poren queno faz

á-o d'aver e de razon assaz, per que entenda e sábia dizer o que entend' e de dizer lle praz,

ca ben trobar assi s'á de ffazer.

E macar eu estas duas non ey com' eu querria, pero provarei a mostrar ende un pouco que sei, confiand' en Deus, ond' o saber ven;

ca per ele tenno que poderei mostrar do que quero alga ren.

 

 

E o que quero é dizer loor da Virgen, Madre de Nostro Sennor,

Santa Maria, que ést' a mellor cousa que el fez; e por aquest' eu quero seer oy mais seu trobador, e rogo-lle que me queira por seu

Trobador e que queira meu trobar reçeber, ca per el quer' eu mostrar

dos miragres que ela fez; e ar querrei-me leixar de trobar des i

por outra dona, e cuid' a cobrar per esta quant' enas outras perdi.

Ca o amor desta Sen[n]or é tal, que queno á sempre per i mais val;

e poi-lo gaannad' á, non lle fal, senon se é per sa grand' ocajon, querendo leixar ben e fazer mal, ca per esto o perd' e per al non.

Poren dela non me quer' eu partir, ca sei de pran que, se a ben servir, que non poderei en seu ben falir

de o aver, ca nunca y faliu quen llo soube con merçee pedir,

ca tal rogo sempr' ela ben oyu.

Onde lle rogo, se ela quiser, que lle praza do que dela disser en meus cantares e, se ll'aprouguer,

 

 

que me dé gualardon com' ela dá aos que ama; e queno souber, por ela mais de grado trobará.32

Rosas das rosas

- 10 -

Esta é de loor de Santa Maria, c om' é fremosa e bõa e á gran poder.

Rosas das rosas e Fror das frores, Dona das donas, Sennor das sennores.

Rosa de beldad' e de parecer e Fror d'alegria e de prazer, Dona en mui piadosa seer, Sennor en toller coitas e doores.

Rosas das rosas e Fror das frores, Dona das donas, Sennor das sennores.

Atal Sennor dev' ome muit' amar, que de todo mal o pode guardar; e pode-ll' os peccados perdõar, que faz no mundo per maos sabores.

Rosas das rosas e Fror das frores, Dona das donas, Sennor das sennores.

32

 

 

Devemo-la muit' amar e servir, ca punna de nos guardar de falir;

des i dos erros nos faz repentir, que nos fazemos come pecadores.

Rosas das rosas e Fror das frores, Dona das donas, Sennor das sennores.

Esta dona que tenno por Sennor e de que quero seer trobador, se eu per ren poss' aver seu amor,

dou ao demo os outros amores.

Rosas das rosas e Fror das frores, Dona das donas, Sennor das sennores.33

Eno nome de Maria

- 70 -

Esta é de loor de Santa Maria, das çinque leteras que á no seu nome e o que queren dizer.

Eno nome de Maria çinque letras, no-mais, y á.

M mostra MADR' e MAYOR e mais MANSA e mui MELLOR

de quant' al fez Nostro Sennor nen que fazer poderia.

33

 

 

Eno nome de Maria...

A demostra AVOGADA, APOSTA e AORADA,

e AMIGA e AMADA da mui santa conpannia.

Eno nome de Maria...

R mostra RAM' e RAYZ, e REYNN' e Emperadriz,

ROSA do mundo; e ffiz quena visse ben seria.

Eno nome de Maria...

I nos mostra JHESU-CRISTO, JUSTO JUYZ, e por isto

foi por ela de nos visto, segun disso Ysaýa.

Eno nome de Maria...

A ar diz que AVEREMOS e que tod' ACABAREMOS aquelo que nos queremos de Deus, pois ela nos guia.

 

 

2.3 D. Dinis: o Rei-Poeta ou o Poeta-Rei

Será na poesia de D. Dinis que, segundo o autor “(…) é o primeiro grande poeta de Portugal, que desde logo anuncia a longa, extensa e rica estirpe de líricos de que nos orgulhamos (BARROS, Idem: 13 e 14) para logo atribuir o autor com determinação a D. Dinis o papel de pai da poesia nacional, “(…) de tal sorte nos seus versos palpita e vibra já a prodigiosa seiva de emoção e de inspiração que no lirismo português tão alto viria a florescer e a frutificar.” (Idem, Idem: 14)

Transcrevemos, em seguida, dois exemplos, entre muitos possíveis, duas cantigas, uma de amor e outra de amigo, que pela sua simplicidade e beleza, pela sua força poética conquistaram a imortalidade.

Cantiga de Amor Levantou-s’ a velida, levantou-s’ alva e vai lavar camisas em o alto.

Vai-las lavar alva.

Levantou-se a louçana Levantou-se alva e vai lavar delgadas em o alto.

Vai-los lavar alva.

E vai lavar camisas, levantou’s alva

 

 

o vento lh’as desvia em o alto.

Vai-las lavar alva.

E vai lavar delgadas levantou-s’ alva; o vento lh’as levava em o alto.

Vai-las lavar alva.

O vento lh’as desvia, levantou-s’ alva; meteu-s’ alva em ira em o alto.

Vai-las lavar alva.

O vento lh’as levava, levantou-s’ alva; meteu-s’ alva em sonho em o alto…

Vai-las lavar, alva…35

E a cantiga de amigo, expressão pungente de saudade e de espera:

Cantiga de Amigo

Ai flores, ai flores do verde pino, Se sabêdes novas do meu amigo! Ai Deus, e u é?

Ai flores, ai flores do verde ramo, Se sabêdes novas do meu amado!

35

 

 

Ai Deus, e u é?

Se sabêdes novas do meu amigo, Aquele que mentiu do que pôs comigo! Ai Deus, e u é?

Se sabêdes novas do meu amado,

Aquele que mentiu do que me há jurado! Ai Deus, e u é?

- Vós me preguntades pelo voss’ amigo? E eu bem vos digo que é san’, e vivo. Ai Deus, e u é?

Vós me preguntades pelo voss’ amado? E eu bem vos digo que é vivo e sano. Ai Deus, e u é?

E eu bem vos digo que é san’, e vivo. E será vosc’ ant’ o prazo saído. Ai Deus, e u é?

E eu bem vos digo que é viv’ e sano E será vosc’ ant’ o prazo passado.. Ai Deus, e u é?36

É o próprio D. Dinis que, revelando uma superior capacidade analítica ao comparar a canção provençal e a sua própria poesia, no poema de que transcrevemos um excerto – e aqui recorda-nos Almutâmide, quando tendo tomado conhecimento de um poema, por sinal excelente, de Ibne Amar, numa

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altura em que estavam zangados, escarnecendo de si e da sua família, prefere antes analisar a sua qualidade literária.37

Provençais soen mui bem trobar, e dizem eles que é com amor; mas os que trovam no tempo da flor e não em outro, sei eu bem que não hão tão grave coita no coração, qual m’eu por mia senhor vejo levar, (…)

Vemos aqui como D. Diniz trata, tanto o elogio da dona, e a exaltação do amor do poeta – temas, certo é, da canção provençal, mas tratados pelo nosso rei-poeta com um acentuar de sinceridade e simplicidade do seu amor, comparativamente com o dos provençais, isto é:“(…) - a influência provençal, mesmo num poeta culto como D. Deniz, não consegue modificar a sensibilidade nativa da alma portuguesa. Esta recebe o estímulo que vem de fora, mas não se amolda senão a uma ou a outra lição secundária que ele traz. E, como se verifica pela cantiga citada, tem consciência plena dessa não aceitação.” (Idem, Idem:17)

A especificidade da designada «poesia primitiva portuguesa» face à poesia de outras nações, na mesma época, verificando-se diferenças essenciais de técnica, “Assim: - o emprego frequente da assonância, substituindo a rima; a construção simples da estrofe, que muitas vezes se reduz a dois versos, algures até a dois hemistíquios, ainda que nitidamente separados; e, sobretudo, o paralelismo das ideias que se repetem, em geral, em duas estrofes, apenas diferenciadas pela rima ou por ligeiras variações da frase poética, mas nunca pelo seu conteúdo. E Stork acrescenta: - êsse género de poesia não tem modelo nem par em nenhuma outra literatura. Onde se encontrará, na verdade, poemas do século XIII que possuam o encanto, a ansiedade, a mágoa amorosa, a tristeza resignada mas altiva, que êstes versos de Pero da Ponte traduzem:-

37

 

 

Senhora de corpo delgado, em forte pont’eu fui nado! que nunca perdi cuidado nem afan des que vos vi! Em forte pont’eu fui nado, Senhora, por vós e por mi!

Com êste afan tan longado em forte pont’eu fui nado! que vos ama sen meu grado e faço a vós pesar y!

En forte pont’eu fui nado, Senhora, por vós e por mi!

Ai eu, cativ’ e coitado em forte pont’eu fui nado. que serei sempr’ endôado ond’un bem nunca prendi!

En forte pont’eu fui nado, Senhora, por vós e por mi!38

2.4 – João Roiz de Castelo Branco ou a Perenidade da Poética Trovadoresca

O autor termina reafirmando o critério exposto, isto é “o critério da originalidade intrínseca da poesia portuguesa desde que balbuciou os primeiros ritmos.” (Idem, Idem: 18 e 19)

Ainda segundo o mesmo autor, o Cancioneiro Geral “ contém algumas das mais puras expressões do nosso lirismo, e o preciosismo que nelas se

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censura trouxe germes precursores de estilo que um Bernardim, um Diogo Bernardes, um Camões levariam ao máximo da sua perfeição. Pérolas verdadeiras, perdidas num acervo baço de pérolas falsas? Não digo que não… As verdadeiras, porém, são de tão pura água, que o seu brilho apaga a turva palidez das demais. Senão, leiam-se os conhecidos versos de João Roiz de CasteloBranco:” (Idem, Idem: 21)

Dos mais sublimes poemas da poesia portuguesa de sempre. De uma beleza avassaladora, presente no Cancioneiro de Resende. Daí a sua perenidade. Cantado pelos cantores de intervenção, nomeadamente por Adriano Correia de Oliveira – EP Fados de Coimbra (1962) muitos séculos depois. Cantado hoje.. Cantado sempre.

Senhora, partem tão tristes meus olhos por vos, meu bem, que nunca tão tristes vistes outros nenhuns por ninguém.

Tão tristes, tão saudosos, tão doentes da partida, tão cansados, tão chorosos, da morte mais desejosos cem mil vezes que da vida,

partem tão tristes, os tristes, tão fora de esperar bem, que nunca tão tristes vistes, outros nenhuns por ninguém.

E João de Barros encerra este capítulo, ou primeira jornada, como o designa, reafirmando que “A vitoriosa trajectória poética, que vai dum D. Deniz a Bernardim Ribeiro, a Cristóvão Falcão, a Diogo Bernardes e a Camões não sofre solução de continuidade nos séculos XIV e XV. (…) Considerando a

 

 

poesia portuguesa como um todo que se move e evolui através do tempo, o momento anterior ao século XVI é precisamente êsse. Enquanto a Pátria, pela acção educadora dos primeiros reis e príncipes da dinastia de Aviz e pelas novas conquistas morais e sociais do povo, se organiza, fortalece e prepara, assim, para as grandes empresas ultramarinas, a vida literária, no seu conjunto, é intensa. Manifesta-se com mais vigor e originalidade na prosa? É certo. (…) Mas nem por isso a poesia emudeceu ou se quedou imobilizada nas fôrmulas primitivas. A sua inspiração, a sua essência ficou sendo a mesma de sempre; a sua técnica, porém, atingiu uma perfeição e um saber, até aí ignorados. A melodia do verso é outra e mais suave, e a sua orquestração tornou-se mais variada e mais harmoniosa.

E de tão grandes e preciosas aquisições se enriquecerá a poesia do século seguinte, em que o nosso lirismo atinge uma hora de singular e vitorioso fulgor.

(Idem, Idem: 24 e 25)

Capítulo IV

Benzer Belgeler