5. S ¨ UPERMAN˙IFOLD VE S ¨ UPERS˙IMETR˙I UZER˙INDE K˙INEMAT˙IK ¨
3.2 Mannheim e˘grileri
Recordamos a propósito o deslumbramento sentido, mais de um século antes, quando o rei Ordoño III de Leão visitou a corte cordovesa do califa Aláqueme II:
“(…) As ordens de Aláqueme seguiram-se com todo o cuidado e o rei cristão e o seu séquito foram tratados com honra e respeito.
Ordoño passou a quinta e a sexta-feira no palácio. No sábado Aláqueme mostrou interesse em ver o cristão e fizeram-se imediatamente os preparativos para a cerimónia. Equiparam-se as tropas como para a guerra e vestiu-se esplendidamente a guarda eslava. Ordenou-se aos ulemas, teólogos, secretários e poetas que aparecessem no salão de audiências enquanto se avisavam vizires e altos funcionários do estado para que estivessem no seu posto na hora marcada.
Quando chegou o momento, Aláqueme apareceu no trono no salão oriental do palácio de Medina Azahrá que se abria sobre o terraço. De ambos os lados estavam seus irmãos, sobrinhos e demais parentes, e os vizires, Cádis, magistrados civis, teólogos famosos e demais altos funcionários, todos sentados em fila, segundo a sua hierarquia e posição. Entre eles estava o juiz supremo do Andaluz, Mondir ibne Saíde Albulit.
Quem introduziu Ordoño no salão foi Mohâmde ibne Alcarime ibne Tumeluz. Vestia uma túnica de brocado branco, de manufactura cristã, e uma capa da mesma qualidade e cor, e cobria-se com uma gorra adornada com jóias caras.
Pálpebras arregaladas
Ordoño deslocou-se da sua residência de Córdova a Medina Azahrá acompanhado dos principais cristãos do Andaluz: Ualide ibne Caizurane, juiz dos mesmos, e Ubeide Alah ibne Cácime, metropolitano de Toledo. Já próximos do palácio, Ordoño teve de seguir um caminho em cujos lados estava formada a infantaria, colocada em ordem tão admirável que os olhos se quedavam assombrados pela sua uniformidade, e em filas tão apertadas que a mente se surpreendia com o seu número. Tal era o brilho das suas couraças e armas que os cristãos estavam estupefactos com o que viam. Com a cabeça baixa, as pálpebras arregaladas e os olhos semicerrados, chegaram até à parte exterior de
Medina Azahrá, chamada porta das Cúpulas, onde desmontaram todos os que tinham ido esperar Ordoño. Só este e o seu sequito seguiram a cavalo até à porta interior ou Babe Açuda em que todos receberam ordem de apear-se, com excepção de Ordoño e de Mohâmede ibne Tumeluz, que passaram a porta montados.
Deixaram os dois as cavalgaduras à porta dom pavilhão central do sul, chamada Casa das Pedras, situada sobre uma alta plataforma cujos degraus estavam cobertos por uma tela de prata. No mesmo local desmontara o rival e inimigo de Ordoño, Sancho, filho de Ramiro, quando veio visitar Abderramão Anácir.
Ordoño sentou-se na plataforma e o seu sequito diante dele. E ali esperaram a vinda de Aláqueme para poderem passar adiante. Ordoño marchou depois a pé, seguido pelo seu séquito, até ao terraço. Chegados em frente do salão oriental do palácio, onde estava Aláqueme, Ordoño deteve-se, descobriu a sua cabeça, tirou a capa e permaneceu algum tempo em atitude de assombro e respeito sob a impressão de que se aproximava o radiante trono do califa.
Tendo-se-lhe dito que avançasse, fê-lo devagar entre duas filas de soldados, colocados ao largo do terraço. Atravessou assim até à porta do pavilhão em que Aláqueme estava sentado.
Por terra ante Aláqueme
Quando se achou ante o trono, deitou-se por terra e permaneceu alguns instantes em tão humilde posição. Levantou-se, avançou uns passos, prostou-se de novo e repetiu tal cerimónia várias vezes até que chegou a pouca distância do califa. Tomou-lhe a mão e beijou-a, marchou depois para trás sem voltar a cara até chegar a um assentou coberto com uma tela de ouro, que tinha sido preparado para ele a uns dez côvados de distância do trono real, sempre assombrado pela imponência da cena. Os condes do seu séquito, a que se havia
permitido a entrada à presença real, avançaram prostando-se repetidas vezes até ao trono do califa. Este deu-lhes a mão a beijar e retrocederam em seguida para se colocarem ao lado do seu rei. Entre eles estava Ualide ibne Caizurane que era, como fica dito, cádi ou juiz dos cristãos de Córdova e que actuou como intérprete.
Aláqueme guardou silêncio durante algum tempo para dar ocasião o Ordoño de serenar e sentar-se. E quando notou que o cristão se havia recomposto, rompeu o silêncio e disse:
- Benvindo sejas à nossa corte, Ordoño. Oxalá vejas cumpridos os teus desejos e realizadas as tuas esperanças. Encontrarás em nós o melhor conselho e o mais cordial acolhimento e muito mais do que esperas […]
Ordoño estupefacto
Depois de assim ter falado o califa, Ordoño voltou a ajoelhar-se e, desfazendo-se em acções de graça, levantou-se e abandonou a sala andando às arrecuas. Quando chegou a outro apartamento, disse aos eunucos que o tinham seguido que estava deslumbrado e estupefacto pelo majestoso espectáculo de que tinha sido testemunha; e vendo uma cadeira em que o califa costumava sentar-se, ajoelhou-se ante ela.
Em seguida levaram-no a Jáfar, hájibe ou primeiro-ministro. Quando viu ao longe este dignatário, fez-lhe uma profunda reverência querendo também beijar-lhe a mão, mas o hájibe impediu-o, abraçou-o e, fazendo-o sentar a seu lado, manifestou-lhe que podia estar seguro de que o califa cumpriria as suas promessas. Depois mandou-lhe entregar os trajes de honra com que o califa o presenteava. Os seus companheiros também receberam trajes, cada um segundo a sua categoria; e, saudando o hájibe com o mais profundo respeito, voltaram ao pórtico após o seu rei que encontrou ali um cavalo soberbo, ricamente ajaezado, das cavalariças de Aláqueme. Montou e com o coração cheio de esperanças
voltou com os leoneses e com o general Ibne Tumeluz ao palácio que lhe servia de morada (COELHO, Idem:218 a 221)