Este apogeu civilizacional com o desmembramento do Califado (929/1031), após a morte de Almançor e do período de instabilidade que se lhe seguiu com desagregação do califado e a consequente criação dos pequenos reinos taifas, mantem-se e paradoxalmente ou não, o fausto e o requinte da corte califal vai atingir o seu apogeu maior na Época ou “Século de Almutâmide”, assim chamado ao breve mas intenso período civilizacional que compreende o governo deste Rei-poeta- descendente da uma breve dinastia abádida iniciada por seu avô, Abû al-Qasim, conforme Adalberto Alves. (ALVES, 2004: 20)
Almutâmide nasce em Beja, numa das cidades mais importantes deste vasto território ocidental do al-Andalus, que entre os sécs. VIII e XIII, quase sempre gozou de um estado de relativa autonomia, que se aproximou, por vezes, de uma quase independência, (TORRES; MACIAS; 2003:119)
Filha de mãe bejense, Almutámide, que governou entre (1069-1091), será, nestes escassos 22 anos, senhor de um extenso território, com capital em Sevilha. Já no seu reinado acaba por incorporar todo o Garbe, assim como Huelva, Ronda, Carmona, Jerez, Arcos, Niebla, Morón, Sevilha e Córdova, sendo de longe a sua Taifa a maior e a mais importante do todo o Alandalus. Ele e anteriormente seu pai Almutadide, terão tido o intuito de refazer o califado, embora tal não venha acontecer. Ao poder territorial junta-se a figura de grande Poeta, de benemérito e impulsionador das artes e das letras sendo a sua corte o paradigma do apogeu civilizacional de então.
Todavia, se neste período, autores que, como Adalberto Aves consideram o justamente o Período ou “Século de Almutâmide”, Sevilha, Toledo, Córdova e Granada iluminam o al-Andalus de ciência e de saber, com refinado esplendor nas artes e nas letras, no Garbe, embora numa escala menor, Beja, Santarém, Lisboa ou Silves são importantes centros urbanos com todas as características a que estão associadas neste período histórico, sendo Silves considerada a capital cultural do Garbe, enquanto Beja, onde Almutâmide nasceu em 1040, estava ainda no final do seu apogeu vindo do período tardo-romano.
De Silves chegam-nos notícias da Poesia a brotar em cada instante, no Palácio dos Balcões, hoje desaparecido e onde Almutâmide terá passado a sua juventude rodeado da subtileza etérea da Poesia e da beleza feminina, bem terrena, uma juventude despreocupada. Este período será depois recordado no poema “Evocação a Silves” dedicado ao seu grande amigo Ibne ‘Amar, de ascendência humilde, natural de Estombar, que exerceu uma forte influência na sua formação literária e poética na juventude do Princípe.
‘Itimâd…
Invisível a meus olhos, trago-te sempre no coração Te envio um adeus feito paixão
e lágrimas de pena com insónia. Inventaste como possuir-me
e eu, o indomável , que submisso vou ficando! Meu desejo é estar contigo sempre.
oxalá se realize tal vontade!
Assegura-me que o juramento que nos une nunca a distância o fará quebrar.
Doce é o nome que é o teu
e aqui fica escrito no poema: I’ timâd.13
O desejo, a Paixão, o Amor por esta mulher espirituosa e, porventura, senhora de grandes caprichos, a que o monarca faria “milagres” para
corresponder, maravilhado, encantado, como quando terá plantado amendoeiras na Serra de Córdova (ou será no Algarve?), porque ela queria ver neve; ou quando desejou pisar barro e o soberano mandou misturar açúcar, canela e perfumes no pátio do palácio para satisfazer o capricho da sua amada, como verdadeiro apaixonado, como nos diz Angel González Palencia ( PALENCIA, Idem: 77)
O Amor e o seu poder, o maior de todos os poderes, o poder do Amor como nest´outro, intitulado
Poder
meu olfacto é teu odor delicioso e o teu rosto o senhor dos olhos meus, por seres minha, mesmo depois do adeus, é que todos me chamam poderoso.14
13 (RAPOSO, 2008: 20) Cfr. versão de Adalberto Alves (ALVES, 2004: 101) 14
Ou est’outro, que figura nas Mil e Uma Noites, um dos seus mais belos poemas onde, mais uma vez, em Almutâmide se denota um tocante e persistente acento pessoal
Inocultával
Por receio de quem espia com muita inveja a roer ela não veio nesse dia, para traída não ser
p´la luz que do rosto esplende, p´las jóias a tilintar
e pelo perfume do âmbar a que o corpo lhe rescende: é que ao rosto, com o manto, tapá-lo inda poderia,
e as jóias, entretanto, facilmente as tiraria,
mas a fragãncia do encanto, p´ra ocultá-la, que faria?15
E Ou esses negocios Ou em Eclipse ela levantou-se e ocultou o brilho solar dos olhos meus.
assim fique oculta da má-sorte!
15
ela sabe que é uma lua.
e que melhor para ocultar o sol senão a face da própria lua?16
Aqui em versão de Adalberto Alves, havendo outra, de Borges Coelho cantado por Janita Salomé no disco Tão e pouco e tanto- e que no respectivo capítulo transcrevemos - onde Manuel Alegre, trovador da contemporaneidade, escreveu:
«Há no sul um silêncio povoado de sons, um misto de cigarras, zibelinas, besouros, uma espécie de zumbido do tempo, por vezes rasgado pelo grito do milhafre.
Se fosse pintor, pintá-lo-ia sob a forma de um traço branco em fundo azul. Um risco, nada mais do que um risco».
“O Escudo”, é um dos primeiros poemas conhecidos de Almutâmide, e que teria sido feito a mando de seu pai que lhe havia solicitado a descrição de um escudo de fundo azul, ricamente trabalhado a ouro e prata.(ALVES, 2004: 65 )
O Escudo
vede este escudo: seus autores no céu foram colher inspiração pra não ser plas lanças penetrado: nele as Pléiades esculpiram, estrelas que auguram a vitória.
uma cercadura lhe deram d’ouro puro, luz da manhã vestindo o horizonte17
16 (Idem, Ibidem) Cfr. versão de Adalberto Alves (Idem, Idem: 107) 17
Neste contexto da segunda metade do século XI em que um desequilíbrio populacional em benefício dos muladis, devido a mais conversões, tem o efeito perverso de diminuir os impostos pagos a população moçárabe - agora em menor número -, o que provoca um aumento de impostos a toda a população, pois cada vez são necessárias mais verbas para travar a cada vez mais poderosa ameaça de Afonso VI, que cobra impostos aos reinos taifas para não os atacar, mas que não passa de uma paz precária e cada vez mais são necessários maiores contingentes de mercenários para garantir a segurança das populações do al-Andalus. Mas esta não é uma política popular, ainda mais face à sumptuosidade da corte, e neste caso a de Sevilha que personifica o apogeu civilizacional do mundo de então. E isso custa dinheiro, muito dinheiro. ´
E neste contexto que a sumptuosidade de uma corte que é parte de uma conjuntura histórica irreversível que havia de perder Almutâmide, mal visto aos olhos dos alfaquis e dos ulemas, que consultados pelo soberano almorávida Yûsuf, reconhecem-lhes o direito de reunificar o al-Andalus devido a duas infracções à lei islâmica: a (supostsa) cobrança ilegal de impostos e o pagamento de tributos aos cristãos.
A poesia eivada de erotismo, onde o elemento báquico está muito presente, mas também a saudade da sua Silves – onde viveu certamente os mais suaves e decisivos anos da sua vida: a amizade com Ibne Amar e o encontro com Itimade, em Evocação de Silves, que de Sevilha dedica ao seu amigo de longa data, neste excerto:
Saúda, por mim Abu Bakr, Os queridos lugares de Silves E diz-me se deles a saudade È tão grande quanto a minha. Saúda o palácio dos Balcões
Da parte de quem nunca os esqueceu. Morada de gazelas e leões
Doce refúgio encontrava Entre ancas opulentas E tão estreitas cinturas! Mulheres níveas e morenas Atravessavam-me alma Como brancas espadas E lanças escuras.
Ai quantas noites fiquei, Lá no remanso do rio, Nos jogos do amor Com a da pulseira curva Igual aos meandros da água Enquanto o tempo passava… E me servia de vinho:
O vinho do seu olhar Às vezes o do seu copo E outras o da sua boca. Tangia cordas de alaúde E eis que eu estremecia Como se estivesse ouvindo Tendões de colos cortados. Mas retirava o seu manto Grácil detalhe mostrando; Era ramo de salgueiro Que abria o seu botão Para ostentar a flor.18
Ou neste, breve mas belo poema onde o Vinho, como se intitula, é o “pano de fundo” duma atmosfera carregada de erotismo e sensualidade:
O Vinho
a noite lavava as sombras
18
das suas pálpebras com a aurora. ligeira corria a brisa.
bebemos vinho velho, cor de rubi, denso aroma, suave corpo.19
1.2 Ibne Amar
Abu Bakr Muhammad ibne ‘Amar, denominado al-Andalusî, amigo íntimo do Príncipe, que o nomeou governador de Silves e posteriormente seu Vizir (primeiro-ministro) e que, depois de várias traições ao seu senhor e amigo devido a uma ambição desmedida, acabaria morto às suas mãos.
Como diz diz Adalberto Alves (ALVES,1991: 61)“A sua poesia é de uma elegância requintada, fruto de um superior domínio da língua, e o brilho da imagística sobrepõe-se, de facto, a um acento pessoal que só se manifesta como expressão de orgulho, forma de afirmação de qualidades auto-atribuídas”. E conclui o mesmo autor: “Ibn ‘Ammar foi poeta multímodo que cultivou, a par das formas clássicas, a muwassahat e o zajal, ao serviço dos géneros lírico, ditirâmbico ou satírico. Excelentes poetas, como Ibn Sahal de Sevilha, foram influenciados pela sua obra, e dele disse al-Marrãkušĩ que foi «um dos gloriosos poetas que seguiram as pisadas de Ibn Hãnĩ al-Andalusĩ».
Como não nos vir à memória a lírica camoniana neste requinte, nesta elegância?... neste excerto, ou no seguinte:
Do Amor
olhai quão grande é o amor apaixonado que é vício e delícia e fogo ardente.
19
não busqueis pelo amor um dominado sede antes escravos pela sua lei e assim sereis livres finalmente.
disseram: «fez-te o amor sofrer intensamente!» «me agradam suas penas!» foi o que afirmei.
o coração quis doença p’rò corpo nos vestir a liberdade da escolha eu lhe outorguei.
censurais-me de emagrecido andar.
mas a excelência d’adaga, a que se resume senão à finura do seu gume?
troçastes por a amada me deixar
mas a noite derradeira de cada lunação rouba dos olhares a face do crescente.
pensastes que a brisa da consolação, como um sono profundo, está presente?
secou-se o amor com o fogo do amor com ela ficará meu pranto defensor.
como o meu coração se lacerava quando se inclinava graciosa
e a redenção das madeixas despontava!
a quem foi dado contemplar seu véu escondendo uma manhã tão luminosa que abraçava um nocturno céu?
dona da alma do jardim, é terno ramo, coração de zimbro, corça que eu amo*
o brilho do seu rosto amarfanhava a própria lua em todo o seu esplendor e o grasnar dos gansos em redor era o ornamento que a cercava.
da noite da união nasce o dia enfim e o odor da volúpia vem a mim.
minhas lágrimas caíram copiosas sobre o belo jardim daquela face assim humedecendo suas rosas
até que o destino o desenlace me fez beber da taça da separação e me tornei ébrio desde então.20
À bem-amada
minh’alma quer-te com paixão ainda que haja nisso uma tortura e alegre vai na ânsia da procura
que estranho ser difícil nossa ligação se os desejos d’ambos concordaram!
que quereria mais meu coração, ao desejoso te buscar em vão, se meus olhos te viram e amaram?
20
Versão de Adalberto Alves, (ALVES, 2000: 78 e 79) *”O poeta usa uma metáfora, certamente, para simbolizar um coração pequeno como uma baga de zimbro
Allâh bem sabe que não há razão de vir aqui senão para te ver.
que o vigia não nos possa achar se o nosso reencontro acontecer p’ra os teus lábios doces eu provar.
folgarei no jardim da tua face, beberei desses olhos o langor,
e mesmo que um terno ramo imtasse o teu talhe grácil, sedutor,
valerias mais que o imitador.
não te ocultes, oh jardim secreto: quero colher meu fruto predilecto!21
ou ainda em carta ao príncipe, exilado em Saragoça por Al-Mutadid, pai deste, evocando Silves:
Saudade… como falar de ti, Silves, sem que uma lágrima me caía como a do enamorado enternecido, ou de ti, Sevilha,
sem um suspiro de ansiedade?
sois terras vestidas, pela chuva fina, com a túnica da mocidade,
21
a mocidade que se desvaneceu quando me furtou meus amuletos
assaltou-me a memória dos amores ardentes como se me consumisse um lume violento no mais profundo deste meu coração.
oh noites minhas de antigamente!
Que me importavam censuras dos críticos! Nada me desviava do amor mais louco.
A insónia vem-me de uns olhos lânguidos E sofro por uma silhueta de esbelto talhe.22 (…)
Ou est’outro dedicado ao seu amigo, senhor e rei:
A Al-mu’tâmid (II)
Quantas noites passadas lá no açude Sinuosas deslizavam as correntes do rio Como manchadas serpentes.
As correntes murmuravam junto a nós Ao passar, qual gente ciumenta,
A querer magoar-nos à força da calúnia. Mas no recanto escolhido
Era o jardim que vinha visitar-nos Enviando seus presentes
Nas perfumadas mãos da brisa.23
22
Ou este pequeno excerto de um longo poema dedicado a Almutâmide
MAIA UMA rodada copeiro,
Que já se ergue a aragem da manhã E a estrela de alva
Desviou a rota da noite viajeira.
A alvorada trouxe-nos brancura de cânfora Assim que a noite reclamou seu negro âmbar.
O jardim parece uma donzela vestida com uma túnica Bordada a flores e adornada com pérolas de orvalho24
(…)
Ou ainda esta bela reflexão sobre como, só de quem da lei do amor se sente escravo atinge a liberdade plena…
BOM É que não esqueçais
Que o que dá ao amor rara qualidade É a sua timidez envergonhada.
Entregai-vos ao travo doce das delícias Que filhas são dos seus tormentos. Porém, não busqueis poder no amor… Que só quem da sua lei se sente escravo Pode considerar-se realmente livre. 25
Ou ainda esta breve mas deliciosa evocação do universo feminino:
23
Versão de Adalberto Alves (ALVES, 1991: 66 e 67)
24
Versão de Adalberto Alves (ALVES, Idem: 68 e 69) Cfr. nos diz Adalberto Alves, trata-se da justamente célebre qaşĩda em ra, metro kamil, dedicada a al-Mu’tamid (…)
25
A Amada
Ela é uma frágil gazela: Olhares de narciso Acenos de açucena Sorriso de margarida.
E se seus brincos se agitam
Quedam-se os braceletes na escuta Da música do requebro da cintura.26
1.3 Ibne Sara
Ibne Șara (Abū Muhammad ibn Șāra aš-Šantarīnī), outro dos mais importantes poetas luso-árabes , nasceu em Santarém, onde morreu em 1123, no início do domínio almorávida, depois de uma vida atribulada. Poeta muito apreciado pelos literatos do seu tempo, que o citam amiúde. Os seus versos, variados no tema e na forma, de cunho pessoal, revelam um apurado domínio do árabe, recorrendo frequentemente às subtilezas que a língua permite.
De que reproduzimos este belo poema:
Laranjeira
São as laranjas brasas que mostram sobre os ramos a suas cores vivas
ou rostos que assomam
entre as verdes cortinas dos palanquins?
26
São os ramos que se balouçam ou formas delicadas por cujo amor sofro o que sofro?
Vejo a laranjeira que nos mostra os seus frutos: parecem lágrimas coloridas de vermelho
pelos tormentos do amor.
Estão congeladas mas se fundissem, seriam vinho. mãos mágicas moldaram a terra para as formar.
São bolas de cornalina sobre ramos de topázio e na mão de zéfiro há martelos para as golpear.
Umas vezes beijamos os frutos outras cheiramos o seu olor e assim são alternadamente
rostos de donzelas ou pomos de perfume27.
encontramos uma ode lindíssima à Natureza que se transfigura em Mulher, na mulher amada, e onde o vinho também está presente.
O Zéfiro e a Chuva
Se buscas remédio no sopro do vento
sabe que em suas baforadas há perfume e almíscar
Vêm a ti carregadas de aromas como mensageiros com saudações da amada.
O ar prova os trajes das nuvens, escolhe
27
um manto negro.
Uma nuvem carregada de chuva faz sinais ao jardim saudando-o
e logo chora enquanto as flores riem.
A terra dá pressa à nuvem para que lhe acabe o manto e a nuvem com uma das mãos tece os fios da chuva enquanto com a outra borda flores de enfeitar28
Neste breve reflexão breve, sobre o Amor, o Vinho, onde também a Natureza e a Saudade estão presentes, e onde gostaríamos de incluir, para além dos referidos poetas, outros também excelentes poetas de: Santarém (Abú Aháçane, ibne Bassame); Évora (Ibne Abdune, Ibne Ayyas Alieburi); Beja (Albaji); Lisboa, Alcabideche (Ibne Mucana Alisbuni); Silves (Mariame Alansari, Ibne Almilhe, Ibne Asside, Assilbia, Ibne Hisn, Ibne Zuhr Aliiadi, Alcartajani), Mértola (Abú Imrane Almertuli); Loulé (Abú Arrabi Soleimane ibne Isa Cutair); Faro (Abú Aláçane Salíh ibne Salih Assantamarí, Ibne Alalame Assantamarí); Cacela (Ibne Darrague Alcacetali) ou Alcácer do Sal (Abdalá ibne Amr), (COELHO, Idem: 509 a 547), onde se contam, só entre meados dos séculos XI e XIII quatro dezenas de poetas – mas destes, uma larga maioria que ultrapassa a trintena, viveu e produziu a sua obra na segunda metade do século XI, tendo alguns vivido ainda nas primeiras décadas do século seguinte; certamente serão apenas uma ínfima parte da grande produção dos justamente chamados poetas luso-árabes, onde encontramos a génese da nossa poesia lírica do século de Almutâmide e seguinte.
Em Almutâmide (e nos poetas deste período) na sua lírica vão “beber” D. Dinis, Camões, Fernando Pessoa, chegando até aos nossos dias, com Sophia,
28
Versão de Borges Coelho (Idem, Idem: 528 e 529) Este é outro belissímo poema de Ibne Sara, também interpretado por Janita Salomé, no disco Tão pouco e tanto, de que faremos referência no respectivo capítulo.
Alegre e todos os grandes poetas e escritores de canções que cantam o Amor, a sensualidade, a Paixão, a Natureza, a Saudade do ser português.
Almutámide que personificando tudo isso, essa nossa génese poética, mas também o estadista visionário, que teve continuidade em D. João II, ele, poeta do destino, encontrou o desterro e a morte em terras magrebinas como D.Sebastião, ele que foi, sobretudo, o Príncipe do Renascimento, Amante e Rei, no dizer de Adalberto Alves, que citamos,
“A nossa poesia trovadoresca, quer as cantigas de amigo quer as de amor, quer as de escárnio e mal-dizer, são filhas directas das muwashshaha, e do zajal árabes. E a saudade, palavra indizível, a não ser em português e árabe, é cantada já no «nasib» da velha ode «qasida» ante-islâmica. Essa saudade é a mesma que os habitantes de Testou (Tunísia), Tlemcen (Argélia) ou Tetuão (Marrocos) sentem da terra do verde e da água, o Ândalus, de onde injustamente foram expulsos há quatro séculos. Talvez por isso, ainda hoje usem os seus apelidos portugueses e espanhóis, e têm penduradas, nas paredes dos lugares que habitam, velhas chaves ferrugentas das casas que aqui foram forçados a abandonar”29
Este mundo mediterrânico feito de subtileza, qual reino secreto, situado sobretudo na parte meridional do nosso actual território nacional, mas que há menos de mil anos se estendia ao norte do Tejo, entre Santarém e Coimbra, era habitado pelos nossos antepassados, na sua quase totalidade muladis e moçárabes, herdeiros da síntese civilizacional das culturas milenares anteriormente existentes - como atrás referimos -, mas protagonistas do apogeu civilizacional que levaria Portugal em quatrocentos e quinhentos a liderar a expansão marítima.
Do professor A. Borges Coelho cito este delicioso texto, embora longo mas perfeitamente esclarecedor:
“Do século XI à primeira metade do século XIII, os poetas do Garbe adejavam como zangões perseguindo a abelha mestra do poder. Almutádide, de Sevilha, seguindo os versos de Ibne Amar, premiava os poetas cortesãos, não só
com o vestuário e o sustento mas «com virgem núbil, e corcel de nobre raça e sabre adornado de pedrarias».
Há príncipes poetas como Almutâmide (+ 1095) ou seu filho Arradi, senhor de Mértola e em Mértola assassinado pelos almorávidas no ano de 1091. Por sua vez, Ibne Amar, de Silves (1031-1086), de modesta origem, alçou-se a um principado em Múrcia e pagou o feito com a vida, na mesma época em que o cristão desterrado Cid (senhor em árabe), el Campeador talhava para si um principado na Valência mourisca.
Córdova deixara de ser o coração e a cabeça do Andaluz. Os tributos impostos pelo Islão e o saque da guerra santa ficavam agora retidos nos pequenos principados ou reinos de taifas, alguns talhados no território que é hoje Portugal: Mértola berbere de Isa e Ibne Taifur (um século mais tarde de Ibne Caci); Silves, dos Banu Mozaine; Faro, dos Banu Hárune; Évora, dos Aftásidas;