5. S ¨ UPERMAN˙IFOLD VE S ¨ UPERS˙IMETR˙I UZER˙INDE K˙INEMAT˙IK ¨
3.5 M¨obius halkası
É pois, nosso objectivo, partindo deste período inicial que, pensamos, marcou a génese da nossa poesia lírica, período igualmente de grande riqueza e complexidade cultural, que terá sido decisivo para o surgimento do novo reino de Portugal.
Propomos agora um percurso ao longo da história, onde pensamos, encontramos um “fio condutor” na continuidade histórica da nossa poesia lírica, desde a sua génese, desde o final do século XI e inícios de XII.
Como nos diz João de Barros (BARROS, Idem: 8)
“A poesia foi sempre entre nós emanação directa do modo de ser colectivo, e, sob determinados aspectos, espelho fiel da própria história e evolução da nacionalidade. As influências estranhas, que se descortinam neste ou naquele momento, neste ou naquele sector da literatura pátria e que são a prova evidente e feliz do nosso convívio internacional, pouco ou nada se exerceram na poesia. Esta ficou além do alcance dessas influências, delicado e forte cerne que as vicissitudes do tempo não atingem, e que mantem a consistência e o vigar da seiva original. A célebre cantiga trovadoresca de Pai Soares de Taveirós, considerada o texto poético e mesmo o texto literário mais
antigo da língua portuguesa – data provavelmente de 1189 – poderia assiná-la um João de Deus ou um Augusto Gil: - é um exemplo típico do nosso perene lirismo amoroso. E melhor do que ela, já se vê, o poderiam ser os versos de poetas menos antigos, de Bernardim Ribeiro a Diogo Bernardes, de Camões a Rodrigues Lôbo, em cujos poemas permanece, forte e vivo, o característico arroubo do sentimento português “ (Idem, Idem: 7)
Este autor que prossegue, referindo que “A perenidade, a vitalidade do nosso lirismo surge, todavia, mais clara e mais bela nas épocas de esplendor cívico, e degrada-se, entibia-se nas horas de decadência e fraqueza da Pátria, e, às vezes mesmo, nos períodos que a pressagiam e anunciam já. Daí, a circunstância, que mencionei atrás, de ser a nossa poesia espelho fiel da evolução histórica de Portugal. (…)“(Idem, Idem: 8) dentro da perspectiva que também defendemos, que aliás referimos, tanto para a fundação de Portugal quanto para a sua evolução e continuidade histórica, como vamos tentar demonstrar.
Assim este autor explica-nos que “o estudo da poesia da nossa terra não interessa unicamente os críticos e a crítica da literatura, mas serve também para esclarecer e explicar melhor a evolução histórica do povo português” (Idem, Ibidem) justificando a seguir este seu livro que “pretende apenas traçar o quadro esquemático, mas exacto, duma das mais belas, inspiradas e fortes poesias de todo e mundo” (Idem, Ibidem) outra que se constrói e desenvolve através de fases que se podem qualificar como “(…) nascimento e ascensão, esplendor, decadência e ressurreição, que defende ser a “marcha da poesia portuguesa até ao século XX. Estudá-la-emos, pois, em quatro jornadas, através das obras mais salientes dos seus autores representativos.”(Idem, Idem: 10)
O autor defende ainda que a poesia provençal ou trovadoresca não “(…) passou de estímulo exterior, de modelo superficial (…)” (Idem, Idem: 11), pois se foi conhecida pelos poetas dos Cancioneiros e provavelmente “exerceu nêles influência grande, pelo que respeita ao que hoje se chamaria «técnica de verso», todavia não terá senão essa influência despertado “entre nós qualidades pré- existentes, mas ainda não reveladas, afirmando assim uma espécie de acção criadora; quer tenha apenas tornado mais seivosa e mais consciente, como diz
Teófilo Braga, uma poesia já em pleno e vitorioso madrugar na nossa terra (…)”.(Idem, Ibidem)
Se tivermos em conta que “(…) A celebre cantiga trovadoresca de Pai Soares de Taveirós, considerado o texto poético e mesmo o texto literário mais antigo da língua portuguesa – data provavelmente de 1189 (…)“ (Idem, Idem: 7) estamos a falar de finais do século XII, ou mesmo que prolonguemos até aos inícios de XIII, pelo que esta nossa poesia “(…) já em pleno e vitorioso madrugar na nossa terra (…)” (Idem, Ibidem) , acontece num novo reino que tem cerca de meio século de existência, ou pouco mais. É um período histórico muito curto, ainda mais se falamos de História da Cultura e das Mentalidades. Ou será, como defendemos, que a sua génese lírica vem um pouco de mais atrás, e falando do “Século de Amutâmide”, falamos de um século antes. Pensamos que é possível e a hipótese que pusemos da génese da nossa poesia lírica em Almutâmide e no “seu século”, não só é possível, como faz todo o sentido.
Mas retomando o que João de Barros define como a “Primeira Jornada” na História da Poesia Portuguesa teremos que ter presentes os vários Cancioneiros. O Cancioneiro da Ajuda, o mais antigo dos nossos cancioneiros, mas também o Cancioneiro da Vaticana e o Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa antes denominado de Coloci Brancuti., nestas colectâneas de cantigas de amor e de amigo e de outras composições poéticas onde o “(…) encanto penetrante da nossa emoção lírica(…)”“ (Idem, Idem: 11) impõe-se de imediato.
E o autor cita Gastão Paris, “autoridade incontroversa em matéria de poesia trovadoresca, como noutros assuntos de literatura medieval -. define deste modo a poesia dos poetas provençais:
«O amor ocupa nela o lugar preponderante, e é quási sempre um amor convencional, que tem as suas normas e as suas fórmulas, como a poesia que lhe serve de expressão e a música que a acompanha. Os poetas dirigem as suas homenagens líricas a damas que dessa homenagem se glorificam, de modo que dum senhal não é senão um jôgo gracioso, como aliás toda a poesia. Entre outras cousas, era assente que um homem não podia amar senão uma mulher casada, geralmente de mais alta posição de que ele; e isto é compreensível, dada a
natureza especial dêsse amor, todo feito de submissão e de aspiração. Celebra-se a sua dama sobretudo para ser admirado dos críticos, e celebra-se usando de formas previamente determinadas».“ (Idem, Idem: 12)
Todavia, e segundo este autor a nossa poesia diverge da poesia provençal, embora convergindo relativamente à submissão e constante aspiração perante a mulher amada mas “(…) êsses dois sentimentos nunca provêem da categoria social da inspiradora, mas simplesmente do amor que lhe consagra, amor tão grande e tão ardente que se considera ainda mais pequeno e fraco em relação ao que deveria ser. Os trovadores portugueses nunca se preocuparam com a gerarquia da musa que os apaixona, nem com a circunstância de ela ser casada ou solteira. Amam-na e louvam-na devotadamente, entusiasticamente, mas sempre alheios às exterioridades efémeras da fidalguia ou da riqueza, ou quaisquer outras mais ou menos evidentes. São alma e coração falando a outros corações e almas, e não criaturas obedientes a artificialismos convencionais ( )“
(Idem, Ibidem)
”A cantiga de Pai Soares de Taveirós é bem ilustrativo do que ficou dito:
No mundo não sei parelha, mentre me fôr como me vay, ca ia moiro por vos – ay!
mia senhora branca e vermelha, queredes que vos retraija quando vos eu vi en saya! Mau dia me levantei, que vos então não vi feia!
E mia senhor des aquel dia, ay! me faz a mi muy mal,
e vos, filha de don Paay Moniz, e bem vos semelha d´aver eu por vos guaruaya pois eu, mia senhor, d’alfaya
nunca de vós ouve nem ei valia d’ua correa.30
De facto temos de concordar com o autor: se o artificialismo das trovas provençais referido por Gastão Paris está ausente, encontramos paixão, ternura, delicadeza, sensualidade naquela «senhora branca e vermelha».