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Afonso Henriques, ao instaurar uma nova relação com a nobreza, porquanto esta classe social, embora continuando a ser dominante, interage num equilíbrio com os concelhos, que depende dos primeiros com benefícios, quando

 

 

prestam o serviço militar, mas também lhes impõe o respeito pelas liberdades e privilégios dos concelhos, o que revela como que um programa de política régia em relação aos grupos sociais de apoio; se o rei cumpre estes deveres preserva a paz no reino. Mas se “a nobreza continua a ser a intermediária indispensável e única entre o rei e as classes sociais dela dependente nas zonas onde dominava e que foram sempre alastrando no Centro e no Sul” (Idem Idem: 108), por outro lado, o rei podia ter uma autoridade efectiva exercendo assim verdadeiramente, nas regiões de regime concelhio, reais e verdadeiros poderes estatais.

“Aí, o respeito pelos seus poderes era garantido por uma tradição de vida comunitária e pública que vinha desde a época romana, e fora até certo ponto preservada pela dominação árabe. Explica-se assim, ao menos em parte, a rápida emergência da concepção do poder régio como autoridade pública que desde muito cedo tempera, em Portugal, a tendência desagregadora das monarquias feudais na Europa do Norte.

Por outro lado, a especial relação do rei com os concelhos permite também compreender o vigor da organização concelhia e a sua capacidade de resistência ao fenómeno não menos real da senhorialização.” (Idem, Ibidem)

Por outro lado, a instalação de Afonso Henriques em Coimbra, ao proporcionar-lhe uma inserção no meio urbano, vai permitir-lhe pois, em termos de estrutura do poder, a capacidade de opor a sua autoridade à que é exercida pela nobreza senhorial sobre as terras onde exercem o seu poder. As cidades continuam a desempenhar o papel de “centros de decisão política e económica, passando directamente da dependência do emir, por intermédio do qa’id, para a dependência do príncipe, depois rei, a maior parte das vezes regidas por magistrados concelhios, as cidades do Centro e do Sul de Portugal conferem às regiões que dominam características diferentes das que definem as cidades do Norte, sujeitas a centros de decisão do tipo senhorial (concretamente os senhorios diocesanos das cidades episcopais), cuja organização se inspira em modelos agrários.” Concluindo José Mattoso que “as diferenças entre a vida urbana e a vida rural são fundamentais.” (Idem, Idem: 109)

 

 

Ainda segundo o mesmo autor: “De facto, Coimbra havia sido, entre 1080 e 1116, um importante foco de resistência contra hábitos, instituições e concepções impostos pelos clérigos e guerreiros vindos do Norte. Apesar do triunfo destes, em 1130, a memória de tais lutas não se tinha de modo algum apagado ainda; as oposições que então surgiram mudaram de sentido depois de vencidas, mas não desapareceram. Estão, em boa parte, subjacentes aos conflitos que, desde o início, opuseram os Cónegos Regrantes de Santa Cruz de Coimbra ao cabido da catedral. Apesar da adesão daqueles à liturgia romana, e das íntimas relações que, pouco depois da sua fundação, estabeleceram com Roma, sob cuja jurisdição viriam em breve a colocar-se para escapar à sujeição do bispo, tornaram-se os mentores intelectuais do movimento que herdou o que ainda restava das tradições moçárabes, e que, por isso, captou a simpatia e o apoio dos cavaleiros da cidade, descendentes daqueles que no período anterior haviam resistido aos franceses colocados na administração da cidade pelo conde D. Henrique.

Ora Afonso Henriques, ao fixar-se em Coimbra, tornou-se o mais fiel e generoso protector do Mosteiro de Santa Cruz. Sem rejeitar a colaboração de chanceleres escolhidos pelo arcebispo de Braga entre os membros do seu clero, fez de Santa Cruz o centro de apoio cultural da cúria régia. A protecção que concedeu ao mosteiro contribuiu para o tornar o pólo mais activo de uma síntese cultural de grande pujança e com influência sobre todo o resto do país. Depois, ao escolher Santa Cruz como panteão régio, consagrou de uma forma simbólica a íntima conexão da monarquia com aquele santuário, que se tornou o centro espiritual da nação, e que continuaria a sê-lo mesmo depois de os reis começarem a escolher outros lugares para as sepulturas, devido ao facto de ter sempre cultivado a memória histórica da realeza, sobretudo a que exaltava o papel modelar do seu fundador.

Assim, a instalação de Afonso Henriques em Coimbra, ao mesmo tempo que confere uma força enorme à corrente cultural e institucional de carácter mediterrânico, encaminha o futuro país para a síntese que absorve não só a separação entre o condado de Portucale e o de Coimbra mas também a oposição cultural entre o Norte e o Sul, para os integrar numa só entidade política, apesar

 

 

de nela continuarem a existir regiões com características bem diferentes umas das outras. As duas grandes regiões do Norte e do Sul, porém, tornam-se verdadeiramente complementares. Agem e reagem uma sobre a outra, como dois pólos opostos, mas indissoluvelmente ligados entre si por uma corrente que se alimenta da sua própria diferença.” (Idem, Idem: 110 e 111)

Estamos perante uma constatação de um historiador, que pela sua importância na historiografia portuguesa, por um lado não deixa margens para dúvidas e por outro não é propriamente um arabista – até pelo seu percurso pessoal e académico.

Assim, podemos afirmar, com a argumentação sólida que nos possibilita o peso científico e intelectual do Prof. José Mattoso, que terá sido decisivo para que o rei fundador de Portugal, ao instalar-se em Coimbra, lançou os alicerces que lhe possibilitaram, tanto a nível político e de exercício do poder tornar-se detentor da plena e total soberania sobre os seus súbditos, os cavaleiros vilãos de Coimbra, onde constitui o seu núcleo duro, os seus conselheiros e homens de confiança, poderosos porque próximos do poder, mas totalmente dependentes do monarca, ao contrário do que acontecia com os Ricos Homens e Infantões de Entre Douro e Minho, de quem Afonso Henriques estava anteriormente muito dependente deles; os papéis invertem-se.

Por outro lado, essa nova elite política e guerreira, segundo Mattoso, descende da poderosa comunidade moçárabe que, se de formas diversas resistiu e os seus filhos mantêm uma postura alternativa à liturgia romana então já dominante, estão imbuídos de uma aculturação incontornável da síntese cultural que o Islão fez na Península, sobretudo a partir do século IX - as milenares e magnificas culturas persa, indo e greco-romana, herdeiras do legado civilizacional iniciado na Crescente Fértil, na Mesopotâmia com o surgimento das cidades, de que já tinha então passado quase 13.000 anos. As comunidades moçárabes teriam muita importância em cidades como Lisboa, Santarém, Coimbra, Évora, ou até Santa Maria de Faro e culturalmente pouco diferem dos seus antigos irmãos convertidos ao Crescente, os muladis que Afonso Henriques vai ter a sensibilidade política e a argúcia diplomática para lhes conceder privilégios em formas de forais, como aconteceu em Almada, tudo fazendo para

 

 

os manter e ganhar a sua simpatia mas, sobretudo o seu saber, as suas capacidades comerciais, artesanais, financeiras e até artísticas. E esse argúcia que caracteriza o verdadeiro diplomata – que nos faz lembrar, nesta sua vertente o ardiloso e tremendamente imaginativo Ibne Amar – e lhe facilita a conquista de Lisboa, abandonada à sua sorte pelo senhor de Badajoz, alegando um acordo com o português; ou o célebre e silenciado pacto com o senhor de Silves e Mértola Ibne Qasī.

Então podemos concluir que o novo reino, a nova comunidade, vai nascer e tornar-se nacional alicerçado na complexidade do encontro entre o Norte com o Sul, mas onde encontramos um caldo de cultura em que a população moçárabe e muladi é francamente maioritária, grupos socioculturais que vão marcar profundamente Portugal até ao reinado de D. João II, rodeando-se os monarcas de cientistas, médicos, juristas, mas também artistas – músicos, bailarinas, poetas – da então dita minoria mourisca e nalguns casos também da judia. Para a consolidação e estruturação do novo reino foi decisiva a sua perspicácia política e visão de futuro, deste homem que fez o percurso do Norte para o Sul e foi erradamente apelidado de “mata-mouros”? Ou ter-se-á Afonso Henriques deixado deslumbrar e seduzir indelevelmente pela subtileza do Sul mediterrânico como aconteceu com a “bela” mourisca que lhe deu o infante D. Martim Chichorro? De facto este poderoso, embora aparentemente frágil, e subtil mundo do Sul era tão diverso da sociedade rústica, bem mais frugal e rural de Entre Douro e Minho onde nascera e fora menino e moço.

1.2. A Subtileza e a sumptuosidade do Sul deslumbra o Norte Rústico e

Benzer Belgeler