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As principais unidades de povoamento na região do Padauiri-Preto no período de 1930 a 1960 não são as malocas, tampouco comunidades, mas sim as colocações26 e sítios, que eram controlados por patrões que moravam e comercializavam ao longo do rio Negro. As colocações constituíram a base das primeiras unidades residenciais temporárias. Com o tempo, os moradores das colocações passaram a formar sítios e, somente depois de muito tempo, com o aval da municipalidade, alguns sítios se consolidaram como comunidades, contando também com o apoio da ação missionária salesiana, que se instala em Santa Isabel na década de 1940. Nas comunidades, passava- se a conviver de acordo com as orientações da igreja católica, cujo objetivo era concentrar os povos indígenas que se encontravam nas colocações, isto é, dispersos espacialmente. É nesse movimento de reordenamento sócio-territorial e político que a atual configuração das comunidades do Padauiri e Preto começa a tomar forma a partir da década de 1960. Não obstante, as colocações permanecem até o presente, em geral associadas a comunidades específicas, ou ainda a patrões.

A colocação27 é uma estrutura complexa formada por diversos componentes, tais como o rebolado, o varadouro, as veredas, a oficina, o barraco. Os barracos, elemento central de uma colocação, são pequenos abrigos de formato simples, abertos não mais

25 Em 1972, as grandes casas de comércio de Manaus (J G Araújo e Higson) que desenvolviam atividades comerciais no rio Negro começam a se retirar da região.

26 Em relatório de 1971, a antropóloga Adélia Engrácia de Oliveira menciona a existência de apenas uma comunidade nessa área, chamada Tapera, até hoje existente (Oliveira, 1971). Colocação é uma categoria nativa, que será explicada posteriormente.

para abrigar famílias, tal como ocorria no passado – hoje, as colocações abrigam quase que exclusivamente aqueles diretamente envolvidos na extração da piaçaba. O termo colocação, tal como usado na região do Padauiri-Preto, origina-se no linguajar dos patrões, que “colocavam” seus fregueses em determinado espaço com abundância de palmeira da piaçaba ou seringa. Hoje, no entanto, há colocações independentes associadas às comunidades, casos em que os fregueses não se sujeitam a um patrão específico, podendo trocar seu produto com alguma autonomia, como, por exemplo, trocar seu produto com o patrão que oferece produtos industrializados de melhores qualidades.

As colocações28 foram ocupadas a priori de forma sazonal, ou seja, como uma unidade de trabalho durante determinado período do ano, pois quando o produto objeto da extração se esgotava, os fregueses migravam para outras localidades sob o controle do patrão. Existem, porém, casos em que colocações se transformaram em sítios e residências permanentes, como, por exemplo, a comunidade de Campinas do Rio Preto, que de sítio se tornou a maior comunidade da região (ver capítulo II).

Uma colocação é uma área ampla de trabalho, constituindo uma estrutura que envolve vários elementos, tais como um barraco que possui o formato de um quadrado, sem paredes, somente coberto com palha de palmeira, principalmente de canarana e da própria palmeira de piaçaba. Esses abrigos eram e são construídos ainda hoje, principalmente nas proximidades dos igarapés, ou seja, próximos aos locais onde havia e há abundância de matéria prima (piaçaba, sorva, seringais, castanha etc.). Antes da obrigatoriedade de se frequentar a escola, as colocações eram ocupadas geralmente por famílias nucleares ou no máximo duas famílias, não necessariamente ligadas por laços de parentesco, quando todos os membros participavam das atividades produtivas separadamente, isto é, cada família trabalhava em sua produção. Atualmente, muitas colocações são habitadas por fregueses parceiros que deixam suas famílias na comunidade ou cidade para passar longas temporadas no meio da floresta, onde estão localizadas as colocações. Ainda que não sejam consideradas locais de residência permanente, famílias que aí trabalham desenvolvem com o tempo um sentimento de pertencer ao território, sobretudo com a domesticação do espaço e com o nascimento de um filho nesses ambientes. Certas colocações podem ser, assim, consideradas como

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De acordo com o levantamento de Vieira (2008, p. 124), existem aproximadamente quatrocentas colocações na bacia do rio Preto. Em cada colocação trabalham cerca de dois a três piaçabeiros. Contando que cada pessoa extrai até 50 kg de fibra por dia, isso resulta num total de 1.200 a 1.800 toneladas de piaçaba que podem ser extraídas nas florestas do rio Preto por mês.

patrimônio das famílias e como unidade propulsora do reordenamento territorial da ocupação contemporânea da região do Padauiri-Preto, mesmo que o patrão reivindique propriedade sobre o local. Ver abaixo, um barraco na colocação no igarapé Uirapuru no Alto Rio Preto.

Figura 02: Barraco na colocação Uirapuru no Alto Rio Preto: Foto. Augusto Nascimento

Afirma-se que a mais antiga colocação do Padauiri é Jangada, localizada na foz deste rio. Os moradores mais antigos apontam que essa colocação era muito habitada e, a partir da fixação de famílias no entorno dessa colocação, se pensou em fundar ali uma comunidade. Mas a ideia não obteve sucesso. Todavia, as famílias que habitavam a colocação Jangada foram responsáveis pela constituição da comunidade de Tapera. Registros adquiridos a partir da memória coletiva dos moradores mais antigos dão a entender que foi nesta localidade, que, a partir da década de 1950, o patrão José Bento, começou seu empreendimento no rio Padauiri. José Bento, conhecido por Zeca Bento, foi aviado da firma J. G. Araújo e se tornou famoso por ser o primeiro autodenominado “patrão de todo Padauiri”, tendo dominado todo o comércio nesta região.

O dinamismo sócio-espacial “flutuante” dessas populações levou muitas famílias nucleares a habitar outros locais. Além das colocações, os grupos locais passaram a

viver em sítios. Os sítios29 possuem uma estrutura bem mais compacta que as colocações; com casas edificadas com tábuas, com divisórias e com cobertura de palhas de piaçaba ou telha de zinco. Nos sítios, as famílias passaram a criar animais domésticos tais como galinha, pato, porco, cachorro, entre outros. Passaram a cultivar os quintais com plantas frutíferas, canteiros com hortaliças e plantas medicinais e, quando localizados em terra alta, abriam-se roças e construíam-se fornos para torragem da farinha. Também nos sítios, sob a orientação missionária, se erguiam pequenas capelas ou “casa de altar30”. Galvão (1979) faz a seguinte consideração acerca dos sítios:

Mais do que o povoado, o sítio caracteriza a ocupação cabocla do rio Negro, local ocupado por uma família e seus agregados. Estão situados, em geral, nas ilhas que dispõem de terrenos altos para as roças e, ao mesmo tempo, de várzeas, ricas em seringueiras. (...) o sítio é basicamente um centro de exportação de produtos coletados, principalmente a borracha, a castanha e a piaçaba. O comércio se faz em espécie, raramente circulando a moeda. (GALVÃO, 1979, p. 137)

Duranteo segundo “ciclo da borracha”, os sítios vieram a constituir a principal estrutura de moradia no curso dos principais rios e igarapés. Com o passar do tempo, e com a intensificação da chegada de gente do alto rio para a região do Médio Rio Negro, os grupos indígenas que já habitavam os sítios articulavam redes comerciais, alianças de casamento interétnico, alianças de compadrio com patrões, de parentesco com pessoas de outros sítios e, principalmente com moradores das sedes das cidades de São Gabriel da Cachoeira, Barcelos e Santa Isabel. Esta dinâmica permitiu, aos grupos indígenas nela envolvidos, o estabelecimento de laços sociais mais amplos, formando redes sociais com as quais possuem identidade histórica, social e cultural. De acordo com Wright (1996; 1999); Peres (2007), Andrello (2006) e Cabalzar (2009), entre outros, na maioria das situações de aliança matrimonial, os homens procuram suas esposas em grupos linguisticamente distintos do seu – exogamia linguística. Isso faz com que os casais participem de um movimento constante, realizando viagens a outras comunidades para visitar pais, sogros, irmãos e demais grupo de sua parentela.

29 A estrutura de um sítio é formada pela casa principal ou por uma casa secundária onde moram a famílias nucleares e seus agregados, uma casa/deposito, quintais com plantas frutíferas, plantações de canteiros com hortaliças, galinheiro, casa de altar quando os moradores católicos, porto.

30 Uma pequena casa que se guardam as imagens dos santos quando não há capela. Muitas das vezes as imagens foram trazidas para os sítios por intermédios de párocos das igrejas de Santa Isabel, Barcelos ou São Gabriel da Cachoeira.

Vários fatores influenciaram a aglutinação populacional multiétnica em torno de núcleos habitacionais comuns ao longo do Padauiri-Preto. A ação missionária teve seu papel decisivo quando pregava a necessidade de “juntar seu rebanho” que andava disperso no meio da floresta. A isso se somaram certas demandas dos sítios, que passavam a procurar serviços de saúde e educação. Essa junção de interesses foi decisiva para a concentração populacional de vários sítios em torno de núcleos que deram origem às comunidades. A noção de comunidade transita entre diversas acepções. No rio Negro, os missionários salesianos deram uma conotação específica para comunidade: considerando os anseios da missão católica, a comunidade representava uma unidade autônoma, harmônica e cooperativa, uma fraternidade de iguais, e tudo o que contradiz tais concepções (brigas, interesses divergentes, clivagens internas, assassinatos, feitiçaria, alcoolismo etc.) deveria ser combatido, conforme os preceitos cristãos.

Muitos autores vêm debatendo a questão da concepção da noção de comunidade. Para o caso da noção de comunidade, no que tange a região do Médio Rio Negro, as formulações de três autores parecem particularmente relevantes: Appudurai (2008), Overing (1999) e Lasmar (2005). Appudurai (2008, p. 81) considera a comunidade como uma relação social espontânea que se caracteriza por ligações recíprocas de afeição e parentesco no interior de uma tradição comum. Overing (1999), tratando dos Piaroa na Venezuela, desenvolve a ideia de “comunidade de similares” considerando os processos de vida comum ou homogeneidade comunitária:

Como veremos, o que torna os membros de uma comunidade progressivamente similares uns aos outros é um certo tipo de homogeneidade material criado pela mutualidade de vida em comum. Este é o objetivo da vida comunitária: alcançar uma segurança, e não obstante fértil, comunidade de similares. (OVERING, 1999, pp.08-09)

Para Overing (Ibid.), os membros de uma comunidade vão se tornando da mesma natureza onde são gerados, não somente por laços de parentesco, mas por um conjunto maior de partilhas e convivialidade, substância, habilidades, no intuito de alcançar uma melhor qualidade de vida para todos. Na mesma direção, Lasmar (2005) sugere que a comunidade é considerada como um grupo local constituído por parentes consubstanciais.

Figura 03: Placa no porto central da comunidade de Floresta. Foto. Augusto Nascimento

Em consonância com a concepção de comunidade proposta por Appudurai (2008), Overing (1999) e Lasmar (2005), considero que as comunidades que foram se constituindo na região do Padauiri-Preto são núcleos populacionais formados em sua grande maioria por grupos ligados por relações de parentesco e de compadrio. Do ponto de vista do espaço, as comunidades definem suas áreas de uso por marcos naturais, tais como igarapés, lagos, cachoeiras etc. Cada grupo doméstico sabe onde começa e termina seu quintal, porém não há cerca física que separa um quintal do outro. Há edificações básicas em uma comunidade: 1) a escola, 2) o posto de saúde, 3) a radiofonia, 4) a capela ou um templo de igreja evangélica, 5) a casa do motor de luz, 6) a casa de forno e 7) os centros comunitários. Em todas as comunidades visitadas durante a pesquisa de campo encontramos esses componentes. Nessas circunstâncias, a ocupação contemporânea da região do Padauiri-Preto promoveu várias mudanças, porque conjuntos de famílias indígenas oriundas de diferentes partes do rio Negro passaram a conviver em torno de uma mesma comunidade, o que infletiu na vida ritual, como veremos em outras partes desta tese.

Ao longo do tempo (primeiro e segundo ciclo da borracha, extrativismo da piaçaba, etc.), a reconfiguração territorial não cessou, sobretudo devido ao alto grau de mobilidade dos grupos locais. Na atualidade, muitas famílias estão voltando para suas comunidades de origem, ou seja, remando contra a correnteza para retornar ao território

dos seus avôs, enquanto outras estão migrando para a cidade para garantir estudos para os filhos. Muitas comunidades e sítios prósperos foram desativados31, em contraposição novas comunidades estão sendo formados, novos sítios são estabelecidos e o movimento na região do Padauiri-Preto permanece constante. A seguir, passo a focalizar mais detidamente as quatro comunidades situadas no rio Preto, afluente da margem direita do baixo Padauiri, onde desenvolvi minha pesquisa de campo. Ver na figura 01 a localização do rio Preto.

Benzer Belgeler