5.ORGANİK TARIMIN TÜRKİYE EKONOMİSİNDEKİ YERİ
5.4. Organik Tarım Ürünlerinin İç Pazardaki Durumu
Localizada numa área denominada de Paranaquera, a comunidade de Mangueira se ergueu na margem direita do rio Preto, tendo no início da sua fundação apenas três famílias, duas baniwa e uma baré. Estas três famílias vieram da comunidade de Malalahá em consequência de conflitos com o patrão. O deslocamento dessas famílias está relacionado a diversos fatores sociopolíticos, alguns já mencionados acima; todavia um fator foi determinante: a presença de uma “patroa” que não possuía o domínio dos igarapés do rio Preto e entrou em conflito com Edson Marat, do qual se tornou inimiga. A “patroa”, chamada Inalda Teixeira, apoiou a construção da comunidade de Mangueira, acentuando a querela já existente e dando maiores proporções a uma briga entre patrões que disputavam fregueses e área de exploração do rio Preto. Atualmente, Mangueira é habitada por cinco famílias, sendo duas baniwa e três baré. A comunidade já conta com os serviços do DSEI, possui uma escola de ensino fundamental, uma capela de Santo Expedito, um centro comunitário e uma casa de
radiofonia doada pela FOIRN. O administrador é um indígena baniwa cuja mãe é originária da comunidade de Campinas do Rio Preto. Este Baniwa casou-se com uma índia tukano da comunidade de Canafé e durante muito tempo foi viver nos piaçabais do igarapé Malalahá, sob o controle de Edson Marat, responsável pela sua ascensão como líder.
O processo de fissão deixou os conflitos latentes e, mesmo hoje, ainda não cessaram as querelas. Vez por outra, há uma acusação de feitiçaria por um dos lados. O estopim da fissão se deu quando o patrão Edson Marat se encontrava enfermo, e, a cada dia, a doença tomava proporções maiores por todo o seu corpo. O patrão já havia procurado médicos na cidade, participado de sessão de tratamento com o pajé, tinha sido benzido, apelado para as rezas e nada dava certo. Ele então acusou os fregueses baniwa de terem preparado algum veneno para ele durante as festas de São José, haja vista que nestas festividades todos comem da mesma comida e sentam na mesma mesa. Os fregueses baniwa, aproveitando as circunstâncias para fugir das “garras do patrão” feroz, se dispersaram de Malalahá para se tornarem “cativos de uma patroa”. O caso ainda se acirrou quando o patrão também passou a acusar os Baniwa de manterem uma dívida em Malalahá mesmo trabalhando para outro patrão. O que eles não sabiam é que a dívida era elástica, como se fosse um pagamento para São José: pois, de acordo com o patrão, durante os festejos haveriam sido adiantadas muitas mercadorias para a oferta ao santo, garantindo assim a festa do ano seguinte. Os fregueses estavam cientes da dívida, porém não sabiam que teriam que pagar sobre toda pressão do patrão. Dessa maneira, os fregueses baniwa não conseguiram liquidá-la até hoje, o que aumenta ainda mais as tensões entre o patrão e os Baniwa de Mangueira.
Depois que os Baniwa migraram para Paranaquera para erguer a comunidade de Mangueira, duas famílias baré que moravam em Malalahá desceram o rio para se juntar a eles, fortalecendo a recém-formada comunidade. As cinco casas existentes em Mangueira são monofamiliares e foram edificadas com tábuas e cobertura de palha de piaçaba. A população é de trinta e duas pessoas, sendo a maioria baré. A atividade predominante é a extração da piaçaba trocada por mercadorias exclusivamente sob o controle da “patroa local”. Pela comunidade ainda circulam alguns “regatões42”, que,
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Regatões são pequenos comerciantes itinerantes que percorrem os rios para comercializar ou trocar produto da floresta com mercadoria industrializada. A diferença do regatão para o patrão é que este último mantém vínculo “trabalhista” sobre os fregueses, através das dívidas e do financiamento, enquanto o regatão comercializa com qualquer pessoa sem nenhum vínculo.
sob os olhares atentos da “patroa local”, negociam produtos que geralmente não são trazidos pelos patrões, tais como redes, botija de gás, sapatos, cachaça, entre outros.
O “patrão feroz43” de Malalahá amaldiçoou a comunidade de Mangueira, afirmando que ela não duraria mais de dez anos e que, uma vez fracassada, os próprios Baniwa iriam se destruir com veneno e feitiçaria. Quando isso acontecesse, os fregueses baniwa sobreviventes viriam procurá-lo, porque o patrão Edson Marat, patrão supremo de Malalahá, avisa que: “seus fregueses sabem que ele tem parte boa, assim com tem todos os animais, os animais tem seu lado bom e seu lado feroz, tem carne boa e carne ruim que ninguém aprecia”. Na visão dos fregueses, “ele é um patrão do jeito dele”, isto é, não é meramente “feroz”, pois o patrão tem seus momentos de mansidão; quando senta com os fregueses para almoçarem juntos, comerem as mesmas coisas, ambos participando das mesmas brincadeiras, etc. Aqui entra a questão do amansamento, o patrão não é meramente “feroz”, pois ele se transforma quando compartilha alimentos com seus fregueses. Em Malalahá, os fregueses costumavam reclamar que o patrão Edson Marat raramente almoçava a mesma comida dos fregueses, tampouco permitia que os fregueses pudessem almoçar sentados na mesa do patrão, compartilhando o mesmo espaço. Tal situação fazia com que os fregueses olhassem o patrão como uma pessoa potencialmente agressiva:
Se ele não come as mesmas coisas que eu como, então ele deve ser diferente de nós. Se o patrão não gosta de sentar com nós fregueses então é porque ele acha que nós somos bichos do mato, bicho que tem fedor, igual a porco do mato, mambira. Desse jeito não passa confiança, fica sempre pensando coisa de nós e nós também vamos pensar dele também. É bom mesmo saber que ele é do nosso jeito, mas ele não gosta de se misturar muito não. Ele é onça? Ele é Deus? Não! deve ser igualzinho a nós, mas agora a posição dele é de patrão. (Alberto Nunes Baré, Comunidade Malalahá, rio Preto).
A alimentação, a saber, a hora e as pessoas com quem se divide o alimento estão relacionadas aos processos de socialidade e convivialidade muito discutidos na literatura etnológica das terras baixas da América do sul, sobretudo nos trabalhos de Overing (1999, 2002) e Villaça (1999) entre outros. Mangueira apresenta uma significativa mobilidade sócio-espacial, fluidez, e um amplo processo de socialidades com seres humanos de diferentes ordens, ou como enfatiza dona Valdiza de Jesus, “outras gentes”. O trabalho exclusivo no extrativismo da piaçaba requer que as pessoas passem a maior
43 Termo sugerido por Bonilla (2005) para designar os patrões que aprisionam fregueses em dívidas invisíveis. Dessa forma, tomo a designação patrão feroz para demonstrar o quanto a região em estudo mantém certo grau de aproximação analítica com os indígenas do sudeste amazônico e suas relações com os patrões.
parte do tempo nos igarapés e piaçabais, em proximidade a outros seres da floresta e dos rios. São constantes os “encontros na floresta” e os “encontros nos rios” com seres não humanos, dentre os quais: um “homem gigante”, “pescadores encantados”, “gente- peixe”, “gente-boto”, entre outros. Por exemplo, os moradores de Mangueira abandonaram a comunidade por três meses, porque um homem baré sonhou que a “patroa” que ajudou a fundar a comunidade havia sido encontrada pelo “homem gigante do rio Negro”, que lhe aprisionava querendo tomar o lugar de patroa para ele próprio e se tornar o maior patrão do rio Preto. Sem notícias do paradeiro da mulher, os moradores migraram para a cidade na busca de notícias da patroa e para informar-lhe do infortúnio44 que poderia lhe acontecer em decorrência do sonho do homem baré.
Durante o ano, são realizadas oito festas de santo nas calhas do Padauiri e Preto, fazendo com que as pessoas circulem de uma festa a outra. Na época dos festejos, a comunidade de Mangueira fica praticamente abandonada, pelo fato de abrigar população relativamente pequena.
Mesmo com todas as adversidades, os moradores de Mangueira seguem firmes como comunidade, mantendo autonomia em relação às demais comunidade do rio Preto. Todavia, Mangueira continua sendo (no rio Preto), uma comunidade instável, por se caracterizar como uma comunidade de exploração, isto é, uma comunidade onde as pessoas estão ali para trabalhar no regime de aviamento. Veja o quadro diagramático abaixo.
Figura 09: Quadro diagramático da relação de filiação de grupo
44 Dias depois, o Ministério Público Federal expediu ordem para que todos os patrões deixassem de trabalhar na piaçaba enquanto não regulamentassem a situação dos fregueses. Mesmo sabendo que os fregueses seriam beneficiados com a ação do MPF, os indígenas ficaram do lado da “patroa” que lhes alimentava na cidade naquele momento. Sobre as ações do MPF e o trabalho no piaçabal abordaremos no quarto capítulo desta tese.
Os Baniwa foram os fundadores da comunidade; no entanto, atualmente, os Baré são predominantes. No rio Preto há uma predominância dos Baniwa casar com Baré, mas no geral, os Baniwa estão casando mais com Baniwa. Todavia, as pessoas baré são as que mais casam com pessoas de outros grupos. Dessa maneira, devido, a presença predominante de Baré em todas as comunidades do rio Preto, e pelo histórico de se encontrarem na região a mais tempo que Baniwa, Tariana e o Tukano Oriental, abriremos uma seção para apresentar de forma específica, os Baré.
A seguir, passo a apresentar em um capítulo específico, a comunidade de Campinas do Rio Preto por esta comunidade ser a que mais permaneci durante a pesquisa de campo, assim como a sua população é majoritariamente formada por pessoas baré. Também, a maioria dos relatos apresentados na tese é oriunda de pessoas moradoras dessa comunidade.
Percebe-se que nessas comunidades a figura do patrão se apresenta com frequência. Dessa maneira, ele é visto ora feroz, ora amanso, amistoso e ora algoz, porém mantendo relações imprescindíveis que ultrapassam a relação meramente econômica, como veremos.
CAPÍTULO II
2. A COMUNIDADE DE CAMPINAS DO RIO PRETO: a cidade encantada e
dos encantes
Neste capítulo apresento a comunidade de Campinas do Rio Preto, local onde permaneci boa parte do tempo durante a pesquisa de campo. O espaço onde se assenta a comunidade é considerado um lugar de encantes pelo fato de estar localizado em cima de uma cidade encantada. Nesta perspectiva, abordaremos a forma como seus habitantes se arranjam no espaço entre a cidade encantada e os encantes e como é entendida essa relação. Outro aspecto importante é o sistema econômico local e as relações entre patrões e fregueses que ultrapassam o viés econômico, pois Campinas do Rio Preto é um local privilegiado devido a sua localização sócio-espacial, ou seja, se posiciona no encontro entre os dois dos principais rios da microbacia (Preto e Padauiri). Nesta confluência entre os rios navegam todos os tipos de gente: patrões, fregueses, regatões, yanomami45, gente do governo, missionários, turistas (brasileiros e estrangeiros), pesquisadores, gente do fundo, entre outros, fato que a torna este um espaço local privilegiado para a observação.
Dessa maneira, procurei realizar uma etnografia da comunidade, apresentando a história da ocupação e fundação, a organização social, as unidades de produção e consumo e alguns elementos intrínsecos no contexto do rio Preto, tais como a “poligamia encantada” e o campo relacional que os moradores estabelecem com a cidade encantada.