5.ORGANİK TARIMIN TÜRKİYE EKONOMİSİNDEKİ YERİ
5.6. Organik Ürünlerin Maliyet Unsurları
A região do Médio Rio Negro apresenta uma organização social com alto grau de autonomia dos grupos domésticos e um tipo de autoridade descentralizada cuja força está entre os chefes dos grupos domésticos. De forma geral, a organização social e as formas de casamento atuais merecem um destaque por, acredito eu, ainda não terem tido a devida descrição na literatura etnológica. Primeiramente, porque a regra da exogamia linguística não se aplica aos Baré, população majoritária na região; e segundo porque a organização sociopolítica vem passando por novos arranjos, como, por exemplo, a disputa por cargos na FOIRN e nas associações de base entre outras.
As famílias nucleares possuem uma relativa autonomia econômica (meios de produção e liberdade de trabalho) e política; no entanto dependem da comunidade para o encaminhamento de certos assuntos, como, por exemplo, a realização das festas de santo, as ocupações do espaço territorial, as negociações com os caraiu, as representações nas estruturas das associações regionais e locais. Mas não existe uma chefia centralizada.
Do ponto de vista geral, a própria comunidade elege um representante para cuidar dela. Esse representante, a quem os moradores denominam de administrador, não tem nenhuma ligação com o poder público municipal. Sua manutenção nessa posição depende da vontade dos membros dos grupos domésticos, que definem os rumos do administrador, assim como apontado por Nicolas JOURNET (1989) para os Coripaco da Colômbia:
El cargo de capitã [administrador] no es, por lo general, muy codiciado. Es um hecho que el ejercicio de la autoridade sobre la comunidad es requerido de forma excessivamente esporádica. Cada família deserrolla sus atictividades de maneira independiente y son pocos los conflictos y reclamos. Si surge uno el capitán podrá ser qui notifica a uma de las partes contrincantes su deber de abandonar el Pueblo, pero él no lo hará sin antes consultar a los otros jefes de famílias; su única autoridade ejecutiva es la que el proporciona el respaldo de la comunidade. Es ése el papel principal del capitan: ser el portavoz de la comunidade tanto hacia dentro como hacia afuera. (JOURNET, 1989, p. 140)
O administrador é o responsável pelas negociações com os caraiu, bem como pela manutenção da organização comunitária, isto é, limpeza, reforma de casas, controle dos objetos e equipamentos de uso comum da coletividade, tais como o motor de luz, a bomba de água, o barco, entre outros. O administrador não recebe salário, todavia ele se
compromete a assumir o cargo perante as famílias, que a qualquer momento podem destituí-lo do cargo. Anualmente, o administrador presta contas para os moradores, quando eles se reúnem para fazer avaliação dos principais problemas que a comunidade enfrentou durante o ano; e geralmente é reconduzido ao cargo. Somente em situações inusitadas, por exemplo, a não transparência de negociações com os turistas, o emprego indevido de recursos, uma festa de santo sem muitos atrativos, entre outras, é que ocorre o afastamento de um administrador e procede-se a escolha de um substituto.
As pessoas gostam de lembrar que, em tempos passados, o administrador passava mais tempo no cargo, pois não havia muitas coisas para resolver, não havia tanta desconfiança, bastava saber conduzir a comunidade a não ficar completamente dominada pelos patrões e organizar uma boa festa de santo:
Moço! Antigamente aqui nós não ficávamos trocando toda hora de administrador. Veja o meu sogro, Sr. Caetano, foi administrador da comunidade desde os tempos dos padres que mandavam aqui. Ele saiu porque não dava conta mais. No tempo dele moço, não tinha mal tempo não, ele se esforçava com o apoio da comunidade para fazer uma festa muito bonita para o santo. Tinha fartura, porque ele sabia organizar, sabia trazer gente boa para cá, patrão aqui não ficava botando os dedos de fora não, eles ajudavam, mas não mandavam na gente não! Agora o administrador não segura muito tempo não, logo a comunidade bota para fora, porque não sabe trabalhar, não sabe a nossa importância, não sabe mesmo. Que dá importância mais para os de fora do que para os de dentro. Então moço, olhe onde nós ficamos? Patrão querendo mandar aqui, caraiu ensinando o jeito que devemos plantar e cuidar da roça. Esse povo de fora tem que saber é o nosso jeito. (Antônio Buyawaçu, Comunidade de Campinas do Rio Preto, agosto de 2014).
O administrador é assessorado por uma equipe local composta de uma secretária, dois conselheiros e um catequista. A secretária cuida dos papéis e documentos, bem como ajuda a controlar os bens de uso coletivo, tais como casa de forno, ferramentas, barcos, motor de luz, as casas coletivas, etc. O conselheiro, geralmente é uma pessoa mais idosa, que pode ser um pajé (benzedor ou rezador), que guia o administrador no campo espiritual, bem como aconselha quando é chamado para opinar sobre questões intrigantes como, por exemplo, quanto ao aparecimento de uma enfermidade que se espalha por toda comunidade, quanto a uma pessoa que falece e não são esclarecidos os motivos da morte, é o conselheiro que tem o poder de orientar. Os conselheiros atuam mais comumente nas questões referentes à estrutura interna da comunidade.
No que tange à escolha do catequista, antigamente ele era escolhido pelos padres, mas atualmente é a própria comunidade que o escolhe. Ele atua também como
uma espécie de orientador-conselheiro, pois opina muito em questões internas. Ele é responsável pela coordenação dos cerimoniais coletivos, tais como o “circuito da esmola50” entre os rios e na comunidade, o batismo de água, o batismo de nome, as ladainhas e as reuniões bíblicas que acontecem todos os domingos pela manhã.
Outro tipo de organização presente entre os moradores de Campinas do Rio Preto são as associações indígenas estatutárias. No rio Preto, a Associação das Comunidades Indígenas do Rio Preto – ACIRP – filiada a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro – FOIRN - congrega quatro comunidades: 1) Campinas do Rio Preto, 2) Mangueira, 3) Malalahá e 4) Águas Vivas. Os representantes da ACIRP são eleitos em assembleia geral, quando todos os moradores da calha do rio Preto têm direito a voto, bem como podem se candidatar a alguns dos cargos da Associação. A estrutura da ACIRP é composta de uma diretoria executiva formada pelo presidente, o vice-presidente, uma secretária, quatro membro do conselho fiscal e dois tesoureiros. O mandato de cada diretoria é de quatro anos, sendo possível, em assembleia geral, a uma única recondução ao cargo por mais quatro anos.
Além das organizações acima citadas, em Campinas do Rio Preto existem outros tipos de representatividade: 1) coordenadora das mulheres e 2) coordenador os esportes. A coordenadora das mulheres tem o papel de manter um diálogo com o trabalho artesanal das mulheres locais e com as organizações e lojas nas cidades que negociam peças de artesanato. Essa coordenação também se responsabiliza por participar dos eventos na cidade, quando estes dizem respeito à produção em geral, por exemplo, discutir valor de artesanato, da piaçaba, da farinha entre outros. Essa coordenação é responsável ainda pelo comércio de artesanato na cidade, bem com pelas exposições que acontecem fora do rio Negro.
O coordenador de esportes, por sua vez, é o responsável por organizar as competições esportivas locais. É a pessoa que organiza a equipe de futebol da comunidade para participar de competições no âmbito do rio Negro. Durante os festejos de santo, essa coordenação organiza uma competição de futebol em que participam as comunidades aliadas. As competições de futebol estão se tornando a parte mais importante dos festejos de santo, exemplo disso é que muitas comunidades participantes dos festejos se retiram da comunidade quando sua equipe é desclassificada da competição de futebol. Este comportamento evidencia o significado da competição
50 Abordaremos com mais detalhes sobre o “circuito da esmola” entre os rios e na comunidade no terceiro capítulo.
enquanto um dos maiores atrativos dos festejos de santo, pois, além do lazer, a premiação tornou-se bem atraente. Entre os prêmios encontramos gado, embarcações e, principalmente, prêmios em dinheiro com valores que ficam em torno de quatro mil reais para o vencedor. Geralmente, esse dinheiro é cedido por uma pessoa pública da cidade (vereador ou prefeito).
Os professores, agentes de saúde e microscopista fazem parte dos cargos remunerados que são geralmente indicados pelo poder público municipal. Campinas do Rio Preto conta com uma escola edificada em alvenaria que comporta duas salas de aula onde funcionam o ensino fundamental e o médio na modalidade de ensino tecnológico. São quatro professores para atender a um contingente de cinquenta e dois alunos, sendo a maioria deles matriculados no ensino fundamental. Os professores também auxiliam o administrador quando este os aciona para orientar em algumas questões, por exemplo, escrever ofícios, cartas que são geralmente encaminhadas ao poder público. A comunicação entre comunidades se dá por via direta ou por chamadas na radiofonia, que funciona diariamente em horários específicos e restritos.
O agente de saúde e o microscopista prestam serviços diariamente à comunidade. Entre as principais atividades desses agentes estão fazer o controle das enfermidades e classificá-las de acordo com a sua complexidade, para, assim, poder encaminhar à cidade os casos considerados mais complexos e que, portanto, requerem um tratamento mais rigoroso. O microscopista colhe amostras de sangue e analisa lâminas de pessoas que apresentam febre constante, com o objetivo de identificar se elas contraíram malária, um mal muito comum na região. A própria comunidade conta com um microscópio simples, não eletrônico, mas suficiente para avaliar e detectar as infecções de quadros de malária e outras enfermidades. Além desses dois profissionais da área de saúde, a comunidade conta com os trabalhos de duas parteiras, Suzete e Lucimar, ambas do povo baré. Tais parteiras prestam auxílio durante o pré-natal das futuras mães, bem como no trabalho de parto, em caso de partos naturais ocorridos na própria comunidade. Elas utilizam basicamente medicamento fitoterápico, abstendo-se do uso de alopatia. As parteiras atuam ainda na condução de ladainhas durante as festas de santo e coordenam o cerimonial de levantamento e derrubada dos mastros, como veremos no capítulo três.
A comunidade conta com os serviços de dois pajés (benzedor e rezador) que auxiliam nos benzimentos dos alimentos, das roças, controlam os encantados, são
mediadores durante o batismo de água e realizam tratamento de enfermidades causadas por encantes e feitiçaria.
Os processos de trocas e alianças trouxeram o xamanismo para a comunidade, que se faz presente na figura de um xamã tuyuka que já conviveu com os Yanomami e aprendeu a usar o paricá. Desde 2012, este xamã passou a conviver com os Baré do rio Preto. Ele ainda não se considera um xamã real pelo fato de seu avô ainda estar vivo e, de acordo com a regra de transmissão de conhecimentos tuyuka, um aprendiz não pode tomar posição enquanto o seu mestre permanecer vivo, assim sendo, só passará a ser um xamã, de fato, quando seu avô vier a falecer:
Eu ainda sou um baya, sou um aprendiz, mas já sei muitos ensinamentos. Sabe, na nossa vida de tuyuka, as coisas não podem ser por cima das outras, nós tuyuka obedecemos aos que se posicionam a cima, não é no céu não, é na própria vida dos tuyuka. Eu já sei muitos dos conhecimentos do xamã, sei a origem de cada coisa, porque para ser xamã tem que saber a origem das coisas, porque são nas coisas do mundo que nós buscamos percorrer para encontrar a perseguição que vem para o nosso mundo. Mas tem muitas coisas de um xamã, mas quero ficar por aqui, por que baya tem que aprender mais. (Gilvan Tuyuka, comunidade de Campinas do Rio Preto, Agosto de 2014).
Considero essa situação, diferente daquela descrita por Maia Figueiredo (2009) que denominou de “xamanismo menor” certas práticas baré. Procuro me distanciar de nomenclaturas como, “menor”, “pajé verdadeiro”, por acreditar que os Baré praticam um xamanismo, como confirmado por Antonio Buyawaçu, do jeito deles: “vocês têm que entender que as coisas aqui são do nosso jeito”. Nesta mesma linha de raciocínio, incluem-se os bancos de madeira feitos pelas populações indígenas do rio Negro, que são comumente conhecidos no rio Negro como “bancos tukano”. Uma vez cheguei para um artesão baré e perguntei se ele fazia “banco tukano”. Ele me respondeu que não, mas fazia “banco baré”, pois ele era um índio baré e por que ele deveria fazer um “banco tukano”? O artesão me respondeu que as coisas que existem na vida deles, por mais que pareçam como coisas de outros povos indígenas, dos caraiu, no fundo elas “são do jeito deles”. Essa expressão “do nosso jeito” é bastante comum entre os Baré. As questões pertinentes à maneira peculiar denominada “o nosso jeito” e o xamanismo entre os Baré, serão abordadas no terceiro capítulo.
Figura 11: Na esquerda um banco tukano, na direita um banco baré em construção no formato de uma paca.