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5.ORGANİK TARIMIN TÜRKİYE EKONOMİSİNDEKİ YERİ

5.5. Organik Pazarın Desteklenmesi

Localizada na margem direita do rio Preto,a comunidade é formada basicamente por uma grande família baré, embora conte também com um número reduzido de indígenas de outras etnias.

A história da comunidade está ligada diretamente à história da vida do Sr. Caetano de Jesus, que nasceu no rio Preto, no igarapé Bibiano, localizado na margem esquerda do curso médio deste rio. Seus pais vieram do alto rio Negro – Cucuí - para

trabalhar nas frentes extrativistas da borracha e da piaçaba. Casou com Luiza, uma indígena Curipaco que habitava a região de Maroa na Venezuela e fora forçada a descer o rio Negro ainda quando criança. Ela havia sido adotada pelo seu tio materno depois que seus pais foram assassinados pelos comerciantes que recrutavam indígenas para trabalhar na extração da borracha no início do século XX.

Antes de estabelecer moradia no sítio Campinas, Dona Luiza e Sr. Caetano de Jesus residiam no igarapé Bibiano, onde nasceram três dos seus onze filhos. Somente depois que as crianças estavam crescidas, a família migrou para a colocação do Bom Jesus, no baixo Padauiri, onde nasceram os outros filhos do casal. Nessa localidade, moravam junto de uma pequena parentela, como os irmãos e cunhado do pai adotivo da sua esposa, dona Luiza. Sr. Caetano de Jesus quando da minha primeira passagem pelo rio Preto em 2010, já debilitado de um derrame, auxiliado por uma das filhas nos informou que a região do Médio Rio Negro e rio Preto na década de 1940 já era ocupada por famílias de baniwa e tukano, mas também já havia vários patrões por lá que circulavam a região mapeando áreas de piaçabais. A comunidade de Tapera, a mais antiga do Padauiri já despontava como uma área de concentração de muitos patrões. Eles afugentaram muitos indígenas que tomaram direção rio acima. Essa comunidade já foi referência no comércio local e no seu porto havia embarcações de grande porte que transportavam borracha e a piaçaba para Manaus e traziam de lá uma vasta quantidade de mercadorias industrializadas. Tapera fornecia mercadorias para grande parte das localidades no Médio Rio Negro através do aviamento para muitos fregueses indígenas. Os moradores de Tapera se dedicavam mais ao trabalho no seringal, não dando muita importância para a piaçaba; por esse motivo, poucos se aventuravam em construir sítios na calha do rio Preto, pois o referencial de moradia era a comunidade que se destacava pela sua prosperidade econômica, e que quase chegou a se tornar cidade devido a sua importância socioeconômica para a região do rio Negro.

Sobre os Yanomami, o Sr. Caetano de Jesus afirma tê-los conhecido no final da década de 1950, “eles estavam para cima do rio”, pois as pessoas tinham muito medo de subir o rio Preto devido à “agressividade” dos Yanomami, que eram temidos na região. Na década de 1960, “os Yanomami do Marauiá vinham para negociar espingarda, panela, machado, vinha só fazer troca”. O Sr. Caetano ressaltou que os Yanomami sempre varavam o rio Preto e o igarapé Xiliaru na proximidade de Malalahá. A aproximação do patriarca de Campinas com outros povos sempre foi uma constante. Ele via nos Yanomami a condição mais baixa de índios e rejeitava a aproximação; em

contrapartida, afirmou que era melhor se aproximar dos caraiu que falavam no rio negro duas línguas que todos entendiam: a língua portuguesa e o nheengatu.

Quando Caetano de Jesus chegou à Campinas compreendia a língua dos baniwa, com quem conviveu muito tempo no igarapé Diogo, no Médio Rio Preto. Ele também falava o nheengatu, mas com o passar do tempo e o contato com os patrões e missionários esqueceu a língua dos baniwa. Depois passou a falar somente o nheengatu e a língua portuguesa, e assim também aconteceu com sua esposa, Dona Luzia, que falava castelhano e a língua arawak dos Coripaco, passando a falar o nheengatu e à língua portuguesa.

Caetano de Jesus foi apadrinhado por José Bento, um dos poderosos patrões ocupantes do rio Preto na contemporaneidade e que manteve uma forte parceria com a Firma J. G. de Araújo. Quando Sr. José Bento faleceu ficou uma indefinição quanto à ocupação das terras do rio Preto que formavam o seu domínio. Houve algumas querelas com Olávio Bento, neto de José Bento, por disputas de terras que até hoje não foram resolvidas. O Sr. Caetano começou trabalhando como freguês e depois se tornou gerente do patrão José Macedo; tal patrão mantinha uma casa no sítio Campinas, mas não residia no local, a casa era apenas para dar pouso quando navegava pelo rio Preto.

Antônio Buyawaçu comentou que era muito perigoso trabalhar no comércio, porque nos anos de 1960 e 1970 havia muito contrabando de armas da Venezuela e Colômbia para o Brasil. Os contrabandistas trocavam armas por alimento colocando em risco a vida dos indígenas, patrões e regatões da região:

Isso era uma prática ariscada, porque nós indígenas poderíamos ser confundido com bandidos, porque os contrabandistas tinham armas muito potentes. Os fiscais do governo não queriam saber não, se encontrassem os indígenas, os patrões e os regatões com armas era complicação séria, a gente era preso como bandido. Os contrabandistas queria comer, trocavam armas por farinha, por frutas que a gente trazia das nossas roças. Nem todos aqui tinham a coragem da fazer esse tipo de negócio, mas o senhor sabe né! A gente também precisava, a gente ficava também com dó dos homens vendo o jeito deles na fome. (Comunidade de Campinas do Rio Preto, agosto de 2014).

Na década de 1970, no sítio Campinas só existia quatro casas: Sr. Caetano de Jesus morando com a sua esposa e oito filhos, os pais adotivos da dona Luiza e os patrões Fernandes Guerra e José Macedo, este último permanecendo somente durante suas passagens pelo rio Preto.

No ano de 1971, após uma querela por causa de “fuxico” relacionado ao contrabando de armas, o Sr. Caetano assassinou o pai adotivo da Dona Luiza. Na ocasião, ele ficou recluso em uma delegacia na cidade de Santa Isabel durante dois anos, quando foi resgatado pelo patrão chamado Araquém, que pagou fiança pela liberdade do freguês. Depois Sr. Caetano de Jesus ficou “preso” nas garras desse patrão, virando freguês e trabalhando arduamente nos piaçabais para pagar a dívida que contraíra junto a ele, tendo se libertado somente três anos depois quando o patrão faleceu e os seus herdeiros o liberaram da dívida, procedimento não comum na região, pois quando o patrão ou o freguês perece, o crédito ou a dívida é repassada para os parentes.

Nos finais da década de 1970, o poder do patrão mais forte da região, José Macedo, havia diminuído e boa parte dos fregueses dele migrou para as mãos de novos patrões que iam surgindo, ou seja, é um período em que houve um afrouxamento da patronagem por causa de circunstâncias adversas que acometiam a região do Médio Rio Negro, tais como, a aproximação com as cidades, pois com a “facilidade” em adquirir motor combustível, os indígenas passaram a frequentar com mais intensidade as cidades.

Esse contexto ampliou relações sociais, por exemplo, a aproximação com os comerciantes das cidades, que nesse período começavam agenciar os fregueses, principalmente, aqueles que estavam solicitando aposentadorias pelas vias da previdência social nacional.

No final da década de 1970, Caetano de Jesus ficava num movimento pendular de idas e vindas para a cidade de Santa Isabel do Rio Negro para visitar parentes, principalmente os irmãos de seu pai que passaram a habitar em sítios abaixo de São Gabriel da Cachoeira. Nessas idas e vindas ele foi convencido pelos seus tios que teria que internar seus filhos no colégio dos salesianos em Santa Isabel do Rio Negro, com o objetivo de educá-los e lhes dar “civilidade”. Dois dos seus filhos estudaram no internato Salesiano de Santa Isabel, que foi construído na década de 1940. Depois que a família se assentou no sítio Campinas, os outros filhos passaram a ser alunos em regime de internato da escola salesiana na cidade de Santa Isabel46. Os filhos que se encontravam internos na escola Salesiana de Santa Isabel somente regressaram para o

46Dentre os principais colégios estabelecidos pelos Salesianos no rio Negro está o de Santa Isabel, criado em 1942. Neste e em outros centros educacionais, os povos indígenas foram sendo controlados e influenciados pela ação dos missionários, pautada, sobretudo pela “educação” das crianças indígenas.

rio Preto no início da década de 1970, quando viraram fregueses e passaram a trabalhar no regime de aviamento sob a custódia dos patrões.

Sr. Caetano, quando da minha primeira passagem pelo rio Preto em agosto de 2010, me relatou, com auxílio de uma das filhas, os vizinhos com quem se relacionava na época que chegou à Campinas e listou os primeiros patrões que conheceu. Enfatizou que tinha como vizinhos, a família do José Marat e o Gabriel da Silva; este último migrou para a cidade no início dos anos de 1970 para colocar os filhos na escola. Apontou que os patrões Osvaldo Bento Macedo e Arnaldo Reis foram os primeiros com quem começou a se relacionar. Relatou-me também sobre o Antônio Moraes, conhecido como “o patrão do demônio”, assim como lista a relação de patrões encantados do rio Negro. Falou também que foi gerente do patrão José Macedo, um patrão forte que era aviado da firma J. G. Araújo. Relacionou uma lista47 de patrões que conheceu e outros que havia escutado a fama pela boca de outras pessoas.

De acordo com relatos do Sr. Caetano de Jesus, em 1960 passou um barco com inspetores do Serviço de Proteção ao Índio – SPI – para cadastrar os moradores do rio Preto como população indígena. Na década de 1990, veio um grupo de pesquisadores da Fundação Nacional do Índio – FUNAI – e classificou sua esposa, dona Luiza, como indígena pertencente ao grupo baré da Venezuela, quando na verdade ela era Coripaco. Somente na década de 1980, Campinas do Rio Preto passou a ter status de comunidade, antes era assistida pelos padres da paróquia de Barcelos, que forneciam medicamentos e auxílios na escola e no catecismo. Para Campinas se tornar comunidade, houve um processo duradouro. Esse processo foi mediado pelos missionários salesianos na pessoa do padre José Schneider e da irmã Maria Rosa, ambos da diocese de Barcelos. No ano de 1985, a localidade foi reconhecida como comunidade e assistida com alguns benefícios públicos, tais como uma escola e um posto de saúde.

O primeiro administrador daquela comunidade foi justamente o Sr. Caetano de Jesus. Na sua administração, as pessoas trabalhavam arduamente e a produção era levada para a feira da Igreja em Barcelos, que recebia produtores e extrativistas do interior para vender seus produtos. Nessa época, ele não deixava as coisas só na mão do patrão. O segundo administrador foi seu filho mais novo, chamado José Melgueiro,

47R. F Oliveira Reis; Thomar; Oswaldo Bento (Bento & Cardoso); Tapera, Santa Isabel; Luís Manoel Peres; Vista Alegre; Nair de Sá Viana; Céu Aberto; José Rodrigues Bento; São José, Nova Vida, Tapera e Rio Preto; Antônio Cavalcante Sobrinho; Padauiri; Noêmia Macedo Bento; Tapera; Atílio S; Padauiri; Alcibíades Feitosa Padauiri; Abílio Cavalcante; Padauiri; Almerinda de Lacerda; Padauiri; A. S. da Silva; Floresta, Augusto Lacerda – Médio Rio Negro, Padauiri e Preto.

apelidado de Zezão, que administrou a comunidade por quatro anos. Como marco histórico da sua administração, governou no período da gestão do prefeito de Santa Isabel chamado Rubens Pessoas. Nesse período (1990-1994), a prefeitura de Santa Isabel passou a assumir a escola e o posto de saúde, que eram assumidos antes pela diocese de Barcelos.

A história de sucessão dos administradores da comunidade de Campinas está relacionada diretamente com os filhos do patriarca Caetano de Jesus; desde o período em que Campinas do Rio Preto passou para a categoria de comunidade, tem sido administrada pelos filhos ou genros dele. O primeiro professor e catequista da comunidade foi o filho mais novo, o Zezão. Ele exerceu a função de catequista quando se iniciou a construção da nova capela com recursos do município de Santa Isabel. Além do administrador, catequistas e dos professores, existem ainda as funções de líder dos jovens e líder da limpeza, cargos eletivos que têm a duração de quatro anos para cada mandato.

No ano de 1996, uma epidemia de cólera vitimou seis pessoas moradoras de Campinas do Rio Preto. As pessoas abandonaram, por dois meses, o local, ficando somente o seu fundador, argumentando que não poderia ele abandonar a comunidade que ajudou a fundar. Nesse período, houve rumores de que Campinas do Rio Preto iria ser habitada somente por encantados, haja vista que a localidade está assentada em cima de uma cidade encantada e, sobretudo, que seu fundador ter pacto com encantados, pois muitos moradores no rio Preto têm o conhecimento que Sr. Caetano de Jesus possui esposa, filhos, cunhados, enfim, uma família no “mundo do fundo”.

Atualmente, a comunidade se define como um aglomerado de famílias majoritariamente pertencentes ao povo baré; no entanto, há, em menor número, pessoas pertencentes a outros povos, tais como Baniwa e Tariana (Arawak), Tuyuka, Tukano e Pira-tapuia (tukano oriental).

Figura 10: quadro diagramático da comunidade de Campinas do Rio Preto.

A comunidade é formada por uma rede de famílias ligadas por relações de parentesco consanguíneas e afins cuja rama48 de sustentação foi iniciada quando da aliança entre Baré e Coripaco, representada pelo gráfico acima e a partir de Sr. Caetano de Jesus e dona Luiza Melgueiro.

Em relação à política de vizinhança, a comunidade é centrada na família do Sr. Caetano de Jesus, que procurava, quando vivo49, manter uma coesão entre seus parentes.

Nos últimos anos houve um acelerado processo de fissão. Cinco famílias abandonaram a comunidade depois de uma querela envolvendo acusações de feitiçaria entre os filhos menores do patriarca (Zezão e Negão) e o cunhado, um índio baniwa conhecido na região como Antônio Catingueiro. O grupo dissidente desceu o rio e atualmente vive na ilha Nova Vida no rio Negro, próxima à foz do rio Padauiri, quando ora e outra protagonizam conflitos por questões, por exemplo, acusação de usar abusivamente dos recursos naturais, utilizar práticas de feitiçaria, entre outras; mas também confraternizam nas festas de santos e nos circuitos dos campeonatos dos jogos de futebol do rio Negro.

48 Categoria local para designar uma rede de parentelas. O termo rama está associado, aos ramos que o pé de batata apresenta, de forma vesicular ligada às ramas configurando, a partir de uma matriz, um embrião disseminador.

Benzer Belgeler