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ULUSLAR ARASI İLİŞKİLER VE TERÖRİZM….…

Celebrado em 9 de janeiro de 1872, o Tratado de Paz e Amizade Perpétua entre o Império do Brasil e a República do Paraguai, também conhecido como Tratado Cotegipe-Lozada, restaurou a normalidade das relações diplomáticas entre Assunção e Rio de Janeiro; instituiu o pagamento de indenização dos gastos de guerra do governo imperial e dos danos às propriedades públicas e privadas, a ser realizado pelo Estado paraguaio; reafirmou a liberdade de navegação nos rios da Bacia Platina; e por fim, o Império do Brasil, pelo artigo 17, comprometeu-se a garantir a independência da República do Paraguai (BRASIL, 1872, p. 283-287)158.

Logo após a assinatura do Tratado Cotegipe-Lozada, as autoridades do Rio de Janeiro e de Assunção iniciaram as negociações em torno das fronteiras. A posição inicial brasileira era baseada no artigo 16 do Tratado da Tríplice Aliança. As autoridades paraguaias refutaram essa posição e propuseram as negociações em torno do tratado de 1844, cuja base era Ildefonso, e das outras tratativas, como as de 1847, 1852 e 1856, que ditavam que a linha divisória terminaria em Salto Grande (Sete Quedas), no Rio Paraná (ACCIOLY, 1938, p.123). Ambas as partes cederam, e de modo conciliatório resolveu-se a questão, com o Tratado de Limites Complementar de 1872, cujo artigo 1º define e caracteriza as fronteiras dos respectivos Estados:

Artigo 1º - O território do Império do Brazil divide-se com o da República do Paraguai pelo álveo do Rio Paraná, desde onde começarão as possessões brasileiras na foz do Iguassú até o Salto Grande das Sete Quedas do mesmo Rio Paraná;

Do Salto Grande das Sete Quedas continua a linha divisória pelo mais alto da Serra de Maracajú até onde ella finda;

D’ahi segue em linha recta, ou que mais se lhe aproxime, pelos terrenos mais elevados a encontrar a Serra de Amambahy;

Prossegue pelo mais alto desta Serra até à nascente do Rio Apa, e baixa pelo álveo deste até a sua foz na margem oriental do Rio Paraguay;

158 BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. Tratado de Paz com o Paraguai (1872). In: GARCIA, Eugênio Vargas. (Org.). Diplomacia e Política Externa: Documentos Históricos 1493 - 2008. Rio de Janeiro: Contraponto, 2008.

Todas as vertentes que correm para o Norte e para o Léste pertencem ao Brazil e as que correm para o Sul e Oeste pertencem ao Paraguay.

A ilha do Fecho dos Morros é domínio do Brazil. [...]

(Grifo nosso) (BRASIL, 1872, s/p)159

Nos artigos 2º e 4º desse acordo estabeleceu-se a formação de uma comissão mista para construir os marcos de fronteiras entre os dois Estados, fazer o levantamento topográfico da região e submeter aos respectivos governos eventuais necessidades de esclarecimentos (BRASIL, 1872)160.

Artigo 4º - Si no prosseguimento da demarcação da fronteira os comissários acharem pontos ou balizas naturais, que em nenhum tempo se confundirão por onde mais convenientemente se possa assignalar a linha, fóra, mas em curta distância da que ficou acima indicada, levantarão a planta com os esclarecimentos indispensáveis e as sugeitarão ao conhecimento de seus respectivos governos, sem prejuízo ou interrupção dos trabalhos encetados. As duas altas partes contractantes á vista das informações assentarão no que mais conveniente fôr aos seus mutuos interesses.

[...]

(BRASIL, 1872, s/p) 161

De acordo com Accioly (1938, p. 128), os estadistas brasileiros não exigiram do Paraguai “um palmo de terra que este tivesse ocupado antes da guerra”. O país agiu com boa fé e aceitou menos do que o Tratado da Tríplice Aliança assegurava ao Brasil.

Depois da guerra sangrenta a que fomos levados pela insânia de um dictador paraguayo, guerra na qual tantos e tão dolorosos sacrifícios fizemos, não nos aproveitamos da nossa situação de vencedores e, por acordo mútuo e amistoso, traçávamos a nossa fronteira com o país vencido, aceitando menos do que, com legítimos títulos, poderíamos exigir e do que, antes da guerra, reclamávamos.

(ACCIOLY, 1938, p. 149)

159 BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. Decreto No. 4911 de 27 de março de 1872: Tratado de Limites entre o Império do Brazil e a República do Paraguai. Disponível em: www.mre.gov.br. Acesso em 4 de abril de 2010.

160 BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. Decreto No. 4911 de 27 de março de 1872: Tratado de Limites entre o Império do Brazil e a República do Paraguai. Disponível em: www.mre.gov.br. Acesso em 4 de abril de 2010.

161 BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. Decreto No. 4911 de 27 de março de 1872: Tratado de Limites entre o Império do Brazil e a República do Paraguai. Disponível em: www.mre.gov.br. Acesso em 4 de abril de 2010.

Ressalta-se que os acordos brasileiro-paraguaios de Paz e de Limites de 1872 não contaram com a anuência das autoridades argentinas e uruguaias, o que contrariou o artigo 6º da Tríplice Aliança, que rezava:

Artigo 6º - Os aliados comprometem-se solenemente a não deporem as armas senão de comum acordo, e somente depois da derrubada da autoridade do atual governo do Paraguai; bem como a não negociarem separadamente com o inimigo comum, nem celebrarem tratados de paz,

trégua ou armistício, nem convenção alguma para suspender ou findar a guerra, senão de perfeito acordo entre todos.

(BRASIL, 1865, p. 269)162

O Tratado de Paz e de Limites entre Brasil e Paraguai, assinado em separado, repercutiu negativamente na Argentina, e abriu uma crise diplomática entre os governos brasileiro e argentino. Nessa época, as preocupações das autoridades brasileiras eram com o possível aumento da influência da Argentina na região e com os custos econômicos e políticos da mobilização das tropas nacionais além de suas fronteiras (CARVALHO, 1998, p. 95).

A comissão mista realizou seus trabalhos entre 1872 e 1874, ergueu marcos e fez um levantamento topográfico da fronteira. Nas instruções de 31 de maio de 1872 ao seu representante na comissão brasileiro-paraguaia de limites, o governo imperial indica os locais de construção dos marcos provisórios de fronteiras, sobre a região de Sete Quedas:

[...] A Comissão Mixta seguirá pelo ramal Norte até o Rio Paraná, que o atravessa, produzindo o grande Salto das Sete Quedas. Pela crista do mesmo ramal corre a linha, que divide para o Norte o território do Brasil e para o Sul o do Paraguay. Nesta parte da fronteira não é precizo pôr balizas, porque está ella assignalada naturalmente pelo Salto, o qual se indica o ponto da margem oriental do Paraná, em que principia a linha divizoria Norte-Sul do Império com a República, pelo álveo daquelle rio até defronte da foz do Iguassú. Depois da Commissão mixta lavrar o competente termo, em que ali termina a fronteira Oeste-Leste do Brazil com o Paraguay, e bem assim os motivos por que ela não foi balizada, descerá pela margem occidental do Rio Paraná até o Rio Santa Thereza [...]

(BRASIL, 1872, p. 2)163

162 BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. O Tratado da Tríplice Aliança. In: GARCIA, Eugênio Vargas. (Org.). Diplomacia e Política Externa: Documentos Históricos 1493 - 2008. Rio de Janeiro: Contraponto, 2008. 163BRASIL. Instrucções do Governo Imperial ao Seu Comissário, 31 de maio de 1872. Pasta JM pi Magalhães, J. 1966.06.21 (Pasta II) CPDOC – FGV-RJ.

As instruções do governo paraguaio ao seu representante na comissão demarcadora sobre Sete Quedas são um pouco diferentes, e suscitam uma outra interpretação:

Prosseguirá por lo mas alto de esta Serra á buscar su termino, y encontrar la Sierra de Mbaracayú, que del mismo modo continuará demarcandose por lo mas alto de ella, hasta llegar en el Salto Grande de las Siete Cahidas: priviniendose que todo este trayecto no se omitirá levantar los marcos que señalen la línea divisoria con todas las circunstancias de los esclarecimentos necesario para formar un juicio ó ideia cierta, en vista de las actas y planos que formaren, con designación de todas las vertentes de agua que corren para el Norte y Leste y las del Oeste y Sul.

[...]

La comisíon tendrá especial cuidado de observar cúando vayan alcansado á la frontera de la Villa de Sn. Izidro (Curuguahy) donde la Sierra de Maracayu se abre en dos ramales paralelamente buscando el Paraná al Este, siendo el Norte el que debran siguir para ir a buscar el Salto Grande, porque el otro ramal del Sud se dirige mucho mas abajo de dicho Salto.

(Grifo nosso) (PARAGUAI, 1872, p. 1-2) 164

De um lado, ao se observar atentamente o mapa da fronteira, caso sejam tomadas em conta apenas as instruções do governo brasileiro, as Sete Quedas pertencem quase que exclusivamente ao território brasileiro, tendo a República guarani uma pequena extensão de terra na porção mais ao sul e a oeste das cataratas. Por outro lado, ao se atentar às determinações da administração paraguaia ao seu comissário, seria plausível admitir que Sete Quedas fosse um patrimônio comum de ambos os países.

Segundo Eugênio Vargas Garcia (2005, p. 98-99), o Tratado Cotegipe-Lozada foi denunciado pelo Paraguai em 5 de março de 1881, e substituído por outro, de 7 de junho de 1883. No decorrer da pesquisa desta tese de doutoramento, o autor não encontrou qualquer indício dessa denúncia, muito menos de um novo tratado.

Francisco Doratioto, em sua obra “Una Relación Compleja: Paraguay y Brasil de 1889-1954” (2011, p. 184), relata uma série de incidentes na fronteira brasileiro- paraguaia, nas proximidades de Porto Murtinho, em 1909. O Barão do Rio Branco, então chanceler brasileiro, instruiu a legação brasileira em Assunção a verificar a veracidade dos fatos e obter do Palácio López uma retratação:

164 BRASIL. Instrucções do Governo Paraguayo ao seu Comissário, Don Domingo Antonio Ortis, 31 de maio de 1872. Assinado por José Falcón. Pasta JM pi Magalhães, J. 1966.06.21 (Pasta II) CPDOC - FGV-RJ.

[...] el gobierno paraguayo deveria dar satisfacción por la ofensa a la soberania brasileña. “Mostremos calma, moderación, pero firmeza”, sintetizo Rio Branco.

No bromeaba el cancieller brasileño en cuanto su disposición a la “firmeza” [...]

(DORATIOTO, 2011, p. 184)

Após o endurecimento da posição brasileira, as relações brasileiro-paraguaias se deterioraram bastante. Em 1911, o quadro foi alterado, com a ascensão de Jara ao poder, no Paraguai (Op. Cit. p. 193).

De acordo com Garcia (2006, p. 434-435), após a malfadada experiência brasileira na Liga das Nações a diplomacia brasileira voltou suas atenções para o continente sul-americano, em especial para os Estados da Bacia do Rio da Prata. Em 1927, iniciaram-se os contatos entre o primeiro escalão dos governos brasileiro e paraguaio:

Na política de reaproximação que seria implementada nos anos a seguir, atenção especial seria dada ao tema das fronteiras, pedra basilar da estratégia brasileira de retorno ao continente. Com o Paraguai, havia uma indefinição a respeito de uma importante área faixa de fronteira ao longo do rio Paraguai, cuja finalidade residia na existência de reivindicação boliviana sobre a região do Chaco, abarcando terras na área a ser delimitada.

(GARCIA, 2006, p. 435)

Os ministros das Relações Exteriores do Brasil e do Paraguai se reuniram e firmaram, em 1927, um Tratado de Limites Complementar ao de 1872, mas este só entrou em vigor em 3 de dezembro de 1929. A demora de dois anos para passar pelos trâmites usuais nos Executivos e Legislativos de ambos os países se deveu a um incidente fronteiriço em uma ilha nas proximidades de Porto Murtinho, quando tropas brasileiras desalojaram um grupo de paraguaios, que estava colonizando uma região “não demarcada” pelo Paraguai.

.

[...] A ação brasileira levantou a opinião pública guarani. O Itamaraty reagiu com imediata calma ao episódio e diminuiu o peso do incidente para que não houvesse maior fricção ou prejuízo às relações bilaterais justamente no momento em que o Brasil buscava reconstruir sua imagem entre os países vizinhos. A prioridade devia ser a ratificação do tratado de 1927 e o governo brasileiro estava disposto a fazer concessões para atingir essa meta [...]

Após algumas concessões brasileiras, o tratado de 1927 foi ratificado, em 1929. Com esse acordo, ambos pactuantes expressaram seu consentimento em completar a delimitação, iniciada em 1872, dos seus respectivos territórios, desde entre a foz do Rio Apa, Rio Paraguay, até o desaguadouro de Bahia Negra. Solucionou-se um trecho fronteiriço pendente e encontrou-se meio de resolver a

posse das ilhotas no leito do rio; ficou estabelecido que o canal principal ou de

maior profundidade separa-as para um e outro lado” (BRASIL, 1929, p. 2 e ACCIOLY, 1938, p. 146).

Uma das funções da comissão mista era realizar os levantamentos técnicos (topografia, geodésias, entre outros) necessários para se efetuar o trabalho de demarcação (BRASIL, 1929)165. Por fim, organizou-se uma nova comissão mista para realizar a manutenção dos marcos existentes e erigir novos pontos, onde eventualmente fosse necessário, conforme os limites estipulados pelo tratado de 1872.

Artigo 10º - A Commissão mixta procederá à reparação ou substituição dos marcos da fronteira comum, demarcada de 1872 a 1874 que estiverem danificados ou destruídos, mantendo suas respectivas situações. Além disto, observadas as prescripções do tratado de limites de 9 de Janeiro de 1872 e o que se contém na acta da 18ª Conferência da Comissão mixta executora do dito tratado de 1872, assignada em Assumpção a 24 de outubro de 1874, construirá novos marcos entre os já existentes, naquelas altas da referida fronteira [...]

[...]

Artigo 13º - Quaisquer dúvidas ou discordâncias entre os primeiros commisários, que não possam ser afastadas depois da primeira contestação e réplica, serão submettidas à discussão final dos dois Governos.

[...]

Artigo 16º - A Commissão mixta lavrará uma acta final de encerramento de todas as operações, com a descripção minuciosa de toda a fronteira, situação dos marcos e signaes e outros pormenores dos dois Governos quanto á dissolução da Comissão Mixta.

(BRASIL, 1930, p. 1-3)166

As questões limítrofes, que foram objeto de atenção da comissão mista por anos a fio, e que causaram inúmeros problemas nas relações bilaterais no século

165 Disponível em: www2.mre.gov.br/daí/b_parg_18_3218.htm. Acesso em 03 de abril de 2010.

166 BRASIL. Protocollo de Instrucções para a demarcação e caracterização da fronteira Brasil-Paraguay, de 9 de maio de 1930, assinada por Octavio Mangabeira e Ful R. Moreno, extraída da “Coleção de Atos Internacionais”, Número 44, de 1932. Pasta JM pi Magalhães, J. 1966.06.21 (Pasta II) CPDOC – FGV-RJ.

XIX, estavam aparentemente solucionadas. No entanto, esses problemas ressurgiriam na década de 60, com o projeto Sete Quedas.

Capítulo III. As relações Brasil - Paraguai: do litígio da fronteira brasileiro-