Os anarquismos reinventam-se diante de novos confrontos. Diante das repressões advindas do anarcoterrorismo, período em que qualquer anarquista era identificado como terrorista, Sébastien Faure e Louise Michel tomaram a palavra libertário criada pelo poeta francês Joseph Déjacque para nomear um novo periódico semanal. O termo havia sido utilizado por Déjacque em uma carta para Proudhon, em 1857.
Le Libertaire foi o mais duradouro periódico anarquista distribuído na França. Teve interrupções forçadas pelas duas guerras mundiais, mas continuou a circular até o final da década de 1950. Assim, a palavra libertário é um termo anarquista; uma nova palavra para contornar uma época difícil do anarquismo diante da repressão Estado. Passetti, no anti-programa Ágora, agora 2 (2010), afima: ―Nessa ocasião, para lubridiar os caçadoes, delatores, policiais, juízes e tribunais, o anarquista usa a palavra libertário como sinônimo. E desde então anarquista e libertário designam a mesma prática‖.
No artigo ―Liberdade‖ da Enciclopédia Anarquista, Sébastien Faure utiliza o termo libertário e expõe as tensões e preocupações anarquistas no início do século XX:
[Os anarquistas] são inimigos implacáveis da autoridade e amantes apaixonados da liberdade: é por isso que se chamam libertários. [...]
Só eles têm a franca coragem de se afirmarem libertários e de se declararem lealmente pela liberdade contra a autoridade. [...] Levando em conta que a humanidade, desde tempos imemoriais, adotou a forma societária para estabelecer a dominação de uma comunidade ou de uma classe e a servidão do outro, acontece que, pela força das coisas, cada um tende a ser parte da classe dominante quando parece ser mais agradável e vantajoso ser parte dos mestres do que se perder na multidão de escravos. Esta tendência de dirigir, ditar, dar ordens e governar responde a um hábito hereditário que se desenvolve de geração em geração e deu origem a dois tipos de homens: aquele que anda com a cabeça em pé e ordena e aquele que se curva e obedece. [...] Não foi a natureza que estabeleceu, por conta das diferenças e dos temperamentos, os mestres e os escravos, foi a sociedade. [...]
Quando, como libertários, consideramos a história deste ângulo, concluímos que o homem se desenvolve no tempo e no espaço, na tensão entre escravidão e independência, na batalha permanente travada por indivíduos, nações e raças contra todos os elementos naturais e sociais, que o reduziu à servidão e nela o manteve. 21
Este texto, escrito entre as décadas de 1920 e 1930, apresenta o libertário enquanto aquele que luta contra a naturalização da autoridade e a obediência.
21 FAURE, Sébastien. ―Liberté‖. Disponível em: http://www.encyclopedie-
Diferente da Enciclopédia Anarquista, no Portal da Anarquia não há referência ao termo libertário. Entretanto, quando digita-se libertário na caixa de busca da Wikipédia, o usuário é direcionado para o verbete libertarismo:
O libertarismo, algumas vezes traduzido do inglês como libertarianismo é a filosofia política que tem como fundamento a defesa da liberdade individual, da não-agressão, da propriedade privada e da supremacia do indivíduo. […] As influências literárias sobre o libertarismo incluem John Locke, Frédéric Bastiat, David Hume, Alexis de Tocqueville, Adam Smith, David Ricardo, Rose Wilder Lane, Lysander Spooner, Milton Friedman, David Friedman, Ayn Rand, Friedrich von Hayek, Ludwig von Mises e Murray Rothbard. Existem, contudo, divergências significativas em termos de epistemologia, ontologia e metodologia na interpretação dos fenômenos sociais e econômicos entre esses diversos autores. Com particular relevância, Mises e Rothbard se distinguem de seus predecessores por rejeitar o empiricismo como método de avaliação científica. 22
O termo libertário, portanto, que é próprio dos anarquistas, é é alvo de tentativas de capturas para vinculá-lo ao liberalismo e ao chamado anarcocapitalismo, como mostrou Edson Passetti, já em 1994.
Michel Foucault, em O nascimento da biopolítica (2008), volta-se ao liberalismo enquanto ―razão governamental‖23 no ordoliberalismo – liberalismo alemão de 1848 a
1962 – e no neoliberalismo estadunidense que produzirá o anarcocapitalismo da Escola de Chicago.
A crítica liberal alemã se faz contra o nazismo, uma irracionalidade própria do excesso de governo. Os ordoliberais, entretanto, realizam um deslocamento em relação à doutrina liberal tradicional. Enquanto o liberalismo no século XVIII era definido pela troca, para os ordoliberais o essencial não é a troca, mas a concorrência. Trata-se do problema concorrência/monopólio, muito mais que o problema valor/equivalência. O mercado não teria defeitos, nada provaria isso, mas a defectibilidade deve ser atribuída ao Estado. O ordoliberalismo procurou definir o que poderia ser uma economia de mercado, organizada – mas não dirigida nem planejada – em um quadro institucional e jurídico que proporcionasse garantias e limitações da lei, ou seja, liberdade de mercado sem produzir distorções sociais. Não é mais o mercado sob vigilância do Estado, mas um Estado sob vigilância do mercado, como forma de evitar o intervencionismo
22 Wikipédia. ―Libertarismo‖. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Libertário. Acesso em
12/02/2013.
23―Os tipos de racionalidade que são postos em ação nos procedimentos pelos quais as condutas dos
econômico, inflação dos aparelhos dos aparelhos governamentais, superadministração, burocracia, enrijecimento de dos mecanismos de poder (IDEM).
O neoliberalismo estadunidense, pautado na Escola de Chicago, se desenvolve enquanto uma crítica ao excesso de governo representado em políticas como o New Deal, a planificação de guerra e os grandes programas econômicos e sociais. O anarcocapitalimo, produzido pela Escola de Chicago, também teve como referência o austríaco Ludwing von Mises.
Von Mises critica o intervencionismo do socialismo por meio da livre- concorrência, onde se estaria livre da ação governamental. O socialismo marxista teria sido uma tentativa de justiça social sem ressonâncias nas relações econômicas, aprisionando a liberdade individual à subjetividade do planejador, confundindo o indivíduo com a massa, guiado pela vontade da vanguarda (PASSETTI, 1994).
A palavra libertário será associada aos anarcocapitalistas, mesmo com a preferência de Hayek por outro termo, como mostra Passetti:
O termo libertário também se encontra associado ao liberalismo como crítica à intervenção do Estado e garantias da universalização de direitos. Trata-se de uma designação que se encontra no limite entre o que se entende por Estado de direito e sua supressão, fato que obrigou Hayek a preferir que os liberais, como ele, fossem designados pelo termo whig, realçando o perigo do termo libertário abarcar também os anarquistas (IDEM, 277).
Entretanto, o termo passou a designar aqueles que seguem o anarcocapitalismo. Uma captura do termo que possui repercussões tanto partidárias como no anarquismo na internet.
O Partido Libertário do Brasil tenta ser fundado, ainda não consegui arrecadar as assinaturas necessárias, e pressupõe que as liberdades individuais sejam garantidas pelo Estado, como porte de armas, direito a propriedade e liberdade de expressão. Trata-se de como garantir a soberania individual sem que o governo se sobreponha aos cidadãos. Em seu programa está previsto a descentralização administrativa do Estado, a terceirização dos serviços que forem públicos e a eliminação de qualquer controle econômico.24
Outra expressão do anarcocapitalismo é o critpoanarquismo – termo popularizado por Timothy C. May em seu escrito Manifesto Cripto Anarquista (1992). O objetivo dos cripto-anarquistas é proteger-se de qualquer monitoramento de informações entre computadores, para isso, utilizam a criptografia para que os dados
não sejam descobertos. Seria uma forma de garantir a liberdade individual, sem que as informações fossem prejudicadas.
Um espectro está assombrando o mundo moderno, o espectro da cripto- anarquia. A tecnologia de computação está prestes a dar a indivíduos e grupos a capacidade de comunicar e interagir de um modo totalmente anônimo... O Estado, é claro, tentará desacelerar ou deter a difusão desta tecnologia, citando preocupações de segurança nacional, seu uso por traficantes de drogas ou sonegadores de impostos e temores de desintegração social... Mas isso não deterá a difusão da cripto-anarquia. Assim como a tecnologia da imprensa alterou e reduziu o poder das guildas medievais e a estrutura de poder social, do mesmo modo os métodos de criptografia alterarão fundamentalmente a natureza das corporações e a interferência governamental nas transações econômicas... Esta descoberta aparentemente menor, saída de um ramo arcano da matemática, virá a ser os alicates que desmantelarão o arame farpado erguido em torno da propriedade intelectual. Levantem-se; vocês não têm nada a perder a não ser suas cercas de arame farpado (MAY, 1992).
O criptoanarquismo ainda não esconde seu interesse em alimentar um novo mercado de criptrografias que protejam os fluxos de informações, como afirma May: ―A cripto-anarquia, combinada com os mercados emergentes de informação, criará um mercado líquido para qualquer material que esteja em palavras ou imagens‖ (IDEM).
Logo, o criptoanarquismo não se coloca em um embate ao neoliberalismo, mas uma tentativa de garantir a proteção de informações. Não pretende destruir o Estado ou buscar expansão liberdades.
Outra leitura dos anarquismos na internet e a ação hacker é a de Walleij, que dedica uma parte de Copyright does not exist para tratar dos hackers anarquistas, entretanto, os vê com maus olhos. A partir de sua experiência na Suécia com hackers, afirma que hackers anarquistas são jovens com interesses em bombas, venenos, armas e drogas. Como informações sobre como fazer esses artigos não são comumente encontradas em bibliotecas, esses jovens utilizam a internet para que a informação possa ser distribuída.
A publicação anarquista mais polêmica na Suécia, afirma Walleij, é o Manual do
Terrorista. Grande parte das informações contidas ali é referente à pirotecnia básica. Essa desconfiança de Walleij com os hackers anarquistas e a distribuição de qualquer informação, provavelmente, fundamenta-se neste manual. Mesmo sendo uma publicação tida como anarquista, os hackers anarquistas não fizeram nada contra o livro ser publicado por uma editora na Suécia que também publicou livros nazistas.
Walleij aponta para uma discussão importante na internet hoje, que tem sua expressão na campanha Free Speech Online25. Campanha apoiada por grupos nazi- fascistas que são proibidos de realizarem suas propagandas em vários países, a campanha, que possui uma símbolo de uma fita azul, refere-se à liberdade de expressão como um conteúdo de direitos humanos.
A liberdade de expressão liderada por esta campanha pressupõe que a internet é um espaço livre e está pronto para ser regulamentado para garantir que tudo possa ser publicado. A regulamentação permitiria a qualquer grupo, como nazi-fascistas a falarem o que quiserem e todos que aprovaram o protocolo da internet terem de aceitar. Na democracia participativa, todos querem ter o direito de falar, neste caso, sem abrir mão de um discurso racista, efeito do pluralismo democrático que tudo acolhe e aconchega.
Pierre-Joseph Proudhon, por meio da análise serial, expôs uma linha em que regimes estariam em tensão. De um lado o regime de liberdade, do outro o da autoridade, sendo que, nenhum dos dois é possível em absoluto. Mesmo em um regime de autoridade, como em ditaduras, é possível inventar liberdades. Na democracia, um regime de liberdade, as experiências também podem acontecer, como também há expressões de autoridade.
A análise serial não é uma ciência, é antes um método, ―bem diferente dos pretensos sistemas universais construídos com base na atração, expansão, causação, deificação e outros sistemas ontológicos, monumentos da preguiça e da impotência‖ (PROUDHON, 1986, 45). Assim, a democracia possibilita tanto experiências anarquistas, como expressões racistas.
A campanha Free Speech Online, portanto, encontra-se com propósitos do criptoanarquismo ao permitir que qualquer um manifeste o que quiser na internet. Nivelando um discurso anarquista a um discurso nazista em nome da liberdade de expressão. Cabe a uma força externa, o Estado, permitir que essas duas forças, Liberdade e Autoridade sejam sujeitadas, é uma busca de síntese. ―Equilibrar duas forças é sujeitá-las a uma lei que, tendo-as alinhado uma pela outra, as coloque de acordo‖ (IDEM, 147).
Entretanto, essa síntese é impossível, ―não existe ciência universal, porque não há objeto universal‖ (IBIDEM, 45). Por meio de uma análise histórico-política, sabe-se
que um regime de autoridade, diante de uma democracia, possui terreno fértil para proliferar-se, como foi o nazismo.