Considere-se dois Estados Nação A e B democráticos de população NA e NB. Os
habitantes de cada um dos Estados Nação apresentam preferências heterogêneas em relação às políticas públicas que podem ser estabelecidas por seu respectivo Estado. Os cidadãos ia
do Estado Nação A distribuem-se de maneira contínua e uniforme sobre uma dimensão de preferências ΨA = {ia∈
ℝ
: 0 ≤ ia ≤ 1}. Da mesma forma, os indivíduos ib do Estado NaçãoB distribuem-se de maneira contínua e uniforme sobre uma dimensão de preferências ΨB =
{ib∈
ℝ
: 0 ≤ ib ≤ 1}.O Estado dentro de cada Estado Nação conta com um espectro finito de alternativas de políticas públicas viáveis pa e pb. No Estado Nação A, as alternativas de
políticas públicas distribuem-se de maneira contínua e uniforme sobre uma dimensão de alternativas de políticas públicas viáveis PA = {pa∈
ℝ
: 0 ≤ pa ≤ 1}. No Estado Nação B, asalternativas de políticas públicas distribuem-se também de maneira contínua e uniforme sobre uma dimensão de alternativas de políticas públicas viáveis PB = {pb∈
ℝ
: 0 ≤ pb ≤ 1}.Conforme a discussão da Seção 3.1., o impacto destas políticas públicas no bem- estar dos indivíduos depende da estrutura institucional sobre a qual se assentam. Assumo, no modelo, que as políticas públicas são endógenas, mas que a estrutura institucional é exógena. Considero este tratamento analítico adequado porque a evolução institucional se dá através de um processo histórico, em uma escala de tempo diferente daquela em que se define a dinâmica das políticas públicas. Se reformas institucionais relevantes ocorrem lentamente, por vezes em um horizonte de décadas, as mudanças de políticas públicas são mais rápidas, e se dão em um horizonte de meses ou anos. Assumo, ainda, que o impacto das políticas públicas no bem-estar individual depende não só da estrutura institucional – tomada como exógena ao modelo – mas também de dois elementos situados fora do raio de ação do Estado, e também exógenos ao modelo: (i) os fatores tecnológicos, sociais, e culturais que, como a estrutura institucional, condicionam a mobilidade dos bens e fatores, e (ii) os níveis esperados das variáveis macroeconômicas, que determinam o impacto das políticas macroeconômicas sobre o bem-estar social. Os fatores institucionais, tecnológicos, sociais, culturais, e econômicos, exógenos ao modelo, que condicionam o impacto das políticas públicas sobre o bem-estar individual são capturados pelas funções gerais ea(.):
(ΨA , PA, PB)→
ℝ
e eb(.): (ΨB , PA, PB)→ℝ
. Como será discutido adiante, a formacontextos tecnológico, social, cultural e econômico sobre os quais estas políticas se assentam.
O bem-estar obtido por cada indivíduo de A depende de suas preferências ia , da
política pública viável pa implementada em A, da política pública viável pb implementada
em B, e da estrutura institucional e demais fatores exógenos ao modelo capturados pela função ea(.). Da mesma forma, o bem-estar obtido por cada indivíduo de B depende de suas
preferências ib , da política pública viável pb implementada em B, da política pública viável
pa implementada em A, e da estrutura institucional e demais fatores exógenos ao modelo
capturados pela função eb(.). O bem-estar dos indivíduos de A e de B é descrito, então, pelas
seguintes funções utilidade:
(
)
(
b a b)
b b b b a b b b a a a a a b a a a p p i e p i p p i u p p i e p i p p i u , , || || 1 ) , , ( , , || || 1 ) , , ( + − − = + − − =A escolha da política pública a ser implementada em cada Estado Nação ocorre através de um processo político democrático, que determina o partido a assumir a administração do Estado. Há uma estrutura bipartidária em ambos os Estados Nação. Os partidos ϕA e θA concorrem pelo poder em A, enquanto ϕB e θB disputam o poder em B.
Para concorrer às eleições, os partidos devem definir suas plataformas de política
macroeconômica: ϕA e θA devem escolher suas respectivas plataformas políticas entre as
alternativas viáveis pa∈ PA, enquanto ϕB e θB devem escolher suas respectivas plataformas
políticas entre as alternativas viáveis pb∈ PB. Definidas as plataformas eleitorais de ϕA, θA,
ϕB e θB , todos os NA habitantes de A votam em ϕA ou θA, enquanto todos os NB habitantes
de B votam em ϕB ou θB. Em ambos os Estados Nação, o processo se dá em turno único de
votação, e a escolha ocorre por maioria simples.
A definição das plataformas políticas dos partidos e a escolha de um partido vitorioso por parte dos eleitores obedecem à lógica de um jogo não-cooperativo de dois estágios com informação completa - as funções utilidade de todos os agentes do jogo são conhecidas por todos os agentes do jogo. No primeiro estágio, os partidos ϕA, θA ,ϕB e θB
eleitores de A e de B, conhecendo as plataformas dos partidos em ambos os Estados Nação, votam simultaneamente em um partido de seu respectivo Estado Nação para administrar o Estado conforme a plataforma política proposta. Caso os partidos escolham a mesma plataforma, haverá empate nas eleições e os partidos dividirão o poder para implementar a plataforma escolhida. Os possíveis resultados do jogo serão dados por Ω = { (ϕA escolhe a
plataforma política pa = pa0∈ PA ), (θA escolhe a plataforma política pa = pa1∈ PA), (ϕB
escolhe a plataforma política pb = pb0∈ PB ), (θB escolhe a plataforma política pb = pb1∈ PB
), (os eleitores de A elegem ϕA , θA ou ambos, em caso de empate na votação, e a plataforma
do(s) partido(s) vendedor(es) é implementada pelo Estado de A), (os eleitores de B elegem ϕB , θB ou ambos, em caso de empate na votação, e a plataforma do(s) partido(s)
vendedor(es) é implementada pelo Estado de B) }.
As preferências dos partidos ϕA, θA ,ϕB e θB , que norteiam a escolha de suas
plataformas políticas, se dão pelas seguintes funções utilidade: u(ϕA ) = 1 e u(θA ) = -1 se ϕA vencer as eleições em A;
u(ϕA ) = 0 e u(θA ) = 0 se a votação empatar e os partidos dividirem o poder em A;
u(ϕA ) = -1 e u(θA ) = 1 se θA vencer as eleições em A;
u(ϕB ) = 1 e u(θB ) = -1 se ϕB vencer as eleições em B;
u(ϕB ) = 0 e u(θB ) = 0 se a votação empatar e os partidos dividirem o poder em B;
u(ϕB ) = -1 e u(θB ) = 1 se θB vencer as eleições em B.
A disputa eleitoral ocorre, portanto, através de um jogo de soma zero entre os partidos dentro de cada Estado Nação. Inicio a discussão do modelo, na Seção 3.3., pelo caso mais simples, de economias em equilíbrio macroeconômico e autárquicas, nas quais os eleitores de um Estado Nação são indiferentes às políticas implementadas no outro Estado Nação. Na Seção 3.5. introduzo a premissa de integração entre as economias, que gera externalidades de políticas públicas e faz com que o bem-estar dos indivíduos de um Estado Nação dependa também das políticas públicas implementadas no outro Estado Nação,
criando uma interação estratégica entre os eleitores de diferentes Estados Nação. Introduzo ainda a possibilidade de mudanças na estrutura institucional, ainda exógena ao modelo, e em variáveis exógenas à ação do Estado, e também exógenas ao modelo, examinando seu impacto sobre o bem-estar de indivíduos em economias integradas.