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5. I. KILIÇ ARSLAN’IN ÇOCUKLARI

5.1. TUĞRUL ARSLAN VE ANNESİ AYŞE HATUN

Em relação à etiologia de caráter ambiental, em especial a associação entre a exposição aos agrotóxicos e o desencadeamento de más-formações congênitas, a literatura científica apresenta uma vasta quantidade de estudos que se debruçaram sobre essa vertente, a respeito dos quais discorremos adiante.

Estudo epidemiológico do tipo caso-controle, realizado na África do Sul por Heeren, Tyler e Mandeya (2003), entre os anos 2000 e 2001, com o intuito de avaliar a associação entre mães expostas aos agrotóxicos e o nascimento de crianças com más- formações congênitas, evidenciou que os bebês nascidos com defeitos eram 7 vezes mais susceptíveis de terem nascido de mulheres expostas aos agrotóxicos nos jardins e nos campos, em relação às mulheres que negaram a exposição aos agrotóxicos (Odds Ratio 7,18, 95% CI 3,99, 13,25). Além disso, esse mesmo estudo demonstrou que esses bebês que nasceram com defeitos tiveram uma probabilidade 2 vezes maior de terem nascido de mulheres que relataram estar envolvidas na imersão de agrotóxicos em animais para prevenir carrapatos (OR 1,92, IC 95% 1,15, 3,14) e 6,5 vezes mais chances de nascerem de mulheres que utilizavam recipientes de plástico para buscar água (OR 6,5, IC 95% 2,2, 27,9), sendo que foi verificado a contaminação de muitos desses recipientes com agrotóxicos, devido ao fato de eles serem comumente reaproveitados (OR CI 1,06, 3,31 1,87, 95%).

Outra pesquisa, realizada no Chile, do tipo caso-controle prospectivo, a qual analisou a associação entre a exposição dos progenitores aos agrotóxicos e a incidência de más-formações congênitas, mostrou como resultado uma associação entre más-formações congênitas e uma história positiva de exposição materna aos agrotóxicos (ROJAS; BAZZARA; OJEDA, 2000).

Estudo realizado na Dinamarca, para avaliar a associação entre a exposição ocupacional materna aos agrotóxicos em estufas e o desencadeamento de efeitos negativos sobre o sistema reprodutivo dos filhos homens dessas trabalhadoras, evidenciou que a prevalência de criptorquidia, aos três meses de idade foi de 6,2% de 95% (IC), 3,0-12,4], prevalência significativamente maior do que nos meninos dinamarqueses nascidos na região de Copenhague (1,9%; 95% IC, 1,2-3,0), analisados com o mesmo procedimento (ANDERSEN et al., 2008).

Ainda sobre a etiologia da criptorquidia, estudo epidemiológico do tipo caso- controle, realizado na cidade de Roterdam (Holanda), com o objetivo de identificar fatores de risco para criptorquidia e hipospádia, mostrou como resultado a associação entre a exposição paterna aos agrotóxicos e a ocorrência de criptorquidia [odds ratio (OR) = 3,8; intervalo de confiança de 95% (IC 95%), 1,1-13,4] (PIERIK et al., 2004).

Nos Estados Unidos, pesquisa com metodologia epidemiológica do tipo caso- controle, realizada para investigar as relações entre a exposição materna aos agrotóxicos (inseticidas, herbicidas e fungicidas), no período periconcepcional, e a ocorrência de más- formações musculoesqueléticas, evidenciou que a exposição ocupacional materna a essas três classes de agrotóxicos foi associada com gastrosquise nas crianças de mulheres com idades entre 20 anos ou mais (odds ratio ajustada [ORA] = 1,88; 95% de confiança) (KIELB et al., 2014). Outro estudo, que também avaliou os fatores de risco para as más-formações musculoesqueléticas, no entanto com o foco na exposição ocupacional paterna, o qual utilizou metodologia caso-controle (105 casos e 135 controles), demonstrou que as ocupações paternas, no período periconcepcional, relacionadas a um aumento na probabilidade de uma criança nascer com alguma malformação musculoesquelética foram: profissionais expostos aos agrotóxicos, solventes ou soldagens de fumos (p < 0,05) (ALI; ABDELAZIZ; EL-ALFY, 2014).

Pesquisa realizada no Egito, a qual também se propôs a avaliar a relação entre a ocupação paterna no período periconcepcional e a ocorrência de más-formações congênitas, por meio de um estudo do tipo caso-controle, obteve como resultados: as chances de ter uma criança com malformação fetal foi maior (p <0,01) se o pai foi profissionalmente exposto aos agrotóxicos (OR: 3,42, 95% CI: 1,97-5,92), solventes (OR: 5,63; IC 95%: 2,77-11,42) ou soldagem de fumos (OR: 2,98, 0,99-8,54) durante o período periconcepcional (EL-HELALY et at., 2011).

Estudo espanhol, que analisou os dados secundários relativos a 1.473.146 natimortos na Espanha, entre os anos de 1995 e 1999, evidenciou que nas regiões das zonas sul e leste, onde se utiliza um grande volume de agrotóxicos, houve um maior risco de mortes fetais por anomalias congênitas entre os descendentes de trabalhadores agrícolas, em comparação ao restante do país. A pesquisa também demonstrou que esse risco é ainda maior para os fetos concebidos durante o período no qual se utiliza um volume máximo de agrotóxicos (entre os meses de abril e setembro) (REGIDOR, et al., 2004).

No Brasil, estudo realizado na cidade de Petrolina (PE), que também utilizou uma metodologia de caso-controle (42 casos, recém-nascidos com defeitos congênitos, e 84

controles, recém-nascidos saudáveis), objetivou avaliar a associação entre a exposição dos progenitores aos agrotóxicos e os nascimentos de crianças com defeitos congênitos. Os resultados dessa pesquisa comprovaram que as crianças que apresentaram defeitos congênitos tiveram uma exposição maior aos agrotóxicos durante a gestação em comparação às crianças que nasceram saudáveis (OR ajustado = 1,3; IC 95% = 0,4-3,9) (SILVA et al., 2011).

Outro estudo brasileiro, com abordagem epidemiológica do tipo caso-controle, realizado no estado do Mato Grosso, maior produtor agrícola e consumidor nacional de agrotóxicos, procurou investigar as relações entre o uso de agrotóxicos e a ocorrência de más- formações congênitas nos municípios mais expostos aos agrotóxicos no estado do Mato Grosso. A pesquisa evidenciou associações significantes (p < 0,05) no terceiro (OR=1,66, IC 95% 0,98 – 2,79) e quarto quartil (OR=1,88, IC95% 1,09 – 3,24) do período pós-fecundação e no quarto quartil (OR=2,04, IC 95%1,17-3,56), durante todo o período periconcepcional. Desta forma, a exposição materna aos agrotóxicos foi associada à maior ocorrência de más- formações congênitas (OLIVEIRA et al., 2014). Siqueira et al. (2010), por meio de um estudo ecológico que pesquisou a associação entre o uso de agrotóxicos no Brasil e as taxas de prematuridade, baixo peso ao nascer, más-formações congênitas, morte infantil por más- formações congênitas e morte fetal, em 2001, constatou, após a realização de uma análise de regressão linear simples, uma associação positiva entre o uso de agrotóxicos e prematuridade, baixo peso ao nascer e más-formações congênitas. Em uma segunda etapa, após a realização de um ajuste para incluir na análise a variável relacionada a um baixo número de consultas pré-natais, verificou-se que a associação entre o uso de agrotóxicos e baixo peso ao nascer (p = 0,045), más-formações congênitas (p = 0,004) e a taxa de mortalidade infantil por más- formações congênitas (p = 0,039) foi corroborada. Ainda de acordo com esta pesquisa, estimou-se que:

[…] para cada unidade de aumento no valor indicador do consumo de pesticidas agrícolas (Kg/Ha/ano), há um aumento médio de 0,3% na porcentagem de baixo peso, um aumento médio de 1,5% na mortalidade proporcional por anormalidade congênita e elevação média de 0,17/1.000 nascidos vivos na taxa de morte infantil por anormalidade congênita (SIQUEIRA et al., 2010, p. 4).

Estudo caso-controle, realizado no estado do Mato Grosso, com a finalidade de pesquisar as relações entre exposição paterna aos agrotóxicos e a ocorrência de malformações congênitas em crianças menores de 5 anos atendidas nos hospitais da cidade de Cuiabá (públicos e privados), no ano 2011, encontrou uma associação positiva entre o trabalho do pai relacionado à agricultura (OR = 4,65, IC 95%: 1,03-20,98) e a exposição paterna pregressa

aos agrotóxicos (OR = 4,15, IC 95%: 1,24-13,66) com a ocorrência de más-formações congênitas (UEKER et al, 2016).

Com relação à possibilidade de associação entre a exposição ambiental aos agrotóxicos e o desencadeamento de más-formações congênitas, pesquisa norte americana que procurou investigar a hipótese de aumento no risco de concepção de crianças com más- formações congênitas nos meses em que ocorre maior contaminação das águas superficiais por agrotóxicos, entre os anos 1996 e 2002, encontrou uma associação significativa entre os meses nos quais as concentrações médias de agrotóxicos foram mais elevadas nas águas superficiais e a concepção de crianças que nasceram com más-formações congênitas (entre abril e julho) (WINCHESTER; HUSKINS; YING, 2009).

Mostafalou e Abdollahi (2016) realizaram uma ampla revisão sistemática para levantar as pesquisas publicadas, a partir do ano 1980, em torno da temática exposição aos agrotóxicos e o desencadeamento de agravos crônicos, dos quais foram selecionados: câncer, doença de Alzheimer, Parkinson, esclerose lateral amiotrófica, asma, bronquite, infertilidade, más-formações congênitas, transtorno do déficit de atenção e hiperatividade, autismo, diabetes e obesidade. As evidências relacionadas à exposição aos agrotóxicos e a ocorrência de más-formações congênitas foram sistematizadas pelos autores:

Foram encontradas evidências notáveis sobre a teratogenicidade de pesticidas em humanos em 18 estudos considerados relevantes, incluindo 3 transversais, 8 casos- controle, 5 coortes e um ecológico [...]. Associação de baixo peso ao nascimento com exposição materna a pesticidas, independentemente do tipo, com um OR de 2,4 foi relatado por um estudo de coorte [...] (Burdorf et al., 2011). Além disso, uma análise baseada em questionários de uma coorte na agricultura indicou que a exposição materna ao carbaryl baixou o peso ao nascer dado por um OR de -82 g (Sathyanarayana et al. 2010). Além desse risco, menor comprimento ao nascimento foram ligados à exposição materna ao clorpirifos e diazinon por dois estudos transversais separados (Perera et al. 2003; Whyatt et al. 2004). Além do nascimento com mais baixo peso e comprimento, a diminuição da circunferência da cabeça foi relatada por dois estudos de coorte examinando a prole cujas mães foram expostos à atrazina e brometo de metilo (Chevrier et al. 2013; Gemmill et al. 2013). A este respeito, um estudo realizado em 26 estados do Brasil revelou que existem correlações significativas entre o uso de pesticidas em agricultura e baixo peso ao nascer, bem como anormalidades congênitas (de Siqueira et al., 2010). O risco de defeito do tubo neural mostrou-se duplicado devido à exposição materna a pesticidas por meio de um questionário de estudo caso-controle, enquanto outro estudo comparou os casos com controles em relação ao nível placentário de organoclorados e relatou que a exposição materna ao DDT e α-HCH está associada ao defeito do tubo neural com as respectivas ORs 5.2 e 3,9 (Brender et al., 2010; Ren et al., 2011). Além disso, quase o dobro do risco de espinha bífida foi estimado para exposição materna a inseticidas e herbicidas por um estudo caso-controle (Makelarski et al., 2014).” (MOSTAFALOU; ABDOLLAHI, 2016, p. 576, 577, traduzido do inglês).

Estudo ecológico recente realizado no estado do Paraná, que analisou as taxas de más-formações congênitas entre os anos de 1994 a 2003 e de 2004 a 2014, mostrou uma

tendência crescente nas taxas de más-formações congênitas no estado do Paraná, mais notável nos municípios com maior uso de agrotóxicos (DUTRA; FERREIRA, 2017).

Em relação às más-formações congênitas de característica musculoesqueléticas, relacionadas a algumas crianças investigadas na nossa pesquisa, estudo epidemiológico do tipo caso-controle, que se debruçou sobre as relações entre a exposição ocupacional paterna aos agrotóxicos e o surgimento de más-formações congênitas musculoesqueléticas constatou que as chances de uma criança apresentar uma má-formação congênita musculoesquelética foram maiores quando os pais delas apresentavam histórico de exposição ocupacional aos agrotóxicos durante o período pré-concepcional (p < 0,05) (ALI; ABDELAZIZ; EL-ALFY, 2014).

Estudo ecológico realizado nos estados sul e sudeste do Brasil investigou as relações entre as taxas de mortalidade infantil causadas por más-formações congênitas do sistema nervoso central e cardiovasculares em lactentes menores de 1 ano (entre os anos de 1986-1990 e 1997-2001, respectivamente) com o consumo per capta de agrotóxicos (entre os anos de 1985 e 1996), nas microrregiões desses estados. A pesquisa evidenciou a presença de correlações significativas e positivas entre o consumo de pesticidas per capita e as taxas de mortalidade por defeitos do sistema nervoso central e cardiovasculares em microrregiões rurais, mas não urbanas (CREMONESE et al., 2014).